Por Norman X. Finkelstein [*]

Apresentação do tradutor: O texto abaixo é a parte final das mais de cem páginas do quinto capítulo do livro de Norman X. Finkelstein, I’ll Burn That Bridge When I Get To It! – Heretical Thoughts on Identity Politics, Cancel Culture, and Academic Freedom, publicado em 2023 pela editora Sublation. Como ele relata em entrevistas, após ver o papel na fragmentação do movimento de classe que emergia em torno da candidatura presidencial de Bernie Sanders em 2020, e de minar essa própria candidatura, Norman Finkelstein percebeu que a política identitária não era uma mera tendência passageira circunscrita aos campi universitários, mas sim algo sério que exercia um papel claro na luta de classes em favor das classes dominantes. Ele passou então a estudar os principais ícones da política identitária estadounidense. Nesse capítulo, do qual o leitor aqui tem acesso aos cerca de 9% finais, Norman X. Finkelstein analisa as obras e as práticas de Ibram X. Kendi, um professor da Universidade de Boston, bastante proeminente como autor best-seller e como gestor de um centro de pesquisa que recebe milhões em aportes.

“E se nenhum grupo na história”, pergunta Kendi retoricamente, “ganhou a sua liberdade apelando à consciência moral dos seus opressores?” “O poder”, prega ele, “nunca abrirá mão de seu próprio interesse” [1]. É correto, embora o original de [Frederick] Douglass — “O poder nunca concede nada sem ser forçado; nunca o fez e nunca o fará” — seja bem mais lírico. Mas serão os apelos à consciência, segundo as panacéias obstinadas de Kendi, irrelevantes na política? Uma minoria racial não pode seriamente aspirar ao poder político e a mudanças substanciais, exceto com uma ampla coalizão, ancorada numa mistura sutil de interesse material e simpatia moral — numa palavra, na solidariedade mútua. Sim, a luta de classes tem a ver com o engrandecimento do interesse material, mas também deve ser lembrado que, nos anais dessa luta, muitos trabalhadores entregaram, consciente e voluntariamente, a sua vida — o interesse material final — à Causa. No seu testamento político, Here I Stand, Paul Robeson afirmou a sua crença nos “princípios do socialismo científico”. Ainda assim, ele emocionaria os comunistas calejados e os trabalhadores castigados pelo tempo, lotados em salas de concerto e arquibancadas enquanto cantava

Cada vez que sinto o espírito,
Movendo-se em meu coração,
Eu rezo.

Qualquer pessoa que tenha participado de uma manifestação por uma causa que abrange mais do que a circunferência do seu umbigo pode atestar esse — ouso dizer? — sentimento místico, essa elevação espiritual, de determinação coletiva. No caso em questão, o racismo é real, os seus efeitos odiosos são reais; a situação dos afro-americanos não se reduz à opressão de classe. Para forjar um vínculo inabalável entre negros e brancos, capaz de resistir às inevitáveis provocações e maquinações (divide et impera: é assim que as classes dominantes governam), ele deve surgir não apenas do interesse material mútuo — embora esta seja e deva ser a base — mas também e não incidentalmente, de um reconhecimento moral genuíno, por parte dos brancos, dos fardos especiais depositados pela história nas costas dos negros e, concomitantemente, das destinações especiais — compensatórias, suplementares, corretivas — que precisam ser concedidas aos negros se pretende-se que esse legado seja algum dia superado. Uma redistribuição massiva da riqueza, digamos, dos 50 por cento do topo para os 50 por cento da base, mesmo se distribuída de forma uniforme, ainda relegaria os negros em massa para o fundo da escala, embora num piso mais alto. O predicado de uma redistribuição equitativa deve ser a sua redistribuição desigual, com todos sendo beneficiados, mas aqueles que estão nos escalões mais baixos se beneficiando mais do que outros. Esse foi o acordo tácito e a promessa da campanha de Bernie Sanders: todos os que não têm se beneficiariam da sua plataforma — Medicare para Todos, abolição da dívida estudantil, ensino superior gratuito, investimento maciço em infraestruturas públicas e empregos, o New Deal Verde —, mas os negros se beneficiariam desproporcionalmente, uma vez que eles e as suas comunidades eram os mais necessitados [2]. Uma ampla coligação cega à desigualdade racial iria inevitavelmente fragmentar-se à medida que os negros se retirassem por ainda se perceberem, em última análise, relegados, ainda deixados no fundo. Cabe aos brancos dar o salto moral — nascido não da culpa psíquica à la Ta-Nehisi Coates, mas, em vez disso, do dado simples, indiscutível e factual de que, historicamente, as cartas foram jogadas contra os negros; deixar que seus melhores anjos guiem os seus piores; não hesitar em uma destinação especial que, com base em um cálculo limitado de interesse material, os penalizaria, pois privilegiaria os negros. O fato de os brancos poderem estar à altura da ocasião foi provisoriamente demonstrado quando o assassinato de George Floyd trouxe enxames de jovens brancos às ruas em um desgosto visceral pela atrocidade racista e, simultaneamente, a indignação de brancos e negros se fundiu em indignação comum contra um sistema desumano que, sem ligar para a cor na sua rapacidade, explorou impiedosamente a todos. As semanas de manifestações revelaram uma solidariedade branco-negra alicerçada no interesse comum, mas também consciente dos encargos especiais suportados pelos negros. Na verdade, num paradoxo exemplar dos percursos imprevisíveis da política, foi o espírito que abriu o caminho para a matéria: só depois de os brancos terem se juntado aos negros para protestarem contra esse racismo é que o seu interesse mútuo de classe, até então latente e submerso, se tornou manifesto.

Quando não está denunciando alguém abertamente, Kendi despreza “a persuasão moral e educacional [que] se concentra em persuadir os brancos, em apelar à sua consciência moral através do horror e à sua razão através da educação”. No fundo e na totalidade, ele professa que o racismo surge dos interesses de classe antagônicos entre os brancos exploradores e os negros explorados. Não se poderia implorar aos brancos que deixem de lado um sistema racista se eles se beneficiam materialmente dele:

…a persuasão educacional (…) tem sido baseada na falsa concepção do problema racial: a ideia de que a ignorância e o ódio levam a ideias racistas, as quais levam a políticas racistas. Na verdade, o interesse próprio leva a políticas racistas, que levam a ideias racistas que levam a toda a ignorância e ódio [3].

Mas se isto fosse verdade, é mais que um mistério a razão pela qual — para além dos robustos honorários — Kendi dá palestras perante audiências brancas sobre a “história das ideias racistas na América” e sobre “como ser um antirracista”. O seu objetivo político, diz ele, é “divulgar e educar sobre a política racista desvelada e as políticas corretivas antirracistas” [4]. Pelas suas premissas, no entanto, ele não poderia esperar realmente convertê-los: ele não afirmou que os interesses materiais desses participantes brancos os tornam imunes à “persuasão moral e educacional”? “O conhecimento só é poder se o conhecimento for colocado na luta pelo poder”, afirma Ibram X.:

Mudar mentes não é um movimento social. Criticar o racismo não é ativismo. Mudar mentes não é ativismo. Um ativista produz poder e mudança política, não mudança mental. Se uma pessoa não tem uma prática de transformação de poder ou política, então essa pessoa não é uma ativista [5].

Pelo amor de Deus, então por que ele está lecionando em Harvard? O conhecimento dele (por assim dizer) não pode sequer alterar o pensamento dos ouvintes, muito menos envolvê-los na luta pelo poder negro e pela justiça econômica. Pela sua própria lógica, ele não está sendo — por acaso também ele nunca foi — um “ativista”; ele é apenas um fanfarrão[6]. Em alguns momentos e mesmo que apenas de passagem, Kendi postula que, em sua maioria, pessoas negras e brancas foram igualmente vitimadas, e teriam a ganhar desmantelando um sistema econômico manipulado pelos super-ricos brancos (“poder racista”), e que as elites dominantes brancas propagam o racismo para semear a divisão artificial entre trabalhadores brancos e negros. Mas esse reconhecimento não é apenas fugaz; também não pode ser conciliado com seus ambientes profissionais preferidos. Seu público branco, groupies, patrocinadores e benfeitores parecem constituir muito mais o chique 1% do que os surrados 99%. Qual é o interesse deles em se converterem ao antirracismo? Além disso, a única proposição política real de Kendi visa a disparidade racial na distribuição de rendimento/riqueza — ou seja, a maior representação existente de brancos do que de negros nos escalões mais elevados — e centra-se na ação afirmativa como cura para tudo [7]. Contudo, negros e brancos enquanto grupos não partilham um interesse material em eliminar tal disparidade; os brancos não têm nada a ganhar aí; na verdade, quando se trata de ação afirmativa, eles — ou, pelo menos, os homens brancos — incontestavelmente têm a perder. É bem possível que os brancos despossuídos apoiem uma redistribuição massiva da riqueza que seja parcialmente desigual, ou seja, uma redistribuição em que todos os despossuídos se beneficiem significativamente, mesmo que os negros se beneficiem mais; é impossível, no entanto, que os brancos despossuídos saiam às ruas apenas para equalizar a disparidade racial de rendimento/riqueza. Dito de outra forma, se a proposta prática de Kendi para erradicar as disparidades raciais for implementada, deve depender não da construção de uma ampla coalizão material de brancos e negros despossuídos, mas, ironicamente, de atingir a “consciência moral” branca que ele ridiculariza; na verdade, ironia das ironias, de atingir a consciência do “poder racista” branco. Com que outra base ele pode esperar eliminar a disparidade racial? Sozinhos e isolados, deixados por conta própria, os negros não conseguem fazer isso; sem algo a ganhar, os brancos despossuídos não apoiarão tal exigência. Na verdade, o 1% branco pode realmente ser receptivo a esse apelo para acabar com as disparidades raciais. No entanto, não para combater o racismo, mas, pelo contrário, porque, acima e além de aliviar as suas afetuosas consciências woke [8], satisfazer à exigência fundamental de Kendi sobre o “poder branco” deixaria intacto o essencial do sistema. O 1% racialmente dessegregado parece ser um preço bastante pequeno a pagar se isso facilita e estabiliza a exploração voraz dos 99 por cento [9]. Se Kendi é atualmente festejado em círculos charmosos, é porque, apesar de toda a sua retórica incendiária, da sua personalidade pública na onda e em alta, da sua presunção militante e da sua pose de macho, a única exigência substancial que ele faz ao 1% — reconfigurar a classe exploradora para incluir uma boa percentagem de nós — eles já estão preparados para conceder.

 

Ibram X. Kendi não é um acadêmico e nem um ativista. A sua “história definitiva das ideias racistas na América” reduz-se a um compêndio de rótulos depreciativos binários típicos de pré-adolescentes. Seu guia para ser um “antirracista” é uma mistura incoerente de devoções woke. A realidade é que Kendi é o guru de uma seita. O culto tem seus ritos e rituais de iniciação. Em público, por exemplo, esse culto exige que cada iniciado recite e publique seus pronomes [10]. Nos seus santuários internos, a confissão é mais íntima. Espiemos por trás da cortina de uma sessão. Kendi, o pecador, relembra sua peregrinação ao wokeness [11]:

Minha jornada para me tornar um antirracista primeiro reconheceu a interseccionalidade do meu racismo étnico, e depois do meu racismo corporal, e depois do meu racismo cultural, e depois do meu racismo de cor, e depois do meu racismo de classe, e, quando entrei na pós-graduação, meu racismo de gênero e racismo queer [12].

Embora a luta para se livrar do racismo seja um eterno trabalho inacabado, Kendi claramente escalou os picos estimulantes da autoconsciência:

Sou um homem heterossexual negro cisgênero — “cisgênero” significa que a minha identidade de gênero corresponde ao meu sexo de nascimento, em contraste com as pessoas transgênero, cuja identidade de gênero não corresponde ao seu sexo de nascimento. Ser antirracista queer é compreender os privilégios do meu cisgênero, da minha masculinidade, da minha heterossexualidade, de suas interseções. Ser antirracista queer é servir como aliado às pessoas transexuais, às pessoas intersexuais, às mulheres, aos que não se conformam com o gênero, aos homossexuais, às suas intersecções, o que significa ouvir, aprender e ser guiado pelas suas ideias equalizadoras, pelas suas campanhas políticas equalizadoras, pela sua luta de poder pela igualdade de oportunidades [13].

O culto tem sua própria epistemologia. Aqui Kendi relembra seu momento de epifania na pós-graduação, quando o enigma objetividade/subjetividade foi resolvido:

No meu primeiro curso com Mazama, ela deu uma palestra sobre a afirmação de [Molefi] Asante de que a objetividade era na verdade “subjetividade coletiva”. Ela concluiu: “É impossível ser objetivo”. Foi o tipo de ideia simples que mudou imediatamente a minha visão de mundo. Fez muito sentido para mim quando me lembrei das escolhas subjetivas que fiz como aspirante a jornalista e acadêmico. Porém, se a objetividade estava morta, eu precisava de um substituto. Levantei a mão como um aluno da oitava série. “Sim?” “Se não podemos ser objetivos, então o que devemos nos esforçar para fazer?” Ela olhou para mim enquanto reunia suas palavras. Não era uma mulher de muitas palavras, não demorou muito. “Apenas diga a verdade. É isso que devemos nos esforçar para fazer. Diga a verdade” [14].

Passe por cima de Kant. Os iniciados, sentados de pernas cruzadas, balançam a cabeça em admiração coletiva. É tão simples! A objetividade não existe; tudo é subjetivo; apenas diga a verdade. Por que não vimos isso antes? Mais uma vez, não é a marca do gênio ir do complexo ao simples? Mas eis que o Homem Branco Cisgênero, escondido em um canto sombrio, timidamente levanta a mão:

Qual é a diferença, ó Sábio, entre objetividade e dizer a verdade?

Um burburinho de descontentamento varre o recinto. A ignorância! O descaramento! “Seja paciente, meu filho/filha/progênie intersexual”, Kendi, imperturbável, responde gentilmente.

Sua visão ainda está obscurecida pelo racismo assimilacionista do homem branco cisgênero; racismo biológico; racismo étnico; racismo corporal; racismo cultural; racismo comportamental; racismo de cor; racismo antibranco; racismo negro; racismo de classe; racismo espacial; racismo de gênero; racismo queer; racismo racismo. Veja, o caminho para a consciência é longo e pedregoso. Mas vale a pena. Olhe para mim agora! Sou vencedor do National Book Award, best-seller do New York Times e ganhador da bolsa MacArthur “Genius”. Sou festejado em Harvard e nos Hamptons [15]. Sou o Professor Andrew W. Mellon [16] de Humanidades e Diretor Fundador do Centro de Pesquisa Antirracista da Universidade de Boston. Recebo meio milhão de dólares anualmente apenas por dirigir o Centro. Posso cobrar US$ 207,00 por minuto quando faço uma palestra como convidado[17].

“Mas não é porque você tem dreads longos e colocou um X em seu nome?” O cisgênero, em um estado de resiliente desespero, embora desolado, retruca corajosamente e segue:

Você sabe como os liberais brancos estúpidos engolem aquele truque de Kunta Kinte. Barack Obama não teria passado do primeiro round se não tivesse, na maior mudança de carreira registrada na história, mudado o seu nome de batismo. Que hipster branco dos Hamptons que se preze quer conversar com um Barry [18]? É por isso que Cory Booker [19] — caramba, que desculpa pobre para um nome! e, pelo amor de Deus, ele é careca! — nunca teve a menor chance, como uma bola de neve no inferno. E vou te dizer outra coisa, você é apenas um falastrão nos manipulando. Aqueles vídeos seus com estantes lotadas ao fundo, aqueles óculos de grife com armação de tartaruga, eles não enganam ninguém. Você lê Du Bois como eu leio Maimônides. E você fala toda essa merda que parece militante, mas no final do dia você não exige que o 1% compartilhe as guloseimas em sua mesa com o resto de nós. Você não está sacudindo a mesa. Você nem está exigindo que eles aumentem a mesa. Você só quer que esse 1% incorpore uma pitada de gente como você. Você não os preocupa e muito menos os assusta. Você é apenas um figurino de moda e uma apólice de seguro. É por isso que Dorsey [20] investiu em você incríveis US$ 10 milhões. Agora ele pode se esconder atrás da marca Ibram X. Kendi enquanto segue seu alegre caminho ganhando uma fortuna, enquanto o resto de nós acumula infortúnios.

A multidão está de pé, aglomerando-se em torno dele, os punhos ritmicamente levantados no ar, gritando: Fora Cisgênero! Fora Cisgênero! Mas o próprio Kendi saiu discretamente da sala. Ele está se dirigindo para uma reunião de negócios com a Netflix para planejar sua trilogia blockbuster Como ser um Antirracista [21], seguida por uma festa na casa de Jeff Bezos, para lançar seu novo livro, Como Combater o Racismo enquanto Mergulha em Maui, Esquia em Aspen, Veleja em Hyannis e Ferra seus Trabalhadores do Armazém.

Notas

[*] Norman Finkelstein, nascido em 1953, é judeu estadounidense cujos pais participaram do levante do Gueto de Varsóvia e estiveram em campos nazistas de concentração e extermínio. O restante de sua família foi exterminada pelo regime nazista. Cientista Político, durante vinte anos se dedicou a estudar a situação política e humanitária na Palestina, tema que o tornou mais conhecido e sobre o qual publicou vários livros, como A Indústria do Holocausto, lançado também no Brasil. Maoísta na juventude, como muitos de sua geração, hoje permanece socialista, inspirado principalmente por Rosa Luxemburgo. A junção de uma intensa seriedade de estudo e pesquisa, com uma inegociável integridade de princípios como intelectual militante de esquerda, o levou a perder o emprego de professor universitário em 2007, sendo colocado numa lista negra que o tornou inempregável por quinze anos.

[1] Ibram X. Kendi, How to Be an Antiracist (New York: 2019, p. 206); Stamped from the Beginning: The Definitive History of Racist Ideas in America (New York: 2016, p. 508).

[2] Alguns eixos da plataforma de Sanders priorizaram abertamente as minorias desfavorecidas e em dificuldades e os mais necessitados. A plataforma do New Deal Verde apelava a “um investimento público histórico de 16,3 biliões de dólares (…) em linha com a mobilização de recursos feita durante o New Deal e a Segunda Guerra Mundial, mas com uma escolha explícita de incluir comunidades negras, indígenas e outras comunidades minoritárias que foram sistematicamente excluídas no passado”, bem como “Justiça para as comunidades da linha de frente — especialmente grupos com poucos recursos, comunidades de cor, nativos americanos, pessoas com deficiência, crianças e idosos — para se recuperarem e se prepararem para os impactos climáticos, inclusive por meio de um Fundo de Resiliência para a Justiça Climática de US$ 40 bilhões. E proporcionar a essas (…) comunidades uma transição justa, incluindo empregos reais, infraestruturas resilientes e desenvolvimento econômico.” O eixo da maconha dizia: “— Legalizar a maconha nos primeiros 100 dias com ação executiva; — Desocupar e eliminar todas as condenações anteriores relacionadas à maconha; — Usar a receita das vendas de maconha para estabelecer uma meta de US$ 10 bilhões em um programa de subsídios do Departamento de Agricultura para ajudar regiões e indivíduos desproporcionalmente impactados, que foram presos ou condenados por delitos de maconha, a iniciar agriculturas urbanas e rurais e operações de cultivo de maconha urbana e rural para garantir [que] as pessoas afetadas pela guerra às drogas tenham acesso à totalidade da indústria da maconha; — Criar um fundo de desenvolvimento econômico e comunitário direcionado de US$ 10 bilhões, para fornecer subsídios às comunidades mais atingidas pela Guerra às Drogas.”

[3] Kendi, How to Be…, p. 205; Stamped from…, pp. 503, 506-8.

[4] Kendi, How to Be…, p. 232.

[5] Kendi, How to Be…, p. 209.

[6] O “ativismo” alardeado de Kendi resume-se a repreender alguns de seus professores do ensino fundamental e um diretor, e a juntar-se brevemente a uma luta pela justiça racial enquanto estava na faculdade, na qual, como ele próprio admite, “tudo que minhas palavras estavam fazendo era soarem radical”. (How to Be…, pp. 36, 44-55 passim, 210-12) Suas percepções sobre o ativismo também não são exatamente grande coisa:
“As manifestações mais eficazes (assim como os esforços educacionais mais eficazes) ajudam as pessoas a encontrar o poder antirracista que existe dentro delas. O poder antirracista interior é a capacidade de ver o meu próprio racismo no espelho do meu passado e presente, ver o meu próprio antirracismo no espelho do meu futuro, ver os meus próprios grupos raciais como iguais a outros grupos raciais, ver o mundo da desigualdade racial como anormal, ver o meu próprio poder de resistir e superar o poder e a política racistas. [Seja lá o que esse palavreado signifique, não deveria ser surpresa que nosso antirracista da GQ {Nota do Tradutor: revista de moda} continue invocando a metáfora do olhar no espelho]
(…)
Os protestos mais eficazes foram profundamente locais; são protestos iniciados por antirracistas com foco em seu entorno imediato (…) Estes protestos locais tornaram-se então protestos a nível estadual, e os protestos a nível estadual tornaram-se então protestos nacionais, e os protestos nacionais tornaram-se então protestos internacionais. Mas tudo começa com uma pessoa, ou duas pessoas, ou pequenos grupos, no seu pequeno ambiente, engajados na mobilização enérgica de antirracistas em organizações; e planejamento e ajustamentos como num xadrez, durante greves, ocupações, insurreições, campanhas e boicotes fiscais e corporais, entre uma série de outras táticas para forçar o poder a erradicar políticas racistas. Os manifestantes antirracistas criaram posições de poder para si próprios, articulando exigências claras e deixando mais claro que não irão parar – e as forças policiais não podem detê-los – até que as suas reivindicações sejam satisfeitas. [Para obter mais instruções, consulte O Guia do Idiota para Fazer a Revolução]
(…)
Tomar o poder é muito mais difícil do que protestar contra o poder e demonstrar os seus excessos. [Diga, Che]“
(Kendi, How to Be…, pp. 215, 216; Stamped from…, p. 510)

[7] Suas outras recomendações políticas práticas consistem em erradicar: “qualquer padrão de beleza baseado na cor da pele e dos olhos, na textura do cabelo, em características faciais e corporais compartilhadas por grupos”; o cristianismo como a “religião padrão não oficial”; ternos masculinos como “traje profissional padrão”; o inglês como “língua padrão”; e a avaliação por “testes padronizados”. (Surpreendentemente, ele não opina sobre a questão candente do ‘cabelo afro versus dreads’.) Ele também defende “acesso aberto e igualitário a todas as acomodações públicas, acesso aberto a todos os espaços brancos dessegregados, espaços dessegregados de pessoas do Oriente Médio, espaços negros dessegregados, espaços latinx dessegregados, espaços nativos dessegregados e espaços asiáticos dessegregados que tenham recursos iguais e sejam culturalmente diferentes.” (Sou o único que ficou me perguntando como um “espaço” pode ser ao mesmo tempo homogêneo e heterogêneo?) (Kendi, How to Be…, pp. 113-14, 180; Stamped from…, p. 469)

[8] Utilizando a explicação da Wikipedia: ”Woke, como um termo político de origem afro-americana, refere-se a uma percepção e consciência das questões relativas à justiça social e racial. O termo deriva da expressão do inglês vernáculo afro-americano “stay woke” (em português: continue acordado ou desperto), cujo aspecto gramatical se refere a uma consciência contínua dessas questões. No final da década de 2010, woke foi adotado como uma gíria mais genérica, amplamente associada a políticas identitárias, causas socialmente liberais, feminismo, ativismo LGBT e questões culturais (com os termos woke culture e woke politics também sendo usados). Tem sido alvo de memes, uso irônico e críticas. Seu uso generalizado desde 2014 é resultado do movimento Black Lives Matter. Ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Woke [Nota do Tradutor]

[9] Kendi, How to Be…, pp. 129-30, 205-9.

[10] O autor aqui se refere às pessoas expressarem o gênero dos pronomes pessoais com que querem ser tratadas. Em algumas mídias sociais há inclusive o espaço destinado a isso. Por exemplo: “Fulano de Tal, ela/dela”. [Nota do Tradutor]

[11] A escolha foi por manter no original: wokeness. Poderia ser traduzido literalmente como ‘despertar’, mas se refere a uma onda ou movimento de política identitária nos Estados Unidos que tem sido chamado de woke [Nota do Tradutor]

[12] Kendi, How to Be…, p. 192.

[13] Kendi, How to Be…, pág. 197. Sobre gênero e sexo, Kendi também diz o seguinte: “a forma como as mulheres e os homens agem tradicionalmente não está ligada à sua biologia; (…) os homens podem desempenhar autenticamente a feminilidade com a mesma eficácia que as mulheres podem desempenhar autenticamente a masculinidade.” (How to Be…, p. 196) Se isso fosse verdade, o misterioso seria a razão pela qual as pessoas transgênero se submetem a procedimentos médicos dispendiosos, dolorosos e prolongados para alterar o seu sexo.

[14] Kendi, How to Be…, pp. 167-68.

[15] Hamptons é uma vila de luxo localizada no estado de Nova York [Nota do Tradutor].

[16] Andrew W. Mellon (1855-1932), foi um banqueiro, filantropo e político estadounidense. Foi também Secretário do Tesouro [Nota do Tradutor]

[17] Veja Gabe Kaminsky, “Ibram X. Kendi Raked in $45K from University of Wisconsin, Made School Delete Lecture,” [“Ibram X. Kendi arrecadou US$ 45 mil da Universidade de Wisconsin, fez escola excluir palestra”], Federalist (9 de dezembro de 2021).

[18] Barry foi um nome utilizado por Barack Obama durante um período de sua vida [Nota do Tradutor].

[19] Cory Brooker é senador por Nova Jersey há dez anos, pelo Partido Democrata. É o primeiro senador afro-americano do estado de Nova Jersey, e é careca [Nota do Tradutor].

[20]. Jack Patrick Dorsey é empresário, fundador e ex-diretor do Twitter [Nota do Tradutor].

[21] Acesse: https://about.netflix.com/en/news/netflix-partners-with-renowned-author-dr-ibram-x-kendi-to-bring-three-of-his

Traduzido por Leo Vinicius

1 COMENTÁRIO

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