Por Passa Palavra

Atualmente confrontam-se na Palestina dois fascismos. Isto não é inédito. Entre as duas guerras mundiais, a vida política da Romênia foi regida pela luta mortal, no sentido exato do termo, entre dois fascismos. De igual modo, na mesma época a vida política da Áustria foi consumida pela luta mortal entre um fascismo pró-italiano e um fascismo pró-alemão. E a segunda guerra mundial iniciou-se com a invasão da Polônia fascista pelo Terceiro Reich nacional-socialista.

Na Palestina temos hoje de um lado o Hamas, uma organização internamente capitalista, defensora de um fascismo religioso. Do outro lado temos o governo do Estado de Israel, constituído por uma aliança da extrema-direita com dois partidos do fascismo religioso.

Nesta situação, existem dois perigos simétricos.

De um lado, há o perigo de confundir o Hamas com o povo palestino. Ora, sucessivas sondagens de opinião revelaram que uma percentagem crescente dos palestinos se posiciona contra o Hamas. Sobre isso, um survey realizado em Outubro em regiões da Cisjordânia e de Gaza aponta para um fortíssimo descontentamento da população em relação ao governo liderado pelo Hamas. As queixas apresentadas se desdobram, desde a atribuição da escassez de alimentos à má gestão do governo até à falta de liberdade de expressão.

Essa pesquisa, além de indicar uma queda brusca na aprovação em relação ao Hamas – apenas 27% dos entrevistados em Gaza lhe expressou apoio, além de que nesta porcentagem de aprovação se destaca a parcela de moradores que ainda têm a condição de cobrir financeiramente as suas despesas básicas –, aponta também para o fato de que 73% dos habitantes de Gaza são favoráveis a uma solução pacífica para os conflitos entre Israel e Palestina.

Além disso, com a operação militar de 7 de Outubro o Hamas escolheu um método de luta que desde início implicou o sacrifício da população de Gaza. O 7 de Outubro não foi uma operação de guerrilha, o que numa das regiões mais densamente povoadas do mundo exigiria o aproveitamento das contradições internas de Israel mediante uma persistente ação clandestina de contato e aliança com as pessoas da esquerda israelita. Ora, foi o contrário que o Hamas fez, chacinando e aprisionando como reféns pessoas de uma zona em que os habitantes eram majoritariamente simpáticos à causa palestina.

O Hamas sabia que a retaliação israelita não se faria esperar, e decidira defender-se por detrás de um escudo, que é a população civil de Gaza. É o que tem sucedido. Contra a selvajeria genocida do governo de Israel, a perversa astúcia do Hamas.

Aquela esquerda que hoje aplaude o Hamas, confundindo-o com o povo palestino em luta pela defesa não só dos seus direitos, mas da sua sobrevivência, é idêntica àquela outra esquerda que entre as duas guerras mundiais aplaudia o partido de Hitler por considerar que ele lutava contra o imperialismo franco-britânico.

Mas do outro lado há o perigo, amplamente demonstrado, de estabelecer a confusão entre o anti-sionismo e um anti-semitismo. Ora, o anti-semitismo significa um racismo anti-judaico, a hostilidade aos judeus enquanto povo. Mas o anti-sionismo é algo completamente diferente e significa a oposição a uma forma extrema de nacionalismo. Um dos ardis mais persistentemente usados pelo Estado de Israel e pelos seus defensores consiste em acusar de anti-semitismo aqueles que se posicionam contra o sionismo, acusar de racismo aqueles que atacam uma dada orientação política.

Hoje, quando o governo do Estado de Israel depende do apoio de dois partidos do fascismo religioso, é especialmente grave a confusão deliberadamente estabelecida entre anti-sionismo e anti-semitismo.

É contra estes dois perigos que temos de nos posicionar. É urgente defender o povo palestino contra a barbárie israelita, mas ao mesmo tempo desmistificar e atacar o Hamas.

É urgente desmistificar as acusações de anti-semitismo dirigidas contra aqueles que se posicionam contra o nacionalismo sionista e contra o horrível massacre da população de Gaza.

5 COMENTÁRIOS

  1. Caros,

    Mais uma vez meus parabéns pela análise lúcida! Apenas tenho uma observação, que, acredito eu, deve-se ao fato de o Passa Palavra ser um coletivo que tem membros do Brasil e de Portugal (talvez o texto tenha sido escrito por membros deste país, e não daquele?): em português brasileiro a palavra “israelita” é sinônimo de “judeu”, enquanto que é a palavra “israelense” que é utilizada para referir-se ou a alguém cuja cidadania está vinculada ao estado de Israel, ou ao próprio estado de Israel; pode ser que em Português de Portugal seja diferente. Falo isso apenas para tentar evitar mal-entendidos, pois sei que quando o texto afirma “O Hamas sabia que a retaliação israelita não se faria esperar”, sei que o “israelita” refere-se à retaliação por parte do estado de Israel (em Português brasileiro diríamos “a retaliação israelense”), e não à retaliação dos judeus como um todo.

    Faço essa observação porque estamos num período de discussões muito acaloradas, e de crescente islamofobia e antissemitismo em todos os lugares devido a esse conflito. Nesse sentido, para mim é muito claro, pelo contexto do artigo, que a palavra “israelita” refere-se ao estado de Israel, mas talvez uma leitora ou leitor judeu brasileiro interprete de outra forma; são muitos os ataques que os judeus têm recebido, principalmente de setores de “esquerda” (com muitas aspas), dos quais o Passa Palavra felizmente não é parte, como já foi dito tantas vezes aqui.

    Um abraço!

  2. No dia 4 de Novembro
    9500 / (1400 + 341) = 5,5
    1 = 5,5

    No dia 9 de Dezembro
    17.700 / (1400 + 420) = 9,7
    1 = 9,7

  3. JB, em sua fase esotérico-neopitagórica & necropolítica, brincando macabramente de algoritmizar cadáveres.
    Periga de desestabilizar Netanyahu…

  4. O jornal El País noticia hoje que a escritora e jornalista Masha Gessen, judia de origem russo-americana, recebeu há alguns meses o prémio de pensamento político Hannah Arendt, no valor de 10.000 euros, concedido na Alemanha. Mas o prémio, que lhe devia ter sido entregue pessoalmente hoje, foi cancelado porque Masha Gessen escreveu no último fim-de-semana um artigo no New Yorker sobre a guerra em Gaza, em que afirmava nomeadamente o seguinte: «Durante los últimos 17 años, Gaza ha sido un recinto amurallado, empobrecido e hiperpoblado en el que sólo una pequeña parte de la población tenía derecho a salir, aunque fuera por poco tiempo; en otras palabras, un gueto. No como el gueto judío de Venecia o un gueto urbano de Estados Unidos, sino como un gueto judío de un país de Europa del Este ocupado por la Alemania nazi». A escritora judia foi acusada de anti-semitismo e o prémio foi-lhe retirado.

    Mais uma judia acusada de anti-semitismo. Apesar disto, há quem continue a confundir a crítica ao sionismo com o anti-semitismo.

  5. Achei um texto melhor do que o anterior, a crítica ao Hamas é correta, mas falta uma análise séria sobre o sionismo e seus antecedentes históricos, para além da extrema direita no poder. Na atual conjuntura, não é mais possível falar em simetria ( se algum dia isso fosse possível), sem levar em conta que o atual massacre israelense diz muito mais sobre o caráter da política colonialista sionista, engendrada também pelos trabalhistas. A esquerda sionista tem uma posição ambígua sobre o massacre, não por que é o Hamas, mas pelo seu nacionalismo judaico.

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