Por Passa Palavra

ESG: o capitalismo stakeholder

No dia 19 de Agosto de 2019, a Business Roundtable, espécie de “clube” de importantes CEOs dos EUA (incluídos os chefes executivos da Amazon, da Apple e da General Motors, entre muitos mais), lançou um comunicado que chamou a atenção: “A Business Roundtable está modernizando seus princípios a respeito do papel das corporações”, anunciava. “Enquanto cada uma de nossas companhias individuais serve ao próprio propósito corporativo, nós compartilhamos um compromisso fundamental com nosso stakeholders”. É importante aqui diferenciar estes dois conceitos: os shareholder são os acionistas (aquele que tem, holder, uma parte, share), já os stakeholders são todos os atores externos à corporação que são afetados por sua atividade (stake, risco, algo que está em jogo, stakeholder). “Cada um de nossos stakeholders é essencial. Nos comprometemos a trazer valor a cada um deles, para o sucesso futuro de nossas companhias, de nossas comunidades e de nosso país”.

A modernização da Business Roundable pode ser comparada com as recentes posições de autoridades do FMI a favor do gasto público e pela luta contra a desigualdade. Mas ela é talvez mais profunda, pois expõe uma mudança no entendimento mesmo da atividade empresarial. Desde os anos 70 a visão de Milton Friedman era hegemônica e entendia a corporação essencialmente como um mecanismo de maximização de lucros para os acionistas, shareholders, cujos interesses deveriam ser tomados como o único motor e guia da atividade empresarial. “O único propósito de uma empresa é gerar lucros para os acionistas”, disse o economista em uma entrevista. Os novos ventos chegaram, no entanto, e a razão empresarial, para estes CEOs reunidos, deve reger-se também para valorizar os recursos humanos, as comunidades, a economia ética, etc., como fatores que se somam ao interesse direto dos acionistas.

Em uma análise rápida, este comunicado parece avançar sobre os direitos vinculados à propriedade privada, pois recomenda dar a funcionários sem o direito pleno de propriedade um controle soberano sobre vastas cadeias de produção e propaganda ao redor do planeta. Serão estes funcionários os temidos globalistas, que atacam a família com doutrinas LGBTI+ e querem implantar o fim da propriedade privada em um mundo dominado pela nova correção política?

Talvez. Mas o que nos deve chamar a atenção neste cenário não é bem o domínio das corporações sobre os terrenos exteriores, os stakeholders em si mesmos, senão as mudanças que estas corporações estão propondo para seu próprio funcionamento interno. Em 2006 a ONU emite um informe chamado “Princípios para Investimentos Responsáveis”, onde o critério ESG foi utilizado pela primeira vez como requisito para ser incorporado nas avaliações financeiras das companhias. Significa “Environmental, Social, Governance”: ambiental, social, governança. Esta sigla tomou uma enorme importância no âmbito corporativo, e hoje funciona como um importante indicador. Encontramos n’“O Guia do Diretor para o Ativismo Acionista”, da consultora PwC (Julho de 2021), que nos últimos 10 anos 90% das falências nas empresas que compõem o índice S&P 500 envolviam companhias com baixos indicadores ESG. Estes novos critérios que devem balizar as atividades corporativas apontam diretamente a um novo público de massas cada vez mais interessado e atento ao mundo empresarial. Trata-se, do ponto de vista dos gestores de cada empresa individual, de adiantar-se aos problemas e assim evitar prejuízos legais e de marketing que possam ocorrer a partir de escândalos (ambientais, sociais, políticos, etc.). Por outro lado, é possível capitalizar esta “precaução” como uma postura ativa: ao invés de apenas cumprir regras, as corporações passam a ser parte da construção destas mesmas regras. Para isso, o engajamento direto do público e dos potenciais acionistas na vida interna das companhias é essencial.

Ativismo acionista e o MST S. A.

GameStop e o ativismo acionista

Vejamos o mesmo fenômeno, mas de outro ângulo. Em Janeiro deste ano de 2021 ocorreu um episódio um tanto inédito na bolsa de valores, quando um significativo número de micro-investidores organizados e mobilizados por canais de internet realizaram uma ação coordenada contra investidores profissionais. O principal “campo de batalha” foram os papéis de uma empresa de varejo de videogames, a GameStop, que deu nome ao episódio. A primeira geração que cresceu e foi educada de forma muito íntima pelos jogos digitais se encontrava com liquidez no contexto da pandemia (entre auxílios estatais e o baixo consumo causado pela quarentena). Houve uma conjugação entre aspectos monetários, a recente oferta de aplicativos que viabilizam o micro-investimento de parte de indivíduos (cortando intermediários), e uma campanha que mobilizava duas questões: a primeira era a nostalgia dos bons tempos da infância e a identidade gamer, a segunda foi o “combate contra as elites” levado adiante por uma multidão de anônimos plebeus dispostos inclusive a perder dinheiro apenas para “mandar uma mensagem” ao mundo, ao contra-atacar a aposta agressiva de investidores profissionais desalmados de Wall Street. O método utilizado por estes aventureiros nostálgicos parece ter sido mais efetivo em golpear Wall Street do que os acampamentos realizados 10 anos atrás.

Estamos, é claro, no extremo mais exagerado do fenômeno, num episódio que tocou tão somente os valores nominais das ações em um grande jogo de soma zero. Mas se bem foi necessário mobilizar uma narrativa justiceira, recheada de memes, para angariar um volume efetivo de investidores, a ação foi de muito curto prazo e não incidiu diretamente sobre os rumos administrativos da companhia. Uma ação de mais longo prazo levada adiante por grupos de investidores recebe hoje o nome de “ativismo acionista”. O “Guia” da consultora PwC antes referido descreve assim os propósitos dos ativistas acionistas:

“Alguns shareholders se voltam ao ativismo porque eles sentem que é uma forma efetiva de aumentar o valor das companhias de que têm as ações. Outros o fazem para intervir em práticas de governança que eles acreditam ser negativas para o valor [da companhia] a longo prazo. Ou se preocupam com os produtos e as práticas de negócio da companhia. O ativismo pode tomar várias formas. Mas o seu objetivo é o mesmo: motivar os gestores e as diretorias de empresas a realizar mudanças nas formas como suas companhias são dirigidas.”

A postura mais agressiva de ativismo acionista, segundo o Guia, seria o conflito aberto nos altos níveis, onde alguns ou todos os integrantes da diretoria são substituidos por diretores indicados pelos acionistas ativistas. Já a política menos agressiva seria o engajamento dos acionistas, entrando aqui todo tipo de pressão que um grupo de acionistas pode realizar sobre uma diretoria para conseguir reuniões a respeito das suas preocupações com a empresa. Tudo depende do “poder de fogo” do grupo ativista. O caso da GameStop não colocava em questão os rumos da empresa, esteve mais próximo de uma coordenação (ilegal para alguns) de compradores para afetar os preços de certa ação. No entanto, o ponto de contato aqui é a mobilização coordenada e politizada no contexto do mundo corporativo acionista.

Se por um lado o ativismo acionista é uma preocupação para as corporações, expostas a campanhas públicas que podem afetar o valor de suas ações, as suas operações, a sua posição no mercado, etc., ele é ao mesmo tempo uma forma de dinamizar a adaptação do mundo empresarial às pautas sociais. Até recentemente as bolsas mundiais representavam um universo distante das massas, mas com a digitalização financeira as coisas estão mudando. É interessante ver como o próprio aplicativo que ficou famoso (e depois foi execrado) por gamificar os pequenos investimentos e abrir este mundo à milhões de individuos jovens, se chama Robinhood, numa alusão que sugere uma espécie de redistribuição justa por meio de atos clandestinos. Investir nunca foi algo tão político.

Ativismo acionista e o MST S. A.

Engajado com o MST S.A.

Contar com ativistas acionistas é hoje um fator que pode trazer muitos benefícios às empresas, ainda que isso dependa muito do perfil e das próprias tensões internas de cada organização. Por um lado, estes pequenos acionistas “incômodos” podem oferecer perspectivas e ideias “incômodas” que serão posteriormente utilizadas para gerar mais valor à empresa, como aproveitamento do componente intelectual da força de trabalho de uma multidão dispersa, o chamado crowdsourcing. Por outro, o posicionamento de acionistas ativistas próprios com peso nas redes sociais cria um ambiente de legitimidade e constrói também uma barreira de proteção contra campanhas externas. Em jargão popular, servem como haters “da casa”.

Então estamos vendo um crescente engajamento de mão dupla, onde as corporações deixam de ocupar uma posição passiva frente às investidas das massas virtuais, e passam elas mesmas a instigar as massas a participar na vida corporativa. Isso só é possível por meio da abertura da operação nas bolsas a indivíduos, “pessoas físicas”, investidores que não serão orientados por intermediários de perfil técnico, sóbrio e maximizador. Eis a importância da “modernização” da Business Roundtable. Se até recentemente as corporações convocavam à participação das massas por meio de suas marcas e ações sociais, encarnadas no ato do consumo, o consumo consciente, o novo paradigma está baseado na participação acionária.

Um sinal poderoso destes novos tempos é a abertura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ao mercado financeiro. Já em 2020 a organização havia captado um milhão de reais, em uma proposta feita apenas a “investidores qualificados” que contassem com mais de um milhão investidos em suas carteiras. O investimento mínimo era de cem mil reais. Para participar nesta nova onda do engajamento corporativo, o MST recentemente anunciou uma nova rodada de captação de recursos, disponibilizando a opção de investimento mínimo de cem reais, ao alcance de universitários mal-remunerados. Diz assim um comunicado da organização:

“Estamos construindo um movimento de financiamento direto entre as pessoas que tem poupança e as cooperativas de famílias assentados pela reforma agrária. Queremos criar uma oportunidade para que as pessoas que tenham alguma poupança de seu trabalho, possam aplicar e ajudar a ampliar a produção de alimentos saudáveis, através da agroecologia, etc. As cooperativas fazem os projetos de investimento produtivo necessários para ampliar a produção de alimentos, e as pessoas emprestam. Esse movimento chamamos de FINAPOP. (financiamento popular de produçao de alimentos saudáveis) […] Cada pessoas física ou jurídica pode aplicar em cotas de no mínimo 100 reais… Assim você pode emprestar apenas 100 reais, ou por exemplo 100 mil reais, que seriam mil cotas. Todo esse movimento é regulado em lei, para que todos tenham as garantias necessárias, e é fiscalizado pela CVM [Comissão de Valores Mobiliários].”

Vale a pena contar com os CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) do MST em minha carteira de investimentos? Segundo os especialistas escutados pelo portal de notícias UOL, a resposta é sim. Os antigos detratores do mercado financeiro, que o acusava de corroer a “economia real” por meio da especulação, deverão calar-se para não gerar obstáculos políticos para a nova etapa do antigo movimento dos sem-terra. Os mais novos simpatizantes, já acostumados com as ferramentas digitais, não se sentirão tão fora de lugar ao contribuir com a produção de produtos orgânicos através de seus celulares, com oportunidades para que possam inclusive contribuir para sua poupança.

Algumas décadas atrás o debate na esquerda era sobre a neutralidade do Estado, e se era possível realizar batalhas políticas dentro de sua arena que fossem vantajosas para a classe trabalhadora. Será que este debate está silenciosamente sendo transportado para o âmbito do mercado financeiro? Ainda que a passos tímidos, vemos como a esquerda contribui para uma nova expansão do Estado Amplo sobre o Estado Restrito [1], o universo empresarial sobre as instituições estatais, solidificando um regime democrático que tem as empresas como âmbito de atuação dos indivíduos. À diferença do cenário dos anos 90, de plena vigência do Consenso de Washington e da globalização promovida pela aliança atlântica, vivemos um momento de aguda polarização política nos mais diversos países do mundo. A nova forma de engajamento corporativo parece responder a isto: se naquele momento se tratava de “fazer cumprir” regras e políticas internacionalmente válidas, em certa homogeneidade corporativa de um bem comum e global, a atual proposta de ativismo acionista propicia uma arena ideal para integrar o faccionalismo e a polarização política, onde a identificação com cada corporação não responde a uma imagem genérica e universal, mas pelo contrário, mobiliza pautas específicas, identitárias, contenciosas. A pergunta que fica encaixa bem no mundo dos negócios: a que preço?

Notas

[1] Ver Democracia Totalitária. Teoria e Prática da Empresa Soberana, de João Bernardo, editora Cortez, 2004.

As imagens que ilustram este artigo são de filmes baseados na novela de Louis Pergaud, A Guerra dos Botões.

18 COMENTÁRIOS

  1. É o SOREX (socialismo realmente existente) versão it’s up to me, do M$T.

  2. MST S.A: Oferta pública de CRA – 09/2021

    Título: CRA (Certificados de Recebíveis do Agronegócio)
    Prazo: 5 anos
    Rentabilidade: pré-fixada em 5,5% ao ano, com isenção de IR
    Investimento mínimo: R$ 100
    Total: R$ 17,5 milhões (R$ 14,5 milhões de 1.528 pessoas físicas e R$ 3 milhões de um único investidor privado)
    Corretora: Terra Investimentos (sem custo cadastral)
    Securitizadora: Gaia Impacto

    Cooperativas destinatárias do investimento
    (localização, qtde famílias, produto do CRA, valor CRA, PL, índice de endividamento, faturamento anual):

    Cooana
    Paraná
    231 famílias
    arroz em casca
    R$ 2,5 milhões
    R$ 9,25 milhões
    0,423
    N/D

    Coapar
    São Paulo
    455 famílias
    leite em pó
    R$ 3,5 milhões
    R$ 1,41 milhões
    0,686
    cerca de R$ 30 milhões

    Coopaceres
    Mato Grosso do Sul
    39 famílias
    soja (semente)
    R$ 1 milhão
    R$ 4,90 milhões
    0,025
    N/D

    Cooperoeste
    Santa Catarina
    1.700 famílias
    leite UTH
    R$ 3,5 milhões
    R$ 16,94 milhões
    0,441
    acima de R$ 200 milhões

    Cootap
    Rio Grande do Sul
    609 famílias
    arroz em casca
    R$ 3,5 milhões
    R$ 27,25 milhões
    0,379
    cerca de R$ 25 milhões

    Copacon
    Paraná
    350 famílias
    milho
    R$ 1,5 milhão
    R$ 1,66 milhão
    0,481
    N/D

    Copavi
    Paraná
    138 famílias
    açúcar mascavo
    R$ 2 milhões
    R$ 473 mil
    0,823
    N/D

  3. antes o financiamento das famílias assentadas provinha de linhas de crédito estatais.

    tá aí o lula falando da importância da agricultura familiar e que no governo dele ‘nunca na história desse país, se deu tanto crédito para pequeno produtor’.
    com bolsonaro (e aqui é um chute, pq nao tenho o dado) talvez as linhas de crédito tenham minguado.

    e aí o mst busca uma nova fonte de financiamento. Financiamento, crédito, vai existir sempre (a menos que a gente caia em um precipício de primitivismo economico muito grande).

    tlvz o ponto mesmo seja o que essa nova política de captação de recursos vai alterar nas relações internas do mst, das famílias assentadas e tal.

  4. Realmente, sem crédito, sem financiamento e sem taxas de juros atractivas, como poderá haver luta de classes?

  5. Óbvio que João Bernardo não perderia a oportunidade de exercitar a ironia.

    JB, o que questiono (e isso o texto não responde), são as consequências para as relações internas dentro do movimento que essa nova modalidade de financiamento trará. E outra: quais mutações ocorreram no interior do mst para proceder a esta ação?

    Há uns anos foi publicada uma série de textos sobre os rumos do mst aqui no site (escrito por você próprio: https://passapalavra.info/2012/03/54051/) em que uma das críticas era justamente a adesão do movimento às linhas de crédito criadas por FHC (o que foi considerado uma grande vitória estratégica do governo tucano).

    Na última série do ensaio (https://passapalavra.info/2012/04/54095/) há um comentário do Manolo que vale a pena ser reportado:

    ‘Tenho a impressão, mesmo sem ter me aprofundado nesta história, de que a ascensão destes quadros de base aos estratos dirigentes do MST é outro fator condicionante em favor da agricultura familiar. Se é verdade, como dá a entender a série, que o cooperativismo da primeira fase do MST foi “trazido de fora” por antigos assessores pastorais e sindicais transmutados em militantes do movimento, e que nunca foi totalmente incorporado pela militância de base sem grandes reservas e críticas, a ascensão desta mesma militância de base às instâncias dirigentes do movimento lhes dá a oportunidade de reverter uma linha política que lhes desagrada (…) Não tenho como dizer até que ponto a mudança no padrão de financiamento foi influenciada por este conflito interno, mas me parece evidente que esta guinada pode ter sido estratégica para o governo federal.’

    Então ocorre agora uma nova alteração do padrão de financiamento do MST e aquelas perguntas levantadas há quase 10 anos parecem ainda atuais.

  6. -> “quais mutações ocorreram no interior do mst para proceder a esta ação?”

    A captação efetuada via mercado financeiro não se destina a financiar a luta pela terra (até porque isto seria inviável quanto ao retorno do investimento), tampouco para consolidar novos assentamentos (também sem garantia para rentabilização no médio prazo).

    Trata-se de financiamento de empresas já lucrativas e com boas possibilidades de expansão: as milionárias cooperativas do MST.

    Tão famosas por seu marketing ativista (a marca do MST como maior produtor de arroz orgânico da AL), quanto desconhecidas em seu funcionamento interno (nem mesmo o prospecto da captação foi acompanhado de laudo de auditoria independente para autenticar a posição financeira das cooperativas envolvidas).

    Bem ao largo da Luta de Classes, tudo se resume a negócios, nada além de negócios.

    Contudo, há uma questão de fundo crucial: o auto-financiamento das lutas e dos movimentos.

    Como concretizá-lo?

  7. Tom,

    A ironia é uma coisa séria.

    Tem sido uma constante que organizações surgidas na luta de classes se convertam em empresas capitalistas. Foi o que sucedeu com as cooperativas. Foi o que sucedeu depois com os sindicatos, que detêm consideráveis empreendimentos, hoje sobretudo na área financeira, nomeadamente fundos de pensões. Vários partidos da extrema-esquerda, e não só no Brasil, são subsidiados pelos fundos de pensões dos sindicatos que controlam. Os movimentos sociais pretenderam romper com este tipo de práticas, e parece que o conseguiram durante algum tempo.

    Mas em Agosto de 2010 o Passa Palavra publicou aquele que, na minha opinião, é um dos seus artigos mais importantes, «Entre o fogo e a panela: movimentos sociais e burocratização». A burocratização interna dos movimentos sociais foi uma condição da sua conversão em empresas capitalistas e, completando o círculo, a conversão dos movimentos sociais em empresas capitalistas acelerou o processo da sua burocratização. Hoje os movimentos sociais fazem parte do cemitério da luta de classes e, simultaneamente, do infantário das novas empresas.

    Especializando-se na agro-ecologia e na produção de alimentos ditos biológicos, o MST ocupa dois mundos. Do lado da produção, explora a mais-valia absoluta característica da agricultura familiar. Do lado do escoamento dos produtos, aproveita o mercado de classe média-alta, pronta a pagar mais caro por aquele tipo de alimentos. Penso que aqueles que até hoje investiram mais de 17 milhões de reais fizeram um bom negócio.

    Quanto à luta de classes…

  8. Outro ponto é sobre a repartição dos valores captados pela expedição de Recebíveis do Agronegócio.
    Afinal, como esse dinheiro é dividido dentro do Movimento? Uma burocracia decide (e se apossa) os rumos dessa grana?
    E a base empobrecida de agricultores familiares nos acampamentos e assentamentos?

  9. Tom,

    No prospecto da operação está especificado o valor do CRA correspondente a cada cooperativa, bem como cada produto lastro.
    Em comentário anterior relacionei estes dados, acrescentando outras informações relevantes (inclusive faturamento anual, quando disponível).
    Está disponível na mídia o detalhamento de como as cooperativas pretendem usar os recursos obtidos.

    *** *** ***

    《Num movimento, tanto pela terra como por teto, transporte ou por qualquer outro objetivo, a vida das pessoas tem de ser diferente desde o início, elas têm de se organizar de uma maneira que rompa com a sociedade dominante; em todas as dimensões de sua vida tem de haver mais autonomia e mais coletividade. Ou seja, as formas de organização coletiva têm desde o início de ser distintas das que vigoram no capitalismo.》

    João Bernardo,

    • em seu poderoso ascenso de 1978 a 1989, a força adquirida pelo movimento sindical foi tamanha que os trabalhadores conquistaram representantes, eleitos pelas respectivas categorias, para os Conselhos de Administração das empresas estatais, assim como de seus Fundos de Pensão.

    • com isto, na prática, ganharam um relativo nível de controle sobre os meios de produção.

    • sendo que no caso dos Fundos de Pensão este controle se amplia às diversas empresas nas quais os fundos tem participação, não só através de seus investimentos como inclusive na gestão direta em cargos de direção.

    • ENTRETANTO tal nível de controle das empresas nunca foi revertido em prol da luta concreta por mudanças estruturais.
    • MUITO PELO CONTRÁRIO, foi exercido justamente em nome da manutenção da ordem econômica e política.

    Ou seja: não chegamos à catástrofe atual por obra de amadores, e sim por décadas de um bem calculado, e bem executado, projeto de hegemonia às avessas: os representantes dos trabalhadores gerindo os interesses do grande empresariado.

    AINDA ASSIM, desta catástrofe há lições importantes a serem assimiladas.

    Entre elas: toda e qualquer luta deve ter como horizonte o pós-capitalismo, e a estratégia geral exige conquistar os meios de produção, sendo a terra o meio de produção primordial, do qual todos os demais decorrem.

  10. Vai, classe trabalhadora! Toma tudo aquilo que lhe é de direito! Toma, inclusive, as rédeas do capital financeiro! Mostra para os capitalistas que o Capital pode ser gerido sem eles!

  11. gamer,

    Li com atenção o texto do link que você postou. Aliás também li o artigo referenciado do Passa Palavra de 2010, aborda questões decisivas e hoje ainda mais negligenciadas que na época.

    João Paulo Pacífico sinceramente acha se tratar de uma revolução no Mercado de Capitais.

    Seria?

    No que tange a luta concreta está longínquo de algo próximo a isto. Apenas e tão somente abertura de novos mercados. Como se sabe, tudo pode ser securitizado e também de tudo se pode gerar derivativos.

    Já quanto a ser ou não um bom negócio, recebi uma breve observação de Jeff Jinping (Analista Master de Negócios Sociais Corporativos):

    • uma taxa pré de 5,5% aa com prazo de 5 anos, num cenário de elevação da SELIC, projetada acima de 8% em 2022, não se apresenta no momento entre as melhores alternativas de investimento.

    Quem sabe não seja o caso de financiar uma cooperativa de entregadores, desde o desenvolvimento do aplicativo até a implantação da cozinha, e mesmo as próprias motocas.

    Ou não?! Afinal, a criatividade do Capital é tão imensa quanto sua voracidade por acumulação.

  12. arkx,
    “Quem sabe não seja o caso de financiar uma cooperativa de entregadores, desde o desenvolvimento do aplicativo até a implantação da cozinha, e mesmo as próprias motocas.”
    isso é o que a classe trabalhadora já faz atualmente. Auto-financia sua própria existência com formas cada vez mais intrincadas de exploração. Acredito que a proposta revolucionária se trata de outra coisa. Mas a eficácia da propaganda hoje está em tratar como revolucionárias coisas banais e sentidos comuns. Prefiro ficar em casa e ler um livro, se a construção do socialismo passa pelo financiamento de empresas populares.

  13. gamer,

    Claro que tentei fazer um jogo irônico. Pois uma coisa é financiar cooperativas já bem sucedidas e milionárias, outra bem mais arriscada seria bancar do zero uma empresa coletiva e popular.

    Mas nem o MST, e muito menos o gestor-companheiro, estão envolvidos na construção do socialismo.

    A construção do socialismo não passa por financiar empresas populares, e sim pela posse popular dos meios de produção.

    Em termos práticos isto implica no efetivo controle coletivo de todas as empresas atualmente existentes.

    Entretanto não para gerir o Capital, e sim para nos emanciparmos do Trabalho, sem o qual nenhum Capital pode se reproduzir.

    A existência do Comunismo exige a abolição da Economia, com as relações sociais passando a ter como fundamento a atividade criativa.

    Assunto complexo e polêmico.

  14. Achei um vídeo no youtube de um canal que fala essas coisas chatas de empreendedorismo, mercado financeiro, investimentos etc. e, adivinhem só, eles elogiam essa nova empreitada do MST. Até fazem algumas chacotas com o anticomunismo doentio dos bolsonaristas. (https://www.youtube.com/watch?v=6bb26UkiCD8) É como se dissessem: “Acham mesmo que o MST é alguma ameaça ao capitalismo?”.
    Interessante que há algumas semanas o MTST, movimento irmão do MST, ocupou por algumas horas a bolsa de valores de São Paulo denunciando a “farra” do mercado financeiro enquanto milhões passam fome no Brasil. Já o MST achou uma nova forma de ocupar a bolsa, de um jeito que não desagrada os Faria Limers.

  15. Acionista do bem,

    Suas conclusões são precipitadas. Não imagino que os integrantes e lideranças do MST acham que a bandeira do movimento, de reforma agrária e cumprir a Constituição de 88 sejam ameaça ao capitalismo. Então a crítica bate num espantalho. Como disse um basco visitando um assentamento do MST, isso aqui na Europa não é nada radical, isso lá se chama social-democracia.

    O financiamento de cooperativas em assentamento do MST via CRA desagradou sim poderosos Faria Limers… que, segundo relatos de quem esteve envolvido no lançamento das CRAs, tentaram impedir de variadas formas.

    Quando era o Pronaf não se falava nada. Muita tempestade em copo de água. O que existe de novo, e isso ninguém fala, é que quem está ‘investindo’ nessas CRAs, comprando esses títulos, na verdade está fazendo mais próximo a uma doação às cooperativas do que investimento. Em termos de retorno (pelo menos para quem pode investir uns 1000 reais pra cima), há títulos mais rentáveis no mercado (os títulos públicos por exemplo). A escolha de comprar esse CRAs, mais do que financeira, é política. Do ponto de vista de quem comprou, ele está doando a diferença entre um investimento mais rentável e o retorno da CRA para essas cooperativas.

  16. como assim, Leo V, ninguém fala sobre isso? O artigo inteiro é a respeito de como o mundo empresarial está integrando a política como forma de absorver mais capital da exígua poupança atual dos trabalhadores, além de dinamizar os seus processos internos de governança. Se antes o objetivo era bancarizar a população, agora se trata de conseguir que ela invista ativamente, e para isso a gameficação e a politização dos investimentos é uma excelente ferramenta. Por outro lado, passamos do paradigma do consumo politizado para o investimento politizado. Também não importava se o sapato era o melhor produto do mercado, mas sim se a cada sapato comprado uma árvore era plantada.
    Enfim, acho que “ninguém fala sobre isso” porque “ninguém” quer escutar.
    Por outro lado, o interesse aqui não é demonstrar que o MST deixou de ser uma organização de luta contra o capitalismo, como você bem indica. O que merece ser exposto são as formas como as mesmas organizações que historicamente cumpriram um papel na luta contra o capitalismo passam a ser a ponta de lança de novas modalidades de integração capitalista, como deixa claro o sujeito que você menciona, que criou um “storytelling” emocionante segundo o qual ele teve que brigar muito contra gente poderosa para que o MST pudesse finalmente se aproveitar do mercado financeiro. Uma história emocionante. Certamente mais interessante do que disponibilizar um PIX para doações.

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