Mudaram o final da ópera Carmen. A decisão polêmica rapidamente inundou o Facebook e o Twitter com posições contrárias e pró-mudanças. De um lado estavam os que, como eu, acreditam que a arte deve ter autonomia e não pode ser definida pela política da ordem, e do outro estavam os que acreditam que a arte não é intocada e deve se dobrar à visão de mundo de uma época. Os anúncios, diante da querela, lucraram. A ópera, desfigurada de seu intento que chocou as boas famílias parisienses na época de seu lançamento e levou Bizet ao infarto, lotou na sua estreia. Carmen não foi mais assassinada pelo guarda Dom José, foi feliz ao lado do Toureiro. Walcyr Carrasco poderia ter feito melhor. Toréador, en garde! E naquele ano o feminicídio no Brasil bateu recorde… Douglas Rodrigues Barros

4 COMENTÁRIOS

  1. Carmen, a ópera mais vezes posta em cena em todo o mundo, baseia-se num romance de Prosper Mérimée, que foi uma figura importante na França do Segundo Império, nomeadamente no que diz respeito à preservação de monumentos. O romance era célebre, quem quer que ouvisse a ópera já tinha lido o livro, por isso Bizet não precisou de incluir na ópera uma coisa que na época todos sabiam, mas que hoje quase todos ignoram. É que a fábrica de processamento de tabaco onde Carmen é operária funcionava também como uma espécie de estabelecimento prisional, ou semi-prisional, destinado a dar hábitos de trabalho fabril às prostitutas. Mas Carmen não é uma prostituta, é uma cigana, e aí reside toda a diferença. Ela não se vende, dá-se. É uma mulher livre, sexualmente livre, uma mulher capaz de enfrentar os homens, e de afrontá-los.

    Ora, é este o drama de Don José, um militar que se apaixona por Carmen. Tal como Carmen canta num ária muito conhecida: «Se tu não me amas, eu amo-te; mas se eu te amo, toma cuidado contigo». Essa ária celebrizou-se pelas palavras L’amour est enfant de Bohème, que eu traduziria como O amor é cigano, já que les Bohémiens era um dos nomes então dados em França aos ciganos, vindos da Europa central, nomeadamente da Boémia. Daí o nome de boémia (ou, no Brasil, boemía) a quem leva uma vida livre, desregrada. L’amour est enfant de Bohème, qui n’a jamais, jamais, connu de loi, ou seja O amor é cigano, que nunca, nunca obedeceu a leis. Carmen é uma cigana e, diríamos hoje, uma boémia, por isso o papel de Carmen é tão difícil de interpretar, poucas mezzos souberam dar-lhe o tom justo. Teresa Berganza cantou-o muito bem (na cena acima o maestro é Pierre Dervaux, mas a melhor interpretação é sob a direcção de Claudio Abbado).

    Don José é um guarda que não consegue suportar a liberdade, enquanto Carmen é uma operária, em breve uma ex-operária, que em qualquer lugar, na fábrica ou fora dela, é uma mulher livre. Plácido Domingo, outra vítima do politicamente correcto, foi um excelente intérprete de Don José, expressando toda a tibieza do personagem (é ele que Teresa Berganza provoca, na ária que acima ouvimos e vimos). Micaela, a noiva de Don José, é uma figura secundária, mas com uma dupla importância: por um lado, ela serve de contraponto a Carmen, cuja fúria de viver ressalta mais ainda perante o carácter ténue e apagado de Micaela; por outro lado, ela é o espelho da mediocridade de Don José. A dificuldade numa ópera é que tudo isto tem de ser revelado não só pela música, mas pelas vozes. A voz ela própria, para além das palavras, é a máxima representação. Quando Don José, no final, mata Carmen, é a liberdade que ele mata. Distorcer este final é desvirtuar toda a ópera, é retirar a Carmen aquilo de que ela é o símbolo, a liberdade.

    Mas vejamos agora o Toureiro, le Toréador. Durante muitos anos, quando eu morava em Paris, ouvia regularmente France Musique, a emissora radiofónica estatal dedicada exclusivamente à música erudita e ao jazz. Um dos comentadores era o conhecido musicógrafo Jacques Bourgeois, e lembro-me de, numa análise da Carmen, ele ter observado que numa ópera riquíssima de temas, em que a imaginação melódica de Bizet estava sempre a criar temas novos, o Toureiro tem um tema único, canta sempre a mesma coisa (aqui na interpretação de Samuel Ramey, sob o maestro James Levine – a minha homenagem a mais esta vítima do politicamente correcto). Deste modo, observou Bourgeois, Bizet mostrou musicalmente a nulidade daquele personagem, incapaz de ir além dele próprio.

    E então temos a trilogia. Carmen é a mulher livre, que nada nem ninguém consegue prender. Don José é a mediocridade, mas uma mediocridade imaginosa, por isso roído de ciúmes, que não consegue suportar a liberdade da mulher que ele ama, e muito menos ser livre como ela. O Toureiro é a nulidade que nada atinge, porque ele nada vê para além de si mesmo e, portanto, nada entende. Agora podemos compreender o efeito funesto daquela adulteração da ópera, colocando-lhe um final politicamente correcto, estúpido como é sempre o politicamente correcto, porque destruidor daquilo que não entende. As, e os, politicamente correctos que adulteraram a ópera representam, afinal, o triunfo do Toréador, ou seja, perversamente, uma submissão de Carmen.

  2. Terríveis os fatos que o Douglas Barros descreve, mas sorte nossa termos a possibilidade de ler o impressionante comentário do João Bernardo, uma peça primorosa em informação e análise. Sensacional!

  3. Depois dessa aula gosto ainda mais de Carmen! O poder da arte é assombroso, mesmo ignorando todo esse conteúdo aposto que muitos dos que gostam dessa ópera sentiram seus sentimentos representados nessa análise. Sempre achei, por exemplo, o papel do toureiro chato e repetitivo, agora entendi a função dele na obra como um todo. O mesmo para a noiva sem graça do Don José. Fiquei pensando qual a função das partes envolvendo as crianças na Praça (Sur la place…, no começo da ópera, às vezes cantado por adultos) Teria algo a ver com a liberdade estando no espaço público, após sair do espaço privado do trabalho (Carmen e as outras saem da fábrica direto para serem galanteadas na Praça…). Além disso a Praça é sempre meio que “ocupada” pelos militares, e a Carmen chega tomando a cena, como se fosse a própria Vênus, confrontando tudo e todos com sua liberdade e libertinagem incontrolável, um pássaro q não pode ser engaiolado, quando para Don José amar é engaiolar…

  4. Há diversas cenas que ainda me impressionam em Carmen. É interessante, porém, comentar a diferença existente entre o romance e a ópera. Porque dependendo do ângulo, a ópera parece mais – desculpe o uso das aspas – “subversiva” tendo em vista que no romance, Mérimée parece convocar uma cigana, digamos, mais realista – Carmen no romance aceita a morte tendo em vista que supostamente errou ao trair aquele que a amava – já na peça, Carmen em nada sofre de crise de consciência. O que convoca e agride os puritanos à liberdade.

    Há diversos hinos revolucionários no interior da peça que imagino terem deixado aflitas as famílias púdicas e burguesas de uma Paris incendiada por diversas revoluções. Ao final do segundo ato, quando o medíocre Dom José se vê convidado, pelo assassinato de um superior, a viver como cigano e ter pour pays le universe et pour loi la volontè, o que vemos é um hino pela liberdade e igualdade que escandaliza pelo seu chamado inebriante e anticonformista.

    No mais, João Bernardo, teus comentários foram muito interessantes. Eu ainda não havia pensando nos limites do Escamillo apesar de achar que ele era pouco para Carmen. Embora, ao contrário de Dom José, estivesse disposto a arriscar sua vida por Carmen – o que talvez demonstre o caráter de um herói popular e artístico – ele é sempre mais semblante do que sujeito. E talvez por isso o seu lugar de baixo-baritono, uma limitação circular de sua voz que compõe seu perfil.

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