Dinheiro

Por Antônio Celso

 

É possível argumentar que, pelo menos desde início da década de 2010, a economia da qual o Brasil mais depende é a chinesa. Seja pela demanda insaciável pelas commodities agro-minerais, pelos bens industriais a preços baixos, ou, mais recentemente, pelos vultosos investimentos em infraestrutura e em concessionárias, os ventos que sopram em Xangai e em Pequim ditam os rumos da embarcação brasileira. A notícia do potencial default da companhia de construção civil Evergrande ressoou como o trovão que pressagia a tempestade.

Muitos já estão familiarizados com os números da Evergrande, mas eles impressionam tanto que vale uma breve recapitulação. Sua dívida gira em torno de U$ 300 bilhões, incluídos aí ao menos U$ 20 bilhões de investidores estrangeiros. Entre seus ativos estão arrolados 1.300 projetos de construção civil em mais de 280 cidades chinesas. A empresa é além disso responsável por 200 mil empregos diretos e 3,8 milhões indiretos.

Criada há mais de vinte anos, seu gigantismo foi, contudo, forjado na esteira da recuperação chinesa da crise de 2008. Usando o sistema de crédito estatal para oferecer crédito quase que sem limite, a China proporcionou um crescimento que igualmente parecia sem limite para alguns setores da economia – aí incluído o setor habitacional.

À maneira dos grandes romances de família do século XIX, a história da sua ascensão também é a história de sua queda. Em 2021, o governo chinês anunciou a adoção de medidas regulatórias conhecidas como “Three Red Lines”, que permite o crescimento da dívida apenas de empresas abaixo de certo limite de solidez financeira. Na prática, isso significou uma desalavancagem forçada dos setores mais dependente de crédito, onde se inclui o imobiliário. Esfriou, por tabela, o crescimento de preços imobiliários – somando um insulto à injúria em relação à capacidade financeira da Evergrande, que já fora afetada inicialmente pelo Three Red Lines.

O caso Evergrande toca em dois pontos sensíveis do chamado modelo chinês e é por isso que tem deixado apreensivos investidores, economistas e políticos ao redor do mundo. O primeiro é a já aludida hipertrofia da empresa, que faz com que sua derrocada seja um fator de risco para quase toda a economia. Bancos credores, investidores, fornecedores, e os compradores de imóveis: há toda uma ecologia a sua volta. A hipertrofia parece ser antes um modelo do que fruto do acaso, o que se nota pelas gigantes da tecnologia como Alibaba, Tecent, Huawei, entre outras. Nos últimos meses, medidas têm sido tomadas para coibir o poder excessivo, econômico e político, destas empresas. O caso talvez mais emblemático seja o de Jack Ma, co-fundador do Grupo Alibaba.

O segundo ponto é o modelo de crescimento baseado em crédito. Alguns analistas caracterizam o modelo chinês como de “alta poupança, alto investimento”. Contudo, enquanto isso inicialmente se dava com baixo endividamento, nos anos 2010 pra frente passou a requerer volumes altos e crescentes de dívida. Entre 1980 e 2010, a economia chinesa dobrou de tamanho com baixo endividamento, mas entre 2010 e 2020, dobrar de tamanho só foi possível ao triplicar o volume total de crédito, chegando a 280% do PIB. Uma nova rodada de crescimento nestes moldes é vista como altamente improvável, e inclusive o governo chinês há muito pretende mover a economia de alto investimento para alto consumo.

Recentemente, esse problema passou a ser ainda mais global. Investidores estrangeiros, aproveitando a expressiva expansão monetária da crise do COVID, investiram em títulos chineses em volumes recordes. U$ 590 bilhões foram enviados à China no primeiro trimestres de 2021, e como resultado o valor de títulos chineses em posse de estrangeiros cresceu 60% em relação ao ano anterior.

Tomado como um todo, o pós-crise chinês tem tudo para representar uma mudança de modelo, menos dependente de centralização da atividade econômica em poucas empresas e de investimento baseado em crédito. E é nisso em que pode mais repercutir na economia global para além da volatilidade curto-prazista dos mercados financeiros. Em particular, investidores terão que buscar outro destino para seus investimentos, possivelmente beneficiando economias emergentes como o Brasil. Esse efeito é contrabalançado se o abandono do modelo de as altas taxas de investimento vingar, o que levará ao fim do ciclo altista no preço das commodities.

O fim da Evergrande não será, como muitos observadores internacionais temeram, uma nova Lehman Brothers, precisamente porque o dirigismo estatal inato à China não permitirá uma saída à la mercado. Mas isso não significará um retorno ao “business as usual”.

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