Espancaram o somali na terça. Queimaram a loja do nigeriano na quarta. Repatriaram o moçambicano na quinta. Na sexta, o movimento negro atualizou a foto de perfil. Passa Palavra
O World in Brief de The Economist acaba de publicar a seguinte informação:
«O parlamento da Nigéria anunciou que os seus membros deixarão de fazer viajens oficiais à África do Sul, em protesto pelas acções violentas dirigidas contra nigerianos e outros imigrantes africanos. A Nigéria afirma que desde 2022, 98 cidadãos seus morreram na África do Sul em ataques devidos à hostilidade contra migrantes. A escalada das tensões também levou cerca de 1.700 nigerianos a regressar voluntariamente ao seu país de origem neste ano». («Nigeria’s parliament said its lawmakers would stop travelling to South Africa on official business, in protest at violence against Nigerians and other African migrants. Nigeria says 98 of its citizens have died in attacks linked to anti-migrant hostility there since 2022. Rising tensions have also prompted nearly 1,700 Nigerians to return home voluntarily this year».)
Já o Passa Palavra tinha publicado, faz hoje exactamente sete anos e um dia, um artigo sobre o Racismo negro anti-negro na África (aqui).
Continuamos a aguardar que os movimentos anti-racistas, nomeadamente o movimento negro, denunciem aquelas gravíssimas manifestações de racismo.
Qual a diferença entre racismo e xenofobia? O que se está chamando de “raça” aqui?
Quando saiu esse FD, enviei um comentário que não foi aprovado problematizando exatamente isso. Vamos ver se agora vai:
Um companheiro, que no Brasil sempre foi tratado como negro e assim se entendia, entrou no Islã. Pra quem se criou nas periferias de São Paulo, frequentar as mesquitas do centrão é uma baita experiência cosmopolita, conhecendo gente de vários países árabes e africanos. Agora vamos pro causo: certa vez, conversando com um somali, chamou ele de “irmão”, ao que este respondeu: “Como assim irmão? Eu não sou seu irmão, minha mãe teve cinco filhos e você não é nenhum deles”. Meu camarada até tentou explicar: “É um jeito de falar, irmão de cor, você é negro como eu”, mas foi corrigido: “Negro é você, eu não sou negro, eu sou somali”.
Trago esse pequeno causo para ilustrar que, ao tentar fazer uma provocação ao movimento negro nesse FD, o PP acaba se complicando. Talvez estejam reiterando certa noção de raça que gostariam de estar combatendo.
Caio,
Cito uma passagem do artigo Racismo negro anti-negro:
«O racismo é um fenômeno cujos fundamentos econômicos e sociais se reproduzem em qualquer país, em qualquer continente, com quaisquer caracteres físicos. Sob a influência do racismo, um negro sul-africano saberá identificar tão bem um negro nigeriano ou maliano ou zambiano como um português identificará com igual proficiência um italiano, ou um francês identificará um alemão. Aliás, os racistas criam perfis tão minuciosos das supostas “raças” que um racista sul-africano de uma dada etnia julga-se capaz de identificar tão bem outro de outra etnia como um português das Beiras julga-se capaz de identificar um português do Alentejo, ou inversamente. A biologia como pretexto nunca falta.» (Aqui).
Mais genericamente, convém saber que primeiro aparecem os racistas, depois as raças. As raças são uma criação dos racistas. E é porque os racistas existem, que as raças passam a ter uma existência prática, e continuarão a existir enquanto existirem os racistas. Que por isso mesmo, quando lhes convém, voltam a cara para o lado quando deparam com situações como a do racismo negro anti-negro.
De resto, se quiser saber a opinião que eu, pessoalmente, tenho sobre esse assunto, remeto-o para a integralidade do quarto volume de Labirintos do Fascismo (São Paulo: Hedra, 2022).
Esse movimento negro hegemônico me lembra aquelas ditas feministas que entram no trem lotado empurrando todos e todas, e, como justificativa, da ação incomoda, culpam o patriarcalismo pela lotação do transporte público, na justificativa das suas ações escrotas. Mas esse engajamento não reflete que sua suposta conscientização tem como efeito nefasto, a incomoda realidade, que na frente e do lado dos “machos escrotos”, existem senhoras e moças que se apertarão pela pressão das exigências de espaços das empoderadas revoltadas que só pensam em si e na sua consciência engajada.
A hegemônica do movimento negro só pensam em formar lideranças para a gestão do caos capitalista. Os negros identitários querem se tornar a classe opressora que existe e que virá!
João, concordo que a noção de raça é social, não natural. Por isso meu exemplo. Por isso, é lógico que a mudança nas coordenadas geográficas embaralham os termos do racismo. Para mim a abordagem do FD ficou presa nesse emaranhado: ao falar que o racismo sofrido pelos nigerianos na África do Sul é um “racismo negro antinegro” que deveria ser denunciado pelo movimento negro daqui, não se está universalizando (e naturalizando?) o que aqui se chama de “negros”? Lembro outro caso, da irmã de um amigo, que no Brasil sempre se entendeu branca. Na migração para os EUA, perguntaram sua cor. “Branca”. O agente olhou bem para ela e marcou a opção “Outra”.
Ao pouco que li e pesquisei a respeito da xenofobia que vemos na África do Sul, e a Operação Dulula como movimento, a xenofobia assume contornos racistas. São os negros e africanos que sofrem a maior pressão, os brancos e asiáticos não são os alvos principais. Nigerianos, moçambicanos, tanzanianos, etc, são os principais perseguidos e assassinados pelos nacionalistas sul-africanos negros.
O World in Brief de The Economist acaba de publicar a seguinte informação:
«O parlamento da Nigéria anunciou que os seus membros deixarão de fazer viajens oficiais à África do Sul, em protesto pelas acções violentas dirigidas contra nigerianos e outros imigrantes africanos. A Nigéria afirma que desde 2022, 98 cidadãos seus morreram na África do Sul em ataques devidos à hostilidade contra migrantes. A escalada das tensões também levou cerca de 1.700 nigerianos a regressar voluntariamente ao seu país de origem neste ano». («Nigeria’s parliament said its lawmakers would stop travelling to South Africa on official business, in protest at violence against Nigerians and other African migrants. Nigeria says 98 of its citizens have died in attacks linked to anti-migrant hostility there since 2022. Rising tensions have also prompted nearly 1,700 Nigerians to return home voluntarily this year».)
Já o Passa Palavra tinha publicado, faz hoje exactamente sete anos e um dia, um artigo sobre o Racismo negro anti-negro na África (aqui).
Continuamos a aguardar que os movimentos anti-racistas, nomeadamente o movimento negro, denunciem aquelas gravíssimas manifestações de racismo.
Qual a diferença entre racismo e xenofobia? O que se está chamando de “raça” aqui?
Quando saiu esse FD, enviei um comentário que não foi aprovado problematizando exatamente isso. Vamos ver se agora vai:
Um companheiro, que no Brasil sempre foi tratado como negro e assim se entendia, entrou no Islã. Pra quem se criou nas periferias de São Paulo, frequentar as mesquitas do centrão é uma baita experiência cosmopolita, conhecendo gente de vários países árabes e africanos. Agora vamos pro causo: certa vez, conversando com um somali, chamou ele de “irmão”, ao que este respondeu: “Como assim irmão? Eu não sou seu irmão, minha mãe teve cinco filhos e você não é nenhum deles”. Meu camarada até tentou explicar: “É um jeito de falar, irmão de cor, você é negro como eu”, mas foi corrigido: “Negro é você, eu não sou negro, eu sou somali”.
Trago esse pequeno causo para ilustrar que, ao tentar fazer uma provocação ao movimento negro nesse FD, o PP acaba se complicando. Talvez estejam reiterando certa noção de raça que gostariam de estar combatendo.
Caio,
Cito uma passagem do artigo Racismo negro anti-negro:
«O racismo é um fenômeno cujos fundamentos econômicos e sociais se reproduzem em qualquer país, em qualquer continente, com quaisquer caracteres físicos. Sob a influência do racismo, um negro sul-africano saberá identificar tão bem um negro nigeriano ou maliano ou zambiano como um português identificará com igual proficiência um italiano, ou um francês identificará um alemão. Aliás, os racistas criam perfis tão minuciosos das supostas “raças” que um racista sul-africano de uma dada etnia julga-se capaz de identificar tão bem outro de outra etnia como um português das Beiras julga-se capaz de identificar um português do Alentejo, ou inversamente. A biologia como pretexto nunca falta.» (Aqui).
Mais genericamente, convém saber que primeiro aparecem os racistas, depois as raças. As raças são uma criação dos racistas. E é porque os racistas existem, que as raças passam a ter uma existência prática, e continuarão a existir enquanto existirem os racistas. Que por isso mesmo, quando lhes convém, voltam a cara para o lado quando deparam com situações como a do racismo negro anti-negro.
De resto, se quiser saber a opinião que eu, pessoalmente, tenho sobre esse assunto, remeto-o para a integralidade do quarto volume de Labirintos do Fascismo (São Paulo: Hedra, 2022).
Esse movimento negro hegemônico me lembra aquelas ditas feministas que entram no trem lotado empurrando todos e todas, e, como justificativa, da ação incomoda, culpam o patriarcalismo pela lotação do transporte público, na justificativa das suas ações escrotas. Mas esse engajamento não reflete que sua suposta conscientização tem como efeito nefasto, a incomoda realidade, que na frente e do lado dos “machos escrotos”, existem senhoras e moças que se apertarão pela pressão das exigências de espaços das empoderadas revoltadas que só pensam em si e na sua consciência engajada.
A hegemônica do movimento negro só pensam em formar lideranças para a gestão do caos capitalista. Os negros identitários querem se tornar a classe opressora que existe e que virá!
João, concordo que a noção de raça é social, não natural. Por isso meu exemplo. Por isso, é lógico que a mudança nas coordenadas geográficas embaralham os termos do racismo. Para mim a abordagem do FD ficou presa nesse emaranhado: ao falar que o racismo sofrido pelos nigerianos na África do Sul é um “racismo negro antinegro” que deveria ser denunciado pelo movimento negro daqui, não se está universalizando (e naturalizando?) o que aqui se chama de “negros”? Lembro outro caso, da irmã de um amigo, que no Brasil sempre se entendeu branca. Na migração para os EUA, perguntaram sua cor. “Branca”. O agente olhou bem para ela e marcou a opção “Outra”.
Ao pouco que li e pesquisei a respeito da xenofobia que vemos na África do Sul, e a Operação Dulula como movimento, a xenofobia assume contornos racistas. São os negros e africanos que sofrem a maior pressão, os brancos e asiáticos não são os alvos principais. Nigerianos, moçambicanos, tanzanianos, etc, são os principais perseguidos e assassinados pelos nacionalistas sul-africanos negros.