Por Lucyan Butori

O Show de Truman (The Truman Show, 1998) é um filme norte-americano de comédia dramática dirigido por Peter Weir e escrito por Andrew Niccol. No enredo acompanhamos o simpático Truman Burbank (Jim Carrey) e a sua vida pacata em uma pequena cidade em uma pequena ilha chamada Seahaven. Em sua rotina, tudo acontece sem maiores percalços: a linha de causalidade nunca é rompida, todas as suas ações geram reações condizentes. No entanto, o que Truman não sabe é que desde quando ainda era um feto sua vida é televisionada para bilhões de pessoas ao redor do mundo; todos os aspectos da sua vida, desde a infância até a vida adulta foram meticulosamente gravados e transmitidos 24 horas por dia ininterruptamente (na película, podemos notar que quando o filme inicia o programa está online há mais de dez mil dias), e vive desde então dentro de uma redoma gigantesca que simula uma ilha, com florestas, oceano, clima, cidade, habitantes — absolutamente tudo cenográfico. A cidade e a ilha foram construídas dentro desta gigantesca estrutura em forma de redoma e tem na Lua sua central de comando e transmissão. Lá, o diretor e idealizador do programa Christof (Ed Harris) afirma, em uma entrevista, que há cinco mil câmeras espalhadas por todos os cantos da cidade. Para o espectador mais atento do filme, é possível notar em várias ocasiões essas câmeras escondidas aqui e acolá, em paredes, em produtos, em roupas, etc. Peter Weir é sagaz em nos mostrar a vigilância total que há em Seahaven.

Como não há interrupção na exibição do programa, a emissora ganha dinheiro através de publicidade dentro do programa, sem Truman perceber que se trata de propaganda. Se ele está cortando grama e o cortador estragou, aparece sua esposa Meryl (Laura Linney) e diz para ele comprar uma nova marca de cortadores de grama; se ele quer tomar café, ela mostra a nova marca de café que comprou. As coisas são frequentemente quebradas e rapidamente substituídas por um produto semelhante de uma empresa concorrente, ou uma versão nova do mesmo produto. Essas inserções de propagandas às vezes acontecem em momentos nem um pouco oportunos, destoando completamente do que está acontecendo — por exemplo, quando o casal está discutindo em certa cena e a Meryl, em meio à discussão, começa a vender um produto aleatório. Christof, ainda naquela entrevista, afirma também que absolutamente tudo que aparece no programa está à venda, desde roupas e pequenas bijuterias, até casas inteiras. E Truman, o tempo inteiro, é induzido a fazer coisas com o objetivo de mostrar propagandas: se querem focar um anúncio em uma parede, fazem com que ele caminhe por aquela rua e alguém o interrompe para que as câmeras possam filmar o pano de fundo do anúncio, tendo o próprio Truman como ator involuntário. As mesmas artimanhas que o programa usa para induzir o Truman a fazer o que eles querem, a comprar o que eles querem que ele compre, a pensar o que eles querem que ele pense, e até mesmo a sentir o que eles querem que ele sinta, é o mesmo mecanismo que usam para induzir os telespectadores — e, em grande medida, é o mesmo que as mídias hoje usam para induzir a sociedade a fazer o que elas querem que façam. Sobretudo na sociedade do algoritmo que estamos vivenciando.

Truman representa o cidadão perfeito: não questiona a sua existência e segue a manada, pois nada em sua trajetória simplória rompe a linha de causalidade. Ele também é o escravo perfeito, pois não sabe que é escravo e gosta de sua condição. E também o veículo de propaganda perfeito, já que está sempre sorrindo e alegre usando os produtos que está vendendo, mesmo sem saber que os está vendendo — o sorriso publicitário. A tristeza não vende muitos produtos, o sorriso sim. Para o capitalismo funcionar é preciso estampar o sorriso publicitário por todos os lados: a simulação da felicidade. No entanto, algo inesperado rompe a linha de causalidade: um misterioso objeto despenca do “céu” e quase atinge Truman enquanto ele saía de casa para ir ao trabalho. Esse objeto é um spot de luz que representava uma das estrelas no céu artificial sobre a cidadezinha. Truman, muito intrigado, mexe no spot para ver o que é e nele está escrito “Sirius (9 Canis Major)”. A estrela Sírio, também chamada de alpha Canis Majoris, é a estrela mais brilhante do céu noturno visível a olho nu e fica na constelação de Cão Maior. Ela possui várias interpretações em diferentes culturas e religiões ao redor do mundo desde a Antiguidade. Por ser a estrela mais brilhante, frequentemente ela é usada como guia por navegantes e andarilhos — talvez aí resida seu simbolismo no filme: um guia que tirará Truman de sua ordem de causa e efeito. Além disso, no filme Número 23 (The Number 23, 2007), o personagem Walter Sparrow (Jim Carrey) percebe a falsidade de sua realidade e de sua sanidade e busca respostas com certo Dr. Sirius Leary (Bud Cort) para entender a relação entre o livro que lê, o misterioso número 23 e a sua própria vida. Mais uma vez a estrela Sírio está associada à busca pela verdade. Truman olha ao redor e observa um poste de luz, mas a lâmpada está ali e tudo está aparentemente “normal”. O spot de luz então caiu “do nada” e isso não faz sentido. Se algo acontece e desafia a realidade, somos então levados a desconfiar daquilo que anteriormente chamávamos de realidade. A partir desse momento Truman passa então a observar mais atentamente as coisas que acontecem ao seu redor e percebe que há algo muito errado com o mundo. A partir desse evento inesperado, Truman percebe pela primeira vez a ordem de causas na qual está inserido e o estranho funcionamento de seu mundo, e então seu sorriso publicitário desaparece de seu rosto.

Mas será que The Truman Show é apenas um filme sobre um reality show, um pastiche ou uma sátira dos reality shows, tão comuns no final dos anos 1990 e início dos anos 2000? Será que ele não está tentando nos dizer mais alguma coisa?

O filme, quando assistido hoje em dia, soa estranhamente premonitório.

Satélites e vigilância total

Em 12 de dezembro de 2016, em um remoto vilarejo no interior da China, moradores foram surpreendidos com um enorme estrondo. Próximos de algumas casas encontraram uma cratera em chamas e inúmeros fragmentos metálicos por todos os lados. Entre estes fragmentos, havia um grande anel de metal com inscrições de letras e números [1]. Lixo espacial? Esse estranho evento no vilarejo chinês lembra a sequência do spot de luz caindo do céu cenográfico de Seahaven. Estaríamos vivendo em um reality show assim como a narrativa ficcional de Truman? Haveria alguma relação entre a falsa realidade da qual Truman despertou e a queda do objeto na China? Assim como o firmamento de Seahaven está repleto de spots de luz e câmeras, o nosso firmamento também está repleto de câmeras e instrumentos de vigilância, telecomunicações, espionagem, telemetria, rastreamento etc. Além desses satélites rondando o mundo (que, segundo alguns [2], pode existir cerca de cinco mil se considerarmos satélites espiões não catalogados), há uma infinidade de lixo espacial que, inclusive, podem ser vistos por telescópios amadores e até mesmo a olho nu, quando entram na atmosfera em forma de “estrela cadente” [3]. Inclusive, muitos deles são frequentemente vistos por transeuntes e por eles chamados de fenômeno ufológico ou evento casuístico [4]. Nosso firmamento está repleto de satélites que monitoram absolutamente tudo, invadindo países, cidades e até a privacidade de nossas casas com a desculpa de “caçar” terroristas e organizações criminosas. E basta uma simples busca para encontrar diversas reportagens com relatos de objetos caindo por todos os cantos do planeta, desde lixo espacial até satélites obsoletos e inoperantes.

Estamos sendo vigiados 24 horas por dia exatamente como Truman [5]. A internet surgiu como um projeto de uso exclusive militar e depois passou a ser usada como mecanismo de comunicação rápida entre cientistas. A internet reflete um pensamento que tenho: se a instituição é fascista, tudo que ela produz é fascismo. A internet nasceu com o propósito de vigiar e tudo que ela produz é vigilantismo. Tal qual Truman que era capitalizado sem nem saber, com seu sorriso publicitário, somos hoje capitalizados por empresas de social media e publicidade que nos forçam a exibir um sorriso publicitário em qualquer postagem e interação social na rede. Além disso, somos rastreados, medidos e catalogados e colocado em um perfil para então recebermos publicidade direcionada. Essas empresas escutam e leem tudo que você diz e escreve e revendem essas informações ou simplesmente repassam para o governo dos Estados Unidos e suas agências de espionagem e “segurança” [7]. O Christof, em sua lua artificial, é uma agência de controle do governo ou uma empresa que vende metadados. Provavelmente ambos.

O filme é estranhamente real.

Lembro de uma entrevista [8] com o Alan Moore em que ele afirmava que na época que escreveu V de Vingança (V for Vendetta), em meados dos anos 1980, escolheu a iconografia de câmeras de vigilância espalhadas por todas as esquinas para mostrar como a sociedade havia se tornado um totalitarismo fascista, onde a vigilância era total, não só nas ruas, mas também dentro das casas. E ele lamenta, na mesma entrevista, o fato de que parece que o governo achou por bem adotar essa iconografia e espalhar câmeras de vigilância por todas as esquinas. O ultraliberalismo de Margaret Thatcher, desnudado de todas as falácias e mentiras de “livre mercado” e “meritocracia” e a simulação democrática, é fascismo.

Quantas câmeras de vigilância existem na sua rua, no seu bairro ou na sua cidade? Elas estão lá para vigiar quem? O governo e as empresas envolvidas vão dizer que as câmeras estão lá para combater o crime, prender bandidos. Mas, pensando bem, quantos bandidos passam na rua por dia? Dez, cem, mil? É evidente que não. Se passar um ou dois é muito. Enquanto isso transitam milhares e milhares de pessoas cuidando de suas próprias vidas. As câmeras estarem lá para monitorar e impedir o crime não é apenas estatisticamente falso, é factualmente falso. Elas estão lá para vigiar absolutamente todos, indiscriminadamente. É para controlar sua vida. Uma espécie de panóptico. Servem para transformar a sociedade em uma penitenciária, um presídio ideal. O termo panóptico foi cunhado e desenvolvido pelo filósofo liberal Jeremy Bentham em 1785 em seu livro O panóptico (Panopticon; or, the Inspection-House).

O que é o panóptico? Uma casa de Inspeção, isto é, uma instituição total onde o vigilantismo é absoluto. No esquema idealizado por Bentham, a instituição seria construída de forma circular tendo no centro uma enorme torre de onde o guarda vigiaria tudo. É então um

sistema que permite a um único vigilante observar todos os prisioneiros, sem que estes possam saber se estão ou não sendo observados. O medo e o receio de não saberem se estão sendo observados leva-os a adotar o comportamento desejado pelo vigilante. (…) Por requerer menor número de vigilantes, o sistema panóptico teria, segundo Bentham, a vantagem de ser mais barato do que o adotado nas prisões de sua época, sendo aplicável não só às prisões, mas a qualquer outro tipo de estabelecimento baseado na disciplina e no controle [9].

O sistema panóptico, portanto,

seria aplicável, segundo o Jeremy Bentham, em prisões, escolas, hospitais ou fábricas, para tornar mais eficiente o controle daqueles estabelecimentos. Assim, aquele que estivesse sobre uma torre ou estrutura circular central poderia observar todos os presos (ou funcionários, pacientes, estudantes, etc), tendo-os sob seu controle [10].

Note o caráter totalitário na origem do pensamento liberal.

O sistema panóptico está em pleno funcionamento no Brasil.

Ao se preparar para a Copa do Mundo e as Olimpíadas o governo construiu em todas as cidades onde haveria esses megaeventos Centros Integrados e Comando de Controle, os CICC. Eles vigiam tudo que acontece nas ruas da cidade. Mas será que só nas ruas? O que mais eles estão vigiando? Cada governo estadual tem sua central de comando e vigilância, e o governo federal tem acesso a tudo. Estamos sendo vigiados e controlados por um panóptico.

O filósofo Michel Foucault em seu livro Vigiar e Punir (Surveiller et Punir, 1975), no capítulo três da terceira parte, onde ele discursa sobre a disciplina, demonstra como o sistema panóptico foi amplamente utilizado em todos os aspectos da sociedade de controle. Isto é, a sociedade moderna. Ele chama isso de panoptismo. A vigilância instaurada nas ruas e nas redes pelo governo e pelas empresas também se espalha para o nosso ser e inconsciente, de modo que nos sentimos vigiando e sendo vigiados. Não precisamos de um guarda na torre e uma instituição de Inspeção circular — não há guardas nem torres, há algoritmos automatizados — porque vigiamos a nós mesmos nas redes. O caráter militar presente na origem e no desenvolvimento da internet e o vigilantismo dos algoritmos colonizaram nosso ser [11]. Como extirpá-los?

Outra interpretação

Uma leitura possível do filme é a interpretação gnóstica. O Show de Truman é um filme com simbologia, iconografia, temática e estética inspirada fortemente na mitologia gnóstica. Os gnósticos foram uma seita sincrética cristã que se proliferou por toda região mediterrânea entre os séculos I e III, sendo relatados ainda em meados do sécúlo V até serem fortemente combatidos pela Igreja Católica. A cosmogonia gnóstica, isto é, a visão sobre a origem do cosmos, afirma que o mundo foi criado e arquitetado não por Deus, mas por um deus enlouquecido [12]. Esse deus enlouqueceu com tanto poder e passou a acreditar que era o único deus e assim aprisionou a humanidade em sua ignorância para se alimentar da energia produzida pelas almas. A esse deus enlouquecido deram a alcunha de demiurgo [13], termo proposto por Platão que, em sua visão cosmogônica, atribui a causa da alma do mundo a esse artesão divino. De uma forma disfarçada, o filme nos mostra a cosmologia maniqueísta: a luta entre Trevas e Luz e a sedução da realidade pela simulação. Christof, o idealizador do programa, é o demiurgo.

Ele cria um imenso estúdio em forma de domo onde as condições meteorológicas são controladas por computadores, tudo sob um céu falso, um pequeno mar simulando oceano, e uma cidade ficcional chamada Seahaven habitada por atores que representam scripts pré-determinados. Ele necessita criar um simulacro da realidade para realizar seu sonho: tomar uma criança (Truman Burbank) desde o nascimento, colocá-la em um ambiente simulado e acompanhar com as câmeras o seu crescimento em cada ação, até tornar-se homem (o simbolismo do aprisionamento de Adão no Paraíso engendrado pelo deus-demiurgo) [14].

Christof está obcecado pela busca do referencial, da verdade: quer a criação de uma espécie de Adão para capturar sua inocência. Ele chega a afirmar:

Estamos cansados de atores dando para nós falsas emoções. Estamos cansados de pirotecnias e efeitos especiais. Aqui nada é falso sobre Truman. Sem scripts, sem cartas marcadas. Isso não é Shakespeare, mas é genuíno. É a vida [15].

Aliás, o nome Christof pode significar “off-Christ” (“fora-Cristo, de “Christ-off”), isto é, uma espécie de Anticristo — ou, nos termos gnósticos, um deus enlouquecido. E a personagem Lauren/Sylvia (Natascha McElhone), que havia sido contratada apenas para ser uma colega de classe de Truman, mas que acaba se apaixonando por ele (algo que interfere na ordem de causa e efeito), é expulsa de Seahaven. Na mitologia gnóstica esta personagem seria interpretada como sendo Jesus, uma entidade cósmica que ao chegar no mundo se apaixona pela humanidade e se compadece com a situação de ignorância e cerceamento que a humanidade se encontra, e ao tentar libertar a humanidade das amarras do deus enlouquecido, é assassinado (expulso de Seahaven).

Realidade simulada

Algo que o filme O Show de Truman certamente conseguiu fazer foi prever os reality shows. Os reality shows dominaram a televisão durante todo o início do século XXI, mas agora com a “morte” da televisão — que está se tornando o equivalente da Rádio AM — muitos poderiam afirmar que os reality shows estariam condenados a também morrerem, com certa razão. Antigamente os reality shows eram produzidos por grandes estúdios e distribuídos por grandes emissoras. O modo tradicional de fazer reality show certamente está morrendo com a televisão, no entanto hoje em dia os reality shows são produzidos pelas próprias pessoas e transmitidos em seus canais pessoais (redes sociais disponíveis na internet) e acessados gratuitamente (ou não) por um público imenso, que gera receita através de anúncios e propagandas (muitas vezes imperceptíveis). A forma de produzir e distribuir reality shows agoniza com a televisão, mas a sua “lógica” de simular aparência não. Certa vez Andy Warhol disse que “no futuro todos terão seus 15 minutos de fama” e ele estava certo [16]. Com a televisão isso era impossível, mas agora com as redes literalmente qualquer um pode ter seus 15 minutos de fama. As redes sociais e seus algoritmos criaram uma sociedade onde existe a necessidade bizarra de querer transmitir tudo que fazemos, desde fotografias banais de pratos de comida até crimes perversos. O capitalismo quer que a gente transmita uma vida de aparência, sempre que possível estampando um sorriso publicitário, e as empresas de social media querem que a gente simule uma vida nas redes para assim alimentar seus bancos de dados. Tudo para gerar likes. Vivemos em uma espécie de “likecracia”, onde a narrativa que tiver mais “likes” é a vencedora. Enquanto Truman quer sair de Seahaven, queremos desesperadamente entrar.

Vivemos uma espécie de dilema de Cypher (Joe Pantoliano) no filme Matrix (The Matrix, 1999): enquanto todos querem sair, ele quer voltar para dentro da simulação, mesmo sabendo que é uma simulação. Porque a vida na realidade, ou seja, fora da simulação da Matrix, é um deserto: o deserto do real. No filme, a vida a bordo da nave Nabucodonosor é de penúria. De forma análoga, a vida longe das redes sociais se tornou uma vida de penúria social: o sentimento de distanciamento, isolamento, alienação e a sensação de que está perdendo as novidades é arrasador. Nos sentimos sós, vagando por um deserto.

No entanto, assim como o sistema de simulação Matrix e a realidade simulada da cidade Seahaven não são meramente simulações, as redes também não são: elas são, na verdade, um sistema de controle. Algoritmos que nos catalogam e nos colocam em perfis para coletar metadados; câmeras de vigilância que nos observam como um sistema panóptico; e, além de tudo isso, a simulação da mídia construindo uma realidade para nos manter atrelados à ideologia da classe dominante. Sistema de controle.

As tecnologias das imagens prometem para nós mais verdade, transparência, realidade, mas decaem na simulação via uma estética imperativa. Por exemplo, a visualização — e embelezamento — da violência vem tornando-se cada vez maior via slow motion, zoom e diversas técnicas de simulação. O terrorismo é o desdobramento perverso desta visualidade técnica crescente da violência: a contaminação do sistema político pelos simulacros da violência até a política esvaziar-se de sentido e converter-se em pura aparência [17].

Quanto maior o esforço tecnológico para desnudar a verdade, mais o sistema se afunda na simulação. Christoff tenta controlar tudo através da tecnologia, e é justamente a tecnologia (o spot de luz) que desperta em Truman a fagulha para questionar a sua aparente realidade. E assim como os reality shows acabaram se transformando em algo ridículo na televisão, o filme termina com pessoas procurando no catálogo o que está passando em outros canais — em vez de questionarem sua própria realidade.

O que podemos fazer, nós que caminhamos neste deserto — o deserto do real?

As imagens que ilustram o artigo são frames do filme.

Notas

[1] FERREIRA, Wilson Roberto Vieira. Estranho objeto cai na China e lembra filme “O Show de Truman”. Cinema Secreto: Cinegnose, 21 dez. 2016. Disponível em: <https://cinegnose.blogspot.com/2016/12/estranho-objeto-cai-na-china-e-lembra.html>. Acesso em: 28 ago. 2020.
[2] ALMEIDA, Rodolfo; MAIA, Gabriel. Os satélites em órbita da Terra: tipo, altitude, idade e nacionalidade. Nexo Jornal, 09 mai. 2018. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/grafico/2018/03/09/Os-sat%C3%A9lites-na-%C3%B3rbita-da-Terra-tipo-altitude-idade-e-nacionalidade>. Acesso em: 30 mai. 2019. Eu havia consultado e lido o artigo na data supracitada; hoje (28 ago. 2020), porém, a página está com paywall ativado e não consegui consultar o artigo.
[3] Monitoramento de lixo espacial (space junk) em tempo real. Stuff in Space. Disponível em: <http://stuffin.space/>. Acesso em: 28 ago. 2020.
[4] Muitos dos fenômenos ufológicos ou eventos casuísticos (como os ufólogos preferem, porque assim parece algo mais “científico”) são na verdade artefatos espaciais, isto é, lixo que atravessa o céu e que frequentemente cai em campos e cidades — é relativamente fácil encontrar material jornalístico sobre esse assunto —, satélites artificiais e coisas bem mundanas e humanas para reivindicar qualquer aspecto alienígena. É impressionante como a espécie humana, essa desgraçada, consegue poluir até o espaço. Mas, na verdade, não é a espécie humana; é o capitalismo. É sabido que agências governamentais, sobretudo estadunidenses, utilizaram e ainda utilizam os ditos fenômenos ufológicos como técnicas de dissuasão e simulação e também de dispersão. Durante a guerra fria as diversas traquinagens e tramoias militares eventualmente caíam por qualquer razão. Ninguém da população sabia o que eram aquelas coisas e logo as agências chegavam dizendo e disseminando todo tipo de bobagens, noticiando que eram balões meteorológicos, foguetes amadores, discos voadores de outros planetas e qualquer outra asneira evidentemente falsa. Então a população passava semanas discutindo balões e alienígenas e ninguém, nem a população e nem os malvados comunistas, desconfiavam tratar-se de traquinagens e tramoias militares.
[5] SNOWDEN, Edward. Eterna vigilência: como montei e desvendei o maior sistema de espionagem do mundo. São Paulo: Planeta, 2019.
[6] LANIER, Jaron. Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais. São Paulo: Intrínseca, 2018.
[7] Essas afirmações são bem conhecidas e é possível encontrar vasto material jornalístico sobre esse assunto. Não é imprescindível, mas recomendo a leitura para quem quer se iniciar no assunto de vigilantismo nas redes e na vida privada: GREENWALD, Glenn. Sem lugar para se esconder: Edward Snowden, a NSA e a espionagem do governo americano. Rio de Janeiro: Primeira Pessoa, 2014.
[8] A afirmação pode ser encontrada no documentário The Mindscape of Alan Moore (2005). Disponível [com legendas] em: <https://www.youtube.com/watch?v=moRkHk-q9Rg>. Acesso: 28 ago. 2020.
[9] Retirado de Pan-óptico. Wikipédia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Pan-%C3%B3ptico>. Acesso em: 28 ago. 2020.
[10] Idem. Ibid.
[11] Aqui recomendo três leituras muito interessantes para quem deseja se aprofundar nestes assuntos: CARDOSO, Bruno; et al. Tecnopolíticas da vigilância, perspectivas da margem. São Paulo: Boitempo, 2018; GRAHAM, Stephen. Cidades sitiadas, o novo urbanismo militar. São Paulo: Boitempo, 2016 e MOROZON, Evgeny. Big Tech, a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu Editora, 2018.
[12] Para quem se interessar por esse tema recomendo o seguinte livro — porque apresenta vasto material crítico, comentários, notas e referências e, o mais importante, os textos gnósticos que nos restaram traduzidos: LAYTON, Bentley. As Escrituras Gnósticas. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
[13] Do grego demiourgos, que significa “o que trabalha para o público”, “artífice”, “operário manual”; de demios significando “do povo”, como em demos, povo; e ourgos “trabalhador”, como em ergon, trabalho.
[14] FERREIRA, Wilson Roberto Vieira. O ceticismo gnóstico de Jean Baudrillard (parte 3): a “Pura Aparência” em “Show de Truman”. Revista Forum, 05 out. 2011. Disponível em: <https://revistaforum.com.br/blogs/cinegnose/o-ceticismo-gnostico-de-jean-baudrillard-parte-3-a-pura-aparencia-em-show-de-truman/>. Acesso em: 28 ago. 2020.
[15] THE TRUMAN SHOW. Direção: Peter Weir. Produção de Scott Rudin Productions. Estados Unidos: Paramount Pictures, 1998.
[16] SILVA, Jonatan. Filosofia pop: muito além dos 15 minutos de fama. Escotilha, 01 jun. 2018. Disponível em: <http://www.aescotilha.com.br/literatura/contracapa/filosofia-pop-muito-alem-dos-15-minutos-de-fama/>. Acesso em: 22 set. 2020.
[17] FERREIRA, Wilson Roberto Vieira. O ceticismo gnóstico de Jean Baudrillard (parte 3): a “Pura Aparência” em “Show de Truman”. Revista Forum, 05 out. 2011. Disponível em: <https://revistaforum.com.br/blogs/cinegnose/o-ceticismo-gnostico-de-jean-baudrillard-parte-3-a-pura-aparencia-em-show-de-truman/>. Acesso em: 28 ago. 2020.

Referências

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. São Paulo: Antropos, 1991.
BAUDRILLARD, Jean. Tela Total. São Paulo: Sulina, 1997.
BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. São Paulo: Zahar, 1997.
VIRILIO, Paul. A Bomba Informática. São Paulo: Estação Liberdade, 1991.

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