Por Jan Cenek
Conheci o escritor argentino Ernesto Sabato (1911-2011) procurando por Albert Camus (1913-1960). Queria ler algo sobre este e encontrei Mensageiros das fúrias: uma leitura camusiana de Ernesto Sabato, de Janer Cristaldo [1], que, entre outras atividades, traduziu o escritor argentino para o português. Sempre retorno aos livros de Sabato, costumo reler especialmente O escritor e seus fantasmas [2], coletânea de ensaios e impressões em que Sabato consolida sua ruptura com a física e reafirma sua adesão à literatura, que ele define como forma de conhecimento privilegiada para examinar a condição humana, “talvez a mais completa e profunda” [3].
Conheci o escritor uruguaio Carlos Liscano (1949-2023) por meio de Ernesto Sabato. Caminhando, passei por um livreiro de rua. Parei, espiei e vi El escritor y el otro [4], título que me remeteu ao livro O escritor e seus fantasmas, de Sabato. Seria um diálogo? O outro de Liscano corresponderia aos fantasmas de Sabato? Li e reli algumas vezes os ensaios e impressões do escritor uruguaio. Liscano foi, também, poeta, artista plástico e militante. Integrou o Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T). Preso político, esteve encarcerado por treze anos (1972 – 1985). No cárcere, afirmou-se como escritor e iniciou sua produção literária. Traduzi e compartilhei pequenos trechos de Carlos Liscano que podem ser lidos aqui e aqui.
Os fantasmas de Ernesto Sabato são obsessões inconfessáveis, traumas secretos, angústias profundas que atravessam os três romances escritos pelo argentino: O túnel (1948); Sobre heróis e tumbas (1961); Abadon, o exterminador (1974). Os fantasmas do escritor argentino têm a ver com a finitude do homem, os limites da ciência e o colapso da civilização. A “anelosa busca de uma ordem e de um por quê” [5] atormentou Sabato, empurrando-o da física para a literatura. Não lhe bastavam as verdades científicas dos objetos. Buscava, sobretudo, o homem. Para Sabato [6], os argentinos – ele próprio incluído – estavam no final da civilização (em todos os sentidos), submetidos a uma ruptura duplamente dramática: “sem ter por trás o respaldo de uma grande cultura indígena (como a asteca ou a incaica) e sem poder, tampouco, reivindicar de modo cabal a tradição de Roma ou Paris”. Ainda não haviam se definido como uma pátria no mundo quando teve início a derrocada da civilização tecnocrática. A literatura é, para Sabato, uma possibilidade de reencontro, uma expressão híbrida do espírito humano posicionada entre a arte e o pensamento puro, a fantasia e o real, os sonhos e as sombras. No romance é possível explorar a realidade integral, objetiva e subjetiva, dentro e fora do sujeito. Foi o que fez Sabato migrar da física para a literatura.
Já o outro, de Carlos Liscano, é mais singelo. Sacada do escritor uruguaio: antes de criar uma obra, é preciso criar o personagem escritor. Foi o que fez o Carlos Liscano preso político da ditadura civil-militar uruguaia: criou o Carlos Liscano escritor, que publicaria dezenas de livros. O outro – o homem de carne e osso – se transforma em criado do escritor, apesar de conhecer todas as fraquezas e misérias do personagem que criou. Eis a separação: el escritor y el otro. Para Liscano [7], o outro “sonha em um dia dissolver-se em seu personagem, para voltar a ser apenas um.” O que pode ou não acontecer. Mas, de qualquer forma, “criado o escritor, a obra se fará sozinha, porque o escritor se cria escrevendo”, garante Liscano [8].
Jorge Luis Borges [9] também separou o escritor do outro. Talvez por não precisar se preocupar com a sobrevivência material de ambos, talvez por ser mais leitor que escritor; o outro, para Borges, é o que escreve livros. O contrário do que é para Liscano. Borges suspeita do outro Borges, o escritor, que “alcançou certas páginas válidas”, apesar do “perverso costume de falsear e magnificar”. Diferentemente de Liscano, Borges não demonstra nenhuma vontade de se dissolver no outro, antes pelo contrário. O desencontro borgeano é curioso. Pensei em registrar, à la Sabato, que o Borges escritor é um fantasma do Borges leitor. Mas seria ir longe demais levando a sério o que não é sério. A suposta confissão de Borges de que se reconhecia mais num rasqueado de guitarra do que nos livros do outro Borges, o escritor, é puro falseamento, que é a única parte séria do texto. Não fosse isso, o título poderia ser El lector y el otro. De qualquer forma, o texto de Borges ilumina, por contraste, El escritor y el otro, de Liscano.
Se Borges ajuda a pensar Liscano por contraste, Sabato o faz por aproximação. Para Sabato [10], a condição mais preciosa do escritor é o fanatismo: “Tem de ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se à sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer.” Aqui a prática de Liscano ilustra o argumento de Sabato. Fanatismo criativo: se definir, se forjar e se manter como escritor no cárcere de uma ditadura sanguinária. Para Sabato [11], o homem do tempo presente vive no limite: diante da aniquilação, da tortura, da solidão. A literatura do homem presente será, sobretudo, uma “literatura de situações excepcionais”. Eis uma boa definição para a prática literária de Carlos Liscano. Outra aproximação. Sabato [12] compara literatura e prostituição, se pergunta sobre a sobrevivência material do escritor, e responde de forma provocativa, diz que todas as maneiras de ganhar a vida são legítimas, desde que a “criação não seja manuseada, abastardada e barateada”. A saída de Liscano é menos provocativa, mas mais radical. O uruguaio simplesmente eliminou a questão do horizonte de possibilidades e preocupações. Criado o personagem escritor, resta ao homem de carne e osso que o criou, o outro, se virar para garantir a sobrevivência material de ambos. Ao separar o escritor do outro, Liscano deixa para este a labuta diária em busca do pão, permitindo que o escritor apenas e simplesmente escreva. Na prática, Carlos Liscano – o outro, o que inventou o escritor – teve uma série de empregos: faxineiro, professor, tradutor. Tudo para possibilitar que o Carlos Liscano escritor escrevesse sem “abastardar” sua literatura, para usar um verbo empregado pelo argentino. Sabato [13] é categórico: o escritor deve fazer qualquer coisa para sobreviver, pode se empregar num banco ou assaltar um carro-forte, só não pode transformar sua literatura em mercadoria. Liscano [14] é realista: constata que ser escritor lhe foi um exercício de renúncia, havia renunciado a ter uma família, filhos…
Encantamento dialético: ninguém lê duas vezes o mesmo livro. Conheci Liscano pela semelhança com um título de Sabato. Mas, quando reli o argentino depois de ler o uruguaio, já era outro, havia mudado. O que me faz pensar que um escritor escreve para se transformar, como argumenta Liscano, e um leitor lê pela mesma razão. Em Sabato [15], chama a atenção a “absurda fome de eternidade”, a inabalável vontade de superar a “desgraçada precariedade” do corpo. Neste sentido, os fantasmas de Sabato são metafísicos. Os escritores geralmente confessam que escrevem para sobreviver à morte, deixando registros mais longevos que seus corpos. O que Sabato [16] chamou de “anelosa busca de uma ordem e de um por quê” às vezes é, também, uma inquebrantável vontade de marcar de alguma forma a precária passagem por este mundo. Um único ensaio presente em El escritor y el otro levou título, que é justamente: Vencer o tempo. Não é à toa nem coincidência. Liscano registrou que “o escritor luta contra a morte” [17], “quer deixar testemunho para além da morte” [18]. Se é assim, o uruguaio compartilha com o Sabato a “absurda fome de eternidade” e a vontade de superar a “desgraçada precariedade” do corpo.
Mas Liscano suaviza e problematiza a inquebrantável vontade de marcar sua passagem pelo mundo por meio da literatura. Sabe que outros já tentaram o mesmo movimento e fracassaram. No texto Borges e eu, Jorge Luis Borges também aspira à permanência, mas com menos gravidade que Sabato, talvez por saber que permaneceria nos textos do outro, o Borges escritor. Sendo assim, pôde até disfarçar e despistar dizendo que pouco se reconhecia nos livros que escreveu. Com Sabato e no limite, a “absurda fome de eternidade” somada à “desgraçada precariedade” do corpo tem duas soluções possíveis: ou se busca algum Deus que dê sentido ao mundo e às coisas, um espírito absoluto levitando na eternidade; ou o homem será uma “alma atormentada” [19], transitando entre o caos e os seus fantasmas. Difícil imaginar uma alma mais atormentada que a de Carlos Liscano. Treze anos encarcerado por uma ditadura sanguinária. A invenção de um escritor no cárcere e, posteriormente, uma vida toda preso à escrita, que nem sempre fluiu. Quem lê Liscano fica com a impressão de que a literatura às vezes é uma prisão mais cruel que as cadeias da ditadura uruguaia. Como é duro o vazio do escritor diante da página em branco. Como é torturante a distância entre a obra imaginada e a efetivamente criada. Mas tem que ser assim. Em 2025, foi lançado um documentário que resgata a luta e o reencontro de 52 uruguaios, contemporâneos de Liscano, que combateram ao lado da Frente Sandinista de Libertação Nacional, na Nicarágua, nos anos 1970. O título do filme é Una y mil veces. Perguntados se fariam tudo novamente, os homens respondem que sim: uma e mil vezes. Não sei se Carlos Liscano diria o mesmo sobre sua militância política, mas ele certamente teria criado o Carlos Liscano escritor mil vezes, se necessário.
É assim porque a literatura transforma, se não o mundo, ao menos quem escreve e quem lê. Mais que isso, tal transformação é essencialmente humana. O Carlos Liscano que começava um livro sabia que nem o escritor nem o outro seriam os mesmos depois. É o milagre da criação, que, diga-se de passagem, é compartilhado pelos leitores. Ninguém escreve nem lê duas vezes o mesmo livro. O que contrasta com Sabato e até com Borges, no caso deste último por falseamento e brincadeira. Não significa que Liscano não tenha sido uma alma atormentada, como Sabato. Ocorre que o uruguaio escreveu apesar dos seus fantasmas, e não para exorcizá-los. Não se prendeu nem se limitou a eles. Liscano [20] confessa que escrever é “afundar, deixar-se afundar.” Mas ocorre que, nesse salto para dentro, nesse mergulho para baixo, o importante é “ouvir o rumor das palavras” [21]. Aqui a aproximação com Drummond [22] e sua procura da poesia é inescapável. Os poemas, assim como o romances, não estão nos acontecimentos e incidentes pessoais: nem na gota de bile, nem na careta de gozo, nem nos esqueletos familiares, nem na sepultada infância, nem nos porões da mente, nem nas obsessões inconfessáveis, nem nos traumas secretos, nem nas angústias profundas. Os poemas, assim como os romances, estão paralisados no reino das palavras. Por isso é preciso ouvir o rumor delas no salto que se faz para dentro, no mergulho para baixo. Liscano afirma, sem falsa modéstia, que algumas vezes conseguiu regressar com algo das viagens que fez ao reino das palavras. É o tal milagre da criação, que, quando acontece, transforma o escritor, o outro e os leitores. Escrever é, sobretudo, transformar. Se não o mundo, certamente a si mesmo e alguns poucos, como os leitores mais dedicados.
Liscano [23]: “escrevo para deixar de ser o que sou.” Porque escrever transforma. Porque a escrita é imprevisível. Porque se o escritor soubesse previamente o que gostaria de dizer, não precisaria escrever. Evitaria assim a luta vã com as palavras [24]. Mas se privaria da alegria da criação: porque escrever é uma festa. Acrescento chamando Eduardo Galeano [25] para a prosa. Essa alegria – essa possibilidade positiva e reconfortante da criação literária – é o que encanta em El escritor y el otro. Sabato [26] registrou que fala de literatura como um camponês fala do seu cavalo. Penso que o dito se aplicaria melhor a Liscano, que soube reconhecer as alegrias do ofício. Imagino-o saboreando os textos que trouxe do reino das palavras. A escrita às vezes é uma festa, às vezes reconforta com vantagem. É também por essa razão que se escreve. Sabato: escrever é um parto difícil, é exorcizar fantasmas, é procurar verdades que a ciência e a filosofia não alcançam – gravidade que pesa, sempre. Liscano: escrever é se transformar, é dançar com os próprios fantasmas, é ser ultrapassado pelo texto – leveza que reconforta, às vezes.
Notas
[1] Janer Cristaldo. Mensageiros das fúrias: uma leitura camusiana de Ernesto Sabato. Florianópolis: Editora da UFSC, 1983.
[2] Ernesto Sabato. O escritor e seus fantasmas. Rio de Janeiro: F. Alves, 1982.
[3] Sabato, op. cit., p. 11.
[4] Carlos Liscano. El escritor y el otro. Montevideo: Editorial Planeta, 2016.
[5] Sabato, op. cit., p. 48.
[6] Sabato, op. cit., p. 47.
[7] Liscano, op. cit., p. 76.
[8] Liscano, op. cit., p. 96.
[9] Jorge Luis Borges. Borges e eu. Folha de São Paulo, 1999.
[10] Sabato, op. cit., p. 20.
[11] Sabato, op. cit., p. 54.
[12] Sabato, op. cit., p. 131.
[13] Sabato, op. cit., p. 131.
[14] Liscano, op. cit., p. 93.
[15] Sabato, op. cit., p. 75.
[16] Sabato, op. cit., p. 48.
[17] Liscano, op. cit., p. 95.
[18] Liscano, op. cit., p. 87.
[19] Sabato, op. cit., p. 48.
[20] Liscano, op. cit., p. 91.
[21] Liscano, op. cit., p. 91.
[22] Carlos Drummond de Andrade. Nova reunião: 23 livros de poesia – volume 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. p. 141.
[23] Liscano, op. cit., p. 94.
[24] Drummond, op. cit., p. 121.
[25] Marina Rossi. Ouça Eduardo Galeano. El País, 2018.
[26] Sabato, op. cit., p. 9.





