Por Alan Fernandes
E o que você está achando do movimento até agora?
– Parece que a escola é finalmente nossa.
(diálogo ocorrido entre um professor e um estudante dentro de uma escola ocupada)
Entre 2015 e 2016 o Brasil experimentava políticas de austeridade que se estendiam a vários setores, entre eles, as secretarias de educação. Inspirados na Revolta dos Pinguins no Chile, que aliou manifestações contundentes com ocupações de instituições de ensino, estudantes paulistas protagonizaram um movimento até então inédito no país que ocupou dezenas de escolas em todo o Estado em meio ao processo de reorganização escolar do então governador Geraldo Alckmin (PSDB), atualmente vice-presidente da república. O projeto capitaneado pelo então ‘‘tucano’’ teria como consequência a realocação dos estudantes nas escolas de modo que fosse possível fechar unidades de ensino. O movimento estampou as capas de jornais, forçou figuras públicas a tomarem partido, foi retratado de forma sensacionalista pela novela Malhação, e seu significado político foi capturado por instituições financeiras, como o Itaú, que explicitamente retratou a iniciativa privada como uma salvação para a educação e as demandas estudantis.
Em fevereiro do ano seguinte, milhares de estudantes secundaristas fluminenses tomam as ruas do centro por melhores condições de estudo. Na ocasião, marchavam lado-a-lado com seus professores que na ocasião já ameaçavam greve [1]. Antes da última greve de professores pelo piso salarial (2023), que conquistou um aumento, mas ainda assim abaixo do piso nacional, os docentes denunciavam que o último reajuste teria sido em 2015, e que isso os fez ter o menor salário do Brasil. A greve de 2016 só não foi a maior que a de 2023 em termos de adesão, mas àquela altura tinha um componente político crucial – o amplo apoio da sociedade civil e especialmente dos estudantes secundaristas. Em março, estudantes de uma escola estadual na Zona Norte do Rio interromperam as aulas, cerraram os portões, e fizeram uma assembleia (LIMA 2019). Dalí, formaram-se pelo menos 6 comissões responsáveis por manter limpa, organizada, e operante, toda a escola, para que os alunos ali permanecessem até que suas pautas fossem atendidas. Entre elas, a falta de funcionários na escola [2], não pagamento dos mesmos [3], estrutura, acesso, e pautas mais gerais como currículo, avaliações de desempenho, etc. (Passa Palavra. 2016)
Naquele mesmo ano o Impedimento de Dilma Roussef (PT) leva ao poder Michel Temer do então PMDB para a presidência e este promete passar importantes reformas de cunho neoliberal. Entre elas, o Projeto de Emenda Constitucional 55 (antiga 241) que estipulava um teto de gastos para as contas públicas e que diminuía a verba disponível para investimento em educação. Daí se seguiram protestos em Brasília e nas capitais, e um ato mais radical, a ocupação de centenas de escolas no Paraná. Deste fato também se seguiram as ocupações das unidades do Pedro II do Rio bem como Institutos Federais, faculdades e escolas em outros estados [4]. Ainda em 2016, estudantes secundaristas ocuparam suas escolas em Goiás contra o modelo de implementação de OSs na gestão do ensino. Destas experiências, outras em escala menor também ocorreram. Cabe situar neste terreno o saldo político que os estudantes deixaram para seus aliados mais velhos, os universitários. Militantes que gozaram de uma experiência e maturidade política foram ou direto para o mundo do trabalho, repensar seu papel na sociedade e nas empresas, e uma parte tentou sorte nas universidades de todo país. Tão logo se envolveriam em centros acadêmicos, chapas, ocupações de universidade, e outros movimentos sociais associados ou não a projetos de extensão dentro de seu próprio local de estudo. O que põem em causa, segundo Adoue (2016. S.p.), é uma ambiguidade política: “o que emergia da ação dos estudantes, com o nome “solidariedade”, que pouco contribuía a revelar a potência que os motivava [a categoria dos professores], era uma disputa política: disputa pelo poder na escola.”. Essa reflexão levaria a uma própria problematização do grêmio [5] . Dessa forma, em maior ou menor grau, os secundaristas mesclaram tradições de luta antigas com uma brilhante improvisação, tão cara aos movimentos sociais de hoje, que põe em causa o direcionamento político da contestação.
O que subjaz essas iniciativas políticas é que,cada qual em sua cirrcunstância lidou com obstáculos para além dos próprios governos de quem cobravam reivindicações. Alguns desses adversários tornaram-se verdadeiros protagonistas na reação às lutas sociais ocorridas naquele evento que hoje marca uma década.
O ovo da serpente
O militante e autor português João Bernardo denomina o fascismo como uma revolta dentro da ordem (apud MANOLO. 2022). Em uma de suas intervenções no website Passa Palavra (BERNARDO. 2013), distingue duas modalidades de luta social. Uma é a revolta e outra é a revolução. A revolta é agitação sob a bandeira dos lugares-comuns, que não põe em causa as relações sociais presentes no mundo; ao contrário da revolução, que é a liquidação dos lugares-comuns. A ousada ideia de que é preciso tomar as rédeas daquilo que está posto. Um grupo de militantes (2019. s.p.), sensível à escalada autoritária que democraticamente, por mais paradoxal que seja, põe em xeque a nossa concepção de democracia, faz um paralelo entre a ascensão de Jair Messias Bolsonaro (do antigo PSC e atualmente sem partido) e a experiência efervescente de junho de 2013 para salientar que os sentidos da revolta foram capturados pelo espectro político da direita:
Em meio à maior mobilização popular da história do país, nos vimos perplexos: se rompermos com a ordem democrática, o que pode acontecer? Não havia revolução no horizonte. Naquele momento, a esquerda se descobriu intimamente ligada ao regime. Não só porque era ela quem estava no governo, mas porque, desde o fim dos anos 1970, “construir a democracia” se tornara seu objetivo máximo. Desde 2013, a esquerda fugiu da revolta. E fez isso estendendo a bandeira da democracia. Por um lado, podia dizer que os protestos eram um perigo à ordem democrática e justificar a repressão; ao mesmo tempo, podia elogiar as manifestações e enquadrá-las nessa ordem – ao enxergar em junho um movimento por “mais direitos” e “mais democracia”, apagava o conteúdo concreto e contestatório dos protestos. A luta contra aquele aumento de 20 centavos não apenas tocou num aspecto crucial das condições materiais de vida na metrópole, como expôs os limites dos canais de participação que vinham sendo aperfeiçoados nos últimos governos. A violência que tomou as ruas deixou o discurso democrático sem lugar.
Esse mesmo saldo político visto na Revolta dos Coxinhas, na greve dos caminhoneiros de 2018, e que tem como consumada a figura do líder Bolsonaro como um “mito”, desencadeia nas revoltas ocorridas no dia 8 de janeiro de 2023, e que viram nas últimas celebrações de 7 de setembro um presságio. Segundo estes mesmos militantes, o conteúdo dessa revolta “dentro da ordem” reflete a posição social dos trabalhadores no mercado de trabalho. Ao invés de se pautarem por relações solidárias, é sob outro mote que agem os atores políticos neste âmbito:
Quando a nova direita fez da Avenida Paulista sua passarela, entre 2015 e 2016, a socióloga Silvia Viana observou que as dimensões daquela indignação com a corrupção podiam ter uma conexão com a experiência no mercado de trabalho. O que o ódio verde-amarelo via em comum, perguntava ela, em alvos tão diferentes como o corrupto, o cotista, o movimento de moradia, o assaltante, o mendigo e o bolsista? Furam a fila. Aproveitam-se de atalhos e proteções na luta pela sobrevivência, recorrem a vantagens competitivas que produzem uma concorrência desleal numa arena onde cada um deveria correr por si. Num contexto de esgotamento econômico, a nova direita forneceu uma forma política ao acirramento da competição entre trabalhadores. Ao assumir sem pudores a lei do mais forte, traça um programa de ação adequado ao nível de selvageria do mundo do trabalho gestado ao longo das últimas décadas. A sobrevivência depende da resiliência e força de vontade individual, e qualquer forma de assistência é vista como “vitimismo“
Se Junho de 2013 pode ser descrito como o fechamento de um ciclo, e a abertura de um novo com a ascensão das candidaturas bolsonaristas em 2018, que influência essa noção particular de revolta assume entre os anos de 2015 e 2016 sobre os sujeitos políticos?
Remetendo ao caso das ocupações, as pautas elencadas pelos estudantes refletem sua insatisfação com a gestão da escola e os mecanismos de controle interno. Era isso o que estampava os panfletos, por exemplo, os manifestos das escolas ocupadas. Mas o ineditismo da tática das ocupações se deve à ação direta sobre elas. Os estudantes não estavam pedindo nada, mas impondo, e trabalhando para que isso se concretizasse. Enquanto mantinham reivindicações gerais, operacionalizavam a escola e fizeram dela um embrião de algo novo, daquilo que gostariam de ter sem intermediários. Assim exprime também um militante em Goiás que participou das ocupações nas escolas:
Não se pode pedir de uma escola que ela vá formar pessoas desconectadas das demandas da sociedade em que vive — mas ela pode certamente fazê-lo de maneira que contribua para o fortalecimento de relações alternativas às atuais relações de produção. Uma escola a serviço dos trabalhadores — não os que projetamos ou idealizamos, mas os atuais trabalhadores que aprendem a conquistar o que precisam a partir da sua própria força. (GROUXO MARXISTA, 2016. S.p.)
Desse modo, as ocupações que eram um meio, como demonstram experiências anteriores de ocupação-susto, convertem-se em instrumentos de educação coletiva sobre o papel dos sujeitos na escola, ou seja, também uma finalidade da luta política autogerida.
No entanto, não tardariam a aparecer obstáculos externos. Em São Paulo, o governo Geraldo Alckmin foi hostil desde o início às ocupações e a polícia militar constantemente era convocada para dissolver protestos, reprimir os estudantes e mesmo assediar as ocupações. O então secretário de segurança do governo, atual ministro do STF Alexandre de Moraes, desferiu duras decisões judiciais contrárias às ocupações, permitindo inclusive a reintegração de posse sem recurso à justiça, o que dava à polícia militar o respaldo para desocupar os estudantes quando houvesse a ordem.
No Rio de Janeiro, a SEEDUC fez de tudo para deslegitimar o movimento, conforme os meses iam passando a pressão pública se tornou cada vez maior e dois secretários foram exonerados. Quando a SEEDUC foi ocupada pela 3ª vez (durando um mês), no primeiro dia a Juíza Glória emitiu parecer que reconhecia a legitimidade do movimento, mas, que para que prosseguisse, deveria permitir as aulas regulares, restabelecendo a gestão dos diretores. Mesmo esse vai-e-vem é bem constitutivo do jogo de forças com que os estudantes ocupados se deparam. Anteriormente o Ministério Público e a Defensoria do estado legitimaram as ocupações, contrariando os alunos contrários à ocupação, seus responsáveis legais, professores ‘fura-greve’ e a própria Secretaria de Educação. A segunda decisão atinge em cheio o movimento e o suspiro final é dado aos estudantes do Desocupa, que seguiriam suas aulas da maneira que gostariam.
O Movimento Desocupa Já [6], que ganha força no Rio de Janeiro, Goiás, e depois se expande para as outras escolas eventualmente ocupadas durante aquele período, faz uma crítica frontal às ocupações, que consiste no argumento de que estas cerceiam as aulas já precárias a que os estudantes têm acesso. Em muitos casos, estes alunos lançaram mão de formas agressivas visando a desocupação das escolas. Inspirados na tentativa de desocupação de uma escola localizada na Zona Norte do município do Rio, a E.E. Heitor Lira, o movimento invade e consegue desocupar o OcupaMendes [7] , primeira ocupação do Estado do Rio de Janeiro. Uma apoiadora do movimento, em seu facebook, registrou seu apoio aos ocupantes da seguinte maneira:
Ao #desocupamendes, parabéns. Agora vocês têm uma escola desocupada!!! Mas… seus professores ainda não receberam salários, os aposentados estão apavorados sem saber se o salário virá, vocês não têm voz na escola, os diretores continuam sendo indicados, vocês não têm direito a voto, a merenda continua precária, a educação pública continua sucateada, o material didático vai permanecer trancado naquela sala dos fundos que vocês nunca tiveram acesso, mas… vocês têm uma escola desocupada! Façam bom proveito!
A autora do relato se refere ao desejo dos estudantes voltarem às suas aulas com a consciência de que estão inibindo a possibilidade de melhoria de suas próprias condições na escola. No Rio de Janeiro, nenhuma escola foi desocupada diretamente pela polícia no exercício de sua função. Em escolas como a Prefeito Mendes de Moraes, foram os próprios estudantes, contrários ao movimento, que pulavam as grades e, aos socos, expulsavam os alunos. Na semana fatídica em que a escola supracitada é desocupada, muitas postagens de alunos no Facebook comemoram o ato como uma vitória política [8] . A página de Facebook de uma das ocupações que ocorria em uma periferia da zona norte, comentou o caso dizendo que “[é] triste e revoltante ver o Estado, a mídia, as direções de escola e professores fura-greve incitarem a violência entre estudantes que são igualmente prejudicados em seus direitos” (OCUPACAIC/REVERENDO HUGH CLARENCE TUCKER. 2016).
Martins (2022) situa o movimento Desocupa na esteira das novas mobilizações da direita que, ao contrário da direita clássica que conhecíamos, se situa no léxico das lutas concretas e locais:
Após junho de 2013 a direita redescobriu às ruas, mobilizando-se desde então em manifestações nacionais, às vezes caracterizadas por atos massivos, como os atos anticorrupções e pró-impeachment convocados por grupos que ganharam notoriedade, como o Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem pra Rua. Outrora, caracterizada por atos minúsculos, como os em defesa da ditadura militar convocados por pequenos grupos de extrema-direita. O movimento desocupa pode ser considerado uma mudança qualitativa nestas mobilizações, a expressão de um embrião de enraizamento desta direita que passou a atuar em mobilizações menores, contínuas, locais, com pautas imediatas e concretas e usando as redes sociais como ferramenta fundamental, o que não significa que os grandes grupos estivessem alheios a tais mobilizações e nem que haja uma oposição entre tais táticas.
Apesar de seu foco no caso da PEC 55 [9] , Martins consegue delimitar o eixo psicossocial destes estudantes que, ao colocarem seus problemas singulares, descuram sobre a própria continuidade da escola e da educação em geral:
É muito significativo nestas falas a ênfase na primeira pessoa e um apelo ao próprio futuro, que contém uma noção de mérito e esforço pessoal que está sendo desrespeitado. Há uma contraposição entre os direitos individuais e coletivos, no qual reivindica-se a primazia do primeiro. Há um centro no Eu, “minha escola, meu direito, minha filha, meu esforço”, evidenciando a centralidade do antrophos do cotidiano. Não há um projeto coletivo enquanto movimento que vise mudar a realidade de algum modo. A causa é a permanência da competição por meio de esforços particulares. Pode-se dizer que há o que Nascimento (1997) chamou de ações coletivas. Um grupo de Eus aglutinados pragmaticamente por interesses comuns que não possuem projeto de transformação e sim de uma reorganização da desigualdade, no qual a particularidade se sobrepõe ao genérico
O Desocupa se alimenta desse antagonismo e desprovido de assistência externa não exprime força política de contestação. Mas onde existe o antagonismo ocupa x desocupa, sendo a ocupação um imbróglio de uma mudança efetiva e a desocupação uma reivindicação pelo lugar-comum, ou seja, “queremos nossas aulas da maneira que estão”, o segundo efetivamente se encaixa em nossa descrição de uma revolta dentro da ordem. Para satisfazer suas vontades, beberam da mesma improvisação política e formaram suas bases onde mora o coração de uma ocupação pública, na comunidade local.
O governo e as polícias
O movimento de ocupação de escolas só prosperou no Rio de Janeiro (e em outros trópicos) porque, se de um lado dava caldo para a greve dos professores, a permanência da paralisação dos docentes também implicava em uma solidariedade como força coletiva que buscou a conquista do apoio popular. Só diante às mobilizações do Rio de Janeiro e São Paulo cantores se reuniram para cantar em solidariedade aos ocupantes e nestes e em outros espaços alguns documentários ajudam a lembrar do exemplo da luta e inspiram outros movimentos sociais.
Da parte dos alunos contrários ao movimento, é surpreendente que o movimento tenha sido espontâneo, mas, ao mesmo tempo, coordenado. No Paraná, por exemplo, não chegou ao nosso conhecimento uma oposição ferrenha às ocupações senão aquela capitaneada pelo Movimento Brasil Livre, que assediou estudantes, entrou em conflito físico em manifestações, entre outras situações. Já no Rio de Janeiro e especialmente em Goiás, essa oposição se serviu de elementos que podem ser descritos como “comunitarismo conservador”. Em grande medida, alunos contrários às ocupações só puderam ter suas demandas atendidas quando intermediados por policiais fora do expediente, lideranças comunitárias e as próprias direções que na maioria dos casos era indicada pela própria Secretaria de Educação.
No Estado de Goiás, o “Desocupa” assumiu os seguintes contornos:
Depois de repetidas derrotas judiciais e políticas e vendo que a tática do cansaço não iria surtir efeito, o governo fugiu do roteiro. Inspirado também no exemplo de São Paulo, em que o governo estimulou o “movimento” Devolve Minha Escola, surgiu o movimento Pais Pela Educação – GO. Esse movimento não só emulou o nome (COISA-GO) como também a estratégia de capilarização das ocupações: grupos de whatsapp locais e páginas foram criadas para mobilizar em cada escola: Desocupa Castelo Branco, Desocupa Anápolis, Desocupe Ismael entre inúmeras outras páginas. O objetivo desse movimento era inicialmente criar um clima no qual as comunidades desaprovassem as ocupações — o que facilitaria uma reintegração judicial — e que aprovassem as Organizações Sociais (OSs) — dificultando resistências posteriores. Eles começaram a realizar manifestações nas portas das escolas, com o auxílio da estrutura oficial de comunicação dos grupos gestores e dos professores contrários às ocupações. Pouco antes, e durante esse processo, a Secretaria de Educação começou a realizar reuniões com os grupos gestores de todas as escolas ocupadas e depois com os trabalhadores, especialmente o professorado, dessas escolas. Essas reuniões serviam para difundir boatos sobre o iminente fechamento e militarização, caso as escolas continuassem ocupadas, e para garantir a lealdade dos poucos diretores que tinham posição mais ambígua frente ao movimento. Além de ameaçar com corte de ponto e do bônus que era dado aos professores por assiduidade. (…) Um pretendente a conselheiro tutelar e “lideranças do bairro”, ou burocratas do bairro, um deles vizinho da escola, todos vinculados ao PSDB, foram importantes na pressão na porta da escola e na articulação do bairro contra a ocupação. Eles mobilizavam três noções básicas: 1) “essa ocupação é coisa de gente da universidade, nem é dessa escola ou desse bairro”; 2) “dentro dessa escola só ficam os alunos vagabundos praticando imoralidades e atrapalhando os vizinhos”; 3) “a escola deveria estar funcionando, mas está trancada”. Eles também conseguiram cooptar uma aluna que participou do início da ocupação e depois passou a entregar informações internas para o movimento desocupa, fazer depoimentos que confirmavam as acusações dessas lideranças, além de criar intrigas e boatos dentro da escola ocupada para desestabilizá-la.
Dito de outra maneira, o Desocupa ocupou a função de desestabilização e desmoralização do movimento, levando seus espectadores a crer que as ocupações não almejavam uma melhoria educacional nas escolas, ocasionando fatalmente no atraso curricular. O terceiro argumento, o de que “a escola deveria estar funcionando”, é muito sintomático para o que descrevemos. Naquela altura os argumentos eram precisamente que as pautas dos ocupantes eram incompatíveis com a realidade, e o sujeito coletivo inspirado pela luta social era convertido no direito do sujeito singular que “precisa estudar, custe o que custar”. O argumento tem um fundo de verdade, mas que não reflete o sentido da educação, e por isso representa não a vontade estudantil de fato, mas como vimos reflete a posição dos trabalhadores em meio à competição no mercado de trabalho. O estudante argumenta que as aulas paralisadas desafiam seu desempenho no ENEM, quando muitas vezes os próprios estudantes se desdobravam para garantir aulas extra-curriculares voltadas para o ENEM, desde que não fossem nos moldes tradicionais. O segundo argumento é que dificultava a aquisição do diploma, uma vez que as secretarias impunham como chantagem a esses estudantes o argumento de que sem as aulas durante esse período o mais correto seria que reprovassem, às vezes até ameaçando cancelar a matrícula dos mesmos. Isso serviu para dissipar laços de solidariedade dentro da escola e advertir que não há atalhos no mundo do estudo e do trabalho, “é cada um por si”.
No Ceará, integrantes do movimento Desocupa Já [10] conseguiram uma reunião com o Secretario de Educação e avaliam como “positiva” a conversa. Nela, firmam laços e conseguem uma devolutiva do governo que não está poupando esforços para desocupar as escolas.
Valendo-se do apoio de uma parte dos estudantes do Rio, a SEEDUC endossa uma convocação do Desocupa em que este chama a comunidade escolar para desocupar a E.E. Heitor Lira. O jornalista Diego Felipe Souza (2016) denuncia que o então secretário que sucedeu Antônio Vieira Neto, Caio Castro, atendeu ao chamado do Desocupa e procurou ajudar a coordenar a desocupação.

Na ocasião da tentativa de desocupação do Heitor Lira, o Desocupa havia previamente conversado com a SEEDUC seu descontentamento com o movimento.
Surpreendentemente, quando já havia parecer favorável às ocupações na justiça, é a própria Secretaria que divulga a manifestação, em perfil oficial. A postagem foi apagada pouco tempo depois. Nunca com retratação.

A convocatória partiu do líder do Desocupa e este estreitou laços com os membros do DesocupaMendes. É neste olhar cronológico que deve ser entendido o ataque ao Mendes de Moraes que causou inúmeros feridos e causou a comoção do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (SEPE) que decidiu realizar uma de suas assembleias lá, para que fosse feita uma vigília impedindo e desincentivando novos ataques. Na semana da primeira ocupação no Rio, estudantes flagram e fotografam o diretor se reunindo ao lado da escola com o Desocupa.

Tais flagrantes advertiram aos ocupantes das escolas sobre a potencialidade radical do movimento contrário e mais, que tais ações não pudessem ser separadas da orientação e empoderamento oferecido por parte dos aparelhos de Estado, incluindo a polícia. Na imagem a seguir, policiais posicionados em frente à E.E. Prefeito Mendes de Moraes impedem os ocupantes de entrar nas instalações.

A fotografia mostra os alunos que então ocupavam a escola de frente para os policiais, mas não mostra que o Desocupa está lá dentro [11], impedindo a retomada do espaço. A polícia não se mobilizou durante a invasão naquele dia, e somente se posicionou na porta após a retirada de todos os integrantes do movimento OcupaMendes, demonstrando estarem coordenados com o Desocupa.
Considerações finais
Ao contrário da revolta, inspirada na agitação dos lugares-comuns, a revolução, ou seja, a mudança do que está posto, se insere em dinâmicas solidárias de pensar o lugar dos sujeitos no mundo. À lógica da competição e militarização [12] dos espaços, quaisquer movimentos de cunho político que almejem uma mudança significativa deverão daqui extrair seus limites e suas potencialidades. Aprender com o improviso e descartar tudo aquilo que tende ao fracasso.
A lógica autogerida nas escolas, a forma de repensar as relações sociais e hierarquias pedagógicas parece um ponto inegociável, ao passo que os limites servem para advertir sobre o perigo de pautas serem capturadas ou reprimidas duramente. Após duras penas, muitas pautas foram conquistas, mas nem metade delas teve vida longa. A utopia de uma escola mais humana deu espaço para mais grades, construídas pela nova direção, no intuito de coibir novas ações semelhantes. Às ocupações do Paraná e Goiás se seguiu a proposta de escolas cívico-militares cujo horizonte era coibir “as ideologias”. Mas a ideologia não é uma coisa que se põe ou que se tira. A forma de organização, já ideológica, pressupunha uma escola nova, diferente do modelo hetero-organizado, não-transparente. Essa resposta política reflete o desejo da democracia dentro e para fora da escola.
Castoriadis (1991.p.45) postula que o traço mais característico da disposição revolucionária nas lutas autônomas não é sua direção intelectual, mas sua condição auto-organizada. Ao falar sobre os movimentos dos anos 60, em especial o Maio de 68, diz algo de grande valia:
Gostaria que alguém contestasse um segundo, com argumentos racionais, o direito dos alunos perguntarem, logo que fossem capazes: por que e em que medida o que vocês nos ensinam é interessante ou importante? Gostaria que alguém refutasse a ideia de que a verdadeira educação consiste também em levar os alunos a terem a coragem e a capacidade de fazer esse tipo de perguntas e de sustenta-las com argumentos.
São estas perguntas, sem ressalvas, as que ameaçam o modelo hetero-organizado e a mobilização conservadora dos agentes fascistas. Martins (2022) nota em seu estudo que nem todos os integrantes do Desocupa se diziam de direita, e uns poucos eram diretamente vinculados ao MBL. No Rio de Janeiro, houve muitos que votaram em Bolsonaro, dentro e fora das ocupações. Mas nenhum dos ataques ao OcupaMendes foi protagonizado por quaisquer lideranças de direita conhecidas, mas pelos próprios estudantes mancomunados com uma rede comunitária conservadora. Tais redes lembram, ainda que do avesso do espectro político, as comunidades eclesiais de base. Os alunos vangloriavam-se de lutar não somente por si, mas pela sua comunidade local, e alguns inclusive evocavam os comércios que seriam prejudicados pelas ocupações uma vez que com as aulas canceladas haviam estudantes dentro da escola, mas a transitoriedade pelo bairro (na visão deles) diminuía. Em Goiás, vereadores e representantes de comunidades interferiram diretamente nas ocupações.
Falava-se de defender o interesse dos estudantes, e muitas vezes estes interesses refletiam a dinâmica social desses alunos fora de sala (emprego, vestibular, etc.) mas a questão das melhorias da educação era uma lacuna evidente. Mesmo o imaginário político se vê preso muitas das vezes à lógica da assistência do Estado em detrimento da autonomia política (FERNANDES. 2022). Por isso os sentidos do movimento estudantil autônomo tendem a se pautar contra a barbárie em direção a um mundo novo, dentro e fora da escola, enquanto as expectativas de atenuar a barbárie só ocorriam em consequência desta, se conformando em uma revolta conservadora.
Notas
[1] Sobre o desfecho da greve, ver aqui: https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/07/apos-quase-5-meses-professores-decidem-suspender-greve-no-rj.html
[2] Sobre a falta de porteiros, ver aqui: https://cbn.globoradio.globo.com/rio-de-janeiro/2016/04/01/ESCOLAS-DA-REDE-ESTADUAL-DO-RJ-ESTAO-DESDE-O-INICIO-DO-ANO-SEM-PORTEIROS.htm
[3] Por exemplo, aqui: https://midiaindependente.org/?q=node%2F257
[4] Ver aqui: https://g1.globo.com/educacao/noticia/pelo-menos-21-estados-tem-escolas-e-institutos-ocupados-por-estudantes.ghtml
[5] Ver aqui: https://www.esquerdadiario.com.br/Fugindo-da-chapa-Novos-modos-de-se-pensar-e-gerir-um-Gremio-Estudantil e aqui http://solimoes.tachanka.org/?q=gremioautonomo
[6] Reportagem que retrata a reivindicação do Desocupa: https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/04/alunos-criam-movimento-desocupa-ja-contra-ocupacao-de-escolas-no-rj.html
[8] Ver por exemplo aqui: (https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=pfbid0PsyspjKYhax6BDGkD97Hbn9VVTkTBSP5G1r2aSfYanMb5txCaMCJbjsHbUzJzVSsl&id=100003796024251) e aqui (https://www.facebook.com/Freeitas.05/posts/pfbid02devFpteysyMxjXisEYEDhji9gRX4C959TXDszD6H5p1UvpoGm5tRwnPcqRcy2ZBl)
[9] Ver aqui: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/29/politica/1477698231_566717.html
[10] Ver aqui: https://infonet.com.br/noticias/educacao/secretario-recebe-comissao-do-movimento-desocupa-ja/
[11] Ver nota nº 8.
[12] Por exemplo, aqui: https://passapalavra.info/2020/11/135137/
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LIMA, Alfredo. O calor do Rio de Janeiro é uma coisa absurda. Passa Palavra. 2019 Disponível em: https://passapalavra.info/2018/12/124567/ Acesso em: 07/2023
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MARTINS, Karina Oliveira. Desocupa já! Eu quero aula: Aspectos psicossociais que motivam o Movimento Desocupa. Rev. psicol. polít., São Paulo , v. 22, n. 53, p. 105-122, abr. 2022. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519549X2022000100008&lng=pt&nrm=iso>. acesso em 20 jul. 2023
MARXISTA, Grouxo. O Estado e as ocupações: a autogestão possível e a autogestão necessária. Passa Palavra. 2016. Disponível em: https://passapalavra.info/2016/05/108235/ Acesso em: 07/2023
OCUPACAIC/REVERENDO HUGH CLARENCE TUCKER Texto sobre a desocupação da E.E Prefeito Mendes de Moraes. 10 de Mai. 2016. Facebook: Ocupa CAIC/Reverendo Hugh Clarence Tucker. Disponível em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=1079535732119299&set=a.1064257276980478 Acesso em: 07/2023
PASSA PALAVRA. Entrevista com estudante da #OcupaMendes Passa Palavra. 2016. Disponível em: https://passapalavra.info/2016/03/107881/ Acesso em: 07/2023
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![Hora de “desbigtechtizar” a vida [2]](https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/07/coluna_4.jpg)



