Por Sérgio Elia

Dormimos em 2026, acordamos em 64 e, no dia 25, mesmo uma improvável virada apenas adiará um novo 22 de abril de 1500. Será uma inovação e tanto: um povo escolher voltar a ser colônia.

Vendida como algo revolucionário, vivemos uma ruptura reacionária da extrema direita com o fantasma moribundo da democracia liberal. Mas estamos tratando tudo como normal. Em nenhum momento reagimos à altura dessa ruptura, acreditando numa institucionalidade que já está morta.

Mas a pergunta que devemos nos fazer é: qual a responsabilidade da esquerda brasileira nisso?

Sim, a mídia corporativa, de forma escandalosa e calculada, deu muito menos destaque do que deveria aos fatos e denúncias sobre a trajetória de Flávio, enquanto ele se apresenta claramente como administrador de colônia.

Sim, as redes sociais criaram um mundo em que a verdade factual perde relevância e as fake news se tornaram uma realidade normalizada.

Sim, enfrentamos uma conjuntura geopolítica internacional marcada pela ascensão da extrema direita, com elites latino-americanas sabendo trabalhar para se tornarem suas representantes locais.

Sim, a sociedade brasileira, com seu crescente neopentecostalismo que sequestrou boa parte do cristianismo, assim como os diversos projetos de guerra cultural, simbolizados por iniciativas como o Brasil Paralelo, além do cinturão do agronegócio que se expandiu para novas regiões do país, tornou-se cada vez mais conservadora.

Mas também é verdade que a política econômica liderada por Haddad foi de uma ineptidão política colossal. Um erro desde o começo; uma tragédia anunciada: como ter tido como principal projeto de governo, no início do mandato com toda a força de uma nova gestão com o fôlego recente das urnas, uma reforma tributária cujos frutos, como a redução dos impostos da cesta básica ou o cashback, só apareceriam plenamente em 2027, podendo ser politicamente colhidos por Flávio?

Como negociar a queda de um quase criminoso teto de gastos em prol de um arcabouço fiscal menos pior, capitulando mansamente diante da restrição da capacidade de investimento público em qualquer novo projeto digno de nota, seja de desenvolvimento, seja de política social?

Como entrar em brigas totalmente impopulares, como a taxa das blusinhas?

Como não encarar, sob o pretexto de manter o controle inflacionário, a desastrosa manutenção da política de juros do Banco Central sob Galípolo? Os juros estratosféricos tornaram o crédito inviável, e o endividamento do consumidor e do pequeno e médio empreendedor — tanto urbano quanto agrícola — tornou-se inevitável, o que poderia ajudar a explicar, em boa medida, o crescimento da rejeição a Lula nas pequenas cidades do cinturão agrícola.

E, sobretudo, como não olhar para 2022 e se dar conta de que as mulheres beneficiárias do BPC foram, de muitas maneiras, decisivas para evitar nossa derrota e a reeleição de Jair Bolsonaro? Em nome da redução do déficit fiscal e de uma tal “responsabilidade econômica” a ser vendida para um tal “mercado”, o governo fez questão de economizar bilhões, justamente prejudicando aquelas mulheres, chefes de família, que nos salvaram em 2022? Quem não conhece alguém que deixou de conseguir sacar esses benefícios abruptamente ou que, depois de uma doença, deficiência ou situação de extrema vulnerabilidade, encontrou todo tipo de dificuldade para receber um benefício?

Antes de ser eleito em 2022, Lula prometeu travar as boas batalhas. Prometeu governar “do seu jeito”. Pautar projetos de interesse nacional, como o fim da escala 6 x 1, ou enfrentar o criminoso orçamento secreto.

Não se tratava de dizer que seria fácil ou que dependia apenas de sua vontade, mas de assumir, percebendo os novos tempos, a necessidade de mobilizar uma narrativa em defesa de um projeto de nação. As prováveis derrotas no Congresso não significariam uma derrota para o seu governo. Significariam demonstrar claramente que, ao menos, assumia sem medo a disputa pelos interesses populares.

Nem sequer uma política minimamente ousada de democratização do acesso à terra e à moradia foi pautada, algo que poderia ter sido feito de forma bem menos traumática do que imaginamos, se houvesse disposição para avançar um pouco além da covardia e do comodismo da conciliação.

Mas, como em 2004, 2005 ou 2009, tentou-se uma composição. Dessa vez, porém, com um Congresso que sequestrou uma parcela mais que expressiva do orçamento e que, em boa parte, já não representava apenas interesses fisiológicos: havia ali um inequívoco projeto ideológico de extrema direita, golpista, sedento de sangue e claramente antidemocrático.

Lula tentou conciliar com quem já não queria conciliação.

Lula não se deu conta de que os tempos mudaram e de que teria que responder diretamente, sem qualquer verniz, às urgências mais cotidianas, abraçando aquilo que, pejorativamente, se chama de “populismo”.

Falhou ao ser extremamente conciliador, responsável e pragmático. Falhou em sequer ter lutado por um mísero projeto de apelo popular que respondesse, por exemplo, ao anseio pela diminuição da criminalidade. Combater a lavagem de dinheiro enfrentando determinados agentes e setores do mercado financeiro é necessário e louvável, mas isso pouco ou nada ressoa para quem vive diariamente com medo da violência na rua. A cegueira da esquerda quanto à acusação de que compactuamos com o crime que tanto aflige aos trabalhadores brasileiros não deveria ser tão mansamente por nós aceita, o que está longe de significar defender qualquer política violenta ou puramente demagógica.

Talvez Lula tivesse perdido em todas essas empreitadas. Mas perderia de uma forma que não legitimaria propagarmos, com tanta certeza e prepotência, que há um pobre de direita burro e ignorante.

Mas, se não fomos nós que pautamos o debate público, se desistimos de lutar por um projeto nacional assumidamente nosso, não sejamos nós os ignorantes e burros incapazes de compreender e aprender com os fatos.

É bom repetirmos, em voz alta: não sejamos nós os ignorantes e burros incapazes de compreender e aprender com os fatos.

A verdade é que a extrema direita capta, com cinismo, um diagnóstico verdadeiro: para milhões de pessoas, alguma coisa precisa romper com “tudo que está aí”. Ela percebe que a ordem existente já não consegue oferecer a promessa de integração, prosperidade e segurança que legitimava o capitalismo e a democracia liberal. E é justamente aí que ocorre uma inversão extraordinária e reveladora: a extrema direita passa a ocupar o lugar da ruptura, enquanto a esquerda passa a assumir, no imaginário popular, um lugar conservador e envelhecido.

Eles são, nesse sentido, mais sinceros no diagnóstico, não na solução. Dizem que nesse modelo de sociedade não há lugar para todos, que o Estado atrapalha, que os direitos sociais são falhos, que os conflitos não serão resolvidos pela conciliação e que, de uma forma ou outra, alguém terá de perder. A solução que oferecem para a crise é cínica, antidemocrática e destruidora.

Mas é apresentada como ruptura.

Enquanto isso, a esquerda liberal responde à mesma crise defendendo os princípios falidos de uma democracia liberal corrupta e decadente prometendo com grande dose de derrotismo administrá-la com maior humanismo, sem enfrentar seus inequívocos limites e contradições.

Sim, é verdade que eles oferecem uma saída que apenas intensifica a submissão popular.

Mas nós propomos mais conformismo, paciência e equilíbrio a uma população sem expectativas.

Afinal, quem hoje parece radical e quem parece conservador?

Nós parecemos conservadores.

Nós desistimos de qualquer grande projeto. Não perseguimos qualquer utopia, sendo metralhados por um realismo refém do comodismo.

É nesse sentido que a extrema-direita também ganha por parecer mais sincera: não porque revela qualquer solução viável para o mundo, mas porque explicita, sem qualquer verniz, um antagonismo que nós insistimos em esconder.

Não por acaso, esse discurso encontra terreno fértil porque o cidadão comum, desgostoso com qualquer apelo a um corpo social — visto como armadilha para a letargia corruptora — e identificado com um conceito altamente neoliberal de liberdade, quer apenas não ser atrapalhado para poder “cuidar do próprio nariz em paz”. É aí que o conservadorismo moral e o discurso individualista neoliberal conseguem acomodar uma aparente contradição funcional: de um lado, a exigência de valores pétreos e sagrados na vida privada como refúgio diante da crueldade competitiva de um mundo corrompido; de outro, a legitimação de que, na selva da disputa capitalista, cada um seja implacável ao lutar pelos próprios interesses, sem que o Estado ou aqueles considerados culpados pela própria miséria e inércia o atrapalhem. O reacionarismo moral e o individualismo oferecem, assim, refúgios normativos que validam, sem culpa, um indivíduo ainda mais perverso, pois ele percebe, instintivamente e sem filtros, que vive no estado de natureza hobbesiano, sem que o Estado hobbesiano se ofereça para protegê-lo.

O que estamos deixando de compreender quando parcelas expressivas dos mais jovens caminham para a extrema direita em diferentes partes do mundo? Quando os líderes mais boçais e mitômanos da extrema direita são justamente jovens que angariam apoio justamente por assumirem um tom que acomoda e identifica tão bem terrorismo moral, autoritarismo e um discurso aparentemente contraditório de insubordinação ao sistema?

Por que insistimos em destacar a hipocrisia de tais discursos e não nos questionamos por que somos vistos como sendo o tal do “sistema”?

Acordemos: nós parecemos ser o sistema.

Nós parecemos envelhecidos.

Para o jovem sufocado por uma realidade sem horizontes do capitalismo digital, a extrema direita encarna a ousadia da recusa, de uma retórica ousada e aparentemente sincera.

Enquanto isso, a esquerda, engessada em sua defesa mansa de uma institucionalidade decrépita, é percebida como velha, antiquada e hipócrita.

Ela defende um horizonte social sem definir claramente o que almeja e insiste em lutar pelos arranjos de uma ordem que já faliu — querendo administrá-la com um pouco mais de traquejo retórico, aparentando querer assumir apenas um álibi de superioridade moral.

Quanto às elites econômicas nacionais, todo o projeto da extrema direita representa, com novas roupagens de velhos projetos, os compromissos com aquela elite econômica que Florestan Fernandes, Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Caio Prado Jr., cada um a seu modo, já haviam identificado: uma elite interessada na preservação de seus próprios privilégios, incapaz de converter desenvolvimento econômico e industrialização em um projeto autônomo de nação, e historicamente disposta a associar seus interesses aos do capital externo em vez de confrontar a posição dependente do país na ordem internacional.

Isso não é novidade e sempre contou com o apoio das mídias tradicionais, que, em grande medida, trabalharam em favor desses interesses.

O que é novo é assumirem tão escancaradamente que entregavam tudo do Brasil, resignando-se mansamente a que uma família assuma tal projeto sem qualquer constrangimento, permitindo que se perca o mínimo que esse povo levou com tanto sangue, suor e lágrimas para ser conquistado por séculos.

Enquanto nos preocupávamos em denunciar a hipocrisia e as associações autoritárias do lema “Deus, pátria, família e liberdade”, apontando a contradição entre a defesa da liberdade, hipocrisia moral e o autoritarismo, talvez tenhamos subestimado sua contradição mais profunda: a pátria. O suposto patriotismo dessa extrema direita é um “patriotismo” que despreza o próprio povo, não reconhece suas conquistas históricas, desvaloriza sua cultura e desacredita sua capacidade de construir o próprio futuro.

É o patriotismo de uma elite que não se reconhece na beleza e esforço de seu povo, sonhando viver em Miami.

Nesse aspecto, nossa extrema direita consegue ser ainda pior que suas congêneres estrangeiras: além de autoritária e excludente, é entreguista e profundamente antipatriótica. Sequer apresenta um projeto de desenvolvimento nacional. Sua pátria é uma abstração ideológica; o Brasil real e seu povo são obstáculos a serem superados.

Por isso, a derrota nas eleições legislativas e na disputa pelo Executivo, já no primeiro turno, pode se revelar o maior revés da nossa história. Vamos ser realistas, sabendo dimensioná-la agora para poder enfrentá-la com as armas certas. Não devemos nos iludir minimamente: foi nada menos que catastrófica.

Dessa vez, a extrema direita não terá qualquer receio de destruir os ganhos sociais, econômicos e civilizatórios do país. Temer, ainda com a cínica retórica de quem sempre representou, já produziu estragos catastróficos nos direitos sociais, na Petrobras e na indústria da construção civil, sob o impulso do lavajatismo. Jair tentou ir muito além, promovendo não apenas a corrosão de direitos e da nossa infraestrutura econômica e social, mas também a degradação moral da própria sociedade brasileira, simbolizada pela tragédia da pandemia e pelas imagens de fome e adoecimento dos povos Yanomami. Se Bolsonaro pai não avançou ainda mais, foi apenas por sua própria inaptidão, preguiça ou incompetência.

Mas agora não há qualquer razão para supor que esta jovem e motivada extrema direita que chega ao poder terá a mesma timidez ou encontrará os mesmos limites institucionais.

Há tempos, assumiram claramente sua face, declarando sua guerra. As mangas já estão arregaçadas.

Eles tentarão destruir e colocar sob seu controle, sem qualquer constrangimento, o STF; corroer a Polícia Federal; aparelhar joias nacionais como o IBGE; desidratar ainda mais as agências reguladoras, submetendo-as aos interesses financeiros; dinamitar os direitos conquistados pelas mulheres ao longo de décadas aprovando projetos que atentem contra os direitos de meninas vítimas de estupro; e perseguir, sem qualquer verniz, toda a elite intelectual representada pelas universidades.

Sem qualquer política ambiental, de apoio aos indígenas ou de proteção às populações mais vulneráveis, será uma destruição total.

Eles não serão covardes como em 2022. Aprenderam muito bem as lições. Não subestimemos sua inteligência nem sua habilidade. Não subestimemos quem, ao vivo, no Jornal Nacional, sabe explorar o peso de anunciar quem será seu ministro.

Eles sabem para quem trabalham e, com o apoio — e a chantagem — de quem quer nos recolonizar, não hesitarão em passar a boiada sobre o nosso povo.

Por isso, devemos deixar de temer a realidade e compreender, de uma vez por todas, que, historicamente, o limite da extrema-direita foram os tanques soviéticos em Berlim. Não há razão para esperar bom senso de quem leva seu projeto autoritário às últimas consequências.

A diferença é que, agora, essa extrema direita pretende destruir até mesmo os compromissos sociais que o capitalismo foi obrigado a aceitar no pós-guerra graças à concorrência ideológica do estado soviético. Mas agora, já não há espaço ou barreira, em seu projeto, sequer para a social-democracia, um mínimo Estado de bem-estar social ou para políticas keynesianas. Eles não mais admitem conceder nada. Sua hipocrisia acabou; suas intenções estão escancaradas.

A luta de classes, como luta entre dois lados, nunca foi pretendida dentro da institucionalidade petista. Ela nunca existiu. E, até então, era compreensível.

Mas já há muito tempo tal luta só é uma guerra verdadeiramente organizada e ininterrupta vinda de um só lado. O lado de cima.

Nós nunca soubemos explicitá-la, e agora é nossa culpa se não o fizermos.

Pois, para que exista uma luta, é preciso que haja quem resista. Senão, é apenas um massacre.

Mas, para além disso, como pode haver uma guerra pelos fatos?

Pois a tudo isso se soma a pós-verdade, que é muito mais sutil do que a simples mentira. É a decadência completa da relevância da verdade factual. O mundo informacional foi segmentado, sobretudo pelos algoritmos, em realidades que quase não precisam mais se encontrar. Parte da população simplesmente não toma conhecimento de determinados fatos da forma como eles realmente se apresentam — algo que, de outra maneira, já ocorria sob a mídia tradicional.

Mas agora há algo além: mesmo quando o fato chega, ele pode chegar recortado, deslocado de contexto, reinterpretado ou inteiramente reorganizado dentro de uma narrativa que lhe dá outro sentido. Já não é necessário esconder um fato para neutralizá-lo. Basta mudar a perspectiva a partir da qual ele mais facilmente fará sentido.

E disso não pode se subtrair uma sociedade cada vez mais conservadora, na qual parcelas significativas da população passaram a se mobilizar muito mais intensamente por pautas morais e de costumes do que pela conquista de ganhos materiais concretos para suas próprias vidas. Isso não aconteceu espontaneamente.

Para eles, basta uma guerra moral.

Foi resultado também de uma longa disputa pela formação do senso comum, pela linguagem e pelos valores através dos quais a realidade passa a ser interpretada.

O diagnóstico que devemos inferir é: hoje nós discutimos uma gramática que não é nossa. Um tipo de linguagem que não mais tem apelo. Um tipo de luta já perdida, combatida no campo de batalha dos inimigos.

Mas será que devemos continuar tentando disputar o discurso da extrema direita em seus próprios termos, ajustando o nosso ao deles? Ou devemos pautar, sem meias palavras nem pudor, de forma atualizada e sem anacronismos, a nossa própria gramática, o nosso discurso?

Há nisso uma ironia histórica: a extrema direita, sob influência olavista de quem caçoávamos com presunção, parece ter compreendido muito bem uma lição gramsciana que parte da esquerda teve medo de colocar em prática por fleuma — o poder não se disputa apenas nas eleições ou dentro do Estado; disputa-se quando se revela sua soberania também na cultura, nas instituições, no humanismo do que é sagrado e religioso, na profundidade politizadora da mídia e na própria produção cotidiana do senso comum.

Nós não o fazemos por espírito democrático; eles agora o fazem declaradamente como libertadores “sagrados” do capital que se torna, ao modo de Benjamin, cada vez mais sagrado.

Quem nunca se assustou, por exemplo, ao descobrir que um prestador de serviço comum se informa a partir de documentários como os do Brasil Paralelo, que lhe revelariam a verdade secreta de um Brasil dominado pela esquerda? Ou com o fato de soar cada vez mais comum, sobretudo entre os mais jovens, dizer que o nazismo é de esquerda? Será que não percebemos o quanto isso ajuda a produzir uma sociedade progressivamente cega e alheia à própria relevância factual? Será que continuaremos debochando da ignorância alheia, ignorando que isso se torna cada vez mais um fato?

Enquanto a extrema direita travava essa guerra sem pudor, parte da esquerda recuava até mesmo diante da possibilidade de realizar, em sentido verdadeiramente emancipador, aquilo que o tão atacado e incompreendido Paulo Freire propunha: formar sujeitos capazes de compreender criticamente o mundo em que vivem. Para além do ProUni, do Pé-de-Meia e das políticas de cotas, iniciativas legítimas e importantes para a inclusão social, o PT termina seus governos sem deixar ao país um legado de formação crítica e emancipadora à altura de um partido que se diz de esquerda. Sem propor um projeto nacional de educação de base verdadeiramente transformador, capaz de elevar o patamar educacional brasileiro.

O resultado está diante de nós: uma sociedade em que parcelas da população podem se mobilizar apaixonadamente por uma guerra cultural mesmo quando dela não resulta qualquer melhoria concreta em sua renda, seu trabalho, sua segurança ou sua qualidade de vida.

E é por isso que a experiência da pandemia funcionou como marco estruturante desse processo. Pode parecer contraintuitivo que governos de extrema direita tenham embarcado no negacionismo sanitário, mas tal retórica legitimou profundamente um ideal de feroz liberdade individualista, capaz de romper com qualquer concepção de liberdade fundamentada em um corpo social coletivo. A mensagem deixada foi clara: absolutamente nada poderia impedir a economia de continuar funcionando, mesmo que isso significasse que o próprio indivíduo ou os outros ao seu redor morressem.

Foi a consagração da ideia de que essa liberdade não carrega mais nenhuma obrigação coletiva, apenas direitos absolutos sobre si mesmo.

É o caráter fatalista e predatório do capitalismo levado às últimas consequências, em uma lógica que remete ao realismo capitalista analisado por Mark Fisher.

Foi o golpe final contra qualquer ideia de corpo social. O erro do nosso discurso? Tratar o temor pela própria sobrevivência econômica dos cidadãos comuns como expressão dos interesses mesquinhos do empresário “malvado”, ignorando que todos, dos mais pobres à classe média, sofriam com os efeitos da paralisação econômica.

A retórica conta. E ela perde votos.

Por isso, devemos compreender que a pandemia e o negacionismo das vacinas não representaram apenas um crime contra a população, mas também um profundo ataque ao espírito crítico do corpo social, cujo alcance simbólico muitos ainda ignoram.

E tamanha perda jamais será recuperada apenas pela apresentação racional dos fatos. O que se atacou durante a pandemia foi a legitimidade da ciência, da razão e do bom senso, em prol de um discurso messiânico e altamente individualista que beirou o darwinismo social. A Dialética do Esclarecimento não nos ensinou que a própria racionalidade tem suas contradições? Nosso erro não pode ser achar que basta demonstrar os fatos para que a verdade se imponha. A razão não vence simplesmente porque dispõe dos fatos.

Pois o que há de mais explícito nos fascismos — e que torna toda essa conjuntura tão próxima do neofascismo, do qual a extrema direita sabe se utilizar tão bem — não é apenas a linguagem ou qualquer outra característica forçosamente comparada com aquilo que se viu na Europa. É também a construção permanente de conflitos internos, de inimigos e de uma sensação de perigo iminente, crise contínua e decadência moral. Nada disso precisa ser materialmente experimentado por cada indivíduo para produzir efeitos políticos. As pessoas não precisam presenciar a ameaça em suas próprias vidas; basta que sejam mantidas sob a sensação permanente de que ela está em toda parte e pode alcançá-las a qualquer momento. E isso eles sabem fazer muito bem.

Se dormimos em 2026 e acordamos, no dia 4 de outubro, em 64, apenas um enfrentamento claro e incansável, a partir de agora e pelos próximos anos, poderá impedir que, no dia 25, despertemos novamente em 22 de abril de 1500, retrocedendo mais de cinco séculos em nossa história.

Não é nada fácil, mas, para lutarmos para além da retórica falida e insossa, devemos saber o que combatemos e como.

Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Al Held (1928-2005).  

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