Por Leo Vinicius

O meu trabalho aqui é preencher linhas para que o título pudesse vir a público. O que era para ser dito o leitor já leu logo acima. Pois aqui não se trata de fazer a crítica ao Projeto de Lei enviado ao Congresso pelo atual governo para regulamentar o trabalho dos chamados motoristas de aplicativo. Essa crítica já foi feita muito bem por diferentes pessoas [1]. Trata-se aqui de constatar que através das práticas do atual governo e das reações dos trabalhadores uberizados encontramos uma ilustração em relevo do contexto em que o fascismo emerge e se estabelece no Brasil, de tal forma que é muitíssimo improvável que seja refreável. Como no “filme” Black Mirror: Bandersnatch, que na verdade é uma criativa instalação artística interativa [pule ao próximo parágrafo para não ler spoiler], parece que não importa o que se faça, o final já está dado e é inescapável, com pequenas variações possíveis [2].

Mas se depender de um partido anacrônico e degenerado como o PT [3], o caminho de crescimento e aprofundamento do fascismo será o mais breve possível. É o que indica a ação do Ministro do Trabalho e do Presidente da República ao entregarem tal Projeto de Lei ao Congresso. Mesmo que não fosse um PL feito sob medida pela e para a Uber (e 99), e que trouxesse melhorias ao cotidiano de trabalho dos motoristas em termos de direitos, remuneração e autonomia, deveria se esperar alguma reação desses trabalhadores arrastada à extrema-direita. Isso porque: i) trata-se de uma categoria com mais trabalhadores identificados com a extrema-direita do que com a esquerda, como aponta pesquisa [4]; ii) porque a extrema-direita é que tem maior capacidade de propaganda e agitação hoje na sociedade; iii) porque já estamos na situação em que a extrema-direita alcançou um nível de identificação e paixão popular em que uma massa de trabalhadores suspende seus cálculos de interesse pessoal [5]. E o governo do PT nem sequer deu algo para alimentar a razão e o interesse pessoal desses trabalhadores que pudesse tornar mais difícil a propaganda e agitação da extrema-direita. E deve-se levar em conta que o simples fato do governo regulamentar esse trabalho já seria motivo para um desagrado circular com certa força nessa categoria.

Quem nos últimos anos conversou com certa frequência com trabalhadores uberizados, sejam motoristas ou motociclistas, deve ter percebido um receio ou oposição bastante frequente em relação a qualquer hipotética regulamentação vinda do governo (de qualquer governo). Ouvia-se com muita frequência por parte de motociclistas a ideia de que o governo (qualquer governo) só estaria interessado em arrecadar, em lhes retirar dinheiro. Como vemos, esses trabalhadores demonstraram sabedoria política. Ora, o que foi “dado” por governos aos trabalhadores dos anos 1990 para cá, em termos de direitos? Nada, com exceção da “PEC das domésticas”. Quando governos fizeram política trabalhista nas três últimas décadas foi para retirar direitos. O PL da Uber mostra que esses trabalhadores estavam certos, eram sábios: o governo só queria arrecadar (INSS). E se Lula esbraveja em público para o iFood negociar, de duas uma: ou o iFood não está aceitando a proposta do governo de arrecadação de INSS, ou é mero teatro do Lula para fazer parecer que o governo está enfrentando essas empresas, quando na verdade ocorre o oposto.

Resta aos militantes de esquerda e aos trabalhadores uberizados que possuem clareza sobre os interesses de classe em jogo, tentarem levar a cabo a “missão quase impossível” de criar um movimento que não fique nas garras da extrema-direita e de seus interesses. Aliás, há alguns anos tem ficado claro que essas categorias agitadas são facilmente capturadas pelo redemoinho fascista. A gravidade fascista parece que tudo atrai e engole, e assim a fortalece.

O que será possível fazer e o que será mais sensato fazer quando vivemos em meio a essa sopa primordial do fascismo?

O texto vai ilustrado com fotografias das “motociatas” organizadas por Bolsonaro durante seu mandato.

Notas

[1] Ver por exemplo os dois artigos de Rodrigo Carelli: https://jornalggn.com.br/justica/pl-apps-transforma-trabalhadores-nem-empregados-nem-autonomos/; https://trab21.org/2024/03/17/stf-e-lula-na-contramao-da-civilizacao-a-comunidade-europeia-entra-em-acordo-para-a-protecao-real-dos-trabalhadores-em-plataforma/; e o artigo de Vanessa Monteiro: https://www.cismacritica.com.br/o-projeto-de-lei-que-consolida-escravidao-digital/.
[2] Sobre as condições dadas que torna muitíssimo improvável qualquer fim em curto e médio prazo que não seja o neofascismo no Brasil https://aterraeredonda.com.br/lula-voltou-interregno-do-fascismo/
[3] Deixo quem sabe para outra oportunidade trazer lastro nos fatos para essa qualificação de degenerado, se alguém precisa ser convencido mesmo vendo esse Projeto de Lei e as práticas do Ministério da Educação sob comando puro sangue do PT (o que tem significado ao mesmo tempo sob comando do “Lemann”).
[4] “Retrato do Brasil: 30% de entregadores e motoristas de app são de extrema direita” https://revistaforum.com.br/politica/2024/3/8/retrato-do-brasil-30-de-entregadores-motoristas-de-app-so-de-extrema-direita-155370.html
[5] Gosto de dar como exemplo ilustrativo o fato do candidato a vice de Bolsonaro em 2018 não ter receio em falar, durante a campanha eleitoral, que o 13º salário não deveria existir: https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/09/27/a-empresarios-no-rs-mourao-critica-13-salario-e-adicional-de-ferias.htm

9 COMENTÁRIOS

  1. Parece que o autor mudou de ideia, pois neste mesmo site, durante o último pleito eleitoral, ficava por aqui o tempo todo afirmando que votar no PT era a única forma de barrar o avanço do “fascismo”.

  2. Talvez por ter constatado que, historicamente, a ala esquerda do capital (bolcheviques incluídos) nada mais fez do que pavimentar o caminho para a ala direita do capital.

  3. O Passa Palavra não publica comentários pessoalmente insultuosos. As opiniões deverão ser expressas sem insultos.

  4. O texto expõe a fraca argumentação crítica que vem sido criada. Na falta de uma análise que tente tratar a realidade brasileira, se utiliza um conceito para qualificar um fenômeno. Como nada na história se repete, pois se o fosse estaríamos tranquilos, aqui, novamente, a história não se repete. O fenômeno que vemos (longe de ser um Ronaldo) é a manifestação de políticas do neoliberalismo à brasileira. Seria estranho se com a repressão e punição as alas revolucionárias e o aparelhamento e conciliação das alas progressistas, uma grande chuva crítica e destruidora varresse toda a ideologia aqui presente. Em oposição, a ideologia ganhou fôlego, respaldo e uma aceitação populista e mequetrefe (como tudo que é produzido num capitalismo moribundo). Falta ao autor (e vários outros) uma análise do fenômeno que ocorre no Brasil ao invés de malabarismo histórico ou conceitual.

  5. Já preparei o mate, a bunda no sofá, ao som de Lágrimas Negras, a cabeça também espera a análise rosanegriana do fenômeno.

  6. sinceramente a proposta do governo não é ruim pra essa galera uber. essa categoria que é ideologicamente de direita/extrema direita. o governo do PT deveria ter deixado esses caras na situação em que estavam mesmo. eles gostam, estavam felizes. Querem liberalismo, Lula! Dê-lhes liberalismo.

  7. sinceroso&inocentosco felicidioSSuicidantesco exuberamor pelo ninefingers: 4ever plus.

  8. A ver por um tal sinceramente, os lulistas continuam com seu ressentimento em relação à parcela dos trabalhadores que lhes fazem oposição. E nem passa pela cabeça deles refletirem o motivo disso.

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