Por Jan Cenek
Quando reli Ferreira Gullar, os ossos do poeta já estavam no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista, há quase 10 anos, junto com dezenas de imortais, incluindo Machado de Assis. Eu havia lido e relido Toda a poesia [1], mas não conhecia Em alguma parte alguma [2]. O primeiro livro, apesar da palavra “toda”, não inclui o último, que foi publicado posteriormente. Como é bom reencontrar um poeta inteiro, em forma e completo aos 80 anos de idade. Ferreira Gullar, Em alguma parte alguma, é o mesmo de Toda a poesia. As mesmas obsessões, os mesmos temas: as coisas esquecidas, o apodrecimento da matéria orgânica, a presença da morte, a angústia de se saber mortal e passageiro, o espanto diante da passagem do tempo.
Há um pouco do primeiro Carlos Drummond de Andrade no último Ferreira Gullar. Provavelmente foi o pronome indefinido alguma que me chamou a atenção. Mas não só. Alguma poesia [3] é o primeiro livro de Carlos Drummond. Em alguma parte alguma é o último livro de Ferreira Gullar. Oitenta anos separam um do outro. Oitenta anos tinha o poeta maranhense quando publicou seu último livro de poemas. Alguma poesia (1930), primeiros passos do poeta gauche: irônico, cético, engraçado. Em alguma parte alguma (2010), despedida de outro poeta gauche: espantado diante da passagem do tempo. Drummond: a vida besta passa devagar numa cidadezinha qualquer, entre bananeiras e laranjeiras. Gullar: a vida besta passa espantosamente rápido, na quitanda do pai, Newton Ferreira, em São Luís do Maranhão, na primeira metade do século XX; no exílio no Chile e na Argentina, na década de 1970; no apartamento da Rua Duvivier, nº 49, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, nos primeiros anos do século XXI. Os poemas são rápidos e diretos, tanto no primeiro Drummond quanto no último Gullar. Apesar da vida lenta e besta na cidadezinha qualquer do poeta mineiro.
A poesia de Gullar está nas coisas esquecidas: atrás do balcão da quitanda do pai, Newton Ferreira, nos anos 1940, em São Luís; numa banana azedando na fruteira; em algum canto do apartamento da Rua Duvivier, em Copacabana, nos anos 2000; num acidente ocorrido na sala, mais precisamente no tranco provocado pelo atrito da cabeça do fêmur com o osso da bacia [4]. Sacada de Frederico Spencer: é a poesia ortopédica de Ferreira Gullar. Seja como for, o fato é que um osso de poeta dura mais que o próprio poeta, assim como a obsessão do poeta é dura como um osso. O espanto diante da passagem rápida do tempo sempre intrigou Ferreira Gullar. Por isso publicou livros intitulados Dentro da noite veloz e Na vertigem do dia. Trata-se de “reacender o perdido”, de buscá-lo no “fundo do silêncio”. Por isso o poeta nomeou os amigos do pai – Luís Dedão, Cantuária, Elias –, além de posicioná-los perto do balcão da quitanda e de Newton Ferreira, numa conversa tão animada quanto perdida em algum dia esquecido na primeira da metade do século XX. Por isso Gullar fixou datas nos versos: uma segunda-feira, 03 de fevereiro de 2003; uma terça-feira, 02 de dezembro de 2008. Por isso o poeta foi obcecado pelo cheiro das frutas que apodreciam nas fruteiras, quintais e quitandas. O homem se inventa para livrar-se do fim – diria o poeta.
A novidade, Em alguma parte alguma, são os ossos espalhados pelas páginas. É como se o poeta buscasse algo mais perene que uma fruta, algo que resistisse melhor ao apodrecimento. Só que o efeito é o inverso. Os ossos espalhados pelos versos destacam a vertiginosa passagem do tempo. Se falamos dos ossos de um homem, é porque ele não existe mais. O espanto ósseo aparece, por exemplo, no poema Reflexão sobre o osso da minha perna [5]:
[…]
o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?
São tantos ossos espalhados Em alguma parte alguma, que fiquei pensando no que faria se encontrasse um osso do poeta na calçada. Expor no museu de arte contemporânea ou no centro de uma fruteira? Vender em algum sebo ou trocar por livros? Queimar em praça pública em protesto contra a guinada à direita do poeta, no final da vida?
Comprei Em alguma parte alguma num sebo no sábado 13 de junho de 2026, à tarde, 13 anos depois das jornadas de junho de 2013, que não têm nada a ver nem com o poeta nem com o livro, mas é o acontecimento que me vem à cabeça quando penso no dia 13 de junho. Dentro do livro encontrei dois recortes de jornal, cheios de grifos. Numa matéria da Folha de São Paulo (FSP), datada de 02 de dezembro de 2011, informava-se que Em alguma parte alguma havia ganhado o prêmio Jabuti como melhor livro de ficção daquele ano. Numa coluna do próprio Ferreira Gullar publicada na FSP, datada de 29 de janeiro de 2012, o poeta comenta que escrevia movido pelo espanto. Li Em alguma parte alguma numa manhã gelada, era um domingo, 21 de junho de 2026, início do inverno no hemisfério sul. Almocei macarrão com almôndegas impactado pelas bananas podres – há 3 poemas intitulados bananas podres no livro – e pelos ossos espalhados nos versos de Gullar. Reli o livro na tarde daquele mesmo domingo. Foi quando reparei numa assinatura, numa data e num nome registrados à caneta, na primeira página do livro. Assinatura: um F meio inclinado que lembra uma cruz seguido de um ponto final, depois Gullar. Parece um epitáfio. Mas é a assinatura do poeta. Data: 03 de dezembro de 2011. Foi um sábado, conferi num calendário eletrônico. Nome: João Roberto Malheiros Julião. Provavelmente o primeiro dono do livro, que esteve presente no lançamento e ganhou o autógrafo do poeta. Ou então trabalhava, à época, na editora José Olympio, que publicou Em alguma parte alguma. Por isso teria guardado e grifado a matéria sobre o prêmio Jabuti? Pelo Google tentei descobrir quem é, ou foi, João Roberto Malheiros Julião. Sem sucesso. Parece ter tido, ou ter, atuação no meio cultural, mas não encontrei muita coisa.
Na tarde de 13 de junho de 2026, me venderam um livro assinado pelo próprio Gullar, provavelmente sem perceber. Se não, teriam tentado cobrar muito mais e eu não teria comprado, porque uma assinatura do poeta não vale mais que um poema. Na tarde gelada em que reli Em alguma parte alguma, 21 de junho de 2026, a assinatura do poeta, o nome João Roberto Malheiros Julião, aquele 03 de dezembro de 2011 registrado na primeira página, a matéria e a coluna da Folha de São Paulo encontradas dentro livro se misturaram aos poemas de Gullar. Era o tempo passando. Eram as coisas esquecidas. Como uma banana azedando no cesto, uma conversa ocorrida numa quitanda de São Luís ou um osso armazenado no mausoléu da Academia Brasileira de Letras. Era um espanto, quem sabe parecido com o que levava Ferreira Gullar a escrever poesia. Tudo e todos passam: uma banana esquecida na fruteira; um quitandeiro maranhense, como Newton Ferreira; um imortal da Academia Brasileira de Letras, como Ferreira Gullar. O homem é uma “aflição que repousa num corpo” – escreveu o poeta [6]. Naquela tarde, em 21 de junho, nas primeiras horas do inverno de 2026 no hemisfério sul: uma parte de mim era vertigem, a outra parte era espanto.
Notas
[1] Ferreira Gullar. Toda a poesia. 20. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010a.
[2] Ferreira Gullar. Em alguma parte alguma. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010b.
[3] Carlos Drummond de Andrade. Alguma poesia. Nova reunião: 23 livros de poesia – volume 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009.
[4] Gullar, 2010b, op. cit., p. 39.
[5] Gullar, 2010b, op. cit., p. 32.
[6] Gullar, 2010b, op. cit., p. 75.





