Reflexões sobre o Assombroso de Paraty

Por Sabiá

 

As reflexões seguintes foram escritas em meados de 2021, quando o coletivo Assombroso de Paraty (no Facebook, Assombroso Prefeito de Paraty) tinha pouco mais de 2 anos e foram elaboradas com propósito de ser um disparador para um debate interno do coletivo. No entanto, devido ao momento de refluxo e ao hiato imposto, seguido de fim do coletivo, este documento ficou na gaveta e acabou esquecido até que um camarada me perguntou recentemente sobre militância em cidades pequenas. Encaminho esse texto da forma como foi escrito, mesmo tendo leves desacordos com alguns pontos que escrevi naquela época.

 

Com pouco mais de 2 anos de existência, podemos dizer que o Assombroso teve uma participação considerável na vida política da cidade, principalmente no que se refere à política por fora dos âmbitos institucionais. Se isso foi possível, diz mais sobre a incapacidade das forças institucionais, principalmente aquelas que se dizem defensoras dos trabalhadores e/ou do socialismo, que se encontram completamente apartadas do cotidiano da luta dos trabalhadores da cidade. Por outro lado, a incapacidade do Assombroso de promover um avanço organizativo nos processos que se desenvolveram dos quais participou parece, de forma oposta, também apontar para uma desconexão (ou uma defasagem) do coletivo em relação ao cotidiano dessas mesmas lutas. Pode-se considerar que essa desconexão é tanto fruto da própria fragmentação da classe trabalhadora e suas especificidades em Paraty, quanto da própria fragmentação imposta pela dinâmica do trabalho através de um regime de intermitência, intensa rotatividade e elevado grau de informalidade – principalmente para o setor de turismo, onde a atuação do coletivo teve mais foco e se reflete no próprio caráter do Assombroso, de ter uma atuação mais clandestina e invisível.

Para pensar o futuro do coletivo é necessário antes refletir sobre os processos passados, as atuações em conjunto com as organizações de classe, os erros e os acertos. Só à partir de um acerto de contas com o passado (mesmo que curto e recente) é que se pode pensar o futuro.

 

Cassação de mandato e surgimento do Assombroso

Em abril de 2019, frente a cassação da chapa do então prefeito da cidade pelo TSE por “abuso de poder político para realçar a imagem do candidato na eleição de 2016”, um grupo de trabalhadores e ex-trabalhadores do turismo de Paraty que já tiveram envolvimento com outros processos de luta na cidade resolveram criar um personagem para “explanar o que não é explanado”. Com uma proposta satírica, decidem por utilizar o nome Assombroso, como uma forma de homenagear aos carnavais da cidade e ao bloco “Assombrosos do Morro” – conhecido por suas máscaras assustadoras. Devido à proximidade de uma eleição suplementar convocada pelo TRE em razão da cassação do prefeito e vice-prefeito da cidade, esse grupo resolve “lançar” seu próprio candidato às eleições, o Assombroso.

Após o contato com um artista da cidade que resolveu ceder imagem de sua máscara para ser “a cara” do coletivo, o Assombroso cria então uma página no Facebook e começa a sua anticampanha. As suas primeiras postagens relativas à problemas já conhecidos da cidade, como o aeroporto e denuncias que circulavam das ações da guarda municipal em relação à moradores de rua, a página consegue conquistar uma boa visibilidade, sendo inclusive replicada por alguns portais da cidade. Ao mesmo tempo, por parte de alguns, havia uma necessidade maior de utilizar a página e a atenção recém adquirida para focar nas condições de vida e experiências que esses trabalhadores organizados conheciam bem: as condições de trabalho na cidade. É nessa contradição inicial entre uma anticampanha afirmada na divulgação irrestrita dos problemas identificados na cidade, de forma genérica, e dos conflitos no local de trabalho, de forma específica que o Assombroso se desenvolve e lança o que viria a ser uma série dentro da página, os Relatos Assombrosos.

 

Reflexões sobre o Assombroso de Paraty

Os Relatos Assombrosos apontaram para uma direção interessante que tocava especificamente nas condições de vida daqueles trabalhadores e ex-trabalhadores do setor de turismo do coletivo. Foram constituídos inteiramente por um diálogo constante com trabalhadores da cidade que chegaram à página para denunciar os diversos abusos a que foram submetidos em seus locais de trabalho. O que parecia ser uma relação impensável (afinal, por que as pessoas divulgam seus problemas para uma página da qual não se tem sequer informação de seus organizadores?) se mostrou potência. Os trabalhadores da cidade diariamente enfrentam uma batalha invisível e subterrânea e ninguém, até então, havia oferecido uma plataforma para que esses problemas pudessem submergir e serem publicizados.

Se por um lado crescia o interesse dos membros do coletivo em se aprofundar na investigação dos problemas nos locais de trabalho, por outro crescia também uma preocupação com a garantia do anonimato. Em um primeiro momento a preocupação era em manter o anonimato dos membros do coletivo, mas com a divulgação dos Relatos Assombrosos a preocupação passa a ser a garantia de anonimato das fontes, ou seja, dos trabalhadores. Nesse sentido, uma série de ações foram tomadas para evitar a exposição dos que denunciavam seus problemas, e isso teve um impacto também em como as informações eram apresentadas. Embora o Assombroso tivesse uma preocupação de publicizar os relatos EXATAMENTE como eram escritos, acabou-se optando por tornar anônimo os locais de trabalho de onde vinham esses relatos, o que rendeu várias críticas ao coletivo por parte dos seguidores da página que queriam muito saber de onde vinham para não mais consumir esses serviços.

A opção pelo anonimato das empresas teve uma certa resistência interna no coletivo, mas no final foi o caminho decidido já que era sabido que a exposição dos locais poderia levar a reconhecimento fácil de trabalhadores e desenvolver outros problemas. Por outro lado, interessava também que a “insatisfação anonimizada” encontrasse eco em outros trabalhadores de outras empresas e pudesse iniciar um processo generalizado de explanações dos locais de trabalho, colocando na ordem do dia a divulgação das experiências dos trabalhadores como política. Mesmo anonimizando os relatos, percebeu-se na prática que não estavam livres da identificação. Vários seguidores ao lerem os relatos conseguiram descobrir quais eram os estabelecimentos citados. Alguns relatos, inclusive, brincavam um pouco com essa relação direta nos comentários e jogavam algumas dicas. Alguns trabalhadores acabaram também reconhecidos e cobrados por seus patrões.

 

Viralização dos Relatos Assombrosos e a questão da recomposição

Enquanto os Relatos Assombrosos viralizavam e mais trabalhadores enviavam seus relatos, a ideia inicial do lançamento de uma campanha satírica do Assombroso acabou perdendo um pouco o espaço – que agora já contava com o mote “Vote em quem quiser, vote em ninguém, vote em Assombroso!”. A seriedade dos relatos começou a contrastar com a ideia jocosa que havia no começo do coletivo. Mas isso não impediu o coletivo de levar questões no bom humor e na base da sacanagem, quando havia o entendimento de que isso poderia impulsionar algumas ações.

A viralização dos Relatos Assombrosos foi tanta que o coletivo passou a receber relatos de dentro dos locais de trabalho. Alguns trabalhadores, se juntavam e escreviam relatando o que estava passando por lá. Dentre esses casos, um emblemático foi de uma gestora de uma pousada famosa pertencente à uma família “importante” no cenário nacional de telecomunicações que decidiu reunir seus trabalhadores e tentar convencê-los à não aderir ao espectro de explanação que rondava a cidade, afinal “ninguém sabe quem é esse Assombroso”. A figura era conhecida por aterrorizar os trabalhadores e essa reunião foi vista por muitos como um sinal de fraqueza e medo de cair na boca do público. Não deu outra, as divulgações do local bombaram, as pessoas começaram a divulgar o nome do estabelecimento e os trabalhadores se sentiram pela primeira vez no controle da situação à partir da assombração.

Reflexões sobre o Assombroso de Paraty

É à partir dessa virada de chave para a investigação no local de trabalho que parte da esquerda paratiense começa a ter certo interesse no Assombroso. Com a ideia de uma Greve Geral chamada e uma articulação da esquerda em construção, entraram em contato com o coletivo solicitando a participação de alguém indicado para falar sobre o trabalho em Paraty, o que para o Assombroso foi sintoma de uma fragilidade da esquerda uma vez que a página havia sido recém criada e cujo trabalho político era basicamente uma página de agitação no Facebook, mas que também apontava para um interesse real no processo em curso desses setores. À parte desse estranhamento inicial, e através do conhecimento do que estava sendo gestado pelo campo de esquerda para o dia, não houve uma crença de que o Assombroso poderia contribuir com uma Greve Geral nos moldes que até então se desenhavam. O convite foi respondido apresentando as preocupações com o processo, que em resumo pode ser entendido como a divergência em relação à uma noção de recomposição – mesmo que para esses setores isso não era colocado dessa forma. Enquanto era claro que havia uma tentativa de recomposição da esquerda paratiense (que se tornou mais claro com a união de PT e PSOL nas eleições suplementares daquele ano, e a fragilidade desta união em 2020 com PT aliando- se ao MDB e PSOL lançando candidaturas próprias), para o Assombroso o importante era a recomposição de classe, entendida aqui como o processo de tentar, à luz dos desafios impostos pela globalidade (e pelas especificidades) do trabalho, pensar e auxiliar no desenvolvimento das formas de luta dos trabalhadores pelos próprios trabalhadores. Isso implica desenvolver um trabalho que considere a experiência dos trabalhadores entendida enquanto classe, e não com as divisões impostas pelo sufrágio e reforçadas por uma imagética de esquerda que não encontra mais seu correspondente na materialidade, apenas em suas palavras de ordem e cores.

Em relação ao ponto da recomposição, é também interessante notar como se deu a relação com os seguidores da página do Assombroso. Embora existisse muito apoio de trabalhadores em seu sentido geral (sejam eles “de direita”, sejam eles “de esquerda” ou sejam eles “apolíticos”, como adoram definir os partidos para seus cálculos eleitorais) e houvesse um grande repúdio por parte dos patrões (por motivos óbvios), houveram algumas interações no mínimo inusitadas com alguns “patrões de esquerda” que se sentiam ameaçados pelo fato da página não citar os estabelecimentos, afinal, “ao não dar nomes aos bois o Assombroso faz parecer que todos os patrões de Paraty são exploradores”, ou ainda que “há aqueles patrões que tratam muito bem seus funcionários”, afinal “quando eles estão bem, produzem mais”. O conceito de exploração aqui apresentado por esses setores pode ser resumido em “trabalhador submetido a humilhação” (com xingamentos, abusos psicológicos, etc) e não o processo de obtenção de mais-valia. Na nova equação, exploração é só aquela fundada sob os regimes de intensificação do trabalho, dos abusos psicológicos, etc e não do desenvolvimento de novas tecnologias e métodos “humanizados” de aproveitamento da força de trabalho. Tal equação, todavia, não é fruto da cabeça dos “patrões de esquerda”. É quase um consenso. Só essa contradição já é suficiente para justificar o receio, afinal como disse um camarada na época “para o patrão participar de Greve Geral é fácil, difícil mesmo é ele dar folga para os trabalhadores nesse dia”.

De qualquer forma, mesmo esses pontos poderiam ser ignorados nesse primeiro momento, considerando que o coletivo era recente e que um chamado nesses moldes também poderia sair do roteiro. Depois de uma carta reposta ao convite enviado, demonstrando algumas das preocupações, algumas mensagens copiadas do grupo que organizava a Greve Geral foram recebidas. Não havia um consenso sobre a carta resposta, com pessoas apoiando o conteúdo e outras criticando. Mas, no geral, prevaleceu a não-participação do Assombroso, tanto pelo incomodo que provavelmente foi criado quanto pela própria falta de preparação para participar de um evento público, mesmo que não usando necessariamente o nome do Assombroso. De qualquer forma, esse processo foi importante para se começar a debater as aparições públicas do coletivo.

 

Reuniões ampliadas e Boletim Assombroso

Se por um lado o convite à participação de atividade de uma “Frente de esquerda” em Paraty reforçou a tendência à uma atuação invisível e clandestina, de outro lado o desejo de dar um passo além das simples explanações virtuais das condições de trabalho se apresentou. Na época o sentimento era que não bastava fazer agitação, era necessário aprender com os processos e as lutas subterrâneas já existentes e através desse aprendizado ser capaz de apontar para algum horizonte organizativo. Desse processo surgiu a ideia de reuniões ampliadas com trabalhadores que não fizessem parte do Assombroso. Mas como fazer isso ao mesmo tempo em que se mantém o anonimato? A resposta foi em “confiar em quem confia”. Um primeiro chamado foi feito às pessoas que haviam confiado no coletivo com seus relatos e mensagens para comparecerem em uma reunião presencial e, pela primeira vez, o bloco virtual tirou as máscaras.

O primeiro processo contou com trabalhadores do turismo, e mesmo com uma baixa adesão em um primeiro momento, a primeira reunião serviu para apontar para um horizonte que até então não era muito claro. Foi decidido criar um boletim de trabalhadores levando o nome do Assombroso, e nesse primeiro boletim o foco foi uma questão que aparecia muito nos relatos recebidos até então: o não repasse – ou o repasse incorreto – dos 10% da taxa de serviço. A questão foi dividida em três: “O problema”, “seu direito”, e “na prática”.

Em “o problema”, foi exposto um relato em que o trabalhador desabafava nunca ter recebido os 10% corretamente, em nenhum lugar que trabalhou em Paraty. Em “seu direito” foi apresentado o que na época diziam advogados trabalhistas ligados às lutas de garçons no Rio de Janeiro em relação às questões das gorjetas e da taxa de serviço. Em seguida, em “na prática”, foi decidido desenvolver uma solução para o problema apresentado. Mas como apontar para alguma perspectiva à partir do reconhecimento inicial desse problema generalizado sem cair no vislumbre institucional como resolutor dos conflitos? Como apostar na auto-organização dos trabalhadores enquanto saída para o abuso? A resposta encontrava-se em um relato recebido relacionado à uma experiência de organização no local de trabalho para impedir que a empresa fizesse a gestão dos 10%. De acordo com esse trabalhador:

 

“No lugar que eu trabalhava eles nem falavam pra gente quanto que a gente fazia na noite, era tudo fechado, e aí no final do mês eles passavam um valor x pra gente, mas a gente sabia (que esse valor x) era menos. Aí começamos a organizar meio que um motim. Na hora de levar a conta na mesa do cliente a gente pedia para eles pagarem o serviço em dinheiro e aí já ficava direto pra gente. Passava pra casa só o dos clientes que pagavam tudo no cartão mesmo.”

Reflexões sobre o Assombroso de Paraty

Com os materiais prontos, estes foram imprimidos, repartidos e deixados em alguns lugares cujos trabalhadores apoiavam o coletivo. Também foi divulgado o material com um pequeno vídeo ensinando a imprimir, recortar e montar o informativo.

O segundo processo contou com trabalhadores da cultura, e levantou algumas questões interessantes sobre a composição desses trabalhadores. Muito foi falado sobre a dificuldade de articulação, além do entendimento de que muitos desses trabalhadores não se viam como trabalhadores, mas sim como “artistas”, como se não houvesse relação entre uma coisa e outra. Também se falou sobre os problemas enfrentados pelos músicos nos estabelecimentos, prelos problemas e a gestão destes a nível municipal, e uma certa sensação de incapacidade de avançar em um sentido organizativo em perspectiva de demanda. Decidiu-se, então, publicizar esses casos de abuso, além de desenvolver um novo boletim especificamente voltado para os trabalhadores da cultura. No entanto, o processo teve uma pausa que se estendeu durante tanto tempo que o boletim não pôde ser concluído.

É durante esses dois processos, também, que o Assombroso começa a ampliar o debate para fora de Paraty, trocando experiência com outros coletivos e organizações de trabalhadores que tinham os mesmos objetivos e mesmo foco na investigação dos locais de trabalho a nível nacional. Se entende-se que a classe trabalhadora é internacional, as resoluções para os conflitos de classe não serão realizadas apenas em Paraty. É importante, portanto, criar redes de apoio e de trocas de experiência para que, ao mesmo tempo que os trabalhadores paratienses possam através de suas experiências influenciar outros trabalhadores fora da cidade, possam também ser influenciados por estes. A luta de classes é uma troca constante de experiências tanto a nível nacional quanto a nível internacional. E o interesse do Assombroso em não se deixar confundir com qualquer perspectiva nacionalista – e bairrista – e de se opor à xenofobia, era tão forte que o coletivo decidiu divulgar um relato de um trabalhador nascido e criado em Paraty que encontrava-se na Europa trabalhando em uma Pousada para que este contasse os problemas que passava por lá, assim como compartilhar o processo de luta que lá se desenvolveu. Obviamente os problemas eram muito parecidos.

 

A pandemia e o desenvolvimento de novas formas de luta

Ao contrário do que se sucedeu com várias organizações com as quais o Assombroso manteve contato, a pandemia não trouxe muitas distinções na forma de articulação do coletivo, muito porque a maior parte de sua atuação já se dava de forma virtual. No entanto, o passo à frente que entendia- se necessário, que se iniciaram com as reuniões virtuais e o desenvolvimento do boletim, acabaram adiados indefinidamente. O foco voltou a ser a explanação virtual e os Relatos Assombrosos voltaram com o nome de “Relatos Assombrosos em tempos de pandemia”.

Cresciam os conflitos nos locais de trabalho que agora contavam com alguns trabalhadores batendo de frente com seus patrões em relação às condições impostas pelo COVID. Professores tinham os valores de suas “dobras” cortadas enquanto alguns trabalhadores do turismo estavam sendo demitidos sem nenhum direito e tomando calote de seus patrões. Outros identificavam a desobediência dos patrões em cumprir os decretos da prefeitura, além de contarem com a complacência das autoridades competentes ao simplesmente fecharem os olhos à fiscalização.

Barqueiros do cais começavam a se movimentar e a exigir apoio por parte da prefeitura uma vez que foram “os primeiros a parar e serão os últimos a retornar”, como era muito falado entre a categoria. Aliado à esses processos, comunidades tradicionais na cidade começaram a erguer barreiras sanitárias com o objetivo de impedir a grande circulação em seus territórios e, assim, evitar o contágio.

Reflexões sobre o Assombroso de Paraty

É nesse caos imposto pelo COVID que novas explanações começam a surgir, aliadas à uma generalização dos processos de luta. O Assombroso segue então divulgando os casos de abusos em locais de trabalho.

Uma série de denúncias são feitas por professores em Paraty de que, com a pandemia, os professores do município tiveram a regência cortada, além do corte nas “dobra”. Essas dobras são um dispositivo usado pela própria prefeitura para garantir que não há falta de professores, uma vez que há falta de concursos na cidade e uma demanda de força de trabalho. Soma-se a isso o PCCR (Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração), que estabelece, entre outras coisas, a remuneração dos professores de acordo com a legislação, que não é cumprido a anos. Os educadores partem para a ofensiva e divulgam seus problemas nas redes sociais, criticando em peso a secretaria de educação (a cargo do Partido dos Trabalhadores). À partir dessas exposições que viralizam nas redes, o presidente do Partido dos Trabalhadores, bem como a responsável pela Secretaria de Educação – também do partido – fazem uma live na página do Partido dos Trabalhadores anunciando que “tecnicamente não houve redução de salário, pois o mesmo não foi alterado, mas houve perda significativa de receitas” que significaram uma supressão de “20% de regência de 100% de professores, o valor referente a difícil e dificílimo acesso para os professores que gozam desse direito e a aula extra, ou dobra” e que os argumentos utilizados pela prefeitura para efetuar o corte “não foram de ordem econômica, não tendo a ver com contenção de despesas, mas com questões jurídicas e burocráticas”, também que para o Partido dos Trabalhadores o corte “foi uma derrota”, e que são todas essas questões que o Partido expôs em carta para o governo do MDB “do qual estamos” – reforçam os apresentadores – e que entendem que a derrota não foi devido à força ou vontade do prefeito, mas pelo “entendimento majoritário do conjunto de atores que compõe o corpo jurídico e administrativo da prefeitura municipal de Paraty”. A live serviu para tentar limpar a imagem pública da gestão petista, mas acabou sendo também uma forma de tentar limpar a gestão do MDB através das várias defesas ao governo e ao próprio prefeito, afirmadas pelo próprio presidente do Partido dos Trabalhadores ao dizer que “defendemos o governo Vidal” o mesmo que em diversos momentos atacou professores em suas próprias redes, além de espalhar mentiras de que estes ganham por volta de 8 mil reais, talvez para justificar os ataques à categoria.

Enquanto os professores tinham seus salários cortados, trabalhadores do setor de serviços tomavam calotes de seus patrões, além de serem demitidos. Uma dessas trabalhadoras entrou em contato com o coletivo e, através de debate inicial, foi desenvolvido uma material divulgando o que tinha acabado de acontecer. A ideia inicial era subir o tom das explanações e, caso não houvesse qualquer resposta, pela primeira vez publicizar os casos dando nome aos bois. No entanto, não foi necessário. Logo após a divulgação e em seguida a viralização do caso as trabalhadoras foram chamadas de volta pela patroa que pontuou ter visto a repercussão do caso e que elas “haviam entendido errado”. Resultado, as trabalhadoras foram readmitidas.

No cais da cidade, barqueiros se organizavam para cobrar da prefeitura um auxílio municipal que pudesse ajudá-los a enfrentar o processo. Enquanto vários barcos afundavam e davam problema, sem grana para as retiradas, esses trabalhadores foram até a prefeitura exigir a criação de um auxílio por parte do governo municipal, que disse ser impossível criar uma vez que os dispositivos institucionais o impediam, podendo apenas aguardar algo que viesse da união. No entanto, enquanto os burocratas da prefeitura falavam da impossibilidade, em Salvador, Macaé e Niterói (para dar apenas alguns exemplos), as prefeituras criavam dispositivos de auxilio para os trabalhadores informais e autônomos, indo na contramão do que era afirmado pelos representantes locais. Por outro lado a prefeitura criava linha de crédito com juros zero para auxiliar os comerciantes.

Fora do centro urbano da cidade, nas comunidades tradicionais, caiçaras organizavam barreiras sanitárias para impedir a circulação. O decreto de lockdown em varias cidades do Brasil fizeram com que moradores simplesmente abandonassem suas cidades, aproveitando do home-office e da impossibilidade de trabalho presencial, para procurar os lugares pacatos, em geral as comunidades caiçaras. Acontece que esse processo levou uma massa desenfreada para esses lugares, que começaram a se articular para impedir essa entrada. A comunidade de Trindade, desde o começo da pandemia, já havia se articulado para fechar sua entrada, visto que é um dos lugares mais visitados da cidade. A decisão precoce dos moradores foi acertada, e mobilizou por volta de 160 voluntários na manutenção da barreira, do início até seu fim. A experiência de auto-organização e retomada territorial das barreiras sanitárias, contudo, não se limitou à Trindade. A comunidade do Sono e da Ilha do Araújo, além de outras comunidades, também se organizaram para enfrentar o movimento massivo de visitantes em meio ao caos. Com uma política de fiscalização fraca, a cidade de Paraty foi tomada por turistas que tentaram fugir das restrições impostas em suas cidades. Enquanto várias comunidades conseguiram controlar e impedir o acesso em suas comunidades, o centro urbano de Paraty foi tomado e o caos se espalhou pelos trabalhadores, que desabafavam sobre o medo de contaminação. Como relatado por uma trabalhadora através de uma mensagem para o coletivo:

 

“Estou trabalhando, tenho muito medo de pegar esse vírus, tenho reumatismo e a imunidade baixa, tomo muitos medicamentos e estou exposta. Sinto dores pelo corpo todo e não posso pegar esse vírus. E a prefeitura abrindo as pernas pro turismo entrar fica difícil para nós…”.

 

É nesse contexto, mais ou menos na metade de junho de 2020, que o Assombroso lança o minimanual “como organizar uma barreira sanitária no seu bairro”, apostando nas experiências da área rural como potenciais para a área urbana da cidade. Apesar de algumas tentativas de organização nesse sentido, elas foram insuficientes de se generalizarem e só puderam se constituir de fato nas áreas rurais. Mesmo assim, em agosto, após 147 dias, e o crescimento de contradições internas territoriais, além da falta de apoio do poder público, que parecia mais interessado em potencializar o caos, a barreira de Trindade chega ao fim.

Reflexões sobre o Assombroso de Paraty

Com o começo da desarticulação das experiências das barreiras sanitárias, e a generalização da falta de fiscalização, a prefeitura começa um processo de “reabertura da cidade” (como se ela tivesse de fato fechada). Os trabalhadores, que já estavam trabalhando normalmente mesmo antes da tal flexibilização, continuaram a manter suas jornadas normais mesmo com “imposição de restrições” decretada pela prefeitura, como uma espécie de contraponto legal à “abertura” do comércio. Isso ocorreu porque muitas empresas começaram a se aproveitar da falta de fiscalização e utilizar como desculpa para seus empregados, e para a “legalidade”, que seus empreendimentos encontravam-se em várias categorias ao mesmo tempo. Sendo assim, por exemplo, várias sorveterias e bares começaram a se apropriar da classificação de loja de conveniência, se esta categoria de empreendimento pudesse ficar aberto até mais tarde em um final de semana. Na prática, então, não foi o decreto que classificou os estabelecimento, os estabelecimentos é que se classificavam de acordo com o decreto. Aliado à isso estava a falta de fiscalização e fiscais que se omitiam em bater de frente com os patrões enquanto, ao mesmo tempo, repreendiam músicos que tocavam na rua em meio ao fluxo de turistas. Como bem dito por um trabalhador em um relato enviado ao coletivo:

 

“A guarda só serve pra isso, querer tirar as pessoas que estão trabalhando na rua, como os músicos. Agora quando nois trabalhadores liga pra denunciar que os turistas n estão andando de máscaras no centro histórico aí não vai ninguém. E que os patrões tem até 8 horas pra fechar comércio aí chega no sábado eles estão fechando meia noite aí você liga e ninguém vai fiscalizar. Não tô entendendo nada. E que tem muitas coisa errada sobre esse decreto e nois que somos trabalhadores estamos a mercê. Estou indignada com muitas coisas estão acontecendo no centro histórico de Paraty. Chega n sexta-feira todos os comércio e pra fechar as 8 aí fica todo mundo aberto até tarde você liga pra guarda cadê n vem ninguém mandar fechar. Mal abriu a cidade e já está assim imagina depois estamos a mercê nois trabalhadores. Porque patrões estão pouco se lixando o que importa é o dinheiro só isso infelizmente”

 

Entre essas duas forças, uma representando o poder público e a outra o setor privado, encontravam- se os trabalhadores que temiam por suas vidas frente ao elevado número de contaminações. É à partir desse medo que o coletivo começa a receber fotos tiradas pelos próprios trabalhadores divulgando os estabelecimentos que encontravam-se abertos até mais tarde. Essa tática de fiscalização “por baixo”, desenvolvida pelos próprios trabalhadores dessas empresas, começou a ser divulgada pelo Assombroso na forma de “Fiscalize a sua empresa” e também teve uma boa repercussão. De acordo com uma trabalhadora envolvida na experiência de fiscalização dos locais de trabalho que relatou ter ouvido a conversa de seu patrão com outros comerciantes, através da viralização dos chamados para a fiscalização dos locais de trabalho:

 

“Parece que a denuncia que fizemos deu certo. Ontem o patrão chamou eu e os colegas para conversar e disse que vai voltar ao horário normal do decreto mesmo. Quando eu saí do trabalho, vi que vários estabelecimentos voltaram a fechar as portas na hora certa depois da publicação, mas alguns poucos ainda permaneceram abertos…”

 

O fato desses “alguns poucos” terem se mantido abertos e não terem sofrido qualquer punição da fiscalização foi o suficiente para encorajar o restante a ignorar de vez o decreto. Nessa relação de forças, a solidariedade entre os patrões venceu a perspectiva de fiscalização “por baixo” dos trabalhadores.

Mesmo que várias experiências interessantes tivessem ocorrido, não parece ter acontecido nenhuma articulação entre elas, que pudesse oferecer um gás para a manutenção e posterior generalização.

Enquanto o Assombroso e algumas outras forças políticas/sociais divulgavam a palavra de ordem “Auxílio municipal e barreiras sanitárias para garantir a vida”, faltou uma articulação que pudesse dar conta de aproximar essas experiências e pautar, de fato, uma política sanitária baseada nas lutas concretas dos trabalhadores. A pauta do auxílio municipal dos barqueiros, por exemplo, foi visto por muitos trabalhadores como uma pauta específica da categoria quando, em realidade, ao ser reivindicada pelo conjunto da classe poderia apontar para um horizonte mais amplo. Mesmo a experiência de fiscalização dos locais de trabalho “por baixo” pode ser entendida como uma readaptação da ideia de barreiras sanitárias adaptadas para a área urbana da cidade. Faltou também qualquer tipo de troca e reflexões mais profundas entre essas experiências. A bem da verdade, lutas aconteceram e foram coletivas, mas coletivas na medida em que organizava-se com seus pares.

Faltou a coletivização dessas lutas e o entendimento de que todas estavam inscritas em uma só.

Reflexões sobre o Assombroso de Paraty

 

As redes e o futuro

O Assombroso teve uma forte divulgação na cidade. Além das redes sociais, que eram os canais oficiais, outras páginas e sites replicaram em diversos momentos suas informações. Isso se deu devido à viralização dessas postagens, e a uma intensa participação dos usuários com as redes do coletivo. No entanto, é possível identificar que cada vez mais crescia nos usuários da página a ideia de que o Assombroso era uma espécie de “prestadora de serviço”. Não foram poucas as mensagens solicitando que o coletivo fizesse uma lista de boicote de empresas, ou que informasse quais serviços as pessoas deveriam consumir, por serem “boas empresas” as prestadoras desses serviços. Para os trabalhadores que entravam em contato com a página para enviar seus relatos a página também não deixou de escapar da ideia de “prestadora de serviço”. No entanto, ela também serviu como ferramenta de resistência aos abusos nos locais de trabalho, servindo como um amplificador da voz daqueles trabalhadores ao invés de tomar para si a frente dos processos.

Como toda organização surgida nas redes sociais e dependente delas, já era sabido dos limites de controle do coletivo sobre essas ferramentas. Em algum momento haviam três redes de atuação: Facebook, Whatsapp e Instagram. Houve perda no acesso ao Whatsapp e, logo depois, a conta do Assombroso no Instagram foi apagada pela plataforma. O que restou foi o acesso ao Facebook, que limitou bastante os canais de comunicação e divulgação. Além disso, ao não conseguir expandir e dar continuidade às experiências para fora das redes (como as iniciadas através das reuniões ampliadas e os boletins), houve uma limitação ao âmbito virtual, o que acabou desestimulando o coletivo. Embora no processo da pandemia houve aproximação de outros coletivos de trabalhadores, e trabalhadores em luta, não foi oferecida qualquer perspectiva de construção, muito porque, talvez, não houvesse reflexão coletiva acerca das experiências vivenciadas até ali.

A perspectiva mal elaborada sobre o Assombroso também é uma questão que deixa transparecer uma multiplicidade de entendimentos sobre o que é o coletivo. Se em um primeiro momento a ideia era tentar aproximar trabalhadores do coletivo, e ampliar o Assombroso, em um segundo momento o processo pareceu considerar o Assombroso em si já uma pequena rede de trabalhadores, a qual deveria se unir com outros coletivos de trabalhadores para, juntos ser possível desenvolver um movimento baseado em suas experiências nos locais de trabalho. Nesse sentido o Assombroso era, ao mesmo tempo, um coletivo de atuação clandestina e, de outro, um movimento que contava como participante qualquer um que estivesse em seu local de trabalho explanando seu patrão e seus problemas através dos relatos. Essa contradição – entre os assombrosos membros do coletivo e os assombrosos trabalhadores que explanavam seus locais de trabalho – parece que sempre foi uma aposta, melhor sistematizada na palavra de ordem “somos todos assombrosos”. A defasagem entre estes e aqueles, no entanto, parece ser uma questão que precisa ser melhor desenvolvida.

É correto dizer que o Assombroso não morreu mas está em sono profundo. Parece que o coletivo espera por novas explanações ou novos processos de luta para, então, voltar a se movimentar. No entanto, há muitas coisas acontecendo no subterrâneo dos processos de trabalho, o que sempre foi o foco do coletivo investigar. Há também, de forma mais animadora, algumas experiências que estão começando a surgir, como é o caso de um grupo de trabalhadores do turismo que desenvolveu um questionário com outros trabalhadores do turismo sobre o trabalho na pandemia e, até onde foi informado ao coletivo, havia o interesse de desenvolver melhor a questão e avançar em um sentido organizacional. Também a luta dos professores de Paraty (que a bem da verdade nunca deixou de existir) acabou sendo bastante sentida e mais explanada durante a pandemia, com direito a ataques do prefeito e de secretários à professores que começaram a atormentar as redes dos políticos locais.

Para se reerguer, o Assombroso – enquanto coletivo – precisa inovar, pensar em outros canais e em outras formas de se reconectar com o cotidiano. E talvez o papel do Assombroso seja de fato esse, de ser um megafone, tentando se dissolver nas experiências que já existem, ou que buscam se constituir. Por outro lado, será que haveria uma forma de fomentar a apropriação dos trabalhadores sobre a “plataforma” do Assombroso, de forma a dinamizar os processos e diminuir a intervenção e controle dos membros do coletivo sobre esta plataforma? Haveria ainda uma forma de pensar o Assombroso em (ou enquanto) rede? Se sim, como? Se não, por quê?

Reflexões sobre o Assombroso de Paraty

As artes que ilustram o texto são da autoria de M.C. Escher (1898-1972).

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