Por TAGATU3

2 de Dezembro de 2025

Nós, os trabalhadores e membros de instituições acadêmicas e culturais abaixo assinados, condenamos o papel desempenhado pelos Emirados Árabes Unidos de criar, financiar e prolongar a guerra contra-revolucionária no Sudão entre as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as Rapid Support Forces (RSF) desde sua irrupção em 15 de Abril de 2023.

Essa campanha é organizada por TAGATU3: Campanha Sudanesa pelo Boicote Acadêmico e Cultural dos EAU, um grupo de sudaneses em diáspora e aliados trabalhado para encerrar o apoio dos EAU à milícia RSF e sua cumplicidade política em munir a pior crise humanitária do século 21.

A estratégia intervencionista emirati no Sudão, ainda que não seja a única desse tipo, tem uma natureza distinta. Seus significativos esforços contra-revolucionários durante a processo de transição política impediram os horizontes de libertação do Sudão em favor de atores militares, criando condições para rivalidades militares que eventualmente levaram o país à guerra. Como principal benfeitor da notória e brutal milícia RSF, os EAU providenciaram um interminável influxo de dinheiro, armas e cobertura política, permitindo os genocídios e massacres da milícia em Darfur e Kordofan. Os Emirados também cumpriram um papel decisivo em prolongar o combate através do comércio ilícito de ouro com a SAF e a RSF, fornecendo a seus empreendimentos de guerra linhas de financiamento vitais pelo futuro próximo. Permitir que o subimperialismo implacável dos Emirados Árabes Unidos no Sudão continue sem controle impedirá um cessar-fogo permanente e tornará cada vez mais distante a possibilidade de um retorno à principal reivindicação da revolução: um governo liderado por civis, com “os militares (SAF) de volta aos quartéis e os Janjaweed (RSF) dissolvidos”.

Enquanto sistematicamente destroem universidades, escolas, sítios arqueológicos, instituições e heranças culturais no Sudão, os EAU continuam a crescer globalmente como uma potência cultural e acadêmica. Suas parcerias com instituições acadêmicas e culturais existem para normalizar sua violência imperialista no Sudão, lavar sua imagem e reputação de autocracia repressiva, e escapar da responsabilidade por seus sistemas globais de violência e extrativismo. Neste documento, enquanto coletivo, convocamos todos os acadêmicos e trabalhadores da cultura de consciência a se organizarem para um boicote às instituições emirati cúmplices no encobrimento das violações dos direitos humanos nos EAU, até que as reivindicações da campanha sejam atendidas.

A campanha dos EAU de encobrimento cultural e acadêmico

Os investimentos dos EAU em instituições acadêmicas ocidentais são antigos e apontam para uma tendência de encobrimento acadêmico e captura intelectual. Entre Fevereiro de 2001 e Abril de 2024, os EAU presentearam US$402.330.743 a universidades nos Estados Unidos, com as maiores recebedoras desses presentes monetários sendo a New York University, Harvard University, Boston University, Johns Hopkins University, Columbia University, UC Berkeley, e Stanford University. Conforme os relatórios financeiros dessas universidades para o governo federal, esses prêmios foram recebidos por razões não declaradas, permitindo influência descconhecida dos doadores e comprometendo a liberdade acadêmica.

A expansão acelerada das universidades ocidentais nos Emirados, particularmente por meio de campi afiliados e satélites, desde a década de 2010, conferiu aos Emirados Árabes Unidos maior legitimidade e poder de influência nas economias de produção do conhecimento. Isso se manifestou recentemente na tentativa dos Emirados Árabes Unidos de controlar e disseminar a produção de conhecimento sobre a África e o Sudão de maneiras que reforcem e consolidem sua matriz de relações de poder no continente por meio de instituições como a Universidade de Estudos Globais em Sharjah e a NYU Abu Dhabi. Similarmente, não é coincidência que ao mesmo tempo em que o projeto de expansão colonial dos EAU se intensifica, nós vejamos uma rápida proliferação de acordos culturais globais desse país. O projeto cultural dos EAU é tão central para suas ambições geopolíticas que o país institucionalizou essa estratégia de diplomacia cultural em uma política de governo, criando um Soft Power Council. Estabelecido pelo Sheikh Mohammed bin Rashid Al Maktoum em 2017, um dos principais objetivos do conselho é “fortalecer a política externa dos EAU e adicionar novas ferramentas para consolidar seu papel… na arena internacional”. Desde a inauguração do conselho, o governo emirati fez contribuições significativas, avaliadas em mais de 35 bilhões de dólares, para as áreas de arte, design, museus, destinos turísticos, editoração e mídia. Cultura e política trabalham em sinergia aqui, com a primeira provendo a cobertura discursiva para a segunda, assim protegendo os EAU de quaisquer medidas de responsabilidade para sua aliança destrutiva com as RSF no Sudão. As condições favoráveis e atrativas criadas por essa estratégia de soft power orquestram a adesão de artistas e trabalhadores da cultura em todo o mundo, ao mesmo tempo que garantem o silêncio sobre as suas violações no Sudão. Nós enxergamos esses orçamentos culturais inflados como consequência direta da riqueza violentamente acumulada na região do Sudão e do Chifre da África, posicionando os EAU como um farol de modernidade, oportunidade, inovação e alta cultura.

Trabalhar com instituições cúmplices dos EAU contribui diretamente para a fachada dos Emirados Árabes Unidos e ajuda a fabricar consenso para seu projeto subimperialista no Sudão. Inspirados pelos legados dos boicotes contra o apartheid sul-africano, e a ocupação israelense, e o papel desempenhado pelo boicote em lutas decoloniais ao redor do mundo, nós vemos essa estratégia como a mais forte e mais estratégica arma que temoss para perfurar essa ilusão mórbida, pôr fim à sistemática violência emirati contra o povo sudanês, e recuperar o futuro político da região das mãos dos arquitetos de sua ruína.

Demandas e chamado à ação

A hora de praticar a solidariedade com o povo sudanês é agora, e de firmemente opôr as agendas imperialistas dos EAU no Sudão. Nós definimos cumplicidade com instituições emirati como:

  1. Cumplicidade financeira ao receber-se financiamento do estado emirati, ou riqueza da nobreza para parcial ou completamente financiar instituições ou atividades e produtos institucionais.
  2. Cumplicidade ideológica através de atividades acadêmicas e culturais que acobertam ou desinformam/produzem campanhas de propaganda, silêncio ou censura ativa sobre o papel dos EAU em criar, financiar e perpetuar a guerra contra-revolucionária no Sudão.

Nós, os abaixo assinados trabalhadores e membros de instituições acadêmicas e culturais, demandamos o seguinte:

  1. Urgimos aos nossos colegas que chamem atenção e reconheçam os genocídios no Sudão, as fomes provocadas pelo homem que assolam populações em todo o país e os facilitadores globais da violência perpetrada pelas SAF e pelas RSF, sendo os Emirados Árabes Unidos os mais proeminentes entre eles.
  2. Convocamos as instituições acadêmicas e culturais para que investiguem cuidadosamente seus laços com o governo emirati e as famílias reais. Demandamos o desinvestimento de quaisquer projetos feitos com o estado emirati, as famílias reais e instituições cúmplices.
  3. Convocamos acadêmicos, trabalhadores da cultura, e suas instituições afiliadas a rejeitar financiamento, colaboração, parcerias e patrocínios do governo emirati, das famílias reais, e suas instituições cúmplices (incluindo grupos de lobby e corporações) ou aqueles envolvidos com em atividades ideológicas que visam encobrir as violações dos EAU no Sudão.
  4. Convocamos nossos colegas a boicotarem os EAU, recusando-se a lecionar, frequentar ou colaborar com quaisquer instituições emirati cúmplices, até que tais instituições: (i) reconheçam publicamente e suspendam a censura sobre o papel dos EAU na criação, financiamento e perpetuação da guerra no Sudão; (ii) pratiquem a transparência financeira, auditando independentemente as demonstrações financeiras em conformidade com as normas internacionais de relatórios financeiros e investigando quaisquer vínculos financeiros ligados ao lucro de guerra e ao comércio ilícito no Sudão, incluindo a extração de ouro de conflito e a fabricação/venda de armas; (iii) cessem toda a cumplicidade financeira e ideológica na guerra contra-revolucionária dos EAU no Sudão.

convocamos todos os acadêmicos e trabalhadores da cultura de consciência a se organizarem para um boicote às instituições emirati cúmplices no encobrimento das violações dos direitos humanos nos EAU, até que as reivindicações da campanha sejam atendidas.

Esse boicote é uma recusa à cumplicidade que é ao mesmo tempo simbólica e material; seu poder repousa não somente em declarar oposição, mas em romper nossos laços materiais com o genocídio, o extrativismo e as aspirações geopolíticas coloniais dos EAU no Sudão.

Para uma visão mais detalhada do crescente império dos Emirados Árabes Unidos e da campanha de branqueamento nas artes e na academia, leia a carta completa e encontre a lista completa de signatários aqui. Assine a carta aqui.

  1. Alexander Weheliye, Professor of Modern Culture and Media, Brown University
  2. Angela Davis, Distinguished Professor Emerita, University of California, Santa Cruz
  3. Eve Troutt Powell, Professor, University of Pennsylvania
  4. Fatin Abbas, Lecturer, Massachusetts Institute of Technology
  5. Françoise Vergès, Senior Fellow Researcher, Sarah Parker Remond Centre, UCL
  6. Gail Lewis, Professor, Yale University
  7. Hatem Bazian, Lecturer, UC Berkeley
  8. Houria Bouteldja, Decolonial Activist
  9. M’hamed Oualdi, Professor, Sciences Po-Paris
  10. Mohammed Elnaiem, The Decolonial Centre
  11. Nisrin Elamin, Assistant Professor, University of Toronto
  12. Mona Chalabi, Guest lecturer
  13. Paula Chakravartty, Professor, New York University
  14. Robin D.G. Kelley, Professor, University of California, Los Angeles
  15. Ruth Wilson Gilmore, Professor, Graduate Center of the City University of New York

A foto em destaque foi publicada originalmente num artigo do New York Times.

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