Os entregadores paralisando e a esquerda paralisada

Por Passa Palavra

No último dia 11 de setembro aconteceu a terceira paralisação nacional dos entregadores que trabalham em aplicativos, o #BrequeDosApps. A pauta e a organização foram construídas ao longo de meses e o dia não foi uma escolha fortuita, já que a greve foi contra o “terrorismo dos aplicativos”. A pauta comum foi o aumento da remuneração por quilômetro rodado, a não implementação do sistema de agendamentos e o fim dos bloqueios indevidos com a criação de código de confirmação para cada entrega. De acordo com a localidade foi dada uma dinâmica de luta, além de pautas mais específicas.

A aderência e o tamanho das mobilizações não seguiram um mesmo padrão em cada cidade, mas elas se estenderam por todo o Brasil, com destaque para Porto Alegre, Belém, Manaus, Rio de Janeiro e Ribeirão Preto (SP).

Em João Pessoa a mobilização ganhou uma pauta local, o motoboy Kelton Moraes foi atropelado na noite do dia 10 de setembro por um motorista acima do limite de velocidade, e morreu. Isso fez com que o ato do dia fosse também em solidariedade à família e de denúncia contra as condições de segurança que os entregadores enfrentam. A mobilização não se encerrou no sábado, pois os motoboys fizeram uma grande motociata na segunda-feira, em homenagem ao colega morto.

Os entregadores paralisando e a esquerda paralisada

Em locais como Uberlândia (MG) a adesão dos motoboys foi tamanha que os estabelecimentos desligaram as plataformas, uma vez que não havia ninguém para fazer entregas. Na cidade de São Paulo, a região com maior aderência foi a zona leste: os entregadores que já se conheciam dos pontos de maior circulação organizaram bondes que passavam nos locais de maior concentração para avisar os colegas que era dia de breque. Dinâmica semelhante aconteceu no litoral paulista. Em Guarujá esses pequenos agrupamentos de motoboys circulavam pela cidade com faixas, parando os pontos de retirada de entrega. Em ambos os casos os laços de proximidade anteriores entre os trabalhadores, que já se conheciam dos mesmos pontos, foram fundamentais para que a greve tivesse adesão.

Entretanto, o local que mais se destacou nesse sentido foi a cidade de São José dos Campos (SP). A paralisação na cidade se estendeu por quatro dias e continua crescendo quando esse texto é escrito. Sabendo os pontos de maior concentração, os trabalhadores se dividiram para ficarem nos locais de entrada e saída dos estacionamentos, o que lhes permitia abordar algum trabalhador que ainda não estava sabendo da greve. Considerando que isso não seria o suficiente para paralisar a cidade, fizeram grupos que circulavam e paralisavam os locais de menor circulação. Ao mesmo tempo, combinaram andar sem as mochilas, dessa forma facilitando a identificação daqueles que não aderiam à paralisação e que eram abordados pelos grevistas e convencidos a aderir à greve. Toda essa organização foi potencializada por grupos de mensagens com centenas de entregadores, que trocam as informações e coordenam coletivamente as ações para expandir a greve. A dinâmica local, na qual já existia um grupo de motoboys que pressionavam estabelecimentos que tratavam mal os entregadores, permitiu que eles entrassem em contato com os estabelecimentos e explicassem que a luta era contra os aplicativos e não contra eles. Isso fez com que alguns estabelecimentos cobrassem o iFood em suas redes sociais. O discurso dos entregadores joseenses reconhece a importância dos vídeos e materiais enviados por colegas da capital paulista, ao mesmo tempo gravam chamados para que colegas do Brasil todo retomem a paralisação. Os entregadores de São José dos Campos dizem que só irão voltar ao trabalho quando as empresas de aplicativo fizerem melhorias concretas.

Em meio a essa intensa mobilização da classe trabalhadora, a esquerda parece indiferente. A greve foi ignorada pela maior parte das organizações e mesmos os perfis de redes sociais de ativistas pouco divulgaram os vídeos compartilhados pela página @tretanotrampo. Com reações críticas às falas dos trabalhadores que não querem Bolsonaro, mas também não querem Lula, ou reclamações da faixa “Motoboys sem Sindicato”, a esquerda parece mais presa aos seus símbolos que à luta dos trabalhadores. Emblemático desse bloqueio simbólico e do estado geral da esquerda é o posicionamento do coletivo Revolução Periférica – que tem como sua principal figura pública o mais conhecido membro dos “Entregadores Antifascistas” –, que declarou, em 12 de setembro, que os trabalhadores não conseguem participar nas greves e que melhor seria uma mobilização dos clientes, que deveriam passar a consumir de restaurantes que contratam diretamente os entregadores. Enquanto isso, os trabalhadores continuam a criar suas próprias formas de organização das greves.

Os entregadores paralisando e a esquerda paralisada

4 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom o texto. E a luta dos entregadores. EM SJC então nem se fale.

    Porém, se a crítica à esquerda está correta, é preciso que o movimento dos entregadores e os militantes que apoiam ativamente essas lutas também tomem o cuidado de não afastar o apoio da esquerda em geral. Tomem o cuidado de não querer marcar identidade ‘autonomista’, criando um afastamento do grosso da esquerda e isolando o movimento, que seria alvo fácil de repressão e teria dificuldade de ter mais impacto se ficar isolado.

    Se os entregadores conseguiram criar unidade de classe afastando as discussões e preferências político partidários, com grande sabedoria prática, associar o movimento grevista dos entregadores a nem Lula nem Bolsonaro (colocando ainda fala de um motoboy que fora do contexto de diversão entre eles é um slogan lavajatista “Lula ladrão e Fora Bolsonaro”) é um erro enorme e uma contradição. Um erro e contradição que isola os entregadores do capo político que estaria mais próximo para apoiá-los. Nesse sentido o texto perde força, porque isso poderia explicar uma perda de interesse no grosso da esquerda pelo movimento dos entregadores.

    A ignorância histórica e prática de uma esquerda burocratizada sobre o papel no mínimo ambíguo dos sindicatos e do sistema eleitoral é um dado. É nesse terreno que o movimento dos entregadores terá que saber jogar. Deixando a política em sentido estrito de lado, focando nas questões que unem a classe e não s isolam de uma apoio amplo da sociedade, foi um acerto grande. Colocar o pé fora desse caminho é trilhar o atalho da derrota. Se a esquerda autônoma fizer como a esquerda institucional e, por seus meios próprios, colocar o movimento social como divulgador de suas próprias posições políticas, estará minando o movimento social, impedindo sua ampliação e generalização, de forma similar como a esquerda institucional tem feito há décadas.

    A crítica à esquerda feita no texto é correta. Mas é preciso autocrítica também das práticas que isolam ou tendem a isolar o movimento.

  2. Leo, apesar de todos os cuidados, o afastamento da esquerda tradicional é uma constatação, e não uma vontade subjetiva, e que não vai mudar com a retirada de materiais daquele teor. Na verdade, militantes de esquerda apaixonados pelo Lula deveriam ter amadurecimento o suficiente para separar as coisas, a greve é pelas pautas dos entregadores, o próprio fato de os entregadores “tirarem onda” com o Bolsonaro e o Lula me parece soar mais como uma autoafirmação da categoria enquanto entidade autônoma. Me parece, na verdade, que o fato de a esquerda não estar comprando a briga dos entregadores é que não tem nenhum “antifascista” de capa e O Capital na mão tirando fotos, ou não tinha nenhuma estátua por perto para incendiar.

  3. Alan,

    A gente sabe que as lutas dos trabalhadores estão passando ao largo da preocupação da esquerda. Não só essa. Por isso, como eu disse, o texto é muito bom e a crítica dele também.
    Porém, como eu disse, ao mesmo tempo cabe autocrítica. E aí a questão é que militante não pode colocar culpa nos outros ou numa categoria por não se mobilizar, como aliás fazem alguns dirigentes sindicais. Quem milita tem sempre que se perguntar o que está fazendo de errado pra não estar conseguindo mobilizar. Nesse sentido não faz sentido jogar pra baixo do tapete os erros. É fácil a saída de que os outros é que tem que se maduros e eu vou continuar agindo da mesma forma.

    Militante lida com a realidade. A realidade é essa: se colocar política no meio o movimento se isola. De nada serve falar em falta de maturidade dos outros.

    Mesmo num contexto normal, movimento que cria rixas, pessoas indiferentes ou até inimigos onde poderiam haver apoiadores e simpatizantes está tirando o chão debaixo dos seus pés. Tem vida curta e não sobrevive ao primeiro ataque coordenado que vier.
    É uma questão de inteligência política e sobrevivência.

    Se não se enxerga os erros que foram cometidos (esse que mencionei é apenas um), se se justifica os erros como se não fossem, eles então estão sendo normalizados.

    E aí entra uma questão ética. Quando se trata de uma campanha que envolve apenas militantes e não uma categoria de trabalhadores, são só os militantes que se frustram mais cedo ou mais tarde. Quando envolve um movimento de trabalhadores os erros repercutem pra essas pessoas, nas suas lutas e condição de vida. É bem mais sério.

    Outra questão, os próprios entregadores tirarem uma onda com Bolsonaro e Lula num momento de quase brincadeira entre eles… mas outros defendem Bolsonaro, outros certamente defendem Lula. Ai se escolhe aquilo que representa a visão política dos militantes para expor… (e mesmo que seja a visão política da maioria dos entregadores continua sendo um erro porque é tema que divide a categoria e não contribui pra luta) . Como eu disse no comentário anterior, isso não se diferencia do uso que a esquerda tradicional faz dos movimentos sociais quando tentam atrelá-los a pautas políticas que não vem do movimento.

    Só o que já tem nas redes, se algum grupo de esquerda quiser queimar o movimento com o resto da esquerda, já tem material suficiente para montar uma narrativa bem convincente em cima de postagens e tal. Isso é vacilo enorme. Em política (em sentido amplo) não se sobrevive assim. Ainda mais nesses tempos em que estamos.

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