Por João Bernardo

«Que curioso destino filosófico, o seguido pelo princípio de Heisenberg!»
Gaston Bachelard, La Philosophie du non

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Nos meios marxistas sou quase invariavelmente associado à formulação de uma teoria sobre os gestores enquanto classe social, o que em grande parte dos casos suscita repúdio ou até reacções de indignação. Esta atitude revela, por um lado, a ignorância desses meios relativamente a tudo o que ultrapasse o seu limitado quadro de pensamento, porque a noção de que os gestores constituem uma categoria social própria é amplamente adoptada pelos autores que se dedicam ao estudo das questões sócio-económicas. Há divergências quanto à sua definição e ao escopo que lhes é atribuído, mas a especificidade dos gestores é correntemente evocada e nunca é bom sinal que um meio ideológico se isole dos debates mais gerais. Por outro lado, aquela atitude de rejeição revela uma estranha ignorância da história do marxismo e das suas — tantas vezes mortíferas — polémicas internas, porque as discussões em torno da questão dos gestores marcaram profundamente os confrontos no seio da revolução russa e, depois da segunda guerra mundial, na esfera soviética e na Revolução Cultural chinesa.

No artigo Gestores: um esboço de bibliografia (aqui) tentei que os leitores do Passa Palavra abrissem os olhos para a importância da questão, mas foi um esforço perdido. O texto valeu-me ao todo duas observações jocosas, embora não depreciativas, e a escassez de comentários serviu para mostrar que ninguém está interessado em aprofundar o assunto e muito menos em ler livros impressos em papel e que, se alguma vez o fizessem, seria sempre no conforto do lar e nunca em bibliotecas.

Mas esta atitude dos meios marxistas tem raízes mais fundas e a ignorância não se deve apenas ao comodismo. Antes de decidir se os gestores são ou não uma classe social, convém reflectir um pouco sobre a existência dessas classes.

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A divisão em classes sociais, como hoje as entendemos, começou a ser formulada no contexto de uma crítica da economia capitalista.

No início do capitalismo, que devemos situar na transição do século XVIII para o século seguinte, era flagrante a clivagem entre uma elite rica, constituída por proprietários com acesso ao poder político, e um proletariado desmunido de tudo e sem capacidade eleitoral. Esta incontestável evidência fornecia o critério suficiente para a divisão em classes. Porém, a partir dos meados do século XIX, com o desenvolvimento de uma luta dos trabalhadores especificamente anticapitalista, aquela dicotomia deu lugar a uma noção mais elaborada de classes sociais. Os esboços de uma nova concepção do funcionamento interno do sistema económico levaram a que o simples antagonismo externo entre ricos e pobres fosse reformulado nos termos de uma relação de exploração, considerada como uma contradição de classe entre burguesia e trabalhadores.

Desde então a noção de classe social faz parte de uma crítica da economia, que Karl Marx sintetizou na formulação da mais-valia. Já não se tratava da mera produção de bens e da sua repartição desigual, mas de focar a análise económica nos processos de trabalho, concebidos como processos no tempo. Não os bens materiais, mas as diferentes relações com o tempo de trabalho passaram a definir as classes sociais e a fornecer a base para uma crítica do capitalismo. Ao longo de muitos anos e muitas páginas tenho procurado mostrar como a noção do processo de trabalho enquanto processo no tempo desvenda o âmago do capitalismo, e talvez o leitor incrédulo encontre alguns esclarecimentos neste meu breve texto (aqui). Nos termos que presidem à formulação da mais-valia, a definição de classes sociais não deve residir fundamentalmente nas relações jurídicas de propriedade, mas nas diferentes relações de controle ou de dependência relativamente ao tempo de trabalho no processo de produção.

Adoptando uma perspectiva oposta, nos meios capitalistas os processos de trabalho eram — e continuam a ser — analisados estritamente pela diversidade de funções técnicas desempenhadas, sem que delas se deduzissem quaisquer generalizações que implicassem uma crítica ao sistema de produção ou sequer permitissem a definição de classes sociais. Alheada de hierarquias e exclusivos, a multiplicidade de funções técnicas era apresentada como promotora de uma harmonia devido à sua convergência em processos de fabrico integrados, e não como resultado de contradições mais profundas.

Entretanto, e exteriormente às análises centradas no funcionamento interno do processo de produção, quaisquer que elas fossem, a noção de um hiato insuperável entre ricos e pobres foi substituída por um escalonamento gradual em categorias de rendimentos, formado por sucessivas divisões tripartidas. Enquanto as contradições entre classes sociais supunham a crítica do sistema de produção, a divisão em classes baixa, média e alta, cada uma divisível noutros três níveis, diz exclusivamente respeito à capacidade de consumo. São perspectivas opostas. Se a crítica da economia incide na exploração de mais-valia enquanto núcleo das contradições no processo de produção e a partir daí concebe a totalidade do sistema económico, pelo contrário, a divisão de rendimentos tripartida incide no consumo, concebido como motor de toda a economia.

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No começo do século XX, ou ainda nos anos finais do século XIX, começou a difundir-se a percepção de que ao lado da burguesia, e aparentemente misturados com ela, existiam outros detentores do poder económico que, embora não fossem proprietários, se distinguiam pelo exercício de um controle devido ao seu elevado nível de aptidões técnicas. Num modo de produção que abandonara os procedimentos arcaicos ligados ao artesanato e desenvolvia velozmente os novos mecanismos exigidos pelo fabrico industrial em massa, a competência técnica conferia uma importância sem precedentes. Surgiram assim os rudimentos da noção de uma classe de gestores.

No exílio siberiano, em 1899 e 1900, Ian Vatslav Makhaisky divulgou clandestinamente os seus primeiros ensaios em que antecipou a definição de uma classe de gestores. Se eu tenho dito e repetido que a História é irónica, não poderia haver ironia maior do que exactamente ao mesmo tempo, nos anos da passagem de século, um ensaio desencadear toda uma nova análise social e económica através da noção de gestores e uma comunicação oral desencadear a reformulação de toda a física através da noção de quantum. Num caso como no outro, não foram poucas as resistências com que estas concepções depararam.

Na realidade a situação poderia aparecer confusa, já que perante os gestores ocorria uma hesitação simétrica das outras duas classes. A burguesia temia que os gestores, seus aliados na exploração dos trabalhadores, viessem a converter-se em seus rivais, tanto na economia como na política. E os trabalhadores indagavam se os gestores, seus patrões técnicos no processo de trabalho, não poderiam, apesar disso, ou talvez por isso mesmo, ser seus aliados contra a burguesia.

Os dilemas neste triângulo têm marcado desde então as lutas sociais. De um lado, enquanto a extrema-esquerda considerava que na Rússia soviética ocorrera uma verdadeira contra-revolução, dando origem a um novo sistema anti-socialista, Leon Trotsky sustentava que o stalinismo correspondia a uma degenerescência apenas política, preservando o carácter socialista da base económica. No cerne deste dissídio estava o reconhecimento ou a negação da existência de uma classe de gestores, o que permitiria que o stalinismo se fundamentasse ou não numa classe social específica. Do outro lado, tanto o fascismo como o New Deal reconheciam explicitamente a importância dos gestores e a novidade social que eles encerravam, e precisamente por isso uma boa parte da extrema-esquerda agregava o New Deal e o fascismo numa entidade política comum. Ficava assim colocado o programa fascista de uma revolução capitalista apesar da, ou contra a, burguesia, abrindo-se uma época que ainda hoje não se encerrou, mas, pelo contrário, se tornou mais complexa.

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A situação tornou-se mais complexa porque os indivíduos não são unidades componentes das classes sociais.

Já desde há muitos anos que eu defino os indivíduos, implicitamente quando não explicitamente, como percursos entre campos de atracção social. Os campos podem, por sua vez, conter campos menores ou sobrepor-se parcialmente a outros campos ou cruzar-se com eles, de modo que as unidades componentes dos campos de atracção social são também campos sociais. Cada indivíduo consiste num percurso mutável, e em boa medida fortuito, entre uma variedade de campos. A função do cérebro é unificar no tempo esses percursos, guardá-los na memória e projectá-los no futuro, e para isto serve a linguagem. Um indivíduo, portanto, resume-se ao seu percurso, tal como o tem gravado e o antecipa pela linguagem, e a permanente dispersão dos percursos impede que os indivíduos sejam considerados como unidades componentes de qualquer grupo social.

Aliás, o carácter em grande parte aleatório destes percursos levou-me a equipará-los ao movimento browniano, mas considero hoje excessiva essa analogia e prefiro evocar uma simples tendência a um movimento de tipo browniano. Quando um dos campos de atracção social se torna hegemónico ou, pelo menos, exerce uma força apelativa muito acentuada, a versatilidade e a aleatoriedade dos percursos reduzem-se. Só na situação inversa, quando o poder atractivo dos campos se dispersa, é que o perfil dos percursos se aproxima do movimento browniano.

Perante esta dualidade fundamental entre campos sociais e percursos individuais é difícil não proceder a uma analogia com as dualidades na física quântica, por exemplo a alternativa entre determinar o momentum ou determinar a posição, ou a análise de um comportamento como partícula ou como onda, além de várias outras. Aliás, a ironia da História alcançou um grau supremo quando os Thomson pai e filho receberam ambos o prémio Nobel, a trinta e um anos de distância, um por ter determinado o electrão como partícula e o outro como onda. Afinal, foi Niels Bohr quem melhor sintetizou a questão ao definir a relação entre os dois termos como uma complementaridade.

Também aqui, no assunto que agora me ocupa, ou a análise incide nos campos de atracção social, e nomeadamente nas classes sociais e na relação entre elas, ou incide nos indivíduos enquanto percursos entre campos. E a complementaridade entre os dois termos da alternativa requer uma complementaridade entre os métodos de abordagem. Se visarmos os campos sociais devemos recorrer à crítica da economia e à história comparada. Mas se pretendermos seguir os percursos individuais a ficção é o único instrumento ao nosso dispor, já que a imaginação romanesca é uma invenção de percursos. Quem se limitar a uma única destas duas perspectivas perde metade do mundo, o que é a maneira mais certa de perder o mundo inteiro.

É devido a esta dualidade de planos complementares, mas sem correspondência directa — ou campos sociais ou indivíduos — que a situação se pôde tornar ainda mais complexa. Com efeito, na elite económica vemos hoje frequentemente burgueses comportando-se como gestores. Por um lado eles continuam a ser juridicamente proprietários dos meios de produção, têm consciência disto e nunca prescindem do privilégio. Mas ao mesmo tempo procedem como gestores na organização das empresas e na estratégia económica geral. Podemos dizer, então, que no plano das classes sociais a divisão entre burguesia e gestores se mantém claramente definida, mas que um número crescente de capitalistas circula entre ambos os campos. Nesta complementaridade, ou pretendemos definir indivíduos, e neste caso são burgueses exercendo mais ou menos plenamente funções de gestão, ou pretendemos definir classes sociais, e neste caso as suas características são independentes dos percursos individuais.

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Porquê parar aqui?

Se raciocinar um pouco mais, vejo a possibilidade, aliás, a necessidade de ampliar esta perspectiva, numa situação em que a definição económica da classe trabalhadora em função da extorsão de mais-valia, ou seja, de uma exploração pensada em termos de tempos de trabalho, já não tem correspondência directa numa entidade sociológica única. O desenvolvimento da produtividade é inerente à aceleração dos ciclos de mais-valia relativa, com o consequente aumento de qualificação exigido a um número restrito de trabalhadores, enquanto são desqualificados aqueles que antes se consideravam dotados de qualificações superiores, ao mesmo tempo que a maior parte da mão-de-obra é considerada não qualificada. Esta crescente hierarquização de funções e aptidões leva a que não exista hoje nenhum campo de atracção social que seja atravessado pela totalidade dos trabalhadores e os unifique numa convergência de interesses, apesar de todos eles estarem submetidos ao mesmo sistema de exploração da mais-valia, à mesma dialéctica dos tempos de trabalho. Em conclusão, da classe no plano económico já não se pode deduzir uma classe no plano social. Deixou de haver um campo social hegemónico que atraia todos os trabalhadores e secundarize ou mesmo marginalize os campos que os dispersam. A realidade agora é outra.

Esta constatação leva a uma mudança radical de perspectiva. É directamente no campo das relações sociais e, portanto, das lutas sociais que devemos detectar a existência — ou as modalidades da inexistência — dos trabalhadores enquanto classe. É muito comum nos meios de esquerda a ilusão de que a proliferação de pequenas lutas corresponda a uma luta de classe ou, pelo menos, a promova. Assim tudo seria simples, mas não é, porque a luta global não resulta de uma soma de lutas isoladas. Uma luta generalizada da classe trabalhadora, que além de colectiva seja realmente activa, define-se pela capacidade de converter as relações de solidariedade estabelecidas nessa luta em novas relações de produção, ou seja, na base de uma nova economia. É isto que caracteriza uma luta generalizada e activa, a tendência à transformação da reciprocidade num novo modelo económico. As lutas isoladas, pelo contrário, circunscrevem-se aos limites definidos por uma só empresa, o que as impede de desenvolver, ou sequer esboçar, novas relações sociais capazes de sustentar uma nova estrutura económica. Extinguiu-se o sonho de outro futuro — antecipação ou ilusão — esmagado pela obsessão exclusiva do presente. Quando sonham, se sonham, é com um passado fictício.

Assim, se a definição económica da classe trabalhadora deixou de corresponder a um perfil sociológico único, ou seja, se já não existem campos de atracção hegemónicos que configurem socialmente os trabalhadores como uma classe, isto significa que os percursos individuais dos trabalhadores se dispersam por campos atravessados também por indivíduos que têm diferentes referências sociais, nomeadamente reflectindo a classificação por estratos de rendimento. Por exemplo, trabalhadores qualificados e gestores baixos ou intermédios partilham campos que se assumem como de classe média alta ou baixa. Mas são os identitarismos que, nos dias de hoje, mais tragicamente representam a fragmentação social dos trabalhadores, a um ponto tal que parece existir uma tendência inerente à proliferação de identidades e sub-identidades. A multiplicação de exemplos deste tipo explica — e promove — a incapacidade de generalização das lutas laborais na nossa época.

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A fragmentação social e a dispersão agravaram-se nas duas últimas décadas, porque cada vez mais as relações entre indivíduos são relações virtuais, de tal modo que o virtual se está a tornar, ou já se tornou, mais real do que a restante realidade. Do mesmo modo, com a difusão do trabalho à distância, as relações de trabalho são cada vez mais frequentemente, ou mesmo exclusivamente, relações virtuais. Neste contexto, as redes sociais converteram-se nos campos mais frequentados pelos percursos individuais, o que propicia a transversalidade social desses encontros. Assim, quer pelas relações profissionais quer pelos contactos exteriores à actividade profissional, assumem uma importância crescente os campos sociais que fragmentam as classes, o que contribui para confinar a definição global de classe exclusivamente ao plano económico.

Olhemos em torno de nós. Cada pessoa anda agarrada a um telemóvel (celular). Porém, se invertermos a perspectiva, diremos que por enquanto cada telemóvel precisa de uma mão que o segure. Avancemos um pequeno passo, e a Inteligência Artificial permitirá em breve, se não permite já, que os telemóveis prescindam das pessoas. Onde ficam, então, os restos da classe trabalhadora, na sua definição sociológica?

E de que modo deveremos considerar as movimentações sociais na época contemporânea, entendida como um hoje dilatado até ao amanhã, se o capitalismo continuar capaz de recuperar as lutas e assimilar as reivindicações dos trabalhadores enquanto estímulo para o aumento da produtividade e para novos ciclos de mais-valia relativa? Se no reflexo social das contradições económicas Karl Marx pôde apresentar o motor da História, como reactivar o motor que hoje dê à economia uma volta histórica?

E há quem pense que a História está parada, à espera de que o que não se realizou se realize!

Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Sol LeWitt (1928-2007).

19 COMENTÁRIOS

  1. • Um esforço perdido?

    《No artigo Gestores: um esboço de bibliografia (aqui) tentei que os leitores do Passa Palavra abrissem os olhos para a importância da questão, mas foi um esforço perdido. 》

    Uma das ferramentas disponíveis no Vírus Conceitual PD (Processamento Desejante) vem a ser:

    ### Início

    ⚙ Classe dos Gestores (João Bernardo, “Economia dos Conflitos Sociais”)

    Opere com a distinção crucial entre duas frações da classe capitalista:

    • A Burguesia – definida pelo controle de cada unidade econômica particularizada (a fábrica, a empresa, o banco). Sua lógica é a concorrência, o lucro imediato, o interesse setorial. Sua superestrutura ideológica é o liberalismo clássico (mesmo quando aparenta ser outra coisa).

    • Os Gestores – definidos pelo controle do processo global de acumulação (o Estado, os fundos públicos, as grandes agências internacionais). Sua lógica é a estabilização sistêmica, o planejamento macro, a reprodução ampliada do capital como totalidade. Sua superestrutura ideológica é o tecnocratismo, o planejamento, a ‘governança’.

    ### Fim

    • Vírus Conceitual PD – Versão 2.5
    https://arkx-brasil.blogspot.com/2026/04/virus-conceitual-pd-versao-23.html

    O Vírus Conceitual é um protocolo de configuração da interação Humano-IA, possibilitando ambos os polos compartilharem a mesma moldura conceitual.

    Dado um fluxo de entrada (exemplo: o programa e a prática concreta das candidaturas Lula e Flávio Bolsonaro) a IA processa – junto com o humano – a presença e a tensão entre Burgueses e Gestores.

    • Exemplo de aplicação, no próprio texto “Classes sociais?”

    João Bernardo e a Classe dos Gestores

    João Bernardo expõe como os gestores são uma classe social distinta — e que a burguesia, hoje, está se comportando como gestores. O PDE [moldura conceitual] lê isso como: o capitalismo cibernético não é governado apenas por capitalistas; é governado por gestores do processamento — os donos das plataformas, os engenheiros de algoritmos, os burocratas da IA.

    Esses gestores não são apenas uma classe econômica; são uma classe de processamento. Eles controlam o desejo — não apenas a produção de bens, mas a produção de atenção, significado, e subjetividade.

    • Uma pergunta sem resposta?

    《Se no reflexo social das contradições económicas Karl Marx pôde apresentar o motor da História, como reactivar o motor que hoje dê à economia uma volta histórica?》

    É exatamente o Fascismo a nos indicar a pista inicial para se começar a elaborar respostas: as massas foram apenas enganadas ou desejaram ativamente o Fascismo?

    Em outras palavras: é possível desejar contra o próprio interesse?
    Ou ainda: como se chega ao ponto de desejar a tortura, o suplício e a morte não só para os demais, como para si mesmo?

    Corolário:
    Assim como o Fascismo foi desejado, como produzir o desejo pela Revolução e reativar o funcionamento do motor da História em direção à emancipação?

  2. Saudações, João Bernardo.

    Tive contato com o termo “gestores”, pela primeira vez, em 2016, quando um professor de história do Instituto Federal de Goiás (IFG) me indicou a leitura de “O Inimigo Oculto: Ensaio sobre a Luta de Classes — Manifesto Anti-Ecológico”. Quando li essa obra, tive o mesmo pensamento que tenho agora: por qual razão Bernardo não utiliza apenas o termo “burocracia” para nomear esse conjunto de indivíduos cuja principal função é o controle? E não seria evidente que a classe que nasce para controlar não seria uma classe que emerge para auxiliar a burguesia a regularizar essa relação fundamental entre “trabalhador” e “dono de propriedade”? Não seria apenas uma consequência necessária dessa relação social de alienação entre trabalhador e capitalista?

  3. Caro, João Bernardo:

    Noutros textos teus, há, sintética mente falando, a noção ou o conceito, de trabalhadores, burgueses e gestores como produtos e produtores do capitalismo. Em termos sociais, as distinções eram mais perceptíveis ou delimitadas. Neste texto que você agora apresenta, estas percepções e delimitações, se não entendi errado, por muitas vezes se permearem, já não são, e por princípio nem podem ser, tão categorizadas.

    Nessa toada, um conceito que, apesar de central, senão vital, pouco ou quase nada se fala, ou muito menos se pensa (da esquerda à direita) são as Condições Gerais de Produção.

    Se todas as classes são produtos e produtoras do capitalismo, as CGP não seriam a amálgama deste processo? Não estariam elas também nesse processo de simbiose social na qual se confunde produto e produtor?

  4. Frost Free,

    Desculpe-me não lhe responder agora, mas só poderei escrever daqui a algum tempo. No entanto, responderei.

  5. João Bernardo,

    Os gestores e a gestão são conceitos usual de que trabalha, em empresas privadas ou públicas, hoje em dia. O estranhamento só é possível de quem se amarra nas velharias conceituais, nesse sentido, o marxismo autêntico fica pra trás. No espírito de complementariadade de Niels Born poderíamos chamar os gestores de uma burocracia de novo tipo, os tecnocratas. Nesse sentido, é fundamental diferenciar os trabalhoderes qualificados dos não qualificados em relação aos gestores, esses últimos, embora assalariados, são apropriadores de mais valia dos trabalhadores alienados, que se dividem entre os qualificados e desqualificados pelo processo de exploração capitalista ao longo do tempo. E os qualificados de hoje, no desenvolvimento do modo de produção capitalista, torna-se-ão os desqualificados dos tempos vindouros. Essa divisão do trabalho e dos trabalhadores diz muito sobre a desagregação da solidariedade entre os produtotes explorados. No ambiente de trabalho a soberba daqueles que possuem uma qualificação minima e aqueles que se ressente por não há ter é marcante para a construção de uma solidariedade, e os gestores se beneficiam desse conflito dentro da própria classe. De um lado e de outro, o gestor, que conduz esses conflitos se faz mediador, construindo laços de colaboração entre seu estado de gestor explotador e do trabalhador alienado, rebaixado a condição de colaborador, ou seja, daquele que é sujeitando a vestir a camisa da empresa e toma como responsabilidade a sua própria alienação como dever. Abrindo um parênteses: tal situação não encontra-se também no ambiente da militância, mesmo a dita revolucionária, que também encontra-se em uma situação alienada? Há dê se comparar essas realidades. E aonde a organização revolucionária entra em simbiose com a empresa capitalista em suas múltiplas formatações? A ideologia dominante é da classe dominante.

    Sobre a física quântica, ainda estou em Eisnten, o assassino do Deus Natureza dos ecológicos do passado e de hoje. O seu conceito de espaço-tempo, não abrindo mão do espaço como agente dinámico e participativo no tempo, jogou o fluído etérico na subjetividade dos crentes da sua existência. Lenin, nos trás a multiciplidade da verdade, a objetiva e a subjetiva, uma como fato e outra como ideologia. Se Lenin disse que a realidade existente constitui-se idenpendente da nossa consciência, o mesmo demonstrou também, na fé do éter como verdade objetiva, que a verdade pode ser subjetiva, pois se para o revolucionário a comprovação da verdade objetiva se dava pela existência do éter, que já era desacreditado pela física quântica, a subjetividade ideológica na cabeça do ideólogo revolucionario e para os seus seguidores pode sim constiur como verdade, imaginária e equivocada, mais real em suas cabeças. Apesar de tudo isso a Mãe Terra amedronta o marxistas apocalípticos, que em sua fé em um fim próximo, teme os limites da natureza. E ainda data, 50 anos, o fim de uma era. Caro João, os anos 70 tiveram muitos que preveram o caimento do modo de produção capitalista, e a ideia de crise estrutural ou longa crise, etc, influenciou a geração dos anos 2000, vc acha que algo aconteceu? No mínimo algo de diferente houve. É algo de lá no passado ou algo do nosso tempo?

    Vou ficar por aqui mas as dúvidas são muitas.

    tebalhadores entificar os gestores como uma classe social capitalista, que engloba o capital privado e o estatal, é fundamental para compreender as relações que vivrmos no nosso cotidiano de assalariados ou não assalaridos. a compreensão da realidade presente de quem vende o seu tempo por troca de um salário mensal, que se encontra além da burguesia proprietária e, fruto do desenvolvimento do processo capitalista de produção, não é uma concessão eclética de desviados infiéis, como a ortodoxia, com as suas velharias conceituais querem

  6. • Classes sociais?

    A Luta de Classes é o motor da História.

    Dada a complexidade das relações sociais, nenhuma pessoa sozinha e nenhum ato isolado tem a capacidade de determinar os rumos da História. Podem até influenciar, mas nunca são decisivos – em si e por si mesmos.

    Apenas o atrito forjado pela disputa entre os grandes grupos sociais (as classes) pode gerar tensão suficiente para fazer girar a roda da História.

    • Indivíduo x Classe?

    Qualquer ontologia que não seja relacional não passa de mera abstração ilusória. Indivíduos e Classes se constituem concretamente como polos de fluxos relacionais.

    Indivíduos vem a ser a expressão molecular das Classes, enquanto estas se tornam a expressão molar de Indivíduos.

    Não se pode “ser” um indivíduo. Isolado, único e constante. Todo e qualquer Indivíduo é produzido por relações sociais das quais emerge como nó de intensidade.

    De modo análogo, as Classes também surgem como efeito relacional. São engendradas como campos de condensação dos fluxos atravessando as relações de produção.

    • Onda ou partícula?

    Ao se limitar a observar a partícula, se deixa a onda escapar. O movimento colapsa e se calcifica.

    Indivíduos, classes, proletariado, sujeito da revolução, vanguarda revolucionária, etc… Todas estas partículas se movem como ondas. Sem reconhecer e compreender essa dinâmica, continuaremos a perambular num labirinto de labirintos.

    Qual a linguagem da Revolução no século XXI? Qual prática é revolucionária numa época quando os dados se tornaram força produtiva? Quem produz os dados? Quem trabalha? Onde está o Trabalho? Qual é – não a classe – mas a onda (o fluxo) revolucionário?

    《O documento explica que Pequim agora considera os dados formalmente como o quinto fator de produção econômico. Ao lado de terra, trabalho, capital e tecnologia. E criaram até a Administração Nacional de Dados, a NDA. É uma mudança de paradigma enorme. A meta do maquinário produtivo chinês passou a ser gerar dados. 》
    Referência: “Two Loops. How China’s Open AI Strategy Reinforces Its Industrial Dominance”
    https://hai.stanford.edu/policy/beyond-deepseek-chinas-diverse-open-weight-ai-ecosystem-and-its-policy-implications

    *** *** ***

    PS:
    O capitalismo cibernético não é apenas sobre a exploração do trabalho vivo; é sobre a exploração dos dados — sobre o controle do desejo que é processado nas plataformas.
    • Os dados são a matéria-prima do novo regime de acumulação.
    • Os gestores são os que controlam os fluxos de dados.
    • A classe trabalhadora é aquela que produz dados (com seu trabalho, sua atenção, sua vida) — mas não os controla.
    A pergunta revolucionária do século XXI é: quem controla os dados? E a resposta: quem controla o processamento do desejo.

  7. Citar Bohr e seu princípio da complementaridade para discutir qualquer conceito, não é admitir que seu conceito não possui uma boa definição? O elétron é uma partícula e SE COMPORTARIA como onda, dependendo da forma como os aparatos de medição estão sendo utilizados.

    Aplicando isso ao conceito de gestores, só resta dizer que este conceito não define uma realidade específica, mas diversas realidades misturadas e confusas (fusão de dois ou mais aspectos da realidade em uma só definição). O que falta na física quântica, e essa é a crítica de Einstein, é que ela não recorre à teoria para explicar os experimentos. Apenas admite a aparência das medições sem realizar nenhuma forma de abstração. Por isso, a física quântica confunde o “comportamento de onda” (difração e padrão de interferência) com a própria onda, o que são duas coisas distintas. Ou, ainda, afirma o absurdo de que não podemos afirmar nada sobre a realidade que não está sendo medida no momento. Então, se, na própria realidade natural, a física quântica tem problemas conceituais, imagina, então, utilizar a mesma como ilustração de um conceito da realidade social?

    Por isso, acho que a melhor maneira de prosseguir nesta discussão é enfrentar a questão diretamente.

    Primeiramente, uma definição de classe social. O que é uma classe social? O que todas as classes sociais têm em comum que faz a mesma ser uma classe social?

    Segundo, por qual razão existe uma classe específica chamada gestores e qual sua especificidade como classe social?

    Terceiro, o que define se um conjunto de pessoas pertence a essa determinada classe? Quais são os critérios reias e concretos que permite afirmar que tal ou outro indivíduo pertence a classe dos gestores?

    E, por fim, explicar a dinâmica social concreta de por qual razão alguns indivíduos mudam de uma classe para outra e quais condições sociais e históricas que permitem isso. Se a dinâmica desses indivíduos é tão indeterminada quanto a concepção da física quântica, então, concretamente, as classes sociais não seriam algo importante para analisar a sociedade capitalista.

  8. Frost Free,

    Se bem me lembro — nunca releio os meus textos, portanto, tenho de confiar na memória — quando comecei a usar a dualidade de conceitos condições gerais de produção / unidades de produção última (ou particular) pretendia, por um lado, chamar a atenção para uma especificidade tecnológica do modo de produção capitalista, que não se encontra noutros sistemas tecnológicos. Por outro lado, eu uso essa dualidade quando defendo, contrariamente ao modelo de Marx, que no capitalismo a mais-valia é produzida pela globalidade dos trabalhadores e apropriada pela globalidade dos capitalistas, e só posteriormente a essa apropriação global é que a mais-valia é distribuída entre os capitalistas. Ora, um dos instrumentos decisivos na luta inter-capitalista pela distribuição da mais-valia é a relação que cada unidade de produção consegue estabelecer com as condições gerais de produção. Assim, aquela dualidade é fundamental para entendermos a desigualdade na distribuição da mais-valia. Finalmente, estabeleci uma relação privilegiada entre os gestores e as condições gerais de produção e, mais detalhadamente, entre os gestores e a articulação de cada unidade de produção com as condições gerais de produção que lhe dizem respeito.

    Neste meu artigo eu não mencionei esse assunto porque não me pareceu necessário no estilo muito sintético que pretendi adoptar. O que sobretudo procurei, e que gostaria que não trouxesse confusão aos leitores, foi distinguir três aspectos: 1) A distinção entre classes sociais, perfeitamente rigorosa no quadro económico em termos de produção e extracção de mais-valia e de controle sobre o tempo de trabalho. 2) No quadro sociológico, a pluralidade de campos de atracção social, sobreponíveis ou entrecruzados. 3) A multiplicidade de percursos individuais, permanentemente mutáveis e muitas vezes aleatórios, entre os vários campos de atracção social. Deste modo, pretendi chamar a atenção para, em primeiro lugar, a impossibilidade de, a partir do quadro económico, deduzir a realidade ou não realidade sociológica das classes sociais. E, em segundo lugar, a improcedência de apresentar os indivíduos como exemplos ou modelos de classes sociais. Foi a este respeito que eu evoquei a dualidade e a complementaridade.

    Gogol,

    A equivalência que você propõe entre a relação dos gestores com certos estratos de trabalhadores no interior das empresas e o ambiente no interior de organizações de extrema-esquerda pode parecer ousada — e sem dúvida que é ousada — mas eu estou inteiramente de acordo com ela. E é a este respeito que cabe recordar, como você referiu, a geração dos anos setenta. Luc Boltanski e Ève Chiapello, em Le Nouvel esprit du capitalisme, detectaram, numa passagem que eu tantas vezes citei, o papel activo desempenhado pelos universitários formados pelas lutas autonomistas da década de sessenta na modernização dos sistemas de trabalho usualmente denominados toyotismo. Quem quiser reflectir — mas haverá quem queira? — entre a recuperação capitalista das lutas operárias e a progressão da mais-valia relativa tem ali um imprescindível campo de análise.

    Para terminar, e prolongando alguns temas que você encetou, sempre achei esclarecedor que Lenin, exilado na Suíça, tivesse fechado os olhos e os ouvidos à colossal revolução científica que ocorria precisamente naqueles anos. Neste sentido, aconselho a leitura de Carlo Rovelli, um dos físicos mais relevantes da actualidade, e que é um dos grandes pensadores da física, nas passagens da sua obra Helgoland dedicadas a Bogdanov. Aprendemos muito nesse livro sobre a física, sobre a política e sobre o mundo.

  9. Caro João Bernardo,

    A tua concepção dos indivíduos como «percursos entre campos de atracção social» suscitou-me uma dúvida acerca da genealogia dessa ideia. A linguagem dos campos, das forças de atracção e dos percursos fez-me pensar sobretudo na teoria de campo de Kurt Lewin e na sua concepção do espaço vital como um campo dinâmico de forças. Por outro lado, a ideia de campos sociais que podem conter outros campos, sobrepor-se ou cruzar-se levou-me a pensar na teoria dos campos de Pierre Bourdieu. E a dispersão dos indivíduos por uma multiplicidade de campos e relações lembrou-me também a concepção de Georg Simmel acerca do cruzamento dos círculos sociais.

    Gostaria, então, de perguntar-te: Lewin, Bourdieu ou Simmel tiveram alguma influência, directa ou indirecta, na elaboração da tua concepção dos «campos de atracção social» e dos indivíduos como percursos entre esses campos? Ou chegaste a essa formulação por uma genealogia teórica diferente? Caso não provenha desses autores, interessava-me especialmente saber quais foram as leituras ou problemas teóricos que te conduziram a essa concepção.

    Saudações.

  10. Caro Dante Gabrieli,

    Eu trabalho de outra maneira. Nas minhas obras de historiografia uso uma bibliografia muito ampla e variada, com a preocupação exclusiva de estabelecer factos o mais rigorosamente possível. Os factos são a matéria-prima da história comparada, e é a partir da sistematização desses factos que eu raciocino, não a partir de quaisquer inspirações teóricas.

    Para a vida contemporânea, económica e social, sigo o método que indiquei nas três páginas finais do Economia dos Conflitos Sociais, na Nota sobre a Ausência de uma Bibliografia. «As referências de pé de página e a lista bibliográfica», escrevi eu nessa Nota, «constituem usualmente a caução segura de uma ortodoxia — qualquer que seja — e garantem, aos leitores e sobretudo ao autor, que os riscos do imprevisto ficam de antemão evitados». E terminei dizendo que «não pode recomendar-se melhor fonte do que a leitura dos jornais e revistas, a participação activa nos conflitos do nosso tempo — em suma, andar na rua».

    É exactamente nesta mesma perspectiva que para estudar a ficção leio romances e que estudo a pintura visitando museus e exposições.

    E acima de tudo, desde há muitos anos que estabeleci para mim mesmo uma norma. Nunca releio aquilo que publiquei.

  11. Caro João Bernardo,

    Obrigado. A tua resposta ajudou-me a perceber que formulei a questão anterior num registo que não corresponde ao teu modo de trabalhar. Eu estava a procurar uma genealogia teórica da noção de «campos de atracção social», enquanto, pelo que explicas, o teu procedimento consiste antes em partir da observação, da comparação e da sistematização dos factos, e só então formular os problemas e conceitos.

    Relendo agora o texto completo, parece-me que a questão mais interessante talvez seja outra. Quando afirmas que os indivíduos não são unidades componentes das classes sociais, mas percursos mutáveis entre campos de atracção social, essa concepção desempenha um papel decisivo para separar o plano económico das classes, o plano sociológico dos campos e o plano dos percursos individuais.

    Gostaria então de perguntar-te, não pelas influências teóricas, mas pela génese do problema: que observações ou dificuldades concretas levaram-te a formular os indivíduos desta maneira? Em que momento te pareceu insuficiente pensar uma classe social como composta por indivíduos pertencentes a ela?

    Também me chamou a atenção a epígrafe de Bachelard e, depois, a referência à complementaridade de Bohr. Entendi-as não como origem da tua concepção dos campos, mas como uma analogia epistemológica posterior para expressar a ausência de correspondência directa entre os dois planos — campos sociais e percursos individuais. É assim que entendes o papel dessas referências no texto?

  12. Caro Dante Gabrieli,

    Começando pelo fim do teu comentário, sim, é uma analogia epistemológica. Eu estava a ler, aliás a reler, esse livro de Bachelard enquanto compunha o rascunho do artigo, e a afinidade pareceu-me flagrante. Mas há outra coisa ainda, porque um bom banho de mecânica quântica seria necessário para limpar os marxistas — os dos estudos sociais, claro — do risível apego que têm à noção de matéria herdada do Iluminismo, talvez porque a achem indispensável ao materialismo de Marx. Então, nessa epígrafe houve também uma intenção irónica.

    Quanto à noção dos indivíduos como percursos em boa medida aleatórios e imprevisíveis entre campos sociais, ela veio directamente da leitura de romances. Desde muito jovem, do começo da adolescência, que eu sou um leitor constante de romances, há sempre um entre os livros que estão em cima da mesa, e os únicos romances em que os personagens se encaixam nas classes sociais são aquela espécie de catecismos stalinistas onde as figuras servem apenas para ilustrar abstracções. A partir daí não me custou entender que as classes sociais não são somas de indivíduos, uma conclusão a que cheguei há muito tempo. Aliás, bastará para isso andar na rua, vendo com olhos de ver.

  13. *A Luta de Classes é também uma luta entre frações de classe no seio da classe dominante.*
    Se quisermos, de fato, compreender o acirramento da crise política no Brasil, devemos detectar quais os interesses econômicos defendidos por cada representante político – seja do Legislativo, Judiciário ou Executivo.
    ☆ Quais frações de classe respaldam Alexandre de Moraes? E quais André Mendonça representa?
    O setor dominante brasileiro pode ser dividido em torno de dois grandes blocos:
    1. Um abertamente neo-colonial e semi-escravagista, cujo projeto de país é o Brasil se tornar um imenso Porto Rico.
    2. O outro que se opõe ao primeiro sem, contudo, ter uma clara e definida proposta de gestão para Nação e Povo.
    Agora, mais uma vez, como em tantas outras ao longo da História brasileira, os dois grupos estão em choque aberto.
    *Enquanto isto, a quase totalidade da população continua sendo mero detalhe…*

    Mistério
    Existe Classe dos Gestores no Brasil? Como ela atua no caso desta crise no STF?

    Podcast
    IA aplica conceitos criados por João Bernardo
    https://www.youtube.com/watch?v=U7VoKVURpZQ

  14. Os Ministros do Supremo não seriam eles próprios gestores dentro da noção bernardiana?

  15. Convém não esquecer do Estado Restrito e do Amplo; e do livro A economia dos conflitos sociais.

  16. Existe Classe dos Gestores no Brasil?
    Os Gestores no Brasil carecem de identidade e organização próprias, permanecendo historicamente atrelados à Burguesia.
    Lula seria o representante político natural de uma Classe dos Gestores que jamais chegou, até o momento, a se constituir plenamente.
    Assim se compreende a aversão da Burguesia a Lula. Não apenas por sua origem no proletariado, como pela possibilidade de através de Lula os Gestores conseguirem se consolidar.

    Guerra de Famiglias
    A lumpenburguesia é a forma dominante da classe capitalista no Brasil. Ela:
    • Não tem projeto de nação — apenas projetos de acumulação.
    • Não distingue legalidade de ilegalidade — tudo é negócio.
    • Não se organiza em classe — apenas em famiglias.
    • Não produz — apenas extrai, especula, lava.
    A guerra de famiglias (Mendonça x Moraes, Bolsonaro x Lula, Cury x todos) é a guerra da lumpenburguesia — uma guerra sem projeto, sem direção, sem futuro.

    Podcast:
    As Eleições de 2022 e a Guerra de Famiglias
    https://youtu.be/Unnw7ZWIeGg

  17. Eu não gosto de entrar em polémicas e muito menos de prolongá-las, mas por vezes fico tomado por uma indignação a que não resisto. Foi o que me sucedeu ao ler as primeiras linhas do comentário acima, e mais não li.

    Quando cheguei ao Brasil, há exactamente quarenta e dois anos, os gestores, enquanto classe, e classe existente e actuante neste país, vinham a ser identificados, analisados e teorizados em conjunto por duas pessoas, Bresser Pereira, uma das figuras mais ilustres da intelectualidade brasileira, e Fernando Prestes Motta, prematuramente falecido. Sem esquecer a obra A Fala dos Homens, em que nessa época Maria de Lourdes Covre analisou criticamente o pensamento tecnocrático. E acima de tudo os estudos de Maurício Tragtenberg, uma das pessoas a quem mais devo. Como é possível que agora esta herança, que devia ser conhecida e estudada, seja petulantemente ignorada? Ao que chegaram!

  18. Com certeza, Tragtenberg deve ser lido e relido quando se trata da análise da burocracia!

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