Por Marcelo Phintener
4. O Brasil em números: 672 mil organizações e o que elas revelam
4.1 Crescimento histórico e seus marcos
Os dados do Mapa das Organizações da Sociedade Civil permitem reconstituir com precisão a trajetória quantitativa do setor. O universo empírico que sustenta as teses aqui desenvolvidas compreende 1.097.694 registros de organizações da sociedade civil, ativas e inativas, extraídos em março de 2026. A magnitude dessa base de dados bruta permite uma radiografia exaustiva da estrutura e da evolução histórica do terceiro setor brasileiro, oferecendo uma ancoragem material imune a distorções amostrais.
O número de OSCs ativas em janeiro de 2026 era de 672.215, a que se somam 273.576 inaptas, 145.972 nulas ou baixadas e 5.931 suspensas. O total histórico de organizações já criadas supera 1,06 milhão. O pico de fundações ocorreu em 2009, com 40.265 novas OSCs — ano que coincide com o auge do ciclo de expansão dos governos Lula e com o boom do PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) [1] e de outras políticas de financiamento do terceiro setor.
A curva do Gráfico 1 conta uma história política com clareza inequívoca: há uma inflexão acentuada a partir de 1995, ano do Plano Diretor de Reforma do Estado, quando as fundações anuais saltam de patamares de 10-14 mil para 20-35 mil. Essa inflexão precede a aprovação da Lei das Organizações Sociais (1998) e da Lei OSCIP (1999), que consolidaram o marco legal da terceirização social. A reforma Bresser não apenas reformou o Estado — criou um mercado.
4.2 Distribuição regional: desigualdade e conflito
A distribuição geográfica das 672.215 OSCs ativas reflete, em linhas gerais, a distribuição da população e da riqueza — mas com desvios significativos que merecem atenção. A região Sudeste concentra 287.122 organizações (42,7% do total), seguida pelo Nordeste com 150.431 (22,4%), Sul com 128.518 (19,1%), Centro-Oeste com 59.602 (8,9%) e Norte com 46.342 (6,9%).

Gráfico 2 — Distribuição regional das OSCs ativas no Brasil (jan. 2026). Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). N = 672.215. Elaboração própria.
A distribuição espacial dos registros expõe a magnitude dessa assimetria: o estado de São Paulo concentra 142.522 OSCs ativas, seguido por Minas Gerais (73.874), Rio de Janeiro (55.175), Rio Grande do Sul (49.065) e Bahia (45.828). Esta severa concentração no eixo Sudeste-Sul reproduz, na órbita do terceiro setor, a mesma hierarquia regional que estrutura o conjunto da economia brasileira. O dado desmistifica a narrativa oficial das ONGs como vetores de redistribuição e equidade, revelando que a malha da filantropia msse adensa justamente onde o capital está mais concentrado.
Mais revelador ainda é o ritmo diferenciado de crescimento recente. Segundo dados do Ipea, entre 2021 e 2023 as regiões Centro-Oeste e Norte registraram os maiores crescimentos relativos — 11% e 9,9%, respectivamente. Essas são justamente as regiões onde os conflitos fundiários, a pressão sobre territórios indígenas e quilombolas e os impactos do agronegócio sobre populações tradicionais são mais intensos. O crescimento de ONGs nessas regiões pode ser lido, a partir de nossa perspectiva, como um indicador da intensificação dos conflitos sociais — e da necessidade, sentida pelo poder, de criar mecanismos de sua administração.
4.3 Áreas de atuação: religião, direitos e o que fica de fora
A análise das áreas de atuação é o dado mais politicamente denso do conjunto. Como mostra a Tabela 2 e o Gráfico 3 a seguir, as duas maiores categorias são Religião (235.916 OSCs, 35,1% do total ativo) e Desenvolvimento e defesa de direitos (204.466 OSCs, 30,4%). Juntas, essas duas categorias respondem por quase dois terços de todas as OSCs ativas no Brasil.
| Tabela 2 — Áreas de atuação das OSCs ativas no Brasil (2026) | |||
| Área de atuação | N.º de OSCs | % do total ativo | Ranking |
| Religião | 235.916 | 35,1% | 1º |
| Desenv. e defesa de direitos | 204.466 | 30,4% | 2º |
| Outras ativ. associativas | 92.069 | 13,7% | 3º |
| Cultura e recreação | 69.853 | 10,4% | 4º |
| Assistência social | 42.166 | 6,3% | 5º |
| Educação e pesquisa | 29.414 | 4,4% | 6º |
| Assoc. patronais e profissionais | 28.375 | 4,2% | 7º |
| Saúde | 18.412 | 2,7% | 8º |
| Nota: uma OSC pode ser classificada em mais de uma área de atuação simultaneamente, portanto os percentuais não somam 100%. Base: 672.215 OSCs ativas. Fonte: Mapa das OSCs / Ipea (2026). Elaboração própria. | |||
Tabela 2 — Áreas de atuação das OSCs ativas (2026). Uma OSC pode atuar em mais de uma área. Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). Elaboração própria.

Gráfico 3 — Áreas de atuação das OSCs ativas no Brasil (jan. 2026). Fonte: Mapa das OSCs/Ipea (2026). Elaboração própria.
A categoria ‘Desenvolvimento e defesa de direitos’ é particularmente ambígua — e essa ambiguidade é constitutiva de sua eficácia ideológica. Ela abarca desde organizações focadas na mediação e na pauta de demandas básicas de minorias até entidades diretamente integradas aos conselhos de governança corporativa, operando ambas sob a mesma gramática de direitos que capta financiamento sem alterar as relações de poder que produzem a marginalização. Não é possível, a partir dos dados agregados disponíveis, distinguir quantitativamente entre esses dois perfis — e essa impossibilidade é, ela mesma, um problema político: a opacidade da categoria ‘sociedade civil’ atua como uma blindagem homogênea, dissolvendo as frentes de conflito aberto em um emaranhado burocrático e estatístico que atende à própria reprodução do aparato gerencial.
A presença maciça de organizações religiosas — especialmente evangélicas, cujo crescimento acelerou nas últimas duas décadas — acrescenta outra dimensão ao quadro. No contexto brasileiro, as igrejas evangélicas construíram um verdadeiro complexo organizacional que combina assistência social, educação, saúde, comunicação de massa e atuação política partidária. Sua presença no terceiro setor não é a de aparatos de mobilização ideológica com capacidade de interlocução direta com o Estado.
Notável também é o que fica em posição secundária: Saúde (2,7%) e Educação e pesquisa (4,4%) — justamente as duas áreas onde a privatização dos serviços públicos é mais intensa e onde a substituição do Estado clássico por ONGs tem consequências mais diretas sobre a vida da população trabalhadora. O dado sugere que a maior parte das organizações formalmente registradas nessas categorias são, na prática, entidades prestadoras de serviços já integradas ao sistema de contratação pública — invisíveis como “ONGs” no imaginário social, mas centrais na arquitetura real do Estado gerencial.
4.4 Fundações corporativas e organizações internacionais: o capital que financia a “sociedade civil”
A análise do Mapa das OSCs permite identificar um estrato específico que raramente aparece nos debates sobre “sociedade civil”: as fundações e institutos mantidos diretamente por grandes corporações nacionais e transnacionais. Com base no cruzamento dos registros cadastrais ativos, foi possível mapear 20 grupos corporativos nacionais com 141 unidades registradas e 20 organizações de origem internacional com 235 unidades ativas no país. São números modestos em relação ao universo total de 672 mil OSCs ativas — mas seu peso político e financeiro é desproporcional ao seu número, como os dados de financiamento demonstram.
O fluxo de financiamento originado em fundações corporativas transnacionais e organismos de cooperação (como a OCDE) canaliza a agenda do ecologismo para a lógica do valor e dos novos nichos de acumulação. O ideário ESG e a transição ecológica administrada convertem a pauta ambiental em um dinâmico mercado de licenças operacionais, consultorias e créditos de carbono. Trata-se de uma governança que permite às grandes corporações chancelar sua imagem pública e gerir riscos reputacionais enquanto impõe à massa trabalhadora uma rotina de contenção e custos crescentes de reprodução. Oculta-se, assim, o nexo causal fundamental: a degradação ambiental não deriva do consumo de sobrevivência da classe que trabalha.
Entre as corporações nacionais, a Fundação Bradesco lidera com 39 filiais distribuídas por todos os estados da federação — fundada em 1970, em plena ditadura militar, dado que não é trivial: a expansão das fundações corporativas no Brasil historicamente coincide com períodos de repressão da organização autônoma dos trabalhadores. A Fundação Vale opera em 8 estados — precisamente aqueles onde a empresa detém concessões de mineração e enfrenta conflitos socioambientais. A Fundação CSN existe desde 1966, cobrindo os municípios do entorno de suas usinas siderúrgicas em Minas Gerais e Rio de Janeiro. O padrão é sistemático: a presença territorial das fundações corporativas acompanha, com notável precisão, a geografia operacional das próprias empresas. Trata-se da montagem de um aparato de controle e pacificação territorial, realizado sob a linguagem asséptica da “responsabilidade social corporativa” para neutralizar os atritos gerados pela exploração econômica local.
A pesquisa de Liliana Rolfsen Petrilli Segnini — realizada ao longo de quatro anos no interior da sede do Bradesco e publicada como A Liturgia do Poder: Trabalho e Disciplina (EDUC, 1988), originalmente tese de mestrado defendida na PUC-SP em 1986 sob orientação de Maurício Tragtenberg — documenta com precisão etnográfica os mecanismos de poder disciplinar que estruturam a maior organização bancária privada do país. O que Segnini encontrou no cotidiano do Bradesco vai muito além da gestão de recursos humanos: uma arquitetura de controle que combina seleção de pessoal por critérios de homogeneização social e moral, treinamento orientado à submissão hierárquica, vigilância permanente através de sistemas de visibilidade organizacional, e uma função ideológica explícita da Fundação Bradesco — entendida pela própria organização como instrumento de formação de “força de trabalho dócil e produtiva”, capaz de selecionar, entre os filhos das classes trabalhadoras, aqueles que demonstrem as virtudes de obediência, corretude e dedicação valorizadas pelo banco. Nessa lógica, a filantropia educacional não é externa ao processo de exploração — é constitutiva dele: forma o trabalhador antes de empregá-lo, molda o consentimento antes de exigi-lo, e converte a gratidão em disciplina. O livro, orientado por Tragtenberg e publicado pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, é também um documento político: demonstra empiricamente, para um caso paradigmático do capitalismo brasileiro, o que este ensaio argumenta teoricamente sobre o conjunto do terceiro setor.
No plano internacional, o mapeamento revela uma presença capilarizada. A Cruz Vermelha opera com 136 filiais em 22 estados desde 1970. A World Vision — agência evangélica norte-americana — mantém 29 unidades no país desde 1975, concentradas no Norte e Nordeste, regiões onde disputou influência histórica com a vertente progressista da Teologia da Libertação. Por sua vez, a Ford Foundation estabeleceu-se no país em 1966 — dois anos após o golpe militar, no exato período em que canalizava recursos para a contenção geopolítica em toda a América Latina. Sua atuação, contudo, revela uma sofisticação que ultrapassa o mero repasse financeiro: a fundação investiu sistematicamente na produção do conhecimento que legitima o próprio campo em que opera.
O caso mais emblemático é o do CEBRAP, fundado em 1969 por intelectuais cassados pelo regime, entre eles o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. A Ford financiou a criação do centro e, em 1975, estabeleceu um endowment equivalente a US$ 3,47 milhões em valores atuais, mantendo os aportes até meados dos anos 1990 — com fluxos que persistem no presente, a exemplo de US$ 240 mil em 2021 e US$ 250 mil em 2023. O mecanismo revela-se milimétrico: intelectuais críticos foram abrigados e institucionalizados por um aparato vinculado à política cultural norte-americana, e o quadro que o centro acolheu tornou-se o gestor que implementou a reforma gerencial do Estado.
Essa mesma racionalidade se reproduz na atualidade. O programa Gender, Racial, and Ethnic Justice International da Ford Foundation distribuiu, entre julho de 2020 e novembro de 2024, US$ 266,5 milhões para organizações parceiras na América Latina, África e Ásia. Longe de representar uma inflexão disruptiva, a canalização de recursos para as agendas de justiça demográfica e representatividade cumpre uma função objetiva na reorganização do mercado de trabalho contemporâneo. Ao converter contradições estruturais de classe em pautas focalizadas de “diversidade e inclusão”, o grande capital transnacional modela uma nova subjetividade operária. O financiamento da crítica segmentada não contradiz o interesse corporativo; complementa-o, na medida em que instrumentaliza a gramática dos direitos para legitimar novas formas de flexibilização, precarização e segmentação da força de trabalho, deixando intactas as hierarquias econômicas e as taxas de exploração que sustentam as próprias corporações financiadoras. É o que Boltanski e Chiapello chamaram de absorção da crítica — aqui operada em escala global e com orçamento de centenas de milhões de dólares. Polese e Bernardo (2021) radicalizam esse diagnóstico: ao contrário do que ocorre com as lutas dos trabalhadores — que precisam ser primeiramente derrotadas e deformadas antes de serem assimiladas pelo capital —, os identitarismos são incorporados tal e qual, sem deturpação de sua forma originária, convertendo-se diretamente em fator de produtividade e de legitimação empresarial. O financiamento Ford da pesquisa antirracista é o caso empírico que confirma a tese: a aparência da luta é preservada; seu horizonte de classe, suprimido. A crítica é tolerada — e até financiada — desde que se limite ao plano discursivo, sem transbordar para a mobilização capaz de alterar as estruturas. A Fundação Cargill — braço filantrópico do maior exportador de commodities agrícolas do mundo — opera no Brasil desde 1973, justamente quando a expansão da fronteira agrícola sobre o Cerrado e a Amazônia começava a gerar os conflitos fundiários que se arrastam até hoje.
O mesmo mecanismo opera no campo do ambientalismo organizado — com uma peculiaridade estrutural que o torna analiticamente relevante: aqui, o inimigo de classe permanece oculto sob a gramática da crise planetária. Organizações como o Greenpeace e o WWF pautam a questão ambiental sob o signo do decrescimento econômico como imperativo de sobrevivência planetária, sem nomear quem paga a conta. O Greenpeace Internacional — cuja receita consolidada atingiu €111 milhões em 2023, segundo seu relatório financeiro oficial — capta recursos majoritariamente de classes médias e altas do hemisfério norte. Simultaneamente, a rede global Greenpeace movimenta um orçamento estimado em US$ 400 milhões anuais. O WWF recebe financiamento de conglomerados como Coca-Cola, HSBC, Cargill, Alcoa e BP — as mesmas corporações responsáveis pela degradação ambiental que a organização pretende combater.
O decrescimento formulado sob esse financiamento não incide sobre os padrões de consumo das classes dominantes que o patrocinam: recai diretamente sobre a classe trabalhadora global. Traduz-se no bloqueio de infraestruturas essenciais, na estagnação das condições de vida e no confisco do rendimento real via tributações regressivas sobre energia e combustíveis — rebaixando o custo de reprodução da força de trabalho sob o pretexto da salvaguarda climática, sem jamais arranhar a acumulação corporativa. O ambientalismo de ONG opera, assim, como mais uma tecnologia de administração de vidas: neutraliza-se o antagonismo entre a exploração e a dilapidação do trabalho ao transformá-lo em uma rotina de restrições disciplinares aplicadas indistintamente aos trabalhadores.
A dimensão financeira desse fenômeno é de uma magnitude que o debate público sobre o terceiro setor sistematicamente subestima. No plano global, segundo dados da OCDE, em 2024 os países membros do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento canalizaram US$ 27 bilhões de ajuda oficial ao desenvolvimento através de ou para organizações da sociedade civil — 12,9% de toda a ajuda bilateral — com Estados Unidos (US$ 10,3 bilhões), União Europeia (US$ 2,8 bilhões) e Alemanha (US$ 2,1 bilhões) respondendo por 57% do total. Somando o financiamento governamental ao privado, o setor global de ONGs e organizações filantrópicas movimentou US$ 508 bilhões em 2026 — volume superior ao PIB da Argentina, com projeção de duplicar até 2035. Não é um fenômeno marginal: é um eixo estruturante da globalização.
Os dados do Ipea fornecem a métrica exata dessa concentração no Brasil. Do montante de R$ 118,5 bilhões transferidos pelo governo federal às OSCs entre 2010 e 2018, somente 2,7% das entidades ativas foram contempladas. Na prática, 22 mil organizações confiscaram a quase totalidade das verbas de um universo de 820 mil. O funil é ainda mais estreito por natureza jurídica: as fundações privadas (2% do total) gerenciaram R$ 23 bilhões, enquanto as associações (86% do total) retiveram R$ 65 bilhões. Em 2016, sob severo corte de gastos públicos, as fundações abocanharam 40% do orçamento federal destinado ao setor. Diante da escassez, o Estado opera uma escolha de classe, blindando as estruturas de maior porte e densidade corporativa.
A divisão territorial corrobora esse privilégio: o Sudeste, detentor de 42% das OSCs, açambarcou 61% do caixa federal, enquanto o Distrito Federal tragou 83% do orçamento do Centro-Oeste, restando às demais unidades da federação uma participação marginal. O cenário recente confirma a tendência: em 2023, R$ 9,6 bilhões federais concentraram-se em apenas 5.224 CNPJs. Esse desenho joga por terra o mito da horizontalidade da sociedade civil. O terceiro setor estrutura-se como um mercado oligopolizado: um topo dinâmico de fundações transnacionais que monopoliza recursos e pauta políticas, assentado sobre uma base atomizada de associações locais precarizadas e dependentes do clientelismo municipal. Longe de constituir um desvio, essa pirâmide revela que o campo opera de forma perfeitamente homóloga à estrutura de poder do capitalismo que o engendra.
5. ONGs como multiplicação silenciosa do poder
Em Estado: A Silenciosa Multiplicação do Poder (1998), João Bernardo desenvolve uma tese que vai na contramão da sociologia política convencional: o Estado contemporâneo não se fortalece concentrando poder, mas se reproduz dispersando-o. A multiplicação de instâncias de decisão — conselhos, comissões, fóruns, parcerias público-privadas, organizações da sociedade civil — não enfraquece o poder estatal: o amplia, ao criar novos pontos de contato e negociação entre a esfera pública e os interesses privados, novos mecanismos de cooptação e neutralização das oposições, novas linguagens de legitimação que tornam a dominação mais palatável porque mais participativa.
As ONGs são, nesse quadro, agentes privilegiados da multiplicação silenciosa do poder. Sua presença nos conselhos de políticas públicas — de saúde, de assistência social, de educação, de direitos humanos — não representa a chegada da sociedade civil ao poder: representa a chegada de determinadas organizações, com determinados perfis de financiamento, determinadas agendas e determinadas relações com o Estado e com o capital, a espaços de decisão que antes eram exclusivamente governamentais. A pergunta relevante não é se essas organizações participam do poder — é quais organizações participam, em nome de quem, financiadas por quem e com quais consequências para quem.
Boltanski e Chiapello, em O Novo Espírito do Capitalismo, oferecem uma chave complementar. Sua análise da “crítica artística” e da “crítica social” absorvidas pelo capitalismo dos anos 1990 — a transformação da demanda por autonomia, autenticidade e participação em recursos de gestão empresarial — ilumina o mecanismo pelo qual a linguagem da contestação se torna linguagem da legitimação.[2]
As ONGs operam como o veículo institucional por excelência dessa dinâmica: organizações cuja função histórica não se estruturou na contestação da ordem, mas na sua legitimação e salvaguarda. Longe de representarem uma força rebelde capturada a posteriori pelo sistema, essas agências nasceram umbilicalmente atreladas à necessidade de institucionalizar e pacificar as pressões sociais. Sua atuação como instrumentos de reprodução do Estado gerencial e do mercado não decorre de desvios morais ou da má-fé de seus integrantes, mas da própria lógica estrutural de sua inserção genética no campo do poder.
Maurício Tragtenberg, em Administração, Poder e Ideologia, já havia identificado, nos anos 1970, o mecanismo central desse processo: a ideologia administrativa — a crença de que os problemas sociais são, em última instância, problemas de gestão, solucionáveis por técnicas corretas aplicadas por pessoas competentes — é o dispositivo que transforma questões políticas em questões técnicas. As ONGs são, em grande medida, o braço operacional dessa ideologia: organizações que se apresentam como técnicas, neutras, orientadas por evidências, enquanto fazem escolhas que são, inerentemente, políticas.
6. Democracia empresarial e administração do descontentamento
A engenharia institucional do Terceiro Setor materializa aquilo que a literatura crítica define como “democracia empresarial” — um modelo que encontra a sua anatomia teórica mais radical no conceito de “democracia totalitária” formulado por João Bernardo (2004). Trata-se de uma forma de organização política que combina procedimentos formais de participação com a preservação substantiva das hierarquias de classe. O sistema governa e administra vidas não a despeito da participação, mas por meio dela: ao incluir as classes trabalhadoras em espaços de deliberação cujos limites são delimitados pela classe dos gestores, produz-se um consentimento difuso, muito mais difícil de contestar do que qualquer autocracia tradicional.
As ONGs são um componente central da democracia empresarial. Sua função não é simplesmente a de prestar serviços que o Estado não presta — é a de articular, no nível da comunidade, uma relação entre classes que é ao mesmo tempo de assistência e de controle. A ONG que oferece cursos de qualificação profissional num bairro popular não está apenas treinando trabalhadores para o mercado de trabalho: está construindo, nesse processo, uma linguagem da cidadania e da responsabilidade individual que naturaliza a precariedade do mercado de trabalho e desvia a energia social do conflito coletivo para a competição individual.
Essa administração gerencial do conflito social materializa-se, de forma exemplar, na conversão de políticas de emprego em dispositivos de controle disciplinar da força de trabalho. O laboratório histórico dessa engrenagem na cidade de São Paulo revela-se na execução de programas públicos de transferência de renda e qualificação, como o Programa Operação Trabalho (POT). Em vez da garantia de emprego ou de direitos trabalhistas universais, o Estado delega a gestão do contingente de desempregados a uma malha terceirizada de ONGs. Incumbe a essas agências gerenciais administrar o descontentamento das frações mais espoliadas da classe trabalhadora: a urgência material da sobrevivência é capturada por uma rotina de bolsas-auxílio sub-remuneradas, desprovidas de seguridade, onde o potencial de contestação é neutralizado por pedagogias de resiliência, empreendedorismo e conformismo produtivo. A ONG atua, assim, como o capataz terceirizado que disciplina e pacifica a força de trabalho excedente com o próprio fundo público — devolvendo ao Estado a aparência de intervenção social sem os custos políticos de uma política de emprego universal.
No cinema brasileiro, a crueza satírica de Quanto Vale ou É por Quilo? (Sérgio Bianchi, 2005) capta com exatidão essa homologia, escancarando a continuidade histórica entre a filantropia colonial e o terceiro setor contemporâneo. A tese do filme converge perfeitamente com a crítica materialista: a transição de um período ao outro altera as representações discursivas — transmutando a “caridade” jesuítica em “cidadania” empresarial —, mas preserva intacta a estrutura de intervenção das classes dominantes sobre a reprodução das classes trabalhadoras, mediada por aparatos que operam sob o simulacro da neutralidade técnica.
O romance O Jardineiro Fiel, de John Le Carré (2001) — e sua posterior adaptação cinematográfica por Fernando Meirelles (2005) — oferece a radiografia literária mais precisa desse mecanismo. No enredo, uma ONG humanitária opera como braço operacional de uma multinacional farmacêutica, fornecendo acesso territorial, confiança comunitária e cobertura institucional para testes ilegais de medicamentos em populações pobres do Quênia. Le Carré estruturou a obra a partir de rigorosa investigação sobre casos reais de experimentação clínica no continente africano — a ficção, portanto, não atua como metáfora, mas como documentação sob outra forma. Quando uma ativista que opera nas margens dessas redes descobre o esquema e ameaça expô-lo, é eliminada. A narrativa desmonta dois mitos simultaneamente: o da ONG como espaço neutro de solidariedade, e o da contestação individual como alternativa viável ao poder corporativo organizado.
7. Nomear para desnaturalizar
Evita-se aqui o psicologismo das boas intenções. A dinâmica das Organizações Não-Governamentais não é determinada pelas motivações morais de seus quadros técnicos, mas pelas funções objetivas que o capitalismo contemporâneo delega a esse aparato. O eixo analítico recai estritamente sobre as determinações estruturais: na racionalidade sistêmica que captura, canaliza e instrumentaliza a força de trabalho social, convertendo-a em engrenagem de governança e contenção dos conflitos de classe.
Os dados, quando lidos sob a perspectiva crítica aqui adotada, revelam uma imagem que a ideologia oficial do terceiro setor ativamente obscurece. Trata-se de um campo cuja expansão histórica acompanhou o sufocamento dos direitos sociais e o rebaixamento das condições de vida da classe trabalhadora. Financiado majoritariamente pelo próprio Estado que supostamente não o comanda, o setor opera na execução de serviços públicos convertidos em nichos gerenciais; sua função instrumentaliza a gramática da cidadania para naturalizar relações de dependência e hierarquia, convertendo-as em ferramentas eficazes de subordinação social e contenção política.
A existência de 672 mil organizações ativas no país em 2026 — extraídas de um universo histórico de mais de 1 milhão de registros cadastrados — está longe de atestar o vigor da democracia. Essa proliferação desenha, ao contrário, a cartografia de uma sofisticada rede de contenção e administração do descontentamento social. A multiplicação das entidades pressupõe e conserva as assimetrias que estruturam o capitalismo. Nesse cenário, o vocabulário asséptico da gestão gerencial opera como o verniz ideológico necessário para dissolver o antagonismo de classes em conciliação, demarcando o limite exato onde a crítica social deixa de ser contestação para se tornar engrenagem da ordem.
Lista de Siglas
CAD — Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (OCDE)
CEBRAP — Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
CIA — Central Intelligence Agency (Agência Central de Inteligência dos EUA)
CSN — Companhia Siderúrgica Nacional
ESG — Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança)
FHC — Fernando Henrique Cardoso
Ipea — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
OCDE — Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico
ODA — Official Development Assistance (Ajuda Oficial ao Desenvolvimento)
ONG — Organização Não-Governamental
OSC — Organização da Sociedade Civil
OSCIP — Organização da Sociedade Civil de Interesse Público
PIB — Produto Interno Bruto
POT — Programa Operação Trabalho (Prefeitura de São Paulo)
PRONASCI — Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania
Referências
BALZAC, Honoré. O Médico Rural. In: A Comédia Humana. Estudos de Costumes – Cenas da Vida Parisiense. Rio de Janeiro: Editora Globo, v. XIII, 1954.
______. O Cura da Aldeia. In: A Comédia Humana. Estudos de Costumes – Cenas da Vida Rural. Rio de Janeiro: Editora Globo, v. XIV, 1954.
BERNARDO, João. Economia dos Conflitos Sociais. São Paulo: Cortez, 1991.
______. Estado: A Silenciosa Multiplicação do Poder. São Paulo: Escrituras, 1998.
______. Democracia Totalitária. São Paulo: Cortez, 2004.
______. A salvação da burguesia pelos gestores. In: Labirintos do fascismo: na encruzilhada da ordem e da revolta. 3. ed. 2015. Cap. 3.
______. O inimigo oculto: ensaio sobre a luta de classes — manifesto anti-ecológico. Porto, Afrontamento, 1979.
BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Ève. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Reforma do Estado para a cidadania: a reforma gerencial brasileira na perspectiva internacional. São Paulo: Ed. 34, 1998.
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______. Brasil possui mais de 897 mil organizações da sociedade civil ativas. Brasília: Ipea, fev. 2025.
______. Afinal, o que os dados mostram sobre a atuação das ONGs? Análise de transferências federais e projetos executados pelas Organizações da Sociedade Civil no Brasil. Brasília: Ipea (Diest), 2019.
OCDE. Final OECD Statistics on Official Development Assistance (ODA) and Other Resource Flows to Developing Countries in 2024. Paris: OECD Publishing, dez. 2025. Disponível em: https://www.oecd.org/en/data/insights/data-explainers/2025/12/final-oecd-statistics-on-oda Acesso em: maio 2026.
LE CARRÉ, John. O Jardineiro Fiel. Rio de Janeiro: Record, 2005.
POLESE, Pablo. Machismo, Racismo, Capitalismo Identitário: as estratégias das empresas para as questões de gênero, raça e sexualidade. São Paulo: Hedra, 2021.
SEGNINI, Liliana Rolfsen Petrilli. A Liturgia do Poder: Trabalho e Disciplina. São Paulo: EDUC, 1988.
SAUNDERS, Frances Stonor. The Cultural Cold War: The CIA and the World of Arts and Letters. New York: The New Press, 1999.
RESOURCE — ROCKEFELLER ARCHIVE CENTER. “Distasteful Regimes”: Authoritarianism, the Ford Foundation, and Social Sciences in Brazil. Sleepy Hollow: Rockefeller Archive Center, jul. 2025. Disponível em: https://resource.rockarch.org/story/authoritarianism-and-ford-foundation-social-sciences-in-brazil Acesso em: maio 2026.
FORD FOUNDATION. Evaluation of Ford’s Gender, Racial, and Ethnic Justice International Strategy. Nova York: Ford Foundation, dez. 2025. Disponível em: https://www.fordfoundation.org/learning/library/program-evaluations/evaluation-of-fords-gender-racial-and-ethnic-justice-international-strategy Acesso em: maio 2026.
TRAGTENBERG, Maurício. Administração, Poder e Ideologia. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
Filmografia citada
QANTO VALE OU É POR QUILO? Direção: Sérgio Bianchi. Brasil, 2005.
O JARDINEIRO FIEL. Direção: Fernando Meirelles. Reino Unido/Brasil, 2005.
Notas
[1] Projeto federal instituído para articular ações de segurança pública com políticas sociais, com forte engajamento e parcerias junto do terceiro setor e governos locais.
[2] A distinção entre “crítica artística” (centrada na autonomia, autenticidade e criatividade) e “crítica social” (centrada na igualdade e na solidariedade) é desenvolvida por Boltanski e Chiapello na Parte I de O Novo Espírito do Capitalismo, onde os autores analisam como o capitalismo dos anos 1990 incorporou seletivamente a primeira para neutralizar a segunda. A discussão dos mecanismos de absorção dessas críticas está concentrada especialmente nos capítulos 2 e 3 da obra.
A obra que ilustra o artigo é da autoria de Jean-François Millet (1814-1875).
* A publicação deste artigo foi dividida em duas partes, com publicação semanal.






Nota de correção: no texto, cometo um equívoco ao me referir a A Liturgia do Poder como dissertação de mestrado. Trata-se de tese de doutorado em Ciências Sociais defendida na PUC-SP em 1987, sob orientação de Maurício Tragtenberg, e publicada como livro pela EDUC em 1988. O mestrado de Segnini, também orientado por Tragtenberg e defendido na PUC-SP em 1981, versava sobre outro universo de poder disciplinar no trabalho: Ferrovia e Ferroviários — uma contribuição para a análise do poder disciplinar. Vale acrescentar um dado que reforça o argumento do ensaio: segundo Tragtenberg, o Bradesco teria comprado toda a edição que chegou às livrarias — tentativa de sufocar uma pesquisa que documentava, de dentro, seus mecanismos de controle e disciplina sobre os trabalhadores.
Parabenizo pelo artigo e deixo enfim meus pitacos:
1. A tese central é acertadíssima. Muito além do que desejam seus trabalhadores na base, organizações da sociedade civil formam um sistema de governança política e social bastante complexo, que ora converge, ora se contrapõe aos interesses do próprio Estado. É nos interstícios dessa tensão que se forma a governança. O resgate da reforma gerencial do Estado brasileiro nos anos 1990 foi excelente, precisamente por resgatar o ponto de origem da versão atual do “público não-estatal”. A primeira parte só não está perfeita porque, falando em origem, expressões como “ONG”, “organização não-governamental”, “terceiro setor”, já caíram em desuso faz tempo tanto entre quem estuda quanto entre quem trabalha nesse campo. Na segunda parte, o artigo, infelizmente, começa a decepcionar. Fica preso a dados e literatura acadêmica. Dá a impressão de que se está somente começando a entrar no estudo desse campo, com pouca ou nenhuma relação com as práticas de gestão do conflito (seja por vivê-la por dentro, seja por fazer a “etnografia” que elogiou em outras obras). Reproduz platitudes e maquia-as com dados.
2. Os dados, aliás, não permitem ver o que a prática mostra. Fiquemos no exemplo da distribuição geográfica. O diagnóstico está correto: a estrutura das OSC segue a distribuição geográfica da população e do capital no Brasil. Entretanto, os modos de ser dessa distribuição não se explicam por mera transposição de estrutura. Existe, sim, uma concentração de sedes e matrizes de OSC no Sudeste, mas a atuação dessas OSC é descentralizada. As sedes ficam no Sudeste (e em Brasília) por uma razão simples: é por lá que circulam os captadores de recursos fazendo lobby. É comum, por exemplo, que uma organização com sede em São Paulo atue no país inteiro fazendo “assessorias em gestão” a outras organizações de menor porte espalhadas pelo país. Essas “assessorias em gestão”, aliás, são uma forma de governança interna do setor, talhadas para garantir maior “eficácia” na “aplicação” dos recursos.
3. No que diz respeito à categorização, não li o “Mapa das OSC” do IPEA, portanto não sei como funcionou a categorização deles. Entretanto, vejo alguns problemas. “Religião” aparece como a maior categoria, numericamente falando. Mas por quê? Deduzo que o IPEA não tenha separado templos religiosos de dentro do corpo das OSC. Até modificação legislativa relativamente recente, templos religiosos (igrejas, terreiros, centros espíritas, templos budistas, etc.) eram obrigados a assumir a forma jurídica associações e a usar um CNAE de “atividades religiosas”. A mudança legislativa a que me refiro permitiu a templos religiosos sair da forma jurídica “associação”; com isso, muitos conseguiram, por exemplo, perpetuar certos sacerdotes em cargos de gestão (na associação, é preciso fazer “dança das cadeiras” com alguma frequência), ou não exigir sequer a existência de fiéis/associados, etc. Entretanto, o CNAE de “atividades religiosas” permite conseguir algumas imunidades e isenções tributárias, e a forma jurídica de associação permite “captar recursos” com mais facilidade; daí muitas organizações terem se mantido como associações com CNAE de “atividades religiosas”. Situação bem diferente é a das chamadas “obras sociais”, que vão desde a pequena associação que distribui sopa a pessoas em situação de rua num bairro até estruturas muito grandes e complexas como a CPT e a Caritas. Essas continuam sendo associações, e podem ser classificadas como OSC com facilidade. Mas pode haver confusão: muitas mantém esse CNAE de “atividades religiosas” por questões tributárias e deveriam estar na categoria de “Desenvolvimento e defesa de direitos”, mas, na prática, não fazem nada nenhuma “atividade religiosa”. Tudo isso levaria a discussão para um lado que não é exatamente o assunto desse artigo, mas exemplifica como o artigo fraquejou ao se escorar numa só fonte para a classificação, pois a do IPEA, apesar de recente, não é a única.
4. Ao contrário do que a segunda parte do artigo dá a entender, fundações e institutos empresariais são, sim, considerados parte da “sociedade civil”. Seu papel nesse campo, seja enquanto financiadores, seja enquanto sujeitos coletivos de advocacy, não somente é discutido dentro desse setor como é extremamente polêmico. A discussão que o artigo apresenta sobre o papel de fundações como a Fundação Bradesco, Fundação Vale, Fundação CSN, Fundação Ford, Fundação Cargill, Greenpeace, WWF, etc., é travada dentro do próprio “terceiro setor” nos mesmos termos apresentado neste artigo, ou até outros mais radicais. Se houver interesse em alargar o escopo para setores inteiros, sugiro, para ficar apenas nos que li ou reli recentemente: “Entre a alma missionária e o espírito mercador”, de Paulo Éverton Mota Simões; “O não governamental na Cooperação Internacional para o Desenvolvimento após 1990”, de Maria Elisa Huber Pessina; “A reinvenção do desenvolvimento”, de Anete Brito Leal Ivo; “Desenvolvimento e cooperação internacional”, de Elsa Kraychete e Carlos Milani; “Sociedade civil e participação cidadã no poder local”, de Elenaldo Celso Teixeira; “Neocorporativismo e política pública”, de Nelson de Oliveira; e “Cooperação internacional para o desenvolvimento”, de Elsa Kraychete e Denise Vitale. Não bastasse o debate acadêmico — onde a influência das OSC como ferramentas de política externa é discutido abertamente — essa discussão corre solta dentro do próprio terceiro setor. Há muitas cartas públicas, declarações, manifestos, questionando as políticas de financiamento da organização X, da fundação Y, do grupo Z… nos mesmos termos apresentados pelo artigo. Se você olhar as referências de um texto que o Passa Palavra publicou em 2010 (https://passapalavra.info/2016/03/111050/), vai encontrar alguma coisa nesse sentido, e num momento histórico, aliás, em que estava “na moda” confundir trabalho e militância nas organizações da sociedade civil. Claro, esses documentos só são lidos por quem está no próprio setor ou o estuda, pois o escrutínio público sobre tudo isso é pouco ou nenhum; mas não se pode assumir, sem mais, que se trate de grande novidade. Entendo que se trata de um artigo político, e de ocasião, mas algum rigor é necessário para não deixar má impressão.
5. É interessante o resgate do livro de Liliana Segnini, que é um entre muitos livros de “etnografia operária” publicados naqueles anos 1980. Novamente: um entre muitos. O resgate é pertinente, porque o assunto no ponto em que foi referenciado é a atuação da Fundação Bradesco. Entretanto, a referência, sozinha como está, é insuficiente, porque já se passaram trinta e oito anos desde sua publicação e a forma de atuação de organizações como a Fundação Bradesco em tempos mais recentes permanece na opacidade quando essa referência é a única mobilizada.
6. O que mais me chateou na segunda parte do artigo, chateação que se espalhou para o artigo inteiro, foi ter começado afirmando bem uma tese correta, empiricamente verificável, mas não ter sido capaz de outra coisa além de reafirmar platitudes. Um exemplo dessas platitudes é a correlação simplista entre a atuação geográfica de empresas e a atuação de suas respectivas fundações privadas. Um exemplo crítico: a Ford tem fábricas no Brasil desde 1921 e a Fundação Ford foi fundada em 1936, mas só veio atuar no Brasil nos anos 1960; o que explica esses 35 anos de hiato, se o artigo afirma, sem nenhuma mediação, que as fundações atuam onde a empresa está? A simples menção a canalizar recursos para a contenção geopolítica na América Latina é suficiente? O que diferencia esse modo de atuação de outra mais direta: a fundação da Fordlândia, em 1928? Esse é um dos tipos de ponto cego que a mera correlação, bem como a reprodução acrítica das teses das fontes, não ajudam a observar. É como se faltasse “carne”, historicidade, porque quem fala em “gestão” fala de medidas concretas, práticas, “faça isso” ou “faça aquilo”. Ficou tudo muito “por cima”, como numa olhada rápida que não aprofunda. O artigo resgatou um breve e importante histórico, mostrou distribuição geográfica das OSC, equiparou essa distribuição à das empresas, correlacionou-a muito superficialmente à atuação das empresas, mas ficou nisso. É como se a “carne”, a historicidade, as medidas concretas, a prática, estivessem pressupostas, como se se exigisse de quem lê conhecê-las de antemão. O que nem sempre é o caso.
É isso. O artigo é bom, puxa um debate importante, mas poderia ter sido bem melhor. Como está, mal tocou na superfície do problema além dos lugares-comuns.