Por Raquel Azevedo

Permanecemos no tema dos problemas de escala para nos ocuparmos, desta vez, do modo como um movimento global pode repercutir localmente. Se na coluna da semana passada procuramos percorrer o mosaico de camadas que compõe uma escala desde uma organização de menor dimensão para outra de maior, o caminho agora é o inverso. Nosso ponto de partida é o artigo publicado por Branko Milanovic na primeira semana de julho cujos dados mostram a continuidade da redução da desigualdade de renda entre os países nos anos que se seguiram à crise de 2008. A combinação entre o crescimento chinês e o encolhimento dos países ricos significou também uma redução do crescimento da renda dos 1% mais ricos no período entre 2008 e 2013. Esses dados permitem que Branko faça uma projeção sobre os efeitos econômicos da pandemia: se os países ricos mantiverem uma trajetória de crescimento negativo durante a recuperação, haverá uma redução da renda média global, de modo que a renda média chinesa poderá ultrapassar a média global. Isso significa que o crescimento chinês viria a ter um efeito pequeno na redução da desigualdade. O papel do crescimento da Índia, que hoje é o segundo mais importante na redução da desigualdade de renda entre os países, passaria a ser central. Sem isso, o movimento que marcou as quatro últimas décadas da história econômica mundial chegaria ao fim.

Estamos diante de uma situação em que a mobilidade social de imensos contingentes populacionais, como os de Índia e China, parece se apresentar como única política de escala capaz de reduzir a desigualdade de renda. Mas de que forma a diminuição da desigualdade através de um processo de mobilidade social em escala chinesa em intervalos cada vez mais curtos de tempo se enquadra como uma política de escala? No artigo The limits to scale? Methodological reflections on scalar structuration, Neil Brenner, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Nova Iorque, identifica dois tipos de política de escala. Por um lado, trata-se da produção ou reconfiguração de algum aspecto de uma organização socioespacial dentro de um espaço dado. A escala funciona aqui como um limite que separa uma unidade espacial da outra; é uma barreira que serve para distinguir uma forma espacial particular (uma casa, um lugar, uma região, um país etc.) como uma unidade de organização socioespacial diferenciada. Já o segundo tipo de política de escala envolve a produção ou reconfiguração de certos ordenamentos entre escalas. Já não se trata apenas da produção de unidades espaciais diferenciadas, mas de seu grau de encadeamento com unidades espaciais menores ou maiores. O referente da reorganização de uma determinada unidade espacial é o próprio processo de escala – processo em que múltiplas unidades espaciais são estabelecidas, diferencias e hierarquizadas. Brenner explica que nessa modalidade de política de escala importam as relações entre as escalas e o modo como uma transformação se ramifica em cada uma delas.

Poderíamos dizer que o efeito de escala só está presente nessa segunda modalidade. Na primeira, em que o novo arranjo socioespacial simplesmente se distingue do espaço maior que em que está incluído, há uma integração fraca com as demais escalas. É importante notar que o quadro que nos é apresentado na segunda modalidade não é o de uma composição de partes semelhantes, mas de partes elaboradas de modo semelhante. Isso significa que a mesma forma de associar diferentes parâmetros mais simples e mais gerais corresponde, em cada caso, a uma escala distinta. A forma dos arranjos é mais importante do que seu conteúdo. É ela que se replica nas variadas camadas. Para seguirmos com nosso exemplo, seria preciso pensar de que forma os crescimentos de China e Índia se ramificam em outras escalas que possuem parâmetros distintos, mas que se organizam de modo semelhante. Não bastaria aqui pensar a relação entre os países (a forma como Brasil foi positivamente afetado com o aumento das exportações ou o modo como o crescimento dos países asiáticos gera uma percepção de perda de renda relativa nos países ricos ocidentais); seria preciso entender as ramificações desse processo nas mudanças climáticas, por um lado, ou no modo como os arranjos familiares mudam conforme a variação de renda, por outro (entre outras camadas possíveis).

Por fim, seria interessante pensar o que significaria uma política de escala no tempo. Considerando que certos processos criam seu próprio tempo, ou sua forma de se mensurar, como esse tempo se ramifica em outras camadas? No nosso exemplo, seria possível avaliar a maneira como os ciclos do crescimento asiático se ramificam em outras escalas. E, mais precisamente, se em algumas das camadas essa medida deixa de ser adequada. A capacidade de comparar medidas seria talvez o ganho de uma política de escala no tempo.

1 COMENTÁRIO

  1. RITMO-ANÁLISE DA ASSINCRONIA
    Ungleichzeitigkeit : concomitâncias x subsequências ou o tempo desengonçado de Hamlet.

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