Por Luís

Para falar da importância de Bourdieu, de uma forma bastante rápida e introdutória, e deixando claro que este texto se propõe a ser não muito mais do que um ponto de vista que incrementa as discussões e o debate de uma forma que espero ser benéfica — ainda se reconhecendo como alguém que fala “de fora” do espaço — e uma ajuda a quem quer que queira pensar mais profundamente, facilitando e introduzindo um pouco do pensamento desse autor que considero tão importante. Utilizando, aqui, principalmente o conceito de campo.

Acho bastante oportuno começar problematizando a questão de tratar o hip-hop (pensando mais e principalmente no rap) como um campo. Não porque considere essa abordagem equivocada: ao contrário, acredito que seja a forma mais precisa de analisar o rap. O problema está, na verdade, nesse “descobrir” o rap como um campo: Em Pierre Bourdieu, o conceito de campo designa um espaço (não físico) relativamente autônomo, estruturado por relações de força e marcado por disputas constantes por reconhecimento, legitimidade e posições. Trata-se, portanto, de um espaço necessariamente hierarquizado, ou seja, vertical. Nesse sentido, pensar o hip-hop como campo implica reconhecer a existência de um jogo social, com regras próprias, estratégias, hierarquias, mecanismos de consagração e luta por capitais (simbólico, econômico…). Tal constatação, por si só, já estabelece uma tensão importante com a origem do hip-hop enquanto cultura de rua, coletiva e representa uma contradição em relação ao discurso de horizontalidade, união, luta conjunto do “povo” contra o “sistema”.

Todo campo possui uma autonomia relativa, ou seja, regras próprias, práticas mais ou menos valorizadas, um jeito de existir. Quanto mais autônomo um campo, menos sua forma de valorar (definir o que é belo, feio, desejável, indesejável, qual conduta é correta…) proveniente de outros campos e das tendências dominantes no espaço social, aqui pensando principalmente no que Bourdieu chama de “campo econômico”. A autonomia do hip-hop pode ser pensada tendo em vista os elementos que foram e ainda são, de certa forma, a ela identificados que já citamos anteriormente: a coletividade, a rebeldia, a negação da distinção positiva advinda do maior poder financeiro…

Nas últimas décadas, contudo, observa-se uma transformação significativa. A entrada mais intensa na indústria, a profissionalização do artista o discurso meritocrático, a ideia do “MC profissional”, “MC empreendedor”, a glorificação do sucesso financeiro individual e a visão do rap como caminho para ascensão individual — legitimada pela aura dos “iluminados” — passaram a ocupar um lugar central no discurso e na prática de do campo, ou seja, sendo cada vez mais “submissa” à linguagem e visão do mercado. Assim, os critérios do campo econômico passaram a reorganizar, em grande medida, o funcionamento do campo cultural do hip-hop, na produção e distribuição e na mente dos agentes que participam de tudo isso.

A ideia de “jogo”, muito presente no discurso atual do rap, ajuda a entender esse movimento. Especialmente nos Estados Unidos, competir para estar no topo virou algo normal há tempo. Um exemplo bastante ilustrativo é a “diss”, que quase sempre não representa um embate ideológico ou uma discussão entre iguais em torno de uma questão relevante e sim um meio ferramenta de disputa prestígio, legitimidade, ou seja, capital simbólico que pode e provavelmente deve logo ser reconvertido em dinheiro — capital econômico. Isso tudo se passa, muitas vezes, sem que os agentes precisem usar de eufemismos ou quaisquer formas de mascarar esse movimento, com declarações explícitas de luta por capitais ( o this is business).

Algo interessante de se observar é o que Bourdieu diz a respeito das estratégias adotadas pelos novos agentes que ingressam no campo. Em geral, esses pretendentes dispõem de pouco capital acumulado historicamente, com o autor chegando a dizer que seu único capital é “a crença no próprio jogo”, e, por isso, tendem a recorrer a estratégias de subversão da ordem estabelecida. É nesse contexto que emerge com frequência o discurso da “volta às origens”, da pureza e da autenticidade. Importa observar, contudo, que esse discurso nem sempre possui um conteúdo político efetivo. Muitas vezes, ele funciona como uma estratégia simbólica de ascensão dentro do próprio campo, mobilizando a ideia de autenticidade como recurso para obtenção de reconhecimento e poder. Diante disso, talvez o desafio não esteja simplesmente em optar entre vencer o jogo ou retornar às origens. A questão mais profunda pode ser a necessidade de interrogar o próprio jogo: seus pressupostos, seus critérios de valor e o papel que uma cultura de rua pode ou deve desempenhar quando passa a operar plenamente como um campo estruturado. Não apresento essas reflexões como respostas definitivas, mas como pontos de partida para uma discussão coletiva que considere tanto a dimensão simbólica quanto as condições sociais e materiais de produção do hip-hop contemporâneo.

Para que se possa compreender essas questões melhor e entender o funcionamento dos campos, recomendaria a leitura do livro Razões Práticas, primeiramente, e depois do texto/livro A Produção da Crença, além de outros materiais bastante úteis como aulas e mesmo outros livros do autor. Lembrando que Pierre Bourdieu trata de diversos outros temas que dialogam com nossas questões, como Educação e Classe, de uma maneira que considero espetacular, porém não penso que seja hora de aprofundar nisso, quis apenas me deter na exposição que propus no início. Para ilustrar os movimentos históricos dentro de um campo, eu considero o texto do Arthur sobre o Marechal, principalmente na metade inicial, fundamental.

Uma série de 4 videoaulas do canal da FFLCH sobre Bourdieu:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Uma aula do ex-aluno Clóvis de Barros, com cerca de 9 horas de duração (só áudio):

Aqui

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