Por O Jardineiro*

A democracia burguesa, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, bem como a própria República — especialmente a brasileira —, encontram-se em ruínas. Hoje, a maior parte da população já se recusa a legitimar essa forma de participação política: seja engrossando as fileiras do abstencionismo, seja invalidando o pleito por meio do voto branco ou nulo. Esse fenômeno não ocorre por acaso; ele é, primeiramente, o reflexo do profundo desinteresse popular em decidir quem será o próximo gerente das engrenagens do aparato estatal.

Desde a redemocratização do Brasil, as massas recebem apenas discursos vazios, projetados para convencer e iludir, enquanto a vida material nunca muda substancialmente. Como um grande teatro onde mudam-se os atores, mas o roteiro de exploração permanece o mesmo, esse desinteresse é a consequência direta da generalização da alienação para todas as esferas das relações sociais. No fim das contas, a política institucional, canalizada pelas eleições, representa a expropriação política da nossa capacidade de ação: é a terceirização do nosso controle sobre a forma como nos inserimos na luta de classes. Consequentemente, a autonomia dos indivíduos das classes inferiores para intervir na realidade é reduzida ao mínimo, enquanto a autonomia da burguesia cresce de maneira inversamente proporcional — o que garante, na prática, a manutenção de sua dominação enquanto classe.

Uma vez que a capacidade de intervenção das classes inferiores, que são a maioria da população, é asfixiada, o desinteresse surge como uma forma espontânea, ainda que despolitizada, de resistência contra a democracia burguesa. É um instinto de recusa em entregar as chaves da própria prisão. Nesse cenário, cabe aos revolucionários o papel de transformar essa insatisfação latente em combustível político. É preciso levar os indivíduos das classes inferiores, especialmente o proletariado, a perceberem que a nossa autonomia relativa para intervir na luta de classes é infinitamente maior do que a ilusão da representatividade tenta nos fazer crer. Para romper com essa lógica, um dos caminhos mais potentes é a afirmação do voto nulo, aliada ao estímulo incansável da luta pela autogestão social.

Na sociedade capitalista, onde impera o controle do trabalho e a expropriação de seus frutos, a classe dominante cria mecanismos para que essa lógica se infiltre em todas as relações sociais. Eis a verdadeira face da democracia burguesa e de sua ideologia de representação: não um espaço de liberdade, mas uma válvula de escape desenhada para manter a luta de classes estritamente sob o controle da classe dominante, domesticando as classes inferiores e especialmente o proletariado.

Portanto, a nossa energia não pode ser desperdiçada na tentativa de usar as ferramentas da própria burguesia para fazer imperar interesses não-burgueses. Tentar vencer o jogo capitalista usando as regras criadas por ele é como tentar apagar um incêndio jogando gasolina. Cada gota de esforço dedicada à via institucional-burocrática apenas fortalece a manutenção da burguesia. Mais do que isso, legitima a continuidade do controle sobre as classes inferiores e prepara o terreno para uma ditadura aberta, que será acionada sem hesitação no momento em que a crise de acumulação do capital exigir a extração de mais sangue e suor do trabalhador.

Contra a democracia burguesa e contra a ameaça de uma ditadura, a única força real é um proletariado unido e politizado. Continuar iludindo o mesmo sobre o poder transformador do voto, mascarando a nossa própria falta de autonomia, significa tornar-se mais uma engrenagem na dominação burguesa. A democracia, nesses moldes, ao semear o desinteresse e a despolitização, adormece as classes inferiores e cria as condições sociais perfeitas para que uma ditadura se instale sem enfrentar resistência real.

Por isso, frente a uma sociedade que nos exige assinar um cheque em branco aos nossos próprios algozes, os revolucionários devem reagir de forma contundente: afirmando o voto nulo e estimulando a luta direta pela Autogestão Social.

*Formado nos jardins revolucionários, aprendeu a regar as plantas e ter paciência para colher frutos do que antes era semente e gérmen.

As obras que ilustram esse artigo são de Bansky.

50 COMENTÁRIOS

  1. Existe uma pequena fauna política de periodicidade rigorosamente eleitoral. A cada 2 anos, sai do bueiro para explicar às mesmas quinze pessoas pq votar nulo expressaria uma recusa da democracia burguesa. Passada a eleição, volta ao silêncio e reaparece no pleito seguinte com praticamente o mesmo diagnóstico, a mesma linguagem e o mesmo público.

    eu, a propósito, também ñ votarei. Portanto, o problema não é a abstenção. É converter uma posição eleitoral negativa em sucedâneo de intervenção política e imaginar que o simples afastamento da urna já contenha, em estado latente, consciência anticapitalista, disposição autogestionária ou alguma dinâmica de organização coletiva.

    A ironia fica melhor quando se observa o intervalo entre as eleições. Parte desses revolucionários retorna à universidade, onde a radicalidade encontra formas bastante mais administráveis: curso sobre autogestão, certificado, carga horária, atividade de extensão, evento, publicação, currículo atualizado…

    Além disso, classe inferiores? Pelo amor de deus…

    Alguns usam pseudônimo para não sofrerem retaliação ou perseguição política. Outros, porém, como parece ser o caso aqui, é apenas para não passar vergonha.

  2. Tudo bem, Jardineiro, mas a vida não é o morango de disputa de centro acadêmico e dce. Sendo preciso pensar em políticas públicas a curto prazo, voltadas à educação, saneamento, alimentação, transporte, infraestrutura, etc., como seu voto nulo e sua revolução metafísica vão ajudar? Mesmo pensando em termos de longo prazo, é ridícula a forma de resolução colocada por esses ditos coletivos e grupos “revolucionários” que acreditam que causarão algum impacto real com o tocante de apenas uma eterna masturbação teórica dentro de suas seitas. Nos raros momentos em que eclode algum movimento, vocês fogem da luta. Dizem que a esquerda é covarde por votar, mas no dia-a-dia, vocês não fazem nada de relevante além de escreverem linhas toscas (como as desse texto) que vão circular apenas entre vocês. São nada além de fetichistas autoritários e obscurantistas.

  3. Nulo é o meu ovo esquerdo.

    “Cada gota de esforço dedicada à via institucional-burocrática apenas fortalece a manutenção da burguesia.”

    Realmente, em um momento de crise, tudo o que a gente quer é ficar sem acesso aos meios de defesa da população, que sofre constantemente, tendo seus direitos retirados por uma elite que corrompe os espaços legislativos. Se o autor ou a autora fizesse o exercício de analisar momentos históricos recentes, perceberia a importância que alguns parlamentares tiveram na manutenção dos direitos dos trabalhadores na crise de 2020 por exemplo.

    Todo mundo quer uma revolução pra chamar de sua, síndrome do protagonista, né ? A vida não é assim; a revolução se faz nos espaços de contradição também. É uma luta constante entre assegurar o direito à vida e à alimentação da classe trabalhadora e, infelizmente, ter que lidar com as barreiras da institucionalidade.

    Acho que a única coisa que concluí do seu texto é a falta daquilo que realmente importa na luta cotidiana, o pé no chão pra entender a realidade antes de se dedicar a escrever um monte de besteira.

  4. Encontro neste panfleto uma passagem esclarecedora. «Nesse cenário, cabe aos revolucionários o papel de transformar essa insatisfação latente em combustível político. É preciso levar os indivíduos das classes inferiores, especialmente o proletariado, a perceberem» etc. Em vez de serem os revolucionários a aprender com «os indivíduos das classes inferiores» — classes inferiores, que expressão extraordinária! — são eles quem os vai ensinar. Não se podia resumir mais sinteticamente o papel pedagógico que esses «revolucionários» atribuem a si próprios. É o que sucede quando se confunde grupo político com departamento universitário.

  5. A cada dois anos, nos processos eleitorais, reaparece dos rincões empoerados os autoproclamados revolucionários a defender o voto nulo como resposta ao sistema político existente, a Democracia burguesa. Essas repetições já fazem parte do ritual político democrático onde os dois atos cobrem o mesmo espaço, o democrático voto nulo e o identitarismo revolucionário, em uma promiscuidade consoladora, reduzido a um mero gesto simbólico de rejeição engajada na ordem. A vencedora é a democracia representativa burguesa e o seus ciclos eleitorais que tanto pretende-se combater. Além, da necessária, auto afirmação da própria identidade política, o identitarismo revolucionário.

    Será os revolucionários do presente os autogestores da sociedade do futuro, onde sua misão de guias autonomize-se diante as classes inferiores?

  6. Não lembro de ter lido em Marx “classes inferiores”. Mas lembro de ter lido, acho, em Eagleton e naquele que por algum motivo, desconheço qual seja, não devemos chamar pelo nome e que é líder, não sei, dizem, de um grupo de estudos vinculado a academia (imperdoável, devemos nos vincular apenas aos partidos burgueses pseudo-esquerdistas e aos grupos de academia autorizados pelo safado! epa, quero dizer, Safatle – filósofo, psicanalista, fazendeiro e autor ele mesmo de um dicionário que ele chamou de alfabeto! Adoro dicionários! Estão sempre policiando meu medo de errar (neste caso, a pauta do que pode e do que não pode ser debatido)!, um grupo que o povo aqui já esculachou bastante, e que também não deve ser nomeado por motivos que eu também desconheço.

    Acho que, para não mais ferir os sensíveis leitores do nosso sofrido site, devemos suprimir de nosso vocabulário, já tão policiado pelos identitários, mais essas palavras: subalternos e escravos (exceto se estivermos falando dos pretos que foram escravizados, mas usar escravos em substituição ou ao lado de assalariados, não pode, é pesado demais, talvez seja até racismo). E também não demos usar a palavra “coisa” para nos referir a pessoas (reificação ninguém sabe o que é, então segue podendo usar). E o bocudo do Marx que se cuide! E o bicho era, em?! bem bocudo! O que mais está proibido falar/escrever? O que mais é ultrajante aos olhos delicados dos nossos leitores?

    Jardineiro, acho uma pena… se tivesse pensado um pouco mais na deselegância (JB, por exemplo, gente fina que é, jamé usaria termos de baixo calão) do termo, teria dificultado um tanto a vida dos nossos comentaristas psolistas (que eles mesmos, salvo engano, não criaram coragem para falar aqui de eleições este ano, não obstante, lá foram eles novamente, militudos carteirinha, os certos!, os ponderados de pés no chão, os impacientes e medrosos, os desavisados e os que temem perder os cargos que o mandato garante, distribuir panfletos com um adesivo redondo colado na testa).

    De resto, não tenho mais idade para os panfletos, mas simpatizo com o título!

  7. Se por um lado é verdade que, entre o que se chama de esquerda, essa defesa do voto nulo aparece a cada dois anos e depois desaparece, por outro lado também é verdade que a cada dois anos isso logo levanta uma onda de indignação entre pretensos esquerdistas e revolucionários. Como e quando a crítica e denúncia das eleições burguesas e do aparelho de Estado se tornou tabu até mesmo entre a esquerda pretensamente marxista, autonomista ou mesmo anarquista?

  8. Quantas horas complementares o guru Nildo Viana, Olavo de Carvalho da esquerda revolucionária de pdf, pagou pra escrever esse texto? Cuidado para ele não te deixar de castigo por publicar aqui e não nas revistas dele!

  9. Já vi muitas pessoas interpretarem mal textos complexos e até os mais simples, mas, Semente Transgênica, confesso que é a primeira vez que vejo alguém errar a interpretação inclusive do título de um panfleto. Está explícito: trata-se de votar nulo e lutar pela autogestão social, e não de cruzar os braços aguardando passivamente o próximo ciclo eleitoral. Nesse ponto, sou obrigado a concordar com você: faz muito bem em se esconder atrás de um pseudônimo, pois um erro de leitura básica dessa magnitude é, de fato, constrangedor.

    Aos que clamam pelas vias institucionais, como Juliana Antunes e Galo Revolucionário, é preciso esclarecer que este texto tem um público-alvo muito específico: os revolucionários, e não os eleitores habituais do PSOL ou do PT. O cerne da nossa discussão é como negar o Estado burguês e contribuir para a revolução, e não legitimar a dominação de classe travestida no discurso simplório e envergonhado de que depositar um voto na urna transformará magicamente o cotidiano de alguém. As políticas estatais servem apenas para regular problemas criados pelas mesmíssimas causas que originaram o próprio Estado — tentar resolvê-los por essa via é como tentar curar uma hemorragia abrindo outra ferida. Portanto, não vou retroceder o debate para explicar didaticamente por que a dominação de classe deve ser abolida; o que estamos discutindo aqui é a forma como se faz isso. Se o objetivo de vocês é debater estratégias para angariar votos, sugiro que procurem seus pares nos comitês eleitorais, pois aqui não encontrarão o que buscam.

    Quanto ao comentário de João Bernardo, deixo claro que em nenhum momento do meu texto expressei qualquer relação professoral entre “quem ensina” e “quem aprende”. Quem enxergou essa presunção pedagógica foram os seus próprios olhos, então, por favor, não coloque a sua tinta no meu papel. O que afirmei foi a necessidade de transformar uma insatisfação já existente, porém despolitizada e espontânea, em algo radical. Boa parte da população brasileira já não vota, mas o faz mergulhada em um desinteresse. O desafio é exatamente converter esse desinteresse em um interesse revolucionário. Concordo com Marx e Engels quando apontam que os revolucionários não têm interesses distintos dos do proletariado, diferenciando-se apenas pelo internacionalismo e pelo pensamento teórico, que é capaz de identificar tendências. Entre Gorter e Rühle, na clássica discussão sobre a organização dupla e única, defendo mais a posição do primeiro. Não podemos olhar de forma apologética para toda e qualquer ação que advém do proletariado e das demais classes inferiores. A ignorância nunca ajudou ninguém; não devemos defender o proletariado enquanto classe determinada e esmagada pelo capital, mas sim como classe autodeterminada.

    E a Gogol, deixo a pergunta: a resposta adequada seria, então, a inércia? As eleições são um fenômeno concreto que ocorre a cada dois anos. Devemos, sim, falar sobre elas e recusá-las ativamente, mas exatamente como o panfleto estimula: unindo essa recusa à luta prática pela autogestão social, a união do proletariado, etc. Meus colegas de luta e eu nunca paramos de realizar nossa luta. Realizamos diversas durante o ano inteiro.

    Por fim, como bem observaram Serviço de Polícia e Paulo Henrique, o cenário se explica por si só. Chega a ser fascinante notar como um texto simples e direto sobre a necessidade de negar o Estado burguês consegue provocar uma crítica verbalista e tantos rodeios retóricos, apenas para, no final das contas, tentar justificar o injustificável: a manutenção da dominação através do voto em partidos “progressistas”.

  10. Parabéns! jardineiro, a esperança é que um dia o jardim da revolução floresça sobre as ervas daninhas das mentalidades reacionárias, burras e oportunistas.

  11. Discordo bastante do texto, mesmo entendendo que o momento abre espaço para se fazer política. Mas acho necessário mais criatividade e menos autoproclamação. De forma mais direta, minha crítica a todo o texto está resumida em uma parte:

    “É preciso levar os indivíduos das classes inferiores, especialmente o proletariado, a perceberem que a nossa autonomia relativa para intervir na luta de classes é infinitamente maior do que a ilusão da representatividade tenta nos fazer crer. Para romper com essa lógica, um dos caminhos mais potentes é a afirmação do voto nulo, aliada ao estímulo incansável da luta pela autogestão social.”

    Esse trecho e a discussão nos comentários me fizeram refletir sobre dois pontos que eu gostaria de compartilhar aqui:

    1) Diferente da visão ultravanguardista que parece que ficou atrelada à primeira parte por alguns comentários, entendo que você se considera parte das classes inferiores, daí o “nossa autonomia relativa…”. Mas você traça uma separação aí entre um setor que tem o objetivo de levar o esclarecimento para outro. Daí a pertinência do comentário do João, “a aprender com”. Acredito que seja claro, para todos nós, a existência dessa diferença, entre militantes que além de terem suas vidas almejam uma revolução social e a ampla maioria da nossa classe que não tá nem aí pra essas grandiosidades de revolução e só quer saber em fechar o mês. E também não vejo de forma moral o argumento de tentar fazer, onde a gente se insere, os trabalhadores, nossos colegas de trampo, amigos que trampam em outros lugares, a “perceberem que a nossa autonomia relativa para intervir na luta de classes é infinitamente maior do que a ilusão da representatividade tenta nos fazer crer”. Acho que todo militante de perspectiva autogestionária (socialista libertária, anarquista, marxista, bernardista, vianista, etc, etc, etc) deveria se preocupar em propagandear essa idéias, das diversas formas possíveis, inclusive (e talvez mais importante) nas lutas (e nas “lutas dentro das lutas”), que em geral tão pouco se fodendo com eleições. Mas a defesa disso em abstrato pode ser inclusive contraproducente, isto quando não é – e na maioria das vezes é – inútil. E daí o “aprender com” seja tão importante.
    Até aqui, eu acho que o vanguardismo apresentado pode ser justificado, a depender da boa vontade de quem lê.

    2) O problema é que o fechamento disso é mais vanguardista e pró-eleitoral possível. A forma para enfatizar a força da nossa auto-organização enquanto classe não está na própria auto-organização enquanto classe, mas no “voto nulo autogestionário”, tido como “um dos caminhos mais potentes”. Ora, como mensurar essa potência? O que indica que esse “voto nulo autogestionário” de fato contribui para a auto-organização?
    Aí eu acho que recai no mesmo problema dos adeptos do voto, que é de pensar em ter controle sobre o processo de mudança política das pessoas em um período eleitoral e conferir uma importância monumental a um processo que já parece ser definido e que não temos nenhum controle sobre o resultado e seus desdobramentos. A real é que as lutas autônomas e orgânicas, ativas e coletivas, não se importam com as eleições e se desenvolvem independente delas. E elas tem muito mais a oferecer à ênfase da auto-organização, da autogestão, do que qualquer voto, inclusive o voto nulo autogestionário.
    Por outro lado, eu vejo a importância desse tipo de debate, sobre voto nulo, sobre insatisfação, etc. Eu acho que tem um monte de gente bem insatisfeita, confusa, puta, etc. que tem interesse nesse tipo de debate e que pode de alguma forma se unir a nós para lutas e reflexões futuras. Mas isso é apenas o que essa ação pode trazer. Aliás, eu já participei de algumas “campanhas pelo voto nulo” que tomaram muito tempo e só serviram pra reforçar no nosso pequeno circulo militante a importância do que todos nós já considerávamos importante. Em outro momento, fiz parte de um grupo que puxou um candidato falso pra tirar um sarro com o processo eleitoral e que terminou sendo uma página de exposição de relatos de trabalhadores de uma cidadezinha litorânea. Mas isso veio com a secundarização do voto, e da nossa própria proposta do candidato fictício, pelas demandas do trabalho de colher e divulgar os relatos. Mas nessa cidade também rolou antes um papo sobre voto nulo que uniu boa parte dos poucos “doidinhos” que depois foram experimentar com o candidato fictício.
    Eu acho que há sim algo da “identidade revolucionária”, e acho que isso não é de todo ruim. Os slogans do voto nulo, as bandeiras, etc, servem para unir as pessoas, criar uma comunidade disposta a atuar e refletir junta, e isso é importante. Mas a transformação disso em um dogma, na importância disso como fator para a revolução, é cair na ilusão. Aí se concretiza o identitarismo. O “voto nulo autogestionário”, se levarmos essa proposta a sério, só se mostrará de fato quando as condições já forem de autogestão – e aí cabe pensar na própria utilidade da tática nesse momento. O voto é mais reflexo do que é e menos afirmação do que pode vir a ser.

    *** *** ***

    Aliás, faço coro com o comentário do Paulo Henrique.

  12. Quase

    Na véspera da Eleições de 2022, ao convocarem o voto em Lula, me diziam:
    《Depois do governo Bolsonaro e da pandemia, precisamos de um respiro.》

    Retruco:
    《Mas caso se fique apenas no voto e no respiro, a tendência é repetir o voto e o respiro em 2026…》

    Então o argumento ficou dramaticamente enfático:
    《Se Bolsonaro for reeleito, seremos [a Esquerda] caçados nas ruas à pauladas!》

    Afirmo com serenidade, apesar de muito preocupado:
    《Se erramos tanto para a esta altura corrermos este risco, talvez seja o caso de sofrer as consequências. Não por masoquismo, mas como exemplo.》

    E hoje, em 2026, o fantasma das eleições passadas ainda está aqui… O que poderiam me dizer? O que dizer a si mesmo?

    Os argumentos ainda são os mesmos. Perderam o viço, porém. Como imagens esmaecidas na tela defeituosa de um celular.
    Até no campo pró Bolsonaro aquele mesmo ódio já não faz a boca espumar tanto quanto antes… O Viva la Muerte não soa mais tão vivo.

    Por onde andam as incontidas paixões políticas que sacudiram o Brasil na última década? A revolta dentro da ordem se acomodou? O pavor de ser caçado nas ruas e ser cancelado nas redes se arrefeceu? O que mudou?

    Algo mudou?

    Todo o descontrolado frenesi da polarização política girou em falso e está esgotando sua própria energia? Talvez… Mas alguma coisa está diferente, com certeza. Até parece se formar uma percepção, mesmo ainda evanescente. Não sei…

    Também pode ser, e apenas pode ser, que a farsa da democracia liberal representativa esteja apresentando sinais de exaustão. Já não convence quase ninguém. Quase…

    Escândalos que já quase não escandalizam. Show de horrores que quase já não horrorizam. Revelações bombásticas que já, quase, não surpreendem. Eleições que quase já não mobilizam…

    O que acontece quando mesmo o Fascismo já está a ponto de, quase, não mais conseguir processar o Desejo por mudança?

  13. Caro jardineiro,

    Acho contraditório questionar a forma representativa e excludente das eleições democráticas burguesa e defender constrangimento da ida as urnas para se votar nulo, prefiro a abstenção, e procuro achar algo mais interessante pra se fazer nesses dias de circo eleitoral. Estou tão pesado demais para que a força do voto, seja ela em candidatos oportunistas de esquerda, ou pela fé no voto nulo, essas alternativas não mais me movem. Então, sim, nas eleições, nesse campo de disputa, prefiro a inércia, essas forças não me comovem mais.

    Embora eu adote uma postura abstencionista que não discorda dos principios levantados pelo seu texto, já não acredito mais em tal afirmação: “Hoje, a maior parte da população já se recusa a legitimar essa forma de participação política: seja engrossando as fileiras do abstencionismo, seja invalidando o pleito por meio do voto branco ou nulo. Esse fenômeno não ocorre por acaso; ele é, primeiramente, o reflexo do profundo desinteresse popular em decidir quem será o próximo gerente das engrenagens do aparato estatal.”

    Ou estou com muita má vontade em observar essa tal “recusa” popular e me encontro em um estado de inconcência, ou o texto repete algo que um dia eu mesmo já afirmei, e hoje já dúvido muito da veracidade dessa recusa consciente da população.

    Já que aqui no Passa Palavra boa parte dos debates tem enfatizado a nessecidade do levantamento de dados para o enriquecimento das análises. O que se pode extrair desses dados para gerar informações para a militância? Tal recusa é real de fato?

    Desde já, acho que o debate deve ser feito!

  14. Jardineiro, você acha que eu tenho medo de intimidação?
    Nos conhecemos de longa data e sei que você, como eu, é fruto das políticas públicas que você está negando. É fruto de IF, de financiamento estudantil, de universidade pública e bolsa de pesquisa. Negar os problemas da realidade concreta e a necessidade de lidar com eles a curto prazo, amenizando-os, não é só negacionismo como sadismo. Você mostra, ainda, desconhecer que história é dialética, fundamentada no concreto e em contradições.
    Vou votar sim. Quer minha cola eleitoral para me monitorar? Não tenho vergonha. Sempre emiti meus posicionamentos quanto ao nível institucional e você sabe disso. Nunca me omiti da crítica em relação a eles também. Tampouco, diferente de você, nunca fugi das lutas eivadas em protestos, ocupações e construções cotidianas. Não tenho vergonha dos meus posicionamentos. Teria vergonha, sim, da posição covarde de se apegar em um local de engolido pela academia, de estar em um coletivo que aceita agressão contra a mulher (eu estava lá e você também). Teria vergonha de fugir do debate, como você fez, ao não responder minha pergunta.
    Tenho o total direito de ler e opinar sobre um texto. O pp é um espaço aberto para isso. Se há alguém aqui que não seria bem-vindo é você, que critica o site e as pessoas que escrevem para ele e o mantém justamente pela abertura ao debate.
    No mais, cresça e saia da posição de olhar apenas para o próprio umbigo.

  15. Quanta baixaria. É um falando que o outro é academicista e sem prática política real, é outro falando de um que também é academicista e que, pior, é pelego. Aí depois aparecem os defensores do voto e das políticas publicas críticos da revolução e da autogestão e jogam na cara que o autor se beneficia de políticas públicas e sugerem que é financiado via horas complementares para publicar por aqui. O Passa Palavra já foi melhor frequentado.

  16. O que mais me chama atenção não é nem o nível do debate (o material de partida já era sofrido), e sim que o texto não está sequer formatado no padrão do site.

  17. Passa Palavra virou Passa Fofoca. Agora a gente lê e passa raiva ou tristeza. Fim de um espaço que tinha bons debates, ou momento obscuro dos coletivos de esquerda radical? Se momento obscuro, por quais motivos?

  18. Quer dizer então que jardineiro está devendo na praça! “fruto das políticas públicas que você está negando. É fruto de IF, de financiamento estudantil, de universidade pública e bolsa de pesquisa”… Tom Zé virou jardineiro para pagar as dívidas de condomínio. Jardineiro vai ter que desvirar jardineiro pra pagar, com a moeda chamada voto, sua formação. E moral aqui é qual? Não é uma humanista, que preza pela dignidade das pessoas. A moral é capitalista. Lula e os bancos que nunca lucraram tanto compraram, agora jardineiro que pague com seu voto, com sua dignidade, com sua vontade, com sua autonomia.

  19. Sabiá, agradeço pelo comentário e pelas discordâncias respeitosas. Acredito que a nossa principal divergência, e ressalto que não busco te convencer, mas apenas evidenciar nossos contrapontos a fim de refletirmos, gira em torno do que entendemos por vanguardismo e quais são as tarefas dos revolucionários.
    Ao meu ver, o vanguardismo é uma forma de controle da classe proletária, na qual um partido busca dirigi-la a fim de conquistar o aparato estatal. Isso difere do reboquismo, que é uma concepção que endossa as ações da classe de forma apologética. Discordo de ambos. No entanto, vale demonstrar por que o “voto nulo autogestionário” é antagônico ao vanguardismo e estimula, na verdade, a auto-organização da classe proletária. Neste texto, defendo que os indivíduos interessados em transformar verdadeiramente a sociedade devem negar a democracia burguesa e o Estado burguês, bem como o modo de produção capitalista e lutar por uma outra sociedade, baseada na autogestão social.
    Embora a forma de luta não tenha sido aprofundada neste breve texto, apontei a necessidade de criticar a ideologia da representação e a democracia burguesa. Se os indivíduos não superarem essas ilusões específicas e formas de controle, não conseguirão transcender as lutas espontâneas para atingir um nível maior de radicalidade. Ou seja, não estou assumindo uma postura professoral ou professando dogmas; estou afirmando que devemos contribuir para a remoção dessas ilusões e estimular a radicalidade da autoatividade do proletariado. As classes lutam, e nenhuma delas fica inerte. Logo, o dever dos revolucionários é também combater as contratendências que impedem a radicalização proletária. As eleições são tão somente uma oportunidade para criticar a democracia e o Estado burguês, afirmando a necessidade de acelerar o processo revolucionário.
    Portanto, a questão tem muito menos a ver com a qual classe eu pertenço, e muito mais sobre os interesses de qual classe eu expresso e como contribuo para sua radicalização, lado a lado com diversos colegas de luta. A luta pelo voto nulo autogestionário pode gerar boas discussões, mobilizações e reflexões, sempre lembrando que o voto, no brasil, é obrigatório, o que já é um constrangimento; por isso a considero necessária, embora concorde que demande energia. O fundamental é estimular a luta por uma sociedade radicalmente diferente, focando na revolução proletária, sem a ilusão de que o voto transforma a realidade de fato. Essa nossa concordância torna possível aprofundar o debate sobre as tarefas dos revolucionários hoje, que, como você bem disse, vão muito além das eleições. Como não pude me alongar muito no texto, sugiro duas leituras e um vídeo cujos autores assino embaixo para aprofundamento:
    Voto Nulo Autogestionário e Coerência Revolucionária (Rubens Vinicíus): https://redelp.net/index.php/rma/article/view/1006/954
    Teses Sobre Democracia, Eleições, Voto e Voto Nulo (Lucas Maia): https://redelp.net/index.php/renf/article/view/751/718
    Vídeo recente sobre democracia e alternativas (NEM DITADURA, NEM DEMOCRACIA BURGUESA! QUAL A ALTERNATIVA?): https://www.youtube.com/live/1VOW7K_tMro

    Passando ao Gogol, consigo respeitar o seu posicionamento abstencionista, desde que, passada a eleição, você tenha energia para continuar estimulando a luta e contribuindo para a aceleração do processo revolucionário. No fim das contas, isso é o que realmente importa. As eleições e essa falsa polarização são de fato desgastantes, mas, às vezes, abrem espaço para reflexões mais abrangentes, pois a condição da eleição está deplorável e gera cada vez mais insatisfação.
    Sobre a recusa de parte da população em relação às urnas, é inegável que ela se manifesta de diversas formas. As pesquisas eleitorais, que, diga-se de passagem, são bem limitadas, apontam para índices expressivos de abstenção e de votos brancos e nulos neste ano. Dentre os motivos para essa recusa, o desinteresse, que é uma forma de recusa, é um dos principais. Contudo, como já destaquei, trata-se de uma recusa despolitizada e nada radical. Não há ingenuidade da minha parte: apenas aponto que esse fenômeno existe e que precisa ser radicalizado. Quanto aos “dados”, acompanho os debates aqui no site, mas discordo da forma como essa investigação costuma ser conduzida. Basta observar as pesquisas da ciência política sobre o abstencionismo no Brasil: eles tentam extrair informações a partir de concepções ideológicas prévias e chegam a conclusões bastante rasas. Para eles, a abstenção é mero sintoma do desgaste causado pela polarização, sem aprofundar as verdadeiras origens desse desinteresse, como, por exemplo, a alienação generalizada nas relações sociais. No fim das contas, “dados não são apenas dados”, pois são filtrados por modelos específicos que, na ciência política, se mostram bastante limitados.

    Por fim, respondendo à Juliana Antunes: em momento algum tentei intimidar alguém a sair do Passa Palavra. O que afirmei foi apenas que o meu texto tem um público-alvo específico e não se dirige a progressistas que votam e buscam angariar votos. A nossa discussão aqui foca na forma pela qual iremos negar o processo eleitoral e lutar por uma nova sociedade.
    Você, no entanto, optou por trazer a minha vida pessoal para o debate — e é justamente para evitar esse tipo de ataque pessoal e rasteiro, tão recorrente contra mim, que o uso de pseudônimos se faz útil. Você citou um histórico com bolsas de pesquisa e ensino técnico. Pois bem, aceitemos o seu argumento e proponho analisá-lo mais a fundo: para todos os indivíduos na sociedade capitalista que recebem bolsas de pesquisa com valores defasados, que sequer sustentam um ser humano e empurram para a informalidade (já que proíbem o vínculo empregatício formal), ou cursam um ensino técnico desenhado especificamente para preparar mão de obra barata, isso seria motivo suficiente para defender a democracia burguesa, o Estado e determinados partidos? Veja bem, não é porque o Estado oferece migalhas na forma de políticas estatais que devemos nos acomodar ou nos ajoelhar perante a dominação burguesa. Agora, suponhamos que essa bolsa de pesquisa e esse ensino técnico garantissem uma renda alta para viver; mesmo assim, seria motivo suficiente para aceitar a dominação burguesa e defender o voto em determinados candidatos? Recomendo a todos que, se os editais de bolsas de pesquisa impuserem como condição o voto em candidatos ou a participação em eleições, recusem-as, pois aceitá-las seria vender a própria luta. Concordando com alguns dos comentários, encerro a minha resposta parafraseando, com profundo lamento para onde esse debate se encaminhou, Dante: Seguo il mio corso, e lascio dir le genti.

  20. Os grupos (coletivos, movimentos, partidos, empresas) que receberam críticas nesse portal sempre foram muito bem nomeados. Mas de um tempo pra cá, venho notado ataques gratuitos partindo de alguns comentaristas para com um grupo (penso ser o mesmo pelos próprios comentaristas) que não é nomeado uma única vez. Aqui temos algo mais, a imputação de um crime. Um, infelizmente, bastante comum nos meios de esquerda. A questão é: por qual razão não tornar pública a crítica? Qual razão da covardia de não nomear um coletivo que vocês fazem questão de escorraçar com frequência nos comentários?

    Cool Lapsus, o momento obscuro não é apenas nos “coletivos de esquerda radical”, é no próprio mundo. Aliás, basta olhar para o lado para ver a terra arrasada que é a tal esquerda. O que eu recebi de prints de antigos camaradas agindo como robôs do petismo em defesa da Nossa Senhora, coisa que muitos tratavam com desdém e desprezo, é assustador. Para entender o momento obscuro em que vivemos, comece saindo de casa.

  21. Nada como um dia depois do outro… Acho engraçado tanta esteria diante de um manifesto de voto nulo consciente. Que perigo… A esquerda é tão apelativa que chega a dar nojo. A direita também. É tanto mínimo e tanto blablabla, e depois escrevem textões tentando se justificar, kkkkkkk.

  22. Acompanho o site há muitos anos. Não acho que ele tenha virado espaço de fofoca, apesar do nítido declínio dos comentários e mesmo das publicações. Acho que os ataques pessoais aqui proferidos tem relação com o tema tratado no artigo. É só ver que isso não ocorre ou ocorre muito menos em artigos de outros temas. A meu ver, dentre outras coisas, isso tem relação com a absorção da esquerda pelo aparelho de Estado e pelas empresas e aparelhos ideológicos do capital. Se tornou difícil para esse campo a produção de um discurso que ultrapasse os marcos Institucionais. Mesmo entre os que se pensam no campo revolucionário, para quem está atrelado até o pescoço à ordem vigente, a ideia do “mau menor” é muito atraente.

  23. O debate sobre o tema aqui no site de fato já foi muito melhor, tanto nos artigos publicados, quanto nos comentários subsequentes. Penso que neste assunto, mas não só, a discussão na extrema-esquerda ficou press em círculos que vão piorando cada vez mais.
    Talvez valha ler de novo o que já foi escrito:
    Entre a desconfiança e o desinteresse: A abstenção eleitoral nas democracias https://passapalavra.info/2009/03/1579/
    Fora de pauta: um debate: https://passapalavra.info/2010/10/30891/
    Notas sobre o tão falado 2º turno: https://passapalavra.info/2010/11/31270/
    México: para além das eleições – sonhos que não cabem nas urnas https://passapalavra.info/2012/07/61655/
    Os cinco candidatos a serem derrotados nas eleições https://passapalavra.info/2014/10/100352/
    Eleições 2018: a esquerda aposta no conservadorismo? https://passapalavra.info/2018/07/120200/

  24. O excelente desenhador El Roto publicou no El País de ontem um cartoon que, não sei porquê, me fez lembrar este panfleto e muitos dos comentários. Podem ver aqui.

  25. Que bom que o Jardineiro, que ontem me mandou mensagens choramingando no meu telefone pessoal, criou coragem de vir debater em público! E usar pseudônimo por “perseguição”? Se dê a devida desimportância.
    Em momento algum afirmei que é preciso votar para agradecer as bolsas. Agir como forma de “agradecimento ” é o que teu grupelho faz na citação eterna de um mesmo autor tido como uma figura paterna por vocês, nas questões freudianas mau resolvidas que vocês têm. Se você tivesse a mínima capacidade interpretativa que diz ter (se lembra de quando afirmou que é “superiormente intelectual”? Eu me lembro), entenderia que não estou afirmando o voto como agradecimento, mas enquanto espaço de decisão para a abertura à formulação de políticas públicas que garantam conseguir existir. Fora do mundinho metafísico da formulaçào pseudorevolucionária (vocês amam o termo “pseudo” para humilhar quem ousa discordar de vocês) da masturbação teórica de um marxismo ortodoxo e ultrapassado, quem luta de verdade, na batalha cotidiana e na militância, precisa de condições materiais na realidade concreta para fazê-lo. Ou acha que em um contexto de governo autoritário os eventinhos de vocês, as revistinhas e os livrinhos existiriam? Ainda que sejam ruins e lidos ou frequentados por apenas 10 gatos pingados, não haveria espaço para tal.
    Além disso, o valor das bolsas está sim defasado (sinto isso na minha carne todos os dias). Mas se não é pra lutar pelo reajuste é para fazer o quê em prol da garantia da nossa existência a curto prazo? Ou você acha que a revolução vai acontecer amanhã? (na cabeça de quem já afirmou, no debate de um outro texto, que “Nildo Viana refutou Darwin” e que diz que “no futuro ninguém vai morrer porque os autogestionários vão descobirir a fórmula para a vida eterna”, eu não duvido dessa crença).

  26. Juliana, por que você não fala logo o nome do coletivo que você tanto ataca por aqui? É tanto ódio acumulado em todos os seus comentários nesse site (ódio e pelegagem – quem diria que o PP atrairia esse tipo de público defensor aguerrido das “políticas públicas”, aliás, acredito que não me surpreenderia nada com a sua “militância” ou seu “lutar de verdade” – pra falar tão mal do autor e de sua prática, a sua deve ser invejável) que é esperado minimamente que, após acusar o grupo de um crime, você tenha pelo menos a coragem e a decência de nomeá-los. Já teve coragem pra defender política burguesa e falar merda de quem defende a revolução num portal que sempre a defendeu, qual o problema de nomear o grupo que desperta em você tanto ódio a ponto de te fazer sempre voltar aqui para xingá-los? É ressentimento que chama? Mas a covardia de dar nome fala mais alto e é melhor alimentar os ataques rasteiros na boca miúda e na fofoquinha?

  27. Boa tarde.
    Depois de investir meu tempo valioso, para ler atentamente o texto e demais comentários, chego a uma conclusão.

    VOTO NULO E LUT0 PELA AUTOGESTÃO SOCIAL !!

    Mas, não posso deixar de agradecer os comentários contrários ao texto, ajudaram e muito na minha decisão.

  28. Eu retiro o que eu disse sobre o Passa Palavra não ter virado espaço de fofoca. Está valendo mais a pena ver os comentários aqui do que o programa do Leo Dias. E olha que era para ser uma simples crítica ao Estado e a um de seus principais instrumento de legitimação, o pleito eleitoral, mas por algum motivo isso fez com que emergisse comportamentos rancorosos entranhados no íntimo das pessoas.

  29. Estou passando aqui para dizer que não responderei comentários desrespeitosos e que nada tem a ver com a discussão real. No entanto, gostaria de apontar ao passa palavra saber diferenciar a liberdade de discussões do democratismo. Essa possibilidade de desrespeito ao outro dessa forma não é liberdade na discussão. A moderação existe e deveria se atentar ao significado de democratismo, pois isso torna possível essas pessoas partidarias a usar o desrespeito e acusações a fim de defender sua boca livre no Estado.

    Todos estão de prova que fui respeitoso e nunca levei a discussão a nível pessoal. Agradeço as providências do passa palavra que não deve permitir isso ocorrer dessa forma.

  30. O progressismo/conservadorismo é uma ideologia perigosa, preocupante. Não se pode criticar sob o risco de ser tachado de “esquerdista”, um termo pejorativo usado por Lenin para atacar a oposição dos conselhistas durante a contrarevolução bolchevique. Falar de revolução e contrarevolução é sempre uma chatice pra eles – lá vêm eles de novo com essa história. Todos os meus amigos e amigas, parentes, colegas, vão votar, num ou noutro candidato. Sinceramente, pra mim não importa. Seja qual for seu candidato, a ideia é a mesma, o conformismo é o mesmo, o máximo que fazem é lutar por mais Estado, ou por menos Estado. O que é pior? Ou menos pior?
    Os ataques pessoais, tentativa de silenciosamente, constrangimento, fazem parte da política burguesa, é prática nas negociações, no toma lá, dá cá. Infelizmente, poucos são aqueles que não entram nesse jogo de interesses e se mantém firmes, ainda que isso possa representar perdas individuais. Os progressistas não têm vergonha de se ajoelhar e beijar as botas que os pisam, desde que sobrem algumas migalhas para si. Pode ser que o Estado bonzinho jogue mais migalhas, basta se deitar a seus pés, e se isso não for suficiente, é porque os outros,.mas não ele, ou ela, não se ajoelharam o suficiente, mas ele fez o que podia, se sacrificou. São religiosos, têm fé na política burguesa. Acreditam realmente que o Estado pode ser colocado a serviço dos trabalhadores. Eu acho triste isso. Rio, mas acho triste. E não entendo como podem se rebaixar tanto ao ponto de criticar quem ousa não participar da política de conciliação de classes. Vergonha alheia.

  31. Movault e Passa Palavra são coletivos insignificantes para a luta social.

    Servem como referência teórica de uma parcela extremamente pequena da classe trabalhadora, de um lado ou outro do Atlântico.

    A politização da sociedade tem ocorrido num espaço e dimensão nos quais nenhum dos dois coletivos existem, logo não atuam.

    O debate decorrente do artigo não tem base factual. A partir disso o que há são acusações pessoais que caracterizam o ambiente militante goianiense, mesmo que as pessoas não estejam em Goiânia. (Os paulistanos são também iguais, como os demais grupos estaduais que orbitam nessa constelação – sem estrelas – do autonomismo. só são mais soberbos, daí a recusa de expor as tretas).

    O questionamento prático é: qual a resposta possível diante do avanço do fascismo a partir dos meios eleitorais tradicionais, tanto no continente Americano quanto no Europeu? Uma campanha de voto nulo é o melhor caminho, já que a extrema direita historicamente se valeu disso para chegar ao poder?

  32. LL trouxe uma bibliografia no PP que debatia a abstenção e o voto nulo em um tom mais crítico. Talvez ele possa nos ajudar a relembrar de debates mais críticos do petismo, políticas sociais (como o bolsa família e as cotas que circulavam por aqui), entre outros assuntos que circulavam por aqui.
    Será que as novas gerações precisam tratar o passado sempre como uma “folha em branco”, repetindo os mesmos erros e ficando presas em círculos? Talvez seja hora de retornar ao básico e começar pela primeira lição: o vínculo umbilical entre estado, gestores e capitalistas. Quem sabe, quebra-se assim a ingenuidade de que o governo Lula está preocupado com os “pobres”, pior ainda, com a “bolsa de pesquisa” de indivíduo X ou Y. Quanta ilusão… Quase religiosa

  33. sobre projetos políticos lançados a partir de departamentos universitários, aqui na Argentina temos o belo exemplo do “Via Socialista”, ex-Razón y Revolución. Uma pena. Antes dessa triste etapa tinham um trabalho editorial muito interessante, lançaram títulos importantes e que não eram editados por outros grupos de esquerda. Também têm alguns livros de pesquisa própria de qualidade.
    Mas a sede de protagonismo falou mais alto. A vida parece mais interessante se quando olhamos no espelho vemos Che Guevara.

    Sobre o voto nulo, lembro também que na eleição nacional de 2015 a frente trotskista aqui fez campanha para o voto nulo no segundo turno. Foi uma estratégia para tentar participar do segundo turno, tentando construir uma narrativa para capitalizar esses votos como próprios. Desde então entendi que assim funcionam as campanhas por votos nulos. São setores que tentam participar das eleições mas que não têm a relevancia mínima para isso, então fabulam uma narrativa para relacionar alguma porcentagem dos votos ao seu campo político, por poucos que sejam.

  34. O comentador Primo Jonas forneceu uma das chaves de interpretação deste panfleto e da fúria que se desencadeou em sua defesa:

    «Desde então entendi que assim funcionam as campanhas por votos nulos. São setores que tentam participar das eleições mas que não têm a relevância mínima para isso, então fabulam uma narrativa para relacionar alguma porcentagem dos votos ao seu campo político, por poucos que sejam.»

    É isso, fabulam uma narrativa para relacionar alguma porcentagem dos votos ao seu campo político, por poucos que sejam.

  35. João Bernardo e Primo Jonas, as observações de vocês são absolutamente unilaterais. Deslocar o voto nulo ou a abstenção eleitoral de determinados grupos políticos para uma suposta alavancagem para participar das eleições pode ser uma chave explicativa para certos grupos, determinadas organizações, mas não explica a posição de todos os indivíduos e grupos que realizam esse tipo de propaganda e discussão. Isso é absolutamente sem sentido e parece que opera como uma forma de descredibilizar qualquer ação de uma organização/grupo, que, na verdade, só pensa em seus interesses próprios.
    A propaganda pela abstenção eleitoral pode ser ineficaz, como alguns já levantaram, mas não necessariamente tem a ver com a “fabulação de uma narrativa de relacionar porcentagem dos votos ao seu campo político”. Se vocês querem realmente fundamentar essa tipo de posição, demonstrem, mostrem, mas não generalizem com o exemplo de um “frente trotskista de 2015”, um caso pessoal, para todos os casos, um procedimento que é pobre e não explica quase nada da realidade.

  36. Essa discussão sobre relevância/irrelevância não tem nenhuma relação com o fato. Quem aqui pode dizer que filia suas ideias a um movimento “relevante”? E se assim o fosse, todos deveriam se filiar ideologicamente ao liberalismo, esse sim “relevante”, quase que de ponta a ponta do espectro político.

  37. Dada a porrada que a esquerda acabou de levar e a iminente eleição de Flávio Bolsonaro para a presidência do Brasil, a culpa é de quem votou nulo?

  38. João Bernardo escreveu diversos textos defendendo a importância de se guiar pelos “factos”, os “dados” etc. Agora, ele encontra um exemplo particularista de uma organização trotkista de 2015 da Argentina que defendeu o voto nulo e generaliza isso para o meu texto e diversas outras organizações que negam a democracia burguesa através do voto nulo e que lutam contra o capitalismo. De duas uma: ou o método de João Bernardo é bastante falho, ou ele se agarra a qualquer coisa para deslegitimar aqueles que não pensam como ele. Eu acredito nos dois.

    E é interessante notar, pelo comentário do Bodão, que a preocupação é ser uma força relevante junto aos trabalhadores, e deslegitima o passa palavra e o Movaut através disso. Atualmente, Bodão deve ser de alguma organização conservadora, pois estas estão tendo relevância frente aos trabalhadores. Deve ser de algum sindicato. Mas, a história mostra que as organizações revolucionárias são pequenas e nada relevantes, mas em momentos de radicalização das lutas de classes, essas organizações inflam, mas, mais do que isso, sua produção intelectual e política anterior são resgatadas. Os revolucionários não devem se importar de não serem populares em momentos não-revolucionários, pois, senão, não seria um momento não-revolucionário… é uma contradição. Por isso, continuaremos realizando nossa luta.

  39. Jardineiro, pensas que estamos em um momento não revolucionário? Uma revolução fascista está em plena marcha, mas tem gente que prefere estar de olhos fechados.

  40. Jardineiro, concordo que nossa diferença “gira em torno do que entendemos por vanguardismo e quais são as tarefas dos revolucionários”. Aliás, acho que passa também pelo que entendemos como revolucionários.
    Você diz: “As eleições são tão somente uma oportunidade para criticar a democracia e o Estado burguês, afirmando a necessidade de acelerar o processo revolucionário”. Em outro momento você defendeu o voto nulo (aliado “ao estímulo incansável da luta pela autogestão social”, ou seja, o voto nulo autogestionário) como um dos caminhos mais potentes para romper com a lógica da representatividade. Independente do trecho selecionado, reitero: Como mensurar a eficácia dessa propaganda como “um dos caminhos mais potentes”? Em período eleitoral, a insatisfação das pessoas com a democracia representativa tem correspondido com um maior interesse pela ideia de revolução, autogestão, etc.? As pessoas têm se aproximado politicamente durante essas atividades de “voto nulo autogestionário” em período eleitoral?
    Veja, eu me considero um adepto do abstencionismo por princípio. Se me perguntam sobre, dou minha opinião. Mas não engajo na propaganda, no “vira voto” nulo. O melhor material sobre eleições que vi até o momento veio do grupo Antipoda: “O que vem depois das eleições” ( https://www.instagram.com/p/Dd90lW-ljw1/ ). Acho que o momento é de mais reflexão e menos afirmação. Inclusive, aproveitando a deixa dos camaradas sobre “o que vem depois”, o envolvimento em debates acalorados e provocações nesse momento mais irracional da política, onde todos tentam achar um culpado, me parece contraproducente. O momento parece demandar mais empatia e sensibilidade, porque nosso campo de atuação será o que vai ficar pra além das eleições. Cair no desespero, entrar na porrada com os colegas e familiares e culpar todo mundo a nossa volta (ou entrar na guerra de provocações com quem nos culpa) não me parece a melhor atitude frente a condição em que nos encontramos.
    Ao contrário da ideia de que a classe primeiro precisa imaginar a autogestão para depois construí-la, eu acredito que é pela prática em movimento, pela experimentação, que se abrem possibilidades de imaginação e condições de formação em massa – inclusive a nossa. E a gente vê isso nas lutas ativas e coletivas que quebram o consenso e fazem com que ideias antes tidas como impossíveis se tornem possíveis. Até Datena ficou perplexo com seus telespectadores se oporem à sua opinião sobre “quebra-quebra” nas manifestações de 2013. As ocupações secundaristas colocaram a ideia de autogestão em debate pra uma molecada porque, de forma direta, os estudantes em grande medida se viram responsáveis a gerir a própria escola. Apesar dos desdobramentos negativos e da incorporação de boa parte dos lutadores de um lado para a defesa do governo, através do Boulos, e de outro na defesa das próprias empresas de aplicativo, o Breque dos Apps tornou possível uma maior troca entre a categoria, a nível nacional, e diferentes articulações entre indivíduos e grupos.
    O saldo desses processos, mais que as experiências e os ensinamentos sobre o que não fazer, ao meu ver, é justamente na capacidade de formação de uma boa quantidade de militantes e camaradas.
    Eu não acho que para um processo revolucionário se iniciar seja necessário uma “cultura revolucionária” prévia, hegemônica, que fará com que as pessoas vejam a possibilidade de revolução e então a coloquem em prática. Uma consciência revolucionária se fará presente na medida em que os trabalhadores se colocarem a experimentar novas formas, táticas e relações no calor das lutas. E é interessante que na sua resposta acima você tenha identificado essa tendência, da impopularidade dos “revolucionários” em períodos não-revolucionários, para inverter a coisa na sugestão tática do voto nulo.
    Aproveitando o comentário de “Flavio Bolsonaro”, é justificável de fato sermos irrelevantes no voto. Mas houveram momentos em que foi possível mostrar alguma relevância através das lutas (a conspiração do Mal Educado prévia à ocupação das escolas, ou do trabalho de enquete operária do Treta no Trampo que disparou o Breque dos Apps em plena pandemia são alguns dos exemplos). A provocação do “Eu” se faz bem oportuna. Vivemos em momentos não-revolucionários ou contra-revolucionários (entendendo aí o fascismo na chave da revolta dentro da ordem)? E a diferença entre uma coisa e outra implica em algo na nossa prática militante?

  41. A observação do Primo Jonas e do João Bernardo cai como uma luva: hoje, ao acordar, uma das primeiras coisas que vi foi um partidário da autogestão replicando uma notícia sobre as abstenções e comemorando seus 21%. No fim, querem estar participando do jogo eleitoral também…

    Penso muito sobre o comentário do Eu. Será que é fechar os olhos? Será que é inocência? Será que é se prender apenas ao conforto das aspirações individuais? Não sei… mas escrevo isso do Rio de Janeiro, onde teremos um segundo turno onde quem lidera é o candidato do ex-governador que liderou uma chacina com 122 mortos na favela ano passado…

  42. Caro Jardineiro, a insignificância a que me referi é decorrente de haver pouca ou nenhuma relação desses coletivos com as lutas concretas atuais. Um exemplo: qual a análise ou crítica tem sido feita sobre as profundas mudanças no mundo de trabalho atual? Posso estar equivocado, mas ainda não as vi.

    No passado recente tiveram uma relação próxima, vide a atuação do Movault no final da década de 2000 até por volta de 2016 em alguns setores da classe trabalhadora. Hoje, parece que estão de digladiando interna e externamente, vide os comentários por aqui.

    No caso do Passa Palavra, desde a criação até há poucos anos era possível ver a relação estreita com lutas em vários setores. Hoje, pouco ou nada se vê. A ponto de terem escrito um epitáfio. Só não enterraram o cadáver. E uma das consequências é o chorume que escorre por vários comentários nas postagens, como os infindáveis ataques pessoais.

    Aproveitar o momento eleitoral para discutir o limite político das eleições para a luta dos trabalhadores é válido, o problema é tal ação se transformar no único momento de atuação política. É o tema do voto nulo ser o único a ser trabalhado. Há discussão sobre o crescimento e avanço da extrema direita e do fascismo sobre a vida dos trabalhadores? Há discussão sobre o impacto das novas ferramentas tecnológicas no cotidiano e nas formas coletivas de trabalho?

    Se questões semelhantes não forem levantadas, vai restar apenas levar consciência aos trabalhadores. O problema é que nesse mercado a extrema direita e os fascistas têm oferecido as mercadorias que os trabalhadores querem levar.

  43. O aumento nas abstenções foi irrisório, um aumento de menos de 1%. De 20,93% na eleição passada para 21,08% nesta. De 1989 pra cá os números são: 1989 – 11,93; 1994 – 17,77%; 1998 – 21,49%; 2002 – 17,74%; 2006 – 16,75; 2010 – 18,12%; 2014 – 19,39%; 2018 – 20,33%; 2022 – 20,93%; 2026 – 21,08%. Mais irrisório ainda foram os votos nulos 2,93%, o segundo menor desde 1989, nem se compara com 1994, que a época, bateu os 14,5%. A população e, entre ela, os trabalhadores continuam indo as urnas. E dessa vez foram as urnas para eleger a direita em geral e, a extrema-direita em particular. A esquerda que perdeu as ruas e as mobilizações perdeu feio nas urnas. Nem dá pra jogar a culpa nas abstenções, não houve nada de novo nesse campo. Quem perdeu nas urnas foram as esquerdas votantes e o seu inverso, os adeptos do voto nulo.

    O PT que ao invés de fazer política no período eleitoral retirou-se dos debates televisivos, não foi em nenhum, e ainda teve a inteção, na reta final, de mirar nas abstenções. Mas em troca do que? A arrogância nos ambientes de esquerda e de militância de extrema esquerda espelham esse abandono do debate político, cada um em suas bolhas não conseguem debater e convencer ninguém, a única coisa que resta é lembrar dos velhos tempos, da nostalgia do belos debates do passado, pois é mais fácil reclamar lembrando dos tempos áureos. Essas arrogâncias estão generalizadas nos espaços de militância, e se não está comigo, expurgo, todas as armas devem ser usadas para silenciar, é só o debate apertar que o que foi dito, em tantos e tantos textos, sobre silenciamento, escracho, cancelamento, etc tornam-se expediente para se combater o grupo rival. Nos últimos tempos, em Goiania, Passa Paalvra e Movault estão em um pé de guerra autodestrutivo. Do texto publicado pelo Gabriel a esse agora do voto nulo demostra que existe algo de muito tóxicos entres esses dois agrupamentos, por isso esses chega pra lá.

  44. O que eu aprendi com uma parte do debate?
    Primeiro, que o abstencionismo, o voto nulo e o voto branco refletem a recusa da maior parte da população à democracia burguesa.
    Porém, os resultados eleitorais não atestam isso, já que a maior parte dos eleitores sacramentou uma expressiva vitória do Flávio Bolsonaro; maior do que a do próprio pai em 2018. Se 8 anos atrás estávamos perplexo diante da onda bolsonarista, acredito que muitos de nós não esejam surpresos com o tsunami de ontem.
    E não foi uma vitória contra o “ungido” do Lula, mas em cima do próprio Lula, que é presidente e usou a máquina estatal sem ruborizar.

    Segundo, aprendi que rola uma divisão entre militantes universitários de Goiânia.
    Parece que, de um lado, temos meia dúzia de jovens bem intencionados que seguem o Nildo Vianna como leais discípulos. De outro, temos os bem intencionados e pragmáticos lulistas, agradecidos pelas políticas de inclusão social.
    Essa aparente querela sem importância traz significados mais amplos, como a cultura do cancelamento, nitidamente demonstrada por meio da utilização de diferentes meios para denunciar supostos abusos e agressões. Ataca-se a reputação para descredibilizar a posição política.
    A companheira canceladora, que já deve ter iniciado a campanha de virar votos para o “compaheiro” Eduardo Paes, deve ter ciência de que se os votos do Garotinho forem impugnados, a eleição acabou e o RJ estará novamente nas mãos de um bolsonarista.

    Para além dos aprendizados, ensaio alguns pitacos.
    O tsunami fascista de ontem se insere no crescimento da extrema direita mundo a fora; ocorre numa etapa predatória da produção capitalista, marcada pela flexibilização da produção, desregulamentação trabalhista, fragmentação da classe (é possível falar em classe trabalhadora hoje?); reverbera um conflito entre impérios pelo domínio da economia mundial…
    Em meio a tudo isso, o que o Lula 3 entregou para quem vive do próprio trabalho? Prometeu picanha e cerveja. E o que entregou?
    No final da primeira parte do pronunciamento de ontem, ele falou em “canetinhas de emagrecimento”, dieta e exercícios. Coube ao Alckmin falar de concentração de renda e da luta entre capital e trabalho. Foi algo tão incomum, que o “socialista” Alckmin até gaguejou.
    Parece algo trivial, mas foi um retrato excelente do quanto o Lula 3 esteve desconectado da realidade.
    Flávio Bolsonaro falou em MUDANÇA, nas suas propagandas falou do preço da comida, dos impostos…
    O PT e o Lula envelheceram mal. É chover no molhado falar em degenerescência do partido formado por trabalhadores nos anos 1980, mas penso que devemos retomar essa temática.
    Na atual etapa da produção capitalista, a conciliação de classes gerida pelos lulistas se esgotou. Os capitalistas não estão dispostos a consentir com o ganha-ganha. E, insisto, o que o PT tem a entregar? Picanha? Democracia? Soberania? Canetinha emagrecedora?
    A esperança foi há muito apropriada pelos bolsonaristas.
    Em meio a essa tragédia, a esquerda lulista bem intencionada vive num eterno looping: onde erramos? como virar votos? como melhorar a comunicação? como convencer os 70+ a sair de casa para votar? como falar com a periferia? como falar com os evangélicos?…

    E nós? A nós, me refiro aos libertários, conselhistas, autonomistas. Enfim, a todos que partem do pressuposto de que a emancipação da classe trabalhadora será obra da própria classe trabalhadora.
    Talvez eu fale só por mim, mas eu vivo na mais absoluta irrelevância política. A dar aulas sobre revoluções derrotadas ou degeneradas para jovens interessados em influenciadores, lacrações e em transformar preferências sexuais em ativismo político. Eu falo da Oposição Operária, de Kronstadt, dos conselhistas, dos Amigos de Durruti, dos autonomistas etc. para jovens que vêm no Lula um salvador. Que são incapazes de pensar um mundo sem o Lula.
    Provavelmente, muitos de vocês sejam menos irrelevantes do que eu. Assim espero.
    De todo modo, não vejo nenhum indício de que os cerca de 25% de abstenções,votos brancos e nulos resulte, expresse ou tenha potencial para se converter em luta auto-organizada.
    A toupeira certamente segue cavando, mas por hora a superfície vive uma “revolta dentro da ordem”. E no partido da “nação em fúria” os jovens influenciadores angariam milhões de votos chamando professores de grevistas vagabundos, falando de testosterona, criticando feministas, agradecendo aos colonizadores…
    E nós achávamos que 2018 tinha representado o fundo do poço.
    Seria exagero concluir que, após duas décadas de conciliação de classes sob o comando lulo-petista, o Brasil deverá viver um período semelhante de governos fascistas?

  45. Saudações mais uma vez.
    Sobre se estamos em um momento não revolucionário ou contrarrevolucionário, e se a diferença entre ambos implica em algo na nossa prática militante, responderia que estamos, sim, em um momento não revolucionário. Afinal, uma revolução ocorre quando se transforma radicalmente a sociedade através da mudança do seu modo de produção. O proletariado ainda se encontra numa condição determinada pelo capital e luta apenas de forma espontânea. Como ainda não conseguimos vislumbrar um movimento revolucionário do proletariado, uma contrarrevolução também não está ocorrendo, pois, para que ela exista de fato, essa classe também deveria estar em movimento. O que presenciamos no mundo é um processo de dissolução do atual regime de acumulação e o aumento da necessidade dos países imperialistas de sugar mais mais-valor dos países de capitalismo subordinado. É por isso que há um grande interesse de figuras como Trump na América do Sul e no Brasil, em particular nas terras raras, petróleo, carne, soja, etc. Para abolir isso, não é suficiente votar em partidos progressistas, pois esse processo global independe deles; o que muda é apenas o discurso de um para o outro. A implicação disso na nossa prática é clara: essa ofensiva de burguesia que deve ser cada vez maior nos proximos anos gerarão mais contradições e necessidade de lutas e o que deve ser feito por nós, revolucionários, é estimular o proletariado e as demais classes inferiores a se movimentarem de forma radicalizada, a perceberem ilusões, etc.
    Sobre a dúvida de como mensurar a eficácia dessa propaganda do voto nulo como “um dos caminhos mais potentes”, acredito que o voto nulo autogestionário contribui com esse processo na medida em que estimula uma reflexão mais abrangente sobre o Estado burguês, o capitalismo, e aponta para a necessidade de lutar e da autoemancipação. Num momento eleitoral, é uma estratégia formidável, pois combate a irracionalidade que advém do discurso eleitoral. Essa irracionalidade não deve ser tolerada ou deixada de lado; ela precisa ser combatida, por mais desgastante que isso seja. Veja aqui mesmo nos comentários: por mais desgastante que tenha sido o embate, o discurso irracional foi combatido e agora temos uma discussão de nível muito melhor do que a que tínhamos anteriormente.
    No que diz respeito à questão se, em período eleitoral, a insatisfação das pessoas com a democracia representativa tem correspondido a um maior interesse pela ideia de revolução e autogestão, vejo que essa insatisfação aponta muito mais para o desinteresse e o conformismo. Contudo, temos aí uma excelente oportunidade para debater exatamente as causas desse desinteresse, que é a alienação generalizada: se os burgueses controlam o trabalho do trabalhador e expropriam o resultado desse trabalho, também devem controlar e regular como as classes lutam entre si, deixando essa luta relativamente estável. Portanto, por mais que o interesse pela autogestão não seja imediata, ao nos posicionarmos através da estratégia do voto nulo autogestionário, damos às pessoas, no mínimo, a possibilidade de sair desse marasmo que é a democracia burguesa. Não conseguimos combater o desinteresse e a apatia com mais desinteresse e apatia. A inércia, nesse caso, contribui apenas para deixar o estado das coisas como está, conservando-o. E quem sabe, marcar o posicionamento hoje do voto nulo autogestionario, não seja o que pode futuramente desencadear lutas autônomas e mais radicais por aumentar a desconfiança em partidos, sindicatos, Estado etc? Mais sobre a relação entre o voto nulo autogestionário e o estímulo para a autoemancipação, gostaria de indicar esse texto aqui que é muito mais didático do que eu: https://redelp.net/index.php/renf/article/view/758/725.
    Por fim, respondendo se as pessoas têm se aproximado politicamente durante essas atividades de “voto nulo autogestionário”, a resposta é afirmativa. Um dos núcleos do Movaut, por exemplo, fez uma atividade, inclusive em porta de fábrica, e a recepção foi positiva, algo bem diferente do que o nosso próprio desgaste em discussões de internet faz crer que seria. Os quase 40 milhões de brasileiros que não foram votar, ou que votaram em branco ou nulo, são um claro sintoma do desinteresse gerado pela democracia burguesa e não é por acaso. No entanto, dormimos no ponto se ficarmos apenas olhando, sem aproveitar a ocasião para falar e debater sobre o assunto. Claro que, como sempre reitero, a luta pelo voto nulo autogestionário não é a luta mais importante e fundamental que devemos travar, mas ela gera uma oportunidade valiosa. A classe proletária e as demais lutam através das armas que têm, inclusive no campo cultural. Muitos movimentos políticos que poderiam ser mais radicais pararam no meio do caminho ou foram absorvidos pela sociedade burguesa exatamente por não terem também condições culturais favoráveis para sustentar essa disputa antes da repressão burguesa. Concordo que os estudantes e trabalhadores em geral aprendem lutando, mas essa luta não se inicia num limbo, e nem deve se iniciar do zero, pois as lutas do passado e a teoria já produzida devem subsidiar as lutas que vem. Basta ver, por exemplo, os relatos do Maio de 68 e os resgates de autores como Marx e os comunistas de conselhos. As lutas do passado, do presente e do futuro estarão sempre entrelaçadas, e é exatamente por isso que a atuação e a luta dos revolucionários hoje são de suma importância.

    Bodão, acredito que o que ocorreu foi você ter apenas percebido a luta pelo voto nulo autogestionário e ter passado batido todas as outras ações, então, acho que, com todo respeito, está desinformado. Mas todo ano pode-se verificar diversas atividades, inclusive neste sentido em que fala. Nem preciso ir muito longe: esse ano mesmo teve-se atividade sobre tecnologia, guerra e o destino da humanidade e tem-se algumas atividades sobre marxismo, psicanalise e fascismo, bem como capitalismo e cultura contemporânea, para citar apenas algumas atividades que lembro de cabeça e vai ao encontro do que você julga ser importante. Como sempre reitero, a luta do voto nulo autogestionário não é uma luta fundamental, mas apenas uma parte, uma estratégia nesses momentos eleitorais. A luta deve ser realizada sempre apontando para o objetivo final que é a revolução proletária e deve ser contínua.

    Gogol, a comparação não é correta e nem cabe. Um texto negando o estado burguês e estimulando a autoemancipação não deve ser comparado com um texto que combate ideias revolucionárias sem citar nomes e sem nenhum exemplo concreto na qual o autor já inicia o texto se defendendo de que as linhas dele não são para ninguém especificamente, apenas expressando o que um outro comentário aqui chamou de “aquele que não deve ser nomeado”. Chamar os dois de “tóxico” é uma injustiça, devido às diferenças fundamentais.

  46. Bodão poderia ter a chance de se filiar ao Passa Palavra e assim publicar suas reflexões sobre o momento atual do mundo do trabalho, o impacto da extrema direita sobre os trabalhadores e compartilhar suas experiências de luta na atual conjuntura.

  47. Trago aqui um post recente do coletivo Invisíveis, do Rio de Janeiro, para reflexão sobre abstenções e suas relações com a negação do voto ou do sistema político:

    ELEIÇÕES 2026: VIGILANTES DA UERJ SOFREM ASSÉDIO DA MULTSERV, SE ATRASAR NO RETORNO DA VOTAÇÃO VAI COMPENSAR HORÁRIO

    O Art. 14 da Constituição Federal de 1988 assegura “A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos”. O voto é, portanto, um direito a ser resguardado. A coisa muda quando você é terceirizado: junta com a perda de direitos trabalhistas, ATÉ O DIREITO AO VOTO SE ENCONTRA AMEAÇADO.

    Vigilantes patrimoniais que trabalham pra empresa Multiserv na UERJ relatam que estão desistindo de ir votar por causa das exigências de carga horária da empresa. Filas longas nas urnas acabam comprometendo o tempo de espera e, consequentemente, o horário de chegada no trabalho. O ATRASO IMPLICA EM PUNIÇÃO.

    É importante lembrar: A ABSTENÇÃO no primeiro turno das ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS brasileiras registra CRESCIMENTO CONTÍNUO DESDE 2006. Na última eleição presidencial a abstenção chegou a 20,79%. Isso dá aproximadamente 32,7 MILHÕES DE BRASILEIROS QUE DEIXARAM DE COMPARECER ÀS URNAS.

    A abstenção deve ser analisada como um fenômeno social, não mera atitude individual. Daí perguntamos: O QUE TEM CAUSADO O AUMENTO DA ABSTENÇÃO DE VOTO? Será que OS TRABALHADORES NÃO SE INTERESSAM POR POLÍTICA OU ELES SIMPLESMENTE SÃO IMPOSSIBILITADOS DE PARTICIPAREM ATIVAMENTE?

    Não podemos esquecer que o assédio moral no trabalho é recorrente. Os vigilantes da UERJ já relataram a burocracia pra entregar atestados médicos. Por causa dessa dificuldade, muitos simplesmente DEIXAVAM ATÉ DE IR AO MÉDICO, INDO TRABALHAR DOENTES E COMPROMETENDO A PRÓPRIA SAÚDE.

    A DITADURA NO LOCAL DE TRABALHO SEGUE VIVA. SE A CONSTITUIÇÃO NÃO É SUFICIENTE PRA ASSEGURAR OS DIREITOS DOS TRABALHADORES, A SAÍDA É SE JUNTAR PRA LUTAR. INDEPENDENTE DE QUEM ESTEJA NA PRESIDÊNCIA.

    VIGILANTE, PATRÃO QUER VOCÊ DISTANTE DO SEU COLEGA DE TRABALHO. PORQUE ELE TEM MEDO DA UNIÃO ENTRE VOCÊS. TEU PATRÃO É UM PAISANO. VIGIE TEUS DIREITOS.
    https://www.instagram.com/p/DeFxQAPjhEe/

  48. O Passa Palavra colocou nos Movimentos em Luta o comunicado oportunamente enviado por Sabiá. Podem ver aqui.

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