Por João Bernardo

Não passo além dos factos quando sustento, usando os termos de Leibniz, que toda a possibilidade, enquanto possibilidade, é uma «pretensão à existência». O possível tem uma realidade, que resulta do sistema contraditório em que os factos se articulam e dos choques entre sistemas. É este o drama, que eleva a vida social de uma simples soma de biologias a um palco de teatro, e foram os enredos desse drama que eu procurei classificar e sintetizar no Economia dos Conflitos Sociais. Tanto as rupturas internas como os conflitos externos assinalam os pontos de crise e, convertendo o estático em dinâmico, apontam rumos possíveis de superação do existente. São possibilidades reais, porque resultam do carácter contraditório de factos reais, mas de todas as pretensões à existência qual virá realmente a existir?

Desde há várias dezenas de anos que, tanto em ensaios metodológicos como nas pesquisas práticas, tenho distinguido entre determinação e formas de realização. Uma determinação marca um campo cujos limites não podem ser excedidos, a menos que se salte para outro campo, em que prevalece outra estrutura de articulação dos factos. Mas no interior de uma dada determinação há um número ilimitado de formas possíveis de articulação dos factos na estrutura. A determinação marca os limites do não, mas não define a exclusividade de um sim. É nesta assimetria que se faz a história.

Essa assimetria deve ser transposta pelo historiador para outra assimetria, estabelecida entre o a priori e o a posteriori. Enquanto historiador, eu estou preso no tempo e escrevo necessariamente a posteriori, trato de factos que já sucederam e sigo a linha dos acontecimentos. Mas também enquanto historiador eu trabalho com uma matéria-prima formada pelos factos tal como eles se revelaram a priori e tal como se revelam hoje, num a priori relativamente aos tempos futuros. E se o a priori é uma vasta abertura de «pretensões à existência», o a posteriori é o encerramento de todas essas pretensões excepto uma. Por isso o historiador não deve limitar-se a explicar por que motivos sucedeu aquilo que sucedeu. É também necessário explicar — ou, pelo menos, tentar explicar — porque é que não sucedeu o que não sucedeu, ou seja, porque é que se efectivou uma forma do possível e não se efectivaram as outras. É no desfasamento (defasagem) entre o a priori e o a posteriori que ocorrem as ilusões do se em história. Se tivessem sabido… A historiografia é um infindável percurso por cemitérios, em que o cinismo é o único antídoto possível das nostalgias.

Todas estas dicotomias fundamentaram, tanto na pesquisa como na estrutura do texto, duas das minhas três obras de historiografia, o Poder e Dinheiro e o Labirintos do Fascismo. Mas que escândalo isto é para os vários dogmatismos e agora para o tudo abrangente politicamente correcto! Pois como pode pretender-se que uma certa sociedade ou uma certa civilização ou um certo tipo humano ou uma certa prática económica tivessem inicialmente, a priori, representado algo que agora, a posteriori, passado o tempo, se quer denegrir ou idealizar? E como pode dizer-se que a doutrina e o santo de cada uma das capelas, ou mesmo a divindade do altar-mor e os seus evangelhos, foram isto e aquilo no a priori, quando nos surgem tão puros e glorificados no a posteriori? Ou inversamente. E assim prolifera uma historiografia corrupta, dedicada a filtrar o a priori aceitável e a resumir a história a uma linha única. Se fizéssemos a lista de todas as previsões não confirmadas, aprendíamos a ser mais prudentes nas previsões. Mas se nos limitarmos a tomar o sucedido como prova de sucesso, esquecemos os tortuosos caminhos por que lá se chegou.

Procurei singrar entre estes escolhos noutra das minhas obras historiográficas, A Sociedade Burguesa de Um e Outro Lado do Espelho, onde analiso La Comédie humaine simultaneamente como obra de historiografia e como material da história.

«Fiz melhor do que o historiador, sou mais livre», proclamou Balzac. Mais livre? Ora, ele queixou-se precisamente da situação contrária, quando observou que «o historiador dos costumes obedece a leis mais severas do que as que regem o historiador dos factos, ele tem de tornar tudo provável, até o verdadeiro; enquanto que, no domínio da história propriamente dita, o impossível é justificado pelo motivo de ter acontecido». E noutras obras da Comédie transparece a mesma oscilação entre a liberdade de um criador de personagens e os constrangimentos impostos a quem tem de apresentar de maneira verosímil os acontecimentos que inventa, apesar de não faltarem na história real acontecimentos implausíveis. É que o a posteriori serve para justificar tudo pela mera razão de ter acontecido, enquanto o ficcionista não pode senão situar a priori as suas invenções, sem a desculpa do facto consumado. E assim La Comédie humaine, mais do que uma obra de historiografia, é uma reflexão sobre o exercício da história. Certamente por isso encontramos ali admiráveis antecipações da história real, porque de todas aquelas «pretensões à existência», algumas houve que depois viriam realmente a existir, e foi este um dos eixos que usei para estruturar A Sociedade Burguesa de Um e Outro Lado do Espelho.

Mas se Balzac foi um historiador que criou o seu próprio material historiográfico, e o criou na única forma possível em romances, enquanto pessoas, não nos iludamos e evitemos pensar que as teias da história sejam feitas com os fios das psicologias individuais. Em todos os meus trabalhos dedicados aos estudos sociais, sem excepção, eu tenho insistido que as unidades mínimas dos grupos sociais são outros grupos sociais, contidos no seu interior ou entrecruzados e só parcialmente sobrepostos. É num plano distinto que existem os indivíduos. Cada indivíduo constitui um percurso incessante e mutável entre vários grupos sociais, e a psicologia de cada um é a tentativa de dar uma coerência a esse percurso. Um indivíduo é uma dispersão unificada apenas pelo facto de possuir um cérebro que integra as sensações. Ora, quanto mais se agravarem as contradições internas dos sistemas sociais atravessados por um mesmo indivíduo e quanto mais se aprofundarem os antagonismos entre aqueles sistemas, mais difícil, ou até impossível, fica a tentativa de fornecer uma coerência a esse percurso. Em sentido oposto, pode suceder que em certas situações e circunstâncias um campo ou um grupo social ocupem um espaço desmesurado relativamente aos outros grupos e campos, e então uma grande parte dos percursos individuais seja atraída pelo campo ou pelo grupo em expansão, o que contribui para criar uma falsa sensação de unanimidade. Mas como mesmo nestes casos existem divergências e proliferam sistemas e grupos secundários e outras fontes de atracção para uns e outros percursos, nunca os percursos individuais se sobrepõem. A regra sem excepção é a singularidade dos incessantes percursos a que se resume cada indivíduo, sem que jamais esses percursos se decalquem.

Daí resulta a improcedência da psicologia na história e na economia. As obras que pretendem misturar as duas coisas com frequência não são uma nem a outra. Pensar que as pessoas são as unidades componentes dos grupos sociais é reduzi-las àquelas figuras sem vida que povoaram a pintura e a literatura soviética e hoje alimentam as ficções do politicamente correcto. Essas descrições nem sequer são disfarces assumidos por alguém, porque resultam apenas de máscaras sem conteúdo, inventadas para dar pernas e braços a grupos sociais e fazer crer que existe uma unanimidade absoluta onde há só diferenças e divergências.

Os sistemas sociais estudam-se na história e na economia. As pessoas estudam-se naqueles romances e filmes que vivam apenas das contradições dos personagens, ou seja, do seu percurso por sistemas e grupos sociais distintos, quando não mesmo opostos. Um romancista — um bom romancista, porque é destes que estou a falar — cria um personagem sem lhe saber o destino, e é ao longo da obra que o vai inventando, tal como sucede a qualquer de nós nos percursos e encontros sempre mutáveis do dia-a-dia. André Gide desvendou com ironia este mecanismo em Les Caves du Vatican, quando receou que o seu personagem hesitasse. «Lafcadio, meu amigo, se cair num fait divers, a minha caneta abandona-o». E o romancista previne: «Não espere que eu narre os pedaços de frases de uma multidão, os gritos…» E de novo, algumas páginas adiante. «Lafcadio, meu amigo, está a cair na banalidade. Se for apaixonar-se, não conte com a minha caneta para descrever as angústias do seu coração… Mas não». (Pode ler-se em nota a versão francesa.) Lafcadio faz a escolha certa e Gide exulta, porque o personagem não lhe fugiu e ele pode assim continuar o livro. É isto que sucede nos bastidores da escrita em todos os bons romances — o que nos permite distinguir os bons romances dos maus, ou mesmo dos menos bons — e por isso os personagens dessas obras nunca podem ser emblemas de uma doutrina ou figurantes de um grupo social, porque na cabeça do escritor eles inventam-se a si mesmos e optam por percursos imprevistos.

Nada há de comum entre os estudos históricos ou económicos e a ficção, por isso aqueles personagens imprevisíveis, que somos nós próprios, não constituem as unidades mínimas dos grupos sociais. É para outro lado que o historiador ou o economista têm de olhar. Talvez seja este o motivo por que uma certa esquerda, tanto da antiga como da actual, é tão hostil à ficção, onde só encontra figuras que fogem aos moldes. É talvez a mesma esquerda que alimenta o lobby dos psicólogos, xamãs vocacionados para colocar cada pessoa no devido padrão. Ora, a arte e a ficção servem, ou devem servir, para mostrar fissuras e introduzir dúvidas nas certezas. Em vez de demonstrar, devem pôr em causa.

Qual a utilidade, então, dos estudos de economia e de história, se não servem para dar coerência aos percursos individuais? E qual a utilidade da arte e da ficção, se não nos esclarecem sobre a estrutura da sociedade? Entre as razões que levam muitos leitores a ficarem descontentes com o meu trabalho, talvez seja esta uma das mais importantes, a de um estudioso da sociedade interessado sobretudo pela ficção e pela arte. Em 15 de Outubro do ano passado (aqui), um leitor, depois de considerar que existe «um João Bernardo de esquerda e um de direita», contrastou «o “jovem João Bernardo” marxista, comunista, conselhista, autonomista, heterodoxo, e o atual, ressentido, pessimista, revisionista, conformista, eclético e renegado». Mas este leitor enganou-se pelo menos numa coisa, pois poderia haver uma mais clara manifestação de revisionismo do que o jovem João Bernardo apresentar, há já cinquenta anos, Marx como crítico de Marx?

A grande divergência entre os que acreditam antes de ver e os que procuram ver para acreditar provém do que se pretende — o conforto de encontrar confirmações para os desejos e os preconceitos? Ou o incómodo de buscar sempre o inesperado e o que se é incapaz de explicar? Partir dos modelos para os factos ou dos factos para os modelos? Eu parto dos factos para os modelos.

Nota

As passagens citadas de La Comédie humaine (Paris: Gallimard, Bibliothèque de La Pléiade, 1976-1981) encontram-se respectivamente em Avant-propos, vol. I, pág. 15 e Les Paysans, vol. IX, pág. 190.
As citações de Les Caves du Vatican (Paris: Gallimard, Le Livre de Poche, 1956) encontram-se nas págs. 63 e 75. Na versão francesa: «Lafcadio, mon ami, vous donnez dans un fait divers et ma plume vous abandone. N’attendez pas que je rapporte les propos interrompus d’une foule, les cris…» «Lafcadio, mon ami, vous donnez dans le plus banal; si vous devez tomber amoureux, ne comptez pas sur ma plume pour peindre le désarroi de votre cœur… Mais non».

As ilustrações reproduzem obras de M. C. Escher (1898-1972).

Pode ler aqui a primeira parte deste ensaio.

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