Por Victor Hugo Silva

5 idosos falecidos, 22 idosos confirmados com covid-19 e 7 funcionários confirmados. Essa era situação da Casa Silvestre Linares em Aparecida de Goiânia no dia 22 de junho. Uma tempestade perfeita chegou nas Instituições de Longa Permanência (ILP) goianas: a precariedade comum, as gripes e viroses comuns do inverno e o pico da covid-19.

A covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, é particularmente mortal para os idosos vulneráveis em casas de idosos no mundo inteiro, no Brasil e em Goiânia também. “Não é um bom momento para trazer idosos para ILP”, nos disse uma funcionária presente no local, “infelizmente essa doença nos pegou despreparados”. Tudo indica que uma idosa pegou a doença após ser internada com sintomas de gripe e retornar para a ILP. No retorno, as condições em que essa idosa ficou sendo cuidada propiciaram esse surto que vemos hoje.

Apesar dos jovens pegarem mais covid que os idosos, estes morrem mais. De acordo com as estatísticas oficiais: 217 mortes confirmadas em Goiás são de idosos dentro de 303 totais — ou seja, 71% das mortes confirmadas até agora são de pessoas de 60 anos para cima, ou seja, são de idosos. O Brasil segue quadro parecido: de acordo com consórcio de empresas de comunicação, a distribuição dos óbitos com covid-19 por sexo e faixa etária mostra que homens entre 50 e 90 anos são as maiores vítimas.

Um massacre internacional

Não foi apenas lá que isso aconteceu, nem só no Brasil: saiu na Lancet que na Inglaterra foi notado um excesso de 20 mil mortes em 2020, em relação ao mesmo período em 2019, apenas no que diz respeito às mortes em casas de cuidado: mortes de idosos, pessoas com necessidades especiais e de trabalhadores do cuidado.

Nos Estados Unidos a estatística também é assustadora e pode ser conferida em reportagem da Forbes: 42% das mortes de covid-19 aconteceram com os 0,6% da população que vive ou trabalha em instituições de longa permanência. No dia da publicação, os EUA tinham acabado de ultrapassar 100 mil mortes — isso quer dizer que pelo menos 42 mil dessas mortes registradas aconteceram em instituições de cuidado para idosos e pessoas com necessidades especiais.

Despreparados

Após a idosa falecer, se revelou um quadro de precariedade mais amplo para enfrentar a covid-19 nas práticas de descarte de material da casa de cuidado. Se uma descarga com a tampa aberta pode espalhar o vírus, que dirá fraldas descartadas a céu aberto junto com luvas descartadas a céu aberto, como registramos na lixeira e no chão próximo ao lixo da Casa Silvestre Linares. Na visita, nos falaram que não estão recebendo novos idosos e que visitas estão proibidas devido ao surto.

Como não deu para ficar muito tempo e conversar mais, não deu para ver se os espaços de descanso coletivo estavam sendo utilizados ou se os idosos estão cada um em isolamento. O lugar espaçoso e ventilado pode se tornar mortal se o descanso for coletivo, como ficou demonstrado em várias casas de cuidado no Canadá, onde 81% dos mortos de covid-19 morreram em suas instituições, espaços de longa permanência e cuidado. Nos disseram que os idosos com covid-19 estão sendo tratados em isolamento dos idosos sem covid-19, o que já é alguma coisa. Quanto à possibilidade de algum novo idoso adentrar no abrigo, responderam o seguinte: “É melhor arrumar outro lugar do que uma Instituição de Longa Permanência (ILP) para o seu idoso”, nos disse uma funcionária, “porque a situação nossa está bem difícil”. Nem lá nem nenhuma outra casa está segura.

Pelo lixo, está mesmo. Remédios, fraldas, dejetos orgânicos e luva descartados a céu aberto, sem serem adequadamente isolados em sacos de lixo. Quase nenhuma máscara descartada. Fraldas com dejetos, curativos usados descartados. Tudo sinal de que os trabalhadores são obrigados a lidar com uma realidade de economia de gastos com saco de lixo, luva descartável, são obrigados a descartar o lixo apressadamente e sem cuidado.
Esse tipo de coisa normalmente já é perigo para a saúde pública e dos trabalhadores; em uma casa de cuidado que reconhece que está passando por um surto de covid-19, nem se fala.

Trabalhadores do SUS da região centro-sul nos relatam que vêm recebendo várias chamadas de abrigos de idosos da região de Aparecida de Goiânia. Depoimentos recolhidos na Casa Silvestre confirmam que de fato o SAMU está de “alerta” e de “pronto” para qualquer situação na casa de cuidado. Numa situação de descaso, cabe pensar que cuidados e condições a prefeitura também está providenciando para os trabalhadores que estão lidando com as emergências decorrentes da precariedade desses asilos.

Não precisa ser assim

No Hotel da morte: cuidados com os idosos na pandemia relatamos que dois abrigos (Aconchego e Lar doce Lar) no Setor Jaó estavam com práticas perigosas de descarte. Após acionamento do Ministério Público de Goiás, mesmo sem resposta oficial, foi possível retornar aos espaços de coleta de lixo desses lugares e deu para ver que eles não estavam mais economizando em sacos de lixo, nem descartando cartelas de remédios, luvas ou dejetos a céu aberto. A prática da denúncia permitiu que uma situação de descaso fosse conhecida e alterada para o benefício familiares, idosos e trabalhadores da instituição. Muitas vezes práticas ruins se perpetuam por uma ausência de discussão, ignorância dos procedimentos corretos ou porque simplesmente ninguém se responsabiliza por mudar em tempo o que precisa ser mudado. O registro e a discussão possibilita salvar vidas trabalhadoras.

A mesma situação se repete agora para a Casa Silvestre Linares. Os trabalhadores, a sociedade, precisam se responsabilizar por esse e outros abrigos da região de aparecida que estão enfrentando a covid-19 com dificuldade devido às condições precárias em que já costumam ter de tratar os idosos. Muitas dessas instituições trabalham praticamente com caridade do público em termos de alimento, insumos e materiais de limpeza. Os gestores, trabalhadores e idosos da instituição não conseguirão resolver isso sozinho. Precisam do cuidado, da atenção e do apoio de fora também, dos familiares e de todos nós que não concordamos que nossos idosos sejam mortos pelo descaso do governo.

Por isso é importante que, além das denúncias, também haja iniciativas como a dos Cuidados Invisíveis, que está articulando uma doação de frascos de álcool gel para trabalhadores de instituições de cuidado — para preservar os idosos, muitos estão sem sequer conseguir sair das instituições para comprar seu álcool gel. Literalmente dependem da solidariedade para conseguirem sobreviver.

Também são essenciais para ajudar na sobrevivência dos abrigos de idosos pobres as campanhas de doações de alimentos e insumos para os próprios idosos. Essas campanhas são oportunidades de diálogo e conhecimento das condições em que esses idosos estão vivendo, de construção de vínculo e responsabilização coletiva pela manutenção da vida dos nossos companheiras e companheiras mais vulneráveis.

Se não nos responsabilizarmos pelos mais frágeis, pelos mais vulneráveis, esse governo do abate seguirá desmontando as estruturas de cuidado públicas e os exterminando, como apontei aqui e tentei demonstrar aqui. Precisamos responder à altura com cuidado, responsabilidade e solidariedade: não vamos soltar a mão de ninguém

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