Por O Jardineiro*

A democracia burguesa, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, bem como a própria República — especialmente a brasileira —, encontram-se em ruínas. Hoje, a maior parte da população já se recusa a legitimar essa forma de participação política: seja engrossando as fileiras do abstencionismo, seja invalidando o pleito por meio do voto branco ou nulo. Esse fenômeno não ocorre por acaso; ele é, primeiramente, o reflexo do profundo desinteresse popular em decidir quem será o próximo gerente das engrenagens do aparato estatal.

Desde a redemocratização do Brasil, as massas recebem apenas discursos vazios, projetados para convencer e iludir, enquanto a vida material nunca muda substancialmente. Como um grande teatro onde mudam-se os atores, mas o roteiro de exploração permanece o mesmo, esse desinteresse é a consequência direta da generalização da alienação para todas as esferas das relações sociais. No fim das contas, a política institucional, canalizada pelas eleições, representa a expropriação política da nossa capacidade de ação: é a terceirização do nosso controle sobre a forma como nos inserimos na luta de classes. Consequentemente, a autonomia dos indivíduos das classes inferiores para intervir na realidade é reduzida ao mínimo, enquanto a autonomia da burguesia cresce de maneira inversamente proporcional — o que garante, na prática, a manutenção de sua dominação enquanto classe.

Uma vez que a capacidade de intervenção das classes inferiores, que são a maioria da população, é asfixiada, o desinteresse surge como uma forma espontânea, ainda que despolitizada, de resistência contra a democracia burguesa. É um instinto de recusa em entregar as chaves da própria prisão. Nesse cenário, cabe aos revolucionários o papel de transformar essa insatisfação latente em combustível político. É preciso levar os indivíduos das classes inferiores, especialmente o proletariado, a perceberem que a nossa autonomia relativa para intervir na luta de classes é infinitamente maior do que a ilusão da representatividade tenta nos fazer crer. Para romper com essa lógica, um dos caminhos mais potentes é a afirmação do voto nulo, aliada ao estímulo incansável da luta pela autogestão social.

Na sociedade capitalista, onde impera o controle do trabalho e a expropriação de seus frutos, a classe dominante cria mecanismos para que essa lógica se infiltre em todas as relações sociais. Eis a verdadeira face da democracia burguesa e de sua ideologia de representação: não um espaço de liberdade, mas uma válvula de escape desenhada para manter a luta de classes estritamente sob o controle da classe dominante, domesticando as classes inferiores e especialmente o proletariado.

Portanto, a nossa energia não pode ser desperdiçada na tentativa de usar as ferramentas da própria burguesia para fazer imperar interesses não-burgueses. Tentar vencer o jogo capitalista usando as regras criadas por ele é como tentar apagar um incêndio jogando gasolina. Cada gota de esforço dedicada à via institucional-burocrática apenas fortalece a manutenção da burguesia. Mais do que isso, legitima a continuidade do controle sobre as classes inferiores e prepara o terreno para uma ditadura aberta, que será acionada sem hesitação no momento em que a crise de acumulação do capital exigir a extração de mais sangue e suor do trabalhador.

Contra a democracia burguesa e contra a ameaça de uma ditadura, a única força real é um proletariado unido e politizado. Continuar iludindo o mesmo sobre o poder transformador do voto, mascarando a nossa própria falta de autonomia, significa tornar-se mais uma engrenagem na dominação burguesa. A democracia, nesses moldes, ao semear o desinteresse e a despolitização, adormece as classes inferiores e cria as condições sociais perfeitas para que uma ditadura se instale sem enfrentar resistência real.

Por isso, frente a uma sociedade que nos exige assinar um cheque em branco aos nossos próprios algozes, os revolucionários devem reagir de forma contundente: afirmando o voto nulo e estimulando a luta direta pela Autogestão Social.

*Formado nos jardins revolucionários, aprendeu a regar as plantas e ter paciência para colher frutos do que antes era semente e gérmen.

As obras que ilustram esse artigo são de Bansky.

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