Por Michel Goulart da Silva

Lançado em 2018, o filme Pantera Negra conseguiu algo quase inédito em um filme sobre super-heróis: ser, ao mesmo tempo, em estrondoso sucesso de público e largamente elogiado pela crítica especializada. Essa foi uma das razões pela qual pode ser considerado um marco desse gênero cinematográfico, tanto problematizando as produções sobre super-heróis como mostrando elementos culturais africanos.

O filme Pantera Negra equilibra os elementos formais e de efeitos especiais grandiosos com uma narrativa com densidade política e cultural. Na construção deste super-herói, são usadas “matrizes africanas, de modo que simboliza um arquétipo fantástico e parcial das identidades culturais existentes no continente”.[1] O filme se apropria “de referências culturais, como exemplo a tradição de se reverenciar constantemente aos ancestrais, sempre manifestada no âmbito espiritual da narrativa”, além de utilizar em sua estruturação imagética “retratos de guizos, conchas, vestes, máscaras, assim como a percepção dos hábitos e sonoridades expressados por tribos reais africanas”.[2] Em sua concepção, o filme parece ter uma influência do afrofuturismo, que pode ser “tanto uma estética artística quanto uma estrutura para a teoria crítica”, que combina:

“[…] os elementos de ficção científica, ficção histórica, ficção especulativa, fantasia, afrocentricidade e realismo mágico com crenças não ocidentais. Em alguns casos, trata-se de uma reinterpretação total do passado e especulações sobre o futuro repletas de críticas culturais”.[3]

Para além das questões culturais, pode-se ver no filme tanto um elogio à ancestralidade africana como a reflexão sobre o permanente embate entre reforma e revolução, num contexto de lutas das populações negras. Essas estratégias em confronto são representadas pelos dois primos, T’Challa e Erik, oriundos da família que comanda Wakanda. Cada um desses dois personagens:

“[…] representa uma visão política diferente. Erik passou sua juventude justamente em Oakland e depois foi agente do comando especial secreto do Exército estadunidense – seu universo é o da pobreza, da violência de rua e da brutalidade militar. T’Challa foi criado na opulência isolada da corte real de Wakanda”.[4]

O filme acompanha T’Challa que, após a morte de seu pai, o Rei de Wakanda, precisa encarar a sucessão ao trono, para ocupar o seu lugar de direito. Faz parte desse legado vestir o manto do Pantera Negra. Wakanda é uma isolada e tecnologicamente avançada nação africana. Mas, com o aparecimento de um misterioso inimigo, Erik Killmonger, sobrinho do rei falecido, T’Challa é desafiado como monarca e como Pantera Negra. Esse embate coloca o destino de Wakanda, e do restante do planeta, em risco.

No filme mostra-se a luta entre distintas perspectivas políticas. T’Challa se propõe a dar continuidade ao projeto político do pai, ou seja, manter o isolamento de Wakanda em relação ao mundo. Esse isolamento teria sido a razão de Wakanda conseguir alcançar seu desenvolvimento econômico, mantendo o país a salvo de interesses estrangeiros e coloniais.

Um projeto alternativo é apresentado por Killmonger, para o qual Wakanda deveria apoiar as lutas das populações negras pelo mundo. Para ele, os negros, com o apoio material de Wakanda, poderiam se vingar de todo o sofrimento imposto por gerações de exploração e humilhação. Killmonger, contudo, não propõe uma mudança de regime, procurando encabeçar a monarquia.

Em Pantera Negra, se confrontam o projeto de abrir Wakanda para o mundo com o de manter o país em segredo diante de possíveis investidas externas. O projeto de abertura, por sua vez, mostra ainda dois caminhos, um de fazê-lo pela diplomacia e outra pelas armas. Nesse sentido,

“Erik advoga uma solidariedade global militante e defende que Wakanda deveria colocar sua riqueza, seu conhecimento e seu poder à disposição dos oprimidos de todos os países para que eles possam derrubar a ordem mundial existente. T’Challa, ao longo do arco narrativo do filme, lentamente passa de uma postura isolacionista tradicional (do tipo “Wakanda em primeiro lugar!”) para um globalismo gradual e pacífico, que operaria no interior das coordenadas da ordem mundial existente e suas instituições, disseminando educação e auxílio tecnológico, e ao mesmo tempo preservando a cultura e o modo de vida singulares de Wakanda”.[5]

Contudo, a alternativa de mudança profunda também apresenta problemas, por duas razões. Primeiro, por usar a tradição para tomar o poder e depois literalmente queimá-la, sem problematizar seus pressupostos conservadores. Segundo, por não ser uma mudança baseada na organização e mobilização dos trabalhadores, de Wakanda ou dos demais países em uma unidade internacional, mas uma política autoritária, feita por cima, centralizada numa figura da família real. No filme, Killmonger é mostrado como “uma espécie de revolucionário Pantera Negra dos anos 1960 contra o nobre e mítico Pantera Negra de nosso universo de super-heróis de quadrinhos”.[6]

No enfrentamento entre os projetos políticos representados por T’Challa e por Killmonger – a manutenção da ordem isolacionista governada pela família real ou a promoção de guerras civis nos demais países – não vence nenhuma das propostas, mas a de conciliação, mediada pela ONU. No final do filme, T’Challa divulga para o mundo parte dos segredos de Wakanda, dando início também a projetos de assistência voltados para as populações negras de diversas partes do mundo.

No final, o filme defende que, a despeito dos problemas que possam existir nas tradições monárquicas de Wakanda, as mudanças rápidas e profundas também podem representar problemas. O próprio espaço escolhido para divulgar as ações de Wakanda, durante uma conferência da ONU, mostra o conservadorismo da proposta e a busca de uma conciliação com o imperialismo. Por outro lado, a forma como se mostra a revolução defendida por Killmonger, que se confunde com uma vingança pessoal, baseada na raiva, mostra uma compreensão equivocada do que possa ser uma radical transformação social.

Não há revolução no filme, mas apenas uma reforma superficial. Em qualquer dos projetos, tanto o defendido por T’Challa como o de Killmonger, os trabalhadores, fossem os de Wakanda ou de qualquer outra parte do mundo, não foram convidados a participar.

As imagens que ilustram o artigo são da história em quadrinho do Pantera Negra.

Notas

[1] Rodrigo Sérgio Ferreira de Paiva. Panther is the new Black: representação e cultura na comunicação do filme Pantera Negra. Poro Alegre: PLUS, 2019, p. 93.

[2] Rodrigo Sérgio Ferreira de Paiva. Panther is the new Black: representação e cultura na comunicação do filme Pantera Negra. Poro Alegre: PLUS, 2019, p. 97.

[3] Ytasha L. Womack. Afrofuturismo: o mundo da ficção científica preta e a cultura da fantasia. São Paulo: Ananse, 2024, p. 19.

[4] Slavoj Zizek. Lacrimae Rerum: ensaios sobre cinema moderno. 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2018, p. 212.

[5] Slavoj Zizek. Lacrimae Rerum: ensaios sobre cinema moderno. 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2018, p. 212.

[6] Slavoj Zizek. Lacrimae Rerum: ensaios sobre cinema moderno. 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2018, p. 213.

1 COMENTÁRIO

  1. Na época esse filme fez enorme sucesso entre os identitários negros, servindo mesmo de inspiração para intervenções no mundo real. Depois caiu no esquecimento, com a mesma velocidade que emergiu, evidenciando a enorme influência da indústria cultural norte-americana nestes meios.

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