Por Marcelo Phintener
Coerência sem coordenação: a gramática totalitária do Partido Digital Bolsonarista
Há um enigma no centro de qualquer análise do bolsonarismo: como um movimento sem estrutura formal, sem programa unificado e sem disciplina institucional clássica produz uma coerência discursiva que partidos tradicionais raramente conseguem manter?
A resposta a esse enigma encontra um marco fundamental na pesquisa do CCI/Cebrap publicada em O Partido Digital Bolsonarista. O livro demonstra que o movimento possui uma arquitetura organizativa real: hierarquias informais, cadeias de lealdade consolidadas e uma coordenação capilarizada pelas redes. É o mapeamento indispensável da engrenagem do ecossistema.
Mas há uma coerência que se manifesta mesmo onde a coordenação direta não alcança. Um pastor no Maranhão, um general em Brasília, um influenciador em São Paulo e um vereador no interior do Paraná podem nunca ter operado na mesma cadeia de comando e, ainda assim, produzem variações precisas do mesmo texto profundo.
É nesse horizonte que Jean-Pierre Faye, em Langages Totalitaires: critique de la raison, l’économie narrative (1972), oferece o instrumental para nomear o que cimenta esse ecossistema: não apenas a coordenação, mas a existência de uma gramática que opera num nível anterior a qualquer articulação consciente.
O que é uma gramática política
Faye usa o termo “gramática” num sentido estrito: não como as regras formais da língua, mas como a estrutura subterrânea que determina o que pode ser dito, como pode ser dito e quais combinações de imagens e narrativas são possíveis dentro de um campo. Uma gramática política é o conjunto de regras implícitas que organiza a produção e a circulação do discurso: define quem é o inimigo, quais emoções são legítimas, que narrativas fazem sentido e quais imagens mobilizam.
O crucial é que essa gramática opera abaixo da consciência política dos falantes. Ninguém precisa conhecer suas regras para aplicá-las. Ela circula — de meme em meme, de sermão em sermão — e se reproduz porque cada falante, ao usá-la, a confirma para os demais. Produz coerência por si mesma, prescindindo de um centro distribuidor ou de uma hierarquia que a imponha.
A gramática bolsonarista: elementos estruturais
O ecossistema bolsonarista possui uma gramática identificável. Seus elementos têm precedentes históricos — Faye os rastreou na República de Weimar —, mas se manifestam em roupagens novas, adaptadas ao cenário brasileiro e à arquitetura digital.
A gramática bolsonarista é estruturada em torno do inimigo que opera por dentro, não por fora: o infiltrado, o corrompido, o traidor que ocupa posições de poder para destruir a nação. Comunismo, globalismo, “marxismo cultural” e “ideologia de gênero” compartilham a mesma estrutura: forças que contaminam o tecido social a partir de dentro. Disso decorre a necessidade de vigilância, denúncia e expurgo permanentes.
Em oposição ao infiltrado, constrói-se a imagem de uma comunidade idílica pré-contaminação — o Brasil cristão, patriota, trabalhador e de família. Não se trata de uma construção política ou de uma aliança de interesses: é essência. E essências não negociam, restauram-se.
O tempo é organizado em três momentos: um passado de ordem, um presente de decadência e um futuro de purificação — o mito de queda e redenção que Faye identifica nas linguagens totalitárias. Essa temporalidade possui uma eficácia mobilizadora que o reformismo progressista não consegue igualar: cria urgência absoluta, personifica os culpados e oferece salvação pela ação direta.
A violência raramente é celebrada de forma explícita, mas é pressuposta como necessidade lógica: se a restauração exige o expurgo do elemento corruptor, o horizonte final é a eliminação simbólica ou física do inimigo. O líder, por sua vez, não representa a comunidade no sentido político-formal; ele a encarna, sem mediações. Daí a impossibilidade da crítica: contestar o líder não é exercer um direito democrático, é atacar a comunidade — e o crítico automaticamente se torna inimigo interno.
Como a gramática circula: a simbiose digital
Embora os elementos dessa gramática remontem ao início do século XX, seu ambiente de circulação é inédito. As plataformas digitais funcionam como máquinas de replicação: não distribuem programas políticos complexos, mas fragmentos discursivos de alta velocidade — memes, cortes de vídeo, frases de efeito e reações.
Cada fragmento é pequeno demais para carregar uma posição ideológica completa, mas transporta os genes da gramática. É essa circulação molecular acumulada que satura o debate público. O algoritmo não possui ideologia partidária, mas sua lógica de engajamento favorece reações emocionais intensas, polarização e pânico moral. A gramática totalitária se ajusta a esse ecossistema não por coordenação prévia, mas por afinidade estrutural com a arquitetura das redes.
A antropofagia reacionária: a captura do identitarismo
O avanço desse ecossistema revela uma das operações mais sofisticadas do fascismo pós-fascista: ele não combate as pautas identitárias da esquerda, ele as deglute, mimetiza sua estrutura discursiva e as devolve como um espelho invertido. Essa captura opera por dispositivos gramaticais precisos.
Primeiro, ocorre a inversão do lugar de fala. A extrema-direita se apropria da gramática que estrutura o debate em torno de opressão e vulnerabilidade para posicionar sua própria base — o homem comum, trabalhador, heterossexual, cristão — como a verdadeira minoria perseguida. As pautas de inclusão passam a ser lidas como privilégios outorgados por elites burocráticas (o consórcio entre imprensa, judiciário e academia). O ressentimento é assim legitimado: o cidadão comum reivindica o estatuto de vítima de um sistema que confisca seu rendimento e seu tempo em nome do politicamente correto.
A gramática totalitária não se esquiva da fragmentação promovida pela esquerda; instrumentaliza-a como contraexemplo para erigir um identitarismo de sinal invertido — o hiperidentitarismo nacional-cristão. Em vez de atomizar o sujeito político, oferece uma essência unificada e excludente: o “verdadeiro patriota”. É uma matriz de pertencimento de consumo imediato, projetada para purificar o indivíduo de suas contradições materiais.
O trabalhador precarizado — submetido diariamente a longos deslocamentos e à espoliação de seu rendimento — sofre, ao absorver esse código, uma mutação perceptiva: deixa de interpretar sua condição pelo prisma da exploração e passa a se ver como célula de uma comunidade orgânica ameaçada. É um curto-circuito analítico que sequestra o ressentimento material legítimo e o canaliza para a defesa metafísica da ordem que o explora.
Coordenação e gramática
O mapeamento de Nobre e Teixeira evidencia com rigor as cadeias de lealdade, a engenharia do financiamento e os mecanismos de disciplina informal que dão corpo ao PDB. São achados fundamentais para desmistificar a tese de um movimento caótico ou espontâneo. Mas, sob a perspectiva de Faye, essa coordenação é, em grande medida, uma sofisticação secundária da própria gramática — não sua causa primeira.
O PDB alcança tamanha eficácia de coordenação porque seus membros — dispersos, moleculares, muitas vezes desconectados entre si — já compartilham um código comum. É esse código que torna a ação conjunta imediata e orgânica, prescindindo de ordens explícitas ou de uma burocracia centralizada. A gramática funciona como condição de possibilidade da própria organização técnica.
Daí decorre uma implicação crucial: o movimento é mais resiliente do que o modelo organizacional sugere. Tratá-lo apenas como organização leva à suposição de que, ao cortar o financiamento ou decapitar a liderança, o ecossistema colapsa. No entanto, a gramática existe de forma distribuída, em milhões de fragmentos que circulam de maneira autônoma.
É por isso que a derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022 não desmantelou o movimento — e nem mesmo a ameaça ou a consumação da prisão de suas figuras de proa tem esse poder. A hierarquia foi perturbada, novas lideranças regionais emergiram, as cadeias de lealdade sofreram disputas internas, mas o texto profundo continuou intacto. A punição jurídica ou a inelegibilidade operam no plano dos indivíduos e da superfície institucional; porém, enquanto a gramática circula e continua a fundar a topografia do aceitável, o campo de força permanece vivo, pronto para ser reativado e performado por novos agentes.
A gramática e o coach: Marçal como caso analítico
Pablo Marçal é o caso que melhor ilustra a autonomia da gramática frente à coordenação partidária. Outsider, desafiou a hierarquia estabelecida do PDB, disputou o espólio digital do bolsonarismo e emparedou o campo tradicional na eleição municipal de São Paulo em 2024 — à revelia e contra a vontade dos caciques do movimento.
Sob a lente da coordenação e das cadeias de lealdade, Marçal é uma anomalia inexplicável. Sob a lente de Faye, é a comprovação da tese: ele não precisou de autorização partidária porque dominava a gramática bolsonarista — a narrativa de decadência e redenção, o ataque ao inimigo interno e a promessa de conexão direta com o líder. Sua inovação foi traduzir essa gramática para o registro do empreendedorismo de si e do coach de autoajuda. Quem domina o código discursivo constrói legitimidade própria no ecossistema, imune ao veto da burocracia organizacional.
O impasse das gramáticas da esquerda e a conversão totalitária
O exame da realidade concreta demonstra que o impasse da esquerda contemporânea não decorre de uma mera “falta de estratégia”, mas de uma conversão gramatical já consumada. O campo progressista fraturou-se em dois polos discursivos que, embora não tenham como objetivo deliberado o fortalecimento do fascismo, terminam por alimentá-lo: um deles por incapacidade de formular o contradiscurso materialista, e o outro por converter-se, ele mesmo, em uma nova modalidade de controle burocrático e totalitário.
O primeiro polo, o do universalismo abstrato, esvaziou-se de materialidade social. É uma linguagem institucional herdada do iluminismo jurídico, que articula categorias neutras como “direitos”, “justiça” e “democracia”, mas padece de anemia estética e afetiva. Ao converter a exploração em relatórios gerenciais e a política em gestão tecnocrática, torna-se ininteligível para a classe trabalhadora precarizada, cujo tempo e rendimento são diariamente corroídos. Frente à crueza da sobrevivência, soa como simulacro cínico.
O segundo polo, o da fragmentação identitária, opera a inversão mais trágica. Ao abandonar a crítica da economia política em nome de micropolíticas de nicho, adota uma estrutura homóloga à do próprio fascismo. Sob uma retórica emancipatória, a linguagem identitária contemporânea passa a funcionar como um fascismo pós-fascista.
Essa mutação formal encontra genealogia histórica precisa nas teses de Zeev Sternhell em O Nascimento da Ideologia Fascista. Sternhell demonstra que o fascismo histórico não emerge de uma herança pura da direita conservadora, mas de uma revisão antimaterialista do marxismo e de uma dissidência interna ao sindicalismo revolucionário do início do século XX. Intelectuais como Georges Sorel, ao repudiarem o economicismo e o racionalismo do marxismo, operaram um entrecruzamento radical: substituíram as leis objetivas do desenvolvimento econômico pelo culto ao mito, à identidade orgânica e à violência regeneradora. Sob essa ótica, Mussolini não traiu o socialismo; ele consumou a premissa antimaterialista que permitiu fundar uma nova topografia de controle.
A esquerda identitária contemporânea mimetiza essa rota, fazendo as vezes de um novo tipo de nacionalismo. Se o nacionalismo clássico erguia o mito de uma comunidade de sangue e solo para neutralizar as fraturas de classe e exigir lealdade absoluta a uma essência abstrata, o identitarismo contemporâneo opera o mesmíssimo cercamento sob a forma de uma comunidade de trauma e biologia.
A nação cede lugar ao gueto identitário, mas a mecânica política é idêntica: o pertencimento cultural ou biológico sobrepõe-se à condição material de classe. Dentro das fronteiras desse novo nacionalismo molecular, aciona-se o dispositivo da pureza e do expurgo permanente: o debate é substituído por tribunais inquisitoriais digitais, onde a dissidência conceitual é tratada como traição à pátria-identidade, um crime de contaminação moral que exige o cancelamento e a eliminação reputacional do indivíduo. Não há espaço para a contradição ou para a mediação: a essência do grupo é sagrada; o outro é o infiltrado permanente.
Nesse arranjo, a universidade contemporânea atua como um dos mais potentes aparelhos privados de hegemonia do Estado Amplo: o cancelamento não constitui um acaso ou excesso isolado, mas sim uma tecnologia institucionalizada de poder. No interior da academia, o desvio conceitual é formalmente tipificado como heresia, mobilizando processos administrativos, a censura de linhas de pesquisa, a exclusão de bancas, reprovações sumárias e o bloqueio preventivo de contratações e publicações. A universidade passa a funcionar, portanto, como a alfândega ideológica que valida quem possui a pureza linguística necessária para ascender às novas elites.
É a incompreensão dessa captura que alimenta o senso comum de certa esquerda contemporânea, cuja resposta tem sido a defenestração sumária e o desprezo pelo chamado “pobre de direita”. Ao converter captura linguística em falha moral do trabalhador, essa esquerda desconversa as razões de sua própria falência. Cancela-se o sujeito real para não enfrentar a realidade material — e esse moralismo valida a narrativa bolsonarista do inimigo infiltrado. Quando o discurso progressista rotula o espoliado periférico como “alienado” por buscar refúgio na teologia da prosperidade, carimba seu próprio divórcio das bases materiais. O vazio é preenchido por um policiamento de costumes que empurra o trabalhador para o único espaço que lhe oferece pertencimento místico e explicação totalizante para sua dor: o laboratório digital do pós-fascismo.
A plasticidade estrutural e a captura das elites
É neste ponto que se revela o verdadeiro pulo do gato do fascismo pós-fascista: sua plasticidade estrutural, um fenômeno que remete diretamente às teses de João Bernardo em Labirintos do Fascismo. Bernardo desfaz a ilusão liberal e descortina o mito da virgindade das democracias representativas, demonstrando que estas jamais estiveram imunes ou descomprometidas com o fascismo. Longe de haver uma separação estanque entre o Estado Restrito (o aparato político-jurídico clássico de governos, parlamentos e tribunais) e o Estado Amplo (a rede difusa de corporações, fundações, aparelhos de hegemonia e, contemporaneamente, as plataformas digitais), o fascismo não destrói essas esferas: integra-as numa totalidade funcional.
Diante disso, desaba a objeção convencional de que a esquerda identitária careceria do aparato de força estatal para constituir uma modalidade pós-fascista. A posse do aparato clássico de coerção não é o critério que distingue a homologia formal, pois ambos os campos mobilizam instâncias de poder complementares. O que unifica a extrema-direita bolsonarista e a esquerda identitária é operarem como projetos agressivos de circulação e remodelação das elites no capitalismo. Ambas visam à ocupação dos postos de comando; o que muda é a distribuição de suas forças no interior do Estado.
Enquanto a extrema-direita bolsonarista prioriza a colonização do Estado Restrito acoplada às milícias digitais do Estado Amplo, a gramática identitária de esquerda opera uma hibridização simétrica:
-
No Estado Amplo: a remodelagem ocorre pela via positiva da ocupação gerencial: o domínio do código identitário vira critério de recrutamento e ascensão em diretorias, conselhos, fundações e oligopólios de mídia. E pela via negativa, contra os dissidentes do código: demissões por pressão empresarial, boicotes econômicos, exclusão dos circuitos editoriais e acadêmicos.
-
No Estado Restrito: a estratégia é homóloga: opera-se a ocupação de cargos de confiança nos altos escalões — ministérios, secretarias e conselhos reguladores —, transformando o jargão identitário em pré-requisito de governança e critério de fomento estatal, até a positivação jurídica de seus códigos. Capturado, o aparato punitivo do tribunal clássico passa a sancionar o desvio conceitual, fundindo a coerção penal do Estado Restrito com o linchamento moral do Estado Amplo.
A convergência não se esgota na infraestrutura digital das redes, mas se consuma na sua articulação com o próprio território. As plataformas e as Big Techs lucram com a extração de valor dessa guerra cultural permanente enquanto as novas elites burocráticas — públicas e privadas — disputam os postos de comando. Enquanto isso, a exploração do trabalho, a expropriação do tempo e o confisco do rendimento real permanecem intocados à sombra do espetáculo discursivo.
Para Bernardo, o traço distintivo do fascismo pós-fascista dos identitarismos está menos na ideologia declarada e mais nas modalidades organizativas: os antigos métodos de intimidação corporal cedem lugar às engrenagens virtuais do linchamento digital e do isolamento reputacional (BERNARDO, 2024). O fascismo sobrevive e se sofistica na exata medida em que transfere sua eficácia coercitiva para a esfera das interações em rede — renovando-se por meio de aparências e vocabulários que simulam o oposto de sua matriz histórica.
Bernardo não está isolado nessa constatação, embora a formule com mais radicalidade. A crítica de dentro da própria esquerda à gramática identitária fragmentada tem genealogia própria. O teórico britânico Mark Fisher, num ensaio de 2013, descreveu o que chamou de “Castelo dos Vampiros”: uma cultura de denúncia pública movida por um desejo quase sacerdotal de excomungar, na qual toda a identidade de alguém pode ser reduzida a um deslize de linguagem. Para Fisher, essa cultura torna a solidariedade impossível, substituindo a ação coletiva pela vigilância recíproca do comportamento individual.
Nos Estados Unidos, Adolph Reed Jr. e Walter Benn Michaels sustentam tese semelhante por outro caminho: a centralidade dada às disparidades identitárias obscurece o que produz a desigualdade material, deslocando o conflito de classe para um terreno gerenciável pelas próprias elites. Não é acidental que o próprio Reed, socialista negro com décadas de militância, tenha tido uma palestra cancelada em 2020 por um núcleo da Democratic Socialists of America, que classificou sua intervenção como reacionária e reducionista de classe. O episódio ilustra com precisão o mecanismo: a crítica interna tratada não como divergência legítima, mas como contaminação a expurgar.
O mecanismo se repete em padrões reconhecíveis: o intelectual de longa trajetória que, ao formular uma divergência tática, é reclassificado retroativamente como inimigo da causa; o professor que, pela imprecisão didática de uma aula, é denunciado a partir de um fragmento de vídeo descontextualizado; a escritora que, ao discordar de uma ortodoxia vocabular, é banida de festivais. Em todos os casos, a estrutura é a mesma que Bernardo descreve para o fascismo clássico: o expurgo não precisa de prova, precisa de suspeita; a pureza do grupo importa mais que a verdade; a punição serve menos para corrigir o indivíduo e mais para reafirmar os limites coercitivos da comunidade.
O padrão encontrou um caso emblemático em fevereiro de 2025. A psicanalista Maria Rita Kehl — figura histórica da esquerda brasileira e membra da Comissão Nacional da Verdade — foi alvo de linchamento virtual após criticar o “nicho narcísico” do movimento identitário. Os detratores não refutaram seu argumento: resgataram a figura de seu avô, um eugenista do início do século XX, e passaram a editar sua biografia na Wikipédia para sublinhar uma suposta “degenerescência hereditária” — termo retirado do próprio vocabulário eugenista que a esquerda historicamente combateu. Décadas de produção intelectual e militância foram substituídas pela genealogia biológica. É o mecanismo de Bernardo: não importa o que o sujeito fez, importa a contaminação essencialista que ele supostamente carrega.
No ambiente das plataformas digitais — que extraem valor da fratura, do pânico moral e do engajamento pelo ódio —, a fragmentação identitária da esquerda e o hiperidentitarismo nacional-cristão da direita operam em simbiose algorítmica real. É o processo de convergência que Bernardo identifica como gerador do fascismo, atualizado para o ecossistema digital. A esquerda identitária, ao adotar a gramática do expurgo e da pureza, fornece ao pós-fascismo uma de suas modalidades renovadas, enquanto a exploração do trabalho e a expropriação do tempo seguem operando à sombra do espetáculo, em ambos os campos.
A gramática sem dono
O Partido Digital Bolsonarista é, na superfície, a máquina de coordenação descrita por Nobre e Teixeira: hierarquia, lealdades e mobilização digital. Sob essa camada, contudo, opera o texto profundo de uma gramática totalitária que, nos termos de João Bernardo, já não pertence a um único espectro político. O fascismo pós-fascista é o nome do resultado quando essa gramática atravessa, por convergência, tanto o bolsonarismo quanto os identitarismos que se imaginam seus opostos.
O diagnóstico do presente revela que o fascismo pós-fascista não é um quartel-general a ser sitiado, nem uma organização a ser desmontada por decretos judiciais ou pela regulação de plataformas. É, antes de tudo, uma gramática consolidada por uma arquitetura digital que favorece a exclusão, a essencialização do sujeito, a paranoia do inimigo interno e o linchamento molecular — uma gramática cuja origem e função histórica recente pertencem ao bolsonarismo, mas cuja circulação já não respeita fronteiras ideológicas.
A esquerda identitária fragmentada revela-se uma modalidade desse fenômeno. Não se trata de uma analogia retórica ou de uma provocação, mas do reconhecimento de uma homologia formal: a reprodução exata dos dispositivos de essencialização, paranoia do inimigo interno e expurgo permanente, transpostos para o Estado Amplo, para a arena virtual e para os escalões do Estado Restrito. Isso não apaga as distinções de escala e método que separam o gueto inquisitorial identitário da violência miliciana bolsonarista; mas a diferença de dinâmica não autoriza a recusa do nome.
A coerência do ecossistema dispensa coordenação centralizada porque a gramática que o atravessa possui uma capacidade de circulação molecular que excede qualquer filiação política declarada, colonizando inclusive a inteligência discursiva de quem se imagina seu opositor. O verdadeiro triunfo do fascismo pós-fascista não está na eliminação física dos adversários, mas na sua conversão formal. Quando ambos os polos passam a falar rigorosamente a mesma língua — a da pureza mística, do linchamento reputacional e da aniquilação do outro —, a gramática totalitária se consuma. Enquanto essa guerra cultural permanente satura as redes e remodela as elites burocráticas, as engrenagens materiais da exploração do trabalho, da expropriação do tempo e do confisco do rendimento real permanecem blindadas, à sombra dos labirintos digitais.
As imagens que ilustram o artigo são de obras de Damian Ortega.
Referências
-
BERNARDO, João. Labirintos do Fascismo. Porto: Afrontamento, 2015.
-
BERNARDO, João. “Quem é o quê?”. Passa Palavra, 19 dez. 2024. Disponível em: https://passapalavra.info/2024/12/155419/.
-
FAYE, Jean-Pierre. Langages Totalitaires: critique de la raison, l’économie narrative. Paris: Hermann, 1972.
-
FISHER, Mark. “Exiting the Vampire Castle”. The North Star, 2013.
-
NOBRE, Marcos; TEIXEIRA, Ana Claudia (org.). O Partido Digital Bolsonarista. São Paulo: CCI/Cebrap, 2026.
-
TONIOL, Rodrigo. “O cancelamento de Maria Rita Kehl e as armadilhas do identitarismo”. Folha de S. Paulo, 12 fev. 2025. Republicado no Blog da Boitempo.
-
REED JR., Adolph; MICHAELS, Walter Benn. No Politics but Class Politics. Londres: ERIS, 2023.
-
STERNHELL, Zeev; SZNAJDER, Mario; ASHÉRI, Maia. The Birth of Fascist Ideology: from cultural rebellion to political revolution. Princeton: Princeton University Press, 1994.







Fantástico, realista e acachapante! Por que? O mimetismo dos discursos é o jogo de espelhos entre oportunistas ávidos de poder!