Por Marcelo Tavares de Santana
Dando continuidade ao nosso percurso sobre o desafio do controle parental, que já passou pelas obrigações do ECA Digital, pelo uso do Family Link, pelas configurações em ambientes Linux e, mais recentemente, pela filtragem de conteúdo via DNS, tentaremos neste artigo abordar uma solução mais abrangente. Muitos leitores e pais atentos podem se perguntar: existe uma prática comum a diversos sistemas para fazer esse controle? É uma questão que levará algum tempo para respondermos, mas já podemos identificar alguns passos para esse objetivo que são: criar um usuário restrito, permitir apenas aplicativos selecionados, usar um DNS para filtrar conteúdo e bloquear alterações nas configurações do sistema. Podemos, por exemplo, fazer tudo isso num celular Android mas com preferência para o Software Livre e escapar da entrega de dados pessoais e comportamentais às big techs? Depende do que se deseja. Se for para um controle muito detalhado como definir o tempo em cada aplicativo, é mais difícil, mas para um controle básico de aplicativos e conteúdos fica mais fácil.
É importante ressaltar que esses quatro passos formam um modelo conceitual genérico de proteção, aplicável e pesquisáveis para qualquer sistema operacional — seja Android, iOS, Linux, macOS ou Windows. Cada etapa cumpre uma finalidade específica e indispensável na arquitetura do controle parental básico: a criação de um usuário isola o ambiente da criança, impedindo que ela acesse dados sensíveis dos adultos; a permissão restrita de aplicativos garante que apenas conteúdos e ferramentas aprovadas pelo tutor sejam executados; a configuração de um DNS com filtros atua como uma barreira de rede, bloqueando conteúdos nocivos e ilícitos antes mesmo que cheguem ao dispositivo; por fim, o bloqueio das configurações de sistema impede que o menor, intencionalmente ou por curiosidade, desfaça as proteções estabelecidas. Entender essa lógica permite ao responsável adaptar a segurança independente do aparelho que tiver em mãos.
Conforme refletimos anteriormente, decidir qual ferramenta usar envolve prioridades. Se no primeiro artigo o Family Link foi apresentado pela sua facilidade e urgência de proteção, aqui propomos uma alternativa para quem já tem familiaridade com o ecossistema de Software Livre e deseja fugir da “economia da atenção” e da vigilância corporativa desde a infância de seus tutelados. O ecossistema Android, embora mantido pela Google, possui raízes em código aberto e permite configurações profundas que, combinadas com a loja de aplicativos F-Droid (uma loja exclusiva para Software Livre), formam um bom escudo protetor. Neste artigo vamos seguir com esse sistema operacional como exemplo por ser bastante comum em tablets, equipamentos esses interessantes como dispositivos de auxílio a educação.
O primeiro passo desse caminho comum é isolar o ambiente da criança. O próprio sistema Android possui a função de múltiplos usuários, muito semelhante à que discutimos nos computadores com Linux. O ideal é ir em “Configurações”, depois em “Sistema” e procurar por “Múltiplos usuários” ou “Vários usuários”. Ali, o responsável deve manter o seu próprio perfil protegido por uma senha forte ou biometria (para que a criança não o acesse) e criar um “Usuário Padrão” (ou “Perfil Restrito”, caso esteja usando um tablet, onde o recurso costuma ser mais robusto). Esse novo usuário será o espaço digital da criança.
O segundo passo, já dentro do perfil da criança, é configurar o filtro de conteúdo. Lembra-se do DNS que configuramos no Linux no terceiro artigo? No Android (a partir da versão 9), isso é ainda mais simples, pois o sistema aceita DNS sobre TLS (DoT) nativamente, sem precisar de firewall complicado. O inconveniente é que cada fabricante faz seu menu de configuração de forma que e as palavras e a sequência podem variar um pouco. Um exemplo é ir em “Configurações”, depois “Rede e Internet”, “Avançado” e selecionar “DNS Privado”, mas em dois equipamentos Android que tenho o caminho não é esse, porém achei essa configuração em ambos pesquisando o termo “DNS P”, pois num deles a expressão usada é “DNS Particular”. A partir desse ponto, selecionamos a opção “Nome do host do provedor de DNS privado” (ou particular) e inserimos o endereço do serviço focado em famílias. Mantendo a recomendação anterior, podemos usar o CleanBrowsing preenchendo com “family-filter-dns.cleanbrowsing.org”. Pronto, toda a navegação daquele perfil estará filtrada, mas se essa configuração não existir no perfil da criança, será necessário ir no perfil principal e aplicar isso a todos os usuários; tenho usado esse DNS faz uns dois meses e não mudou meu dia-a-dia, pode ser uma ótima opção para todos.
O terceiro e o quarto passo são onde temos opções viáveis de Software Livre: restringir aplicativos e impedir alterações. Se a criança tiver acesso ao aplicativo “Configurações”, ela rapidamente aprenderá a desativar o DNS Privado, derrubando nossos filtros. A solução é instalar um bloqueador de aplicativos de código aberto, como o App Lock, obtido através da loja F-Droid [1]; na Play Store existem aplicativos similares. Ferramentas livres de bloqueio cumprem uma função simples e honesta: exigem uma senha (que só o tutor sabe) para abrir determinados programas, sem exibir anúncios ou coletar seus dados para terceiros.
No caso do App Lock do F-Droid cuidado para não ativar o “Atalho do App Lock” (ou Atalho de acessibilidade) nas configurações de acessibilidade pois isso ativa um ícone flutuante que permite desativar o bloqueio facilmente; para ele funcionar corretamente também precisei reiniciar o dispositivo. Com o App Lock (ou similar) instalado no perfil da criança, o responsável deve usá-lo para trancar a sete chaves três coisas fundamentais:
1. O aplicativo “Configurações” (impedindo a troca do DNS ou de redes);
2. A “Play Store” e o próprio “F-Droid” (impedindo a instalação de jogos ou navegadores não autorizados);
3. Navegadores que não possuam filtros rigorosos.
Dessa forma, deixamos habilitados somente os jogos educativos, aplicativos de comunicação com a família ou plataformas de estudo que previamente acordamos com os menores. A criança não consegue alterar a rede, não consegue instalar novos aplicativos por conta própria e navega sempre sob o olhar protetor de um DNS familiar. Criamos, assim, uma sandbox (uma “caixa de areia” isolada e segura) baseada majoritariamente em recursos selecionados.
Como dito, diversas vezes ao longo desta série de artigos, nenhuma solução técnica é 100% à prova de falhas. Adolescentes mais velhos sempre testarão os limites das cercas virtuais que construímos. Além disso, o trabalho de configurar um ecossistema assim exige paciência inicial por parte do adulto. Contudo, optar por esse caminho descentralizado e livre ensina aos jovens, pelo exemplo, que a tecnologia pode ser moldada às nossas necessidades familiares, e não o contrário. No fim das contas, a ferramenta técnica apenas reduz danos, que pode ser uma grande redução, mas o controle parental duradouro e definitivo continua sendo a educação digital, as conversas sobre privacidade e a negociação franca de limites.
Bom diálogo a todos!





