Por Passa Palavra

No ano de 2012, na embaixada equatoriana em Londres, Julian Assange proferiu as seguintes palavras:

“Todos os dias, as pessoas nos ensinam que a democracia é liberdade de expressão. Nós, o povo, acreditamos nisso e paramos de nos manifestar e de discordar. Quando somos distraídos ou pacificados, quando nos afastamos uns dos outros, não somos mais livres. Pois a verdadeira democracia é a soma de quatro resistências. Se você não se manifestar, se desistir do que é exclusivamente seu como ser humano, se entregar sua consciência, sua independência, seu senso do que é certo e do que é errado, em outras palavras, talvez sem saber, você se torna passivo e controlado, e incapaz de defender a si mesmo e àqueles que ama. As pessoas geralmente perguntam: O que posso fazer? A resposta não é tão difícil. Aprenda como o mundo funciona. Conteste as declarações e as intenções daqueles que tentam nos controlar por trás da fachada da democracia ou da monarquia.” [1]

Desde o ano de 2010, o governo norte-americano promove um cerco contra Julian Assange, acusando-o de espionagem em virtude do vazamento de uma série de documentos confidenciais. Em 2019, por sua vez, Assange – que à época se encontrava em um asilo político na embaixada do Equador em Londres, concedido pelo ex-presidente do país, Rafael Correa – foi preso no Reino Unido sob a acusação de ser um bail jumper – uma espécie de “fugitivo sob fiança”. À época do ocorrido, já alertávamos como a revogação do exílio concedido a Assange se inseria enquanto uma forma de vingança do presidente do Equador em exercício à época, Lenín Moreno, que tivera seus crimes expostos.

De 2019 até o presente, o cerco instaurado sobre Assange tornou-se mais sufocante. Assange passou a ser mantido em uma prisão de segurança máxima em Londres, em situação de tortura e desumanização. Em uma carta escrita no ano de 2021, a própria mãe de Julian Assange, Christine Ann Assange, alegava que o filho se encontrava sem qualquer cuidado médico, sanitário e sob torturas psicológicas. Além disso, em Outubro de 2021, iniciou-se também um processo em prol da extradição de Assange para os Estados Unidos. Caso a extradição seja aprovada, Assange será submetido a uma pena de aproximadamente 175 anos de prisão.

Deve-se recordar, entretanto, que além da incidência de uma pena exacerbante, um dos advogados de Julian Assange divulgou que, desde o período em que Assange estivera no exílio na embaixada equatoriana, o governo norte-americano buscava a elaboração de um plano que tinha enquanto fim a morte do ativista.

Todo esse processo, em conjunto com a falta de assistência médica e o forte stress incidente sobre Assange, levaram-no ao sofrimento de um acidente vascular isquêmico no dia 27 de Outubro de 2021 – situação essa que agravou seu quadro de saúde, levando-o a sofrer sequelas físicas, de memória e danos neurológicos.

Em 2022, o Reino Unido aprovou a medida de extradição de Assange, que conseguiu um último recurso, a ser julgado em 2024. O processo de julgamento se iniciou no dia 20 de Fevereiro, mas o ativista não pôde estar presente por conta da fragilidade de seu estado de saúde. A esposa de Assange, Stella Assange, afirma que, caso a resposta ao recurso seja negativa, o ativista recorrerá à Corte Europeia de Direitos Humanos, alertando que a extradição aos Estados Unidos culminará em sua morte.

*

Alertamos constantemente, desde o momento em que se deu a prisão de Assange em 2019 – processo esse que se deu de maneira simultânea à prisão do desenvolvedor sueco de software Ola Bini, é necessário destacar –, que tal processo se consolida enquanto uma forma de calar e estabelecer o exemplo do que acontece com aqueles que tentam trazer à tona os crimes cometidos por políticos e/ou altos gestores do Estado.

A fala de Assange em 2012, destacada no início desse artigo, possui grande peso por escancarar a situação vivenciada pelo ativista: o amordaçamento por um modelo “democrático” que não aceita nenhuma forma de contestação às suas ações de controle e pacificação. Em um editorial publicado em 2021, quando a Suprema Corte Britânica admitiu a apelação do governo dos Estados Unidos contra a rejeição à extradição de Assange, escrevemos que

“[…] nas democracias é mais difícil recorrer à repressão violenta contra um número elevado de militantes, a não ser que as autoridades tenham êxito na conquista da opinião pública, e mesmo assim é preciso tentar manter as coisas em segredo, a exemplo das gravíssimas e infames violações de direitos humanos cometidas pelo governo dos Estados Unidos contra membros de grupos terroristas islâmicos. Essa dificuldade aumenta quando as ações dos ativistas são apoiadas pela opinião pública e eles conseguem agir anonimamente e sem deixar rastros. Os capitalistas tentam então pinçar aqueles entre eles que, por uma razão ou outra, sejam mais vulneráveis, fáceis de identificar e, caso sejam presos, possam não apenas ser pressionados a fornecer informações sobre os demais como também servir de exemplo, neutralizando a mobilização coletiva por meio da intimidação Além disso, os capitalistas buscam constranger qualquer forma de ativismo por meio de campanhas caluniosas e difamatórias, bem como estabelecer precedentes judiciais e uma cultura avessa à militância anticapitalista, moldando a opinião pública para que se acostume a reprovar o comportamento daqueles que se levantam e decidem agir.”

A perseguição proferida sobre Assange, nesse sentido, bem como tentativas de destruição de sua reputação – como foi o caso da acusação de estupro incidente sobre o ativista no ano de 2010 – explicitam o funcionamento dessa máquina que tem  como único objetivo o controle e a busca constante por sua expansão e fortalecimento.

Em união à perseguição contra Assange, vêm medidas como a prisão de Ola Bini – mencionada em parágrafos anteriores – e medidas de bloqueio de softwares – como o bloqueio do Tor Browser na Rússia em 2021 –, que frisam esse interesse de interromper qualquer ação de rompimento ou contestação à ordem vigente.

Devemos nos opor, veementemente à extradição de Julian Assange. Estabelecemos aqui nossa solidariedade, a ele e a todos os perseguidos e encarcerados pelo ordenamento capitalista. Como o mesmo disse, ainda na fala na embaixada em 2012:

“Se você não se manifestar, […] se entregar sua consciência, sua independência, seu senso do que é certo e do que é errado, em outras palavras, talvez sem saber, você se torna passivo e controlado, e incapaz de defender a si mesmo e àqueles que ama.”.

Hoje, levam Assange. E amanhã?

Notas:

[1] O vídeo referente a essa fala de Assange pode ser visto aqui .

2 COMENTÁRIOS

  1. Tenho pensado um tanto sobre o caso Assange e como em alguma medida ele simboliza a geração formada pelas lutas altermunistas.
    Tínhamos grandes esperanças na democratização das comunicações permitidas pelos meios digitais, que de fato permitiram a troca entre ativistas do mundo todo, formaram-se redes, coletivos, inovaram-se práticas. O wikileaks era o exemplo de como era possível a ação de pequenos grupos desafiar as classes capitalistas, desetabilizar Estados.
    A situação atual de derrota, no isolamento quase completo, sendo acossado pelas democracias liberais, abondonado pela maioria dos esquerdistas, é emblemática do fim dos sonhos dessa geração.

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