Por Gabriel Teles

Este texto surgiu originalmente como uma sequência de postagens em uma rede social. A sugestão de alguns integrantes do Passa Palavra de transformar aquelas notas em um texto deu origem à versão que segue. Preferi preservar parte da forma original, inclusive seu caráter fragmentário, em vez de reconstruir retrospectivamente o argumento como se tivesse nascido como um ensaio.

O crescimento eleitoral da extrema direita tornou visível um processo político que vinha sendo construído havia anos. Sua expansão não começou durante a campanha. Erros de comunicação, desempenho de candidatos e circulação de vídeos nas redes podem explicar movimentos conjunturais; não explicam um processo construído ao longo de anos.

Ela foi construída durante anos, enquanto parte da esquerda se acostumava a identificar política com disputa eleitoral, administração de governos e circulação institucional. A cada eleição, mobilizam-se militantes, reorganizam-se alianças, aperfeiçoam-se estratégias de comunicação e procuram-se os segmentos do eleitorado que precisam ser conquistados. Quando as urnas fecham, grande parte dessa mobilização também termina.

O problema dessa temporalidade é simples: aquilo que aparece eleitoralmente em um domingo foi produzido socialmente durante anos. A urna apenas apresentou a conta.

A classe trabalhadora não deixou de ser politizada

Uma das explicações recorrentes para esse processo é a “despolitização”. A classe trabalhadora teria perdido interesse pela política, abandonado antigas referências coletivas e se tornado disponível para discursos simplistas e autoritários.

“Despolitização”, porém, é uma palavra confortável porque transforma uma mudança nas formas e nos agentes da politização em ausência de política.

Os trabalhadores continuaram sendo politizados todos os dias. Essa politização continuou ocorrendo nos locais de trabalho e nas igrejas, atravessando relações familiares e redes sociais, sob a influência de empresários, organizações políticas e outros agentes. A questão relevante é que essa politização passou a ocorrer cada vez menos através de organizações constituídas pelos próprios trabalhadores em torno de seus conflitos e interesses.

O chamado “vazio” nunca esteve realmente vazio. Enquanto determinadas formas de organização de classe recuavam, outras instituições, relações e agentes continuavam produzindo interpretações sobre trabalho, família, violência, mérito, Estado, autoridade e desigualdade. Por isso, talvez seja mais preciso falar em transformação das formas de politização do que simplesmente em despolitização.

Quando a política se torna gestão

Esse processo possui uma história. Durante décadas, parte considerável da esquerda deslocou progressivamente o centro de sua atividade para o interior das instituições. Eleições, mandatos parlamentares, governos, ministérios e a gestão de políticas públicas passaram a absorver uma parcela crescente de suas energias, quadros e expectativas.

O problema não está simplesmente em ocupar essas instituições. A questão decisiva é com que grau de autonomia as organizações de classe conseguem relacionar-se com governos, partidos, parlamentos e aparelhos burocráticos, inclusive quando estes são dirigidos por forças consideradas aliadas.

Quando essa autonomia se enfraquece, ocorre uma inversão importante: são as necessidades de conservação das posições institucionais que começam a estabelecer os limites da mobilização social. A temporalidade eleitoral passa a ordenar prioridades, alianças e conflitos; reivindicações são filtradas segundo as possibilidades da gestão; mobilizações podem ser contidas para não desgastar governos aliados. Aquilo que deveria constituir uma mediação passa a organizar o horizonte da própria política.

Há ainda um problema anterior. A representação introduz uma separação entre aqueles que lutam e aqueles que passam a falar, negociar e decidir em seu nome. Quanto mais essa separação se estabiliza, mais a atividade autônoma dos trabalhadores tende a aparecer como algo que deve ser traduzido, administrado ou contido por organizações especializadas. A burocratização, nesse sentido, não decorre apenas de um afastamento posterior das organizações em relação aos trabalhadores; encontra condições para se desenvolver na própria separação entre representantes e representados.

A consequência não é simplesmente uma esquerda “afastada do povo”. O processo é mais profundo: organizações que deveriam constituir fontes relativamente autônomas de poder social tornam-se dependentes dos ritmos, recursos e limites das instituições burocráticas às quais se vinculam. A capacidade de agir independentemente delas diminui justamente quando essa independência se torna necessária, seja para pressionar um governo aliado, seja para resistir a um governo adversário.

É nesse sentido que a autonomia importa. Ela pressupõe a capacidade de manter organizações, conflitos e decisões cuja existência não dependa do calendário eleitoral, dos cargos disponíveis ou das necessidades administrativas de um governo. Isso não implica uma idealização de uma exterioridade pura em relação ao Estado.

Uma força social organizada pode utilizar posições institucionais sem se reduzir a elas. Quando a relação se inverte, ministérios, gabinetes e eleições deixam de ser terrenos particulares de uma luta mais ampla e passam a definir seus limites. A política profissionaliza-se precisamente quando a capacidade autônoma de organização da classe perde densidade.

Enquanto isso, a vida material piorou

Essa transformação política ocorreu enquanto as condições materiais de parcelas extensas da classe trabalhadora também se modificavam.

Precarização, terceirização, endividamento, jornadas extensas, insegurança econômica, deterioração de serviços públicos e novas formas de controle sobre o trabalho passaram a organizar uma parte crescente da experiência cotidiana.

Essas condições não possuem consequências políticas automáticas. Quem está endividado não encontra dentro do boleto uma explicação para o sistema de crédito. Quem passa horas no transporte não recebe junto com a passagem uma interpretação da organização capitalista das cidades. Quem trabalha sob metas cada vez mais intensas não deduz espontaneamente das metas as determinações da exploração.

As pessoas vivem imediatamente as consequências das relações sociais. Suas determinações são muito menos imediatamente visíveis. É nessa distância entre experiência e explicação que a disputa política encontra um de seus terrenos.

Organizar ressentimentos reais

A extrema direita demonstrou capacidade para atuar nesse terreno. Ela não precisa inventar o desemprego, a dívida, a insegurança, a deterioração dos serviços ou a sensação de que a vida se tornou mais difícil. Essas experiências possuem bases materiais bastante concretas. O que ela oferece são explicações para sofrimentos verdadeiros.
O responsável pode ser o imigrante, o comunista, a mulher, o professor, o STF, os impostos, uma suposta “ideologia” ou qualquer outro personagem capaz de condensar contradições cujas determinações efetivas são muito mais difíceis de identificar.

O inimigo pode mudar. O mecanismo permanece semelhante: experiências inicialmente dispersas recebem uma explicação comum e passam a ser organizadas politicamente.
É nesse sentido que a extrema direita consegue organizar ressentimentos reais. O ressentimento não precisa ser fabricado artificialmente. Ele pode nascer de experiências concretas de deterioração da vida e ser reorganizado contra agentes que pouco ou nada têm a ver com suas causas. O ressentimento, evidentemente, não explica sozinho a expansão da extrema direita. Interesses materiais, valores, formas de sociabilidade e adesões conscientes a determinados projetos políticos também estão em jogo. Aqui, interessa tratá-lo como uma das matérias que podem ser politicamente organizadas, e não como chave geral do fenômeno.

“O povo ficou fascista”

Diante disso, surge uma explicação ainda mais confortável: “o povo ficou fascista”. A formulação possui uma vantagem para quem a utiliza. Se o problema fundamental está numa deficiência moral ou intelectual da população, pouco resta a explicar. Basta denunciar a ignorância, o ressentimento ou a manipulação daqueles que votaram de determinada maneira.

A responsabilidade pelo fenômeno retorna aos próprios indivíduos que precisam ser explicados. Isso não exige negar a existência de racismo, misoginia, autoritarismo, ou adesões efetivas a projetos de extrema direita entre trabalhadores. Também não há qualquer razão para supor que posições de classe produzam espontaneamente posições políticas radicalizadas.

A questão começa justamente aí: como determinadas experiências sociais são transformadas em determinadas identificações políticas?

Chamar milhões de pessoas de fascistas pode expressar indignação diante de posições efetivamente autoritárias. Como explicação, entretanto, deixa intacto o problema que deveria explicar.

Uma classe fragmentada não se constitui espontaneamente como classe

Uma classe fragmentada no trabalho, desorganizada politicamente e submetida diariamente às formas dominantes de interpretação da sociedade não desenvolverá espontaneamente uma consciência correspondente aos seus interesses coletivos.

A exploração não ensina automaticamente quem explora. A precarização tampouco produz necessariamente radicalização.

Ela pode produzir o contrário: medo de perder o emprego, competição entre trabalhadores, rotatividade, isolamento e redução do tempo disponível para construir relações coletivas. Pessoas submetidas a condições semelhantes podem viver essas condições durante anos sem constituí-las como experiência política comum.

Há uma contradição particularmente importante no capitalismo contemporâneo. Empresas conseguem coordenar milhares de trabalhadores por sistemas digitais, metas, aplicativos e algoritmos. O processo produtivo pode adquirir níveis extraordinários de integração enquanto aqueles que o realizam permanecem fragmentados política e organizativamente.

Ser reunido pelo capital no processo de trabalho e constituir-se politicamente como classe são processos distintos. A organização, portanto, não consiste simplesmente em reunir politicamente uma classe que já estaria pronta à espera de sua representação. É na própria experiência do conflito, na criação de solidariedades e na elaboração comum dos antagonismos que trabalhadores dispersos podem constituir-se como força coletiva. A classe não precisa apenas encontrar uma organização que a represente; precisa produzir formas de organização através das quais possa agir por si mesma.

A pergunta menos interessante

Depois de uma derrota eleitoral, quase toda discussão tende a convergir para uma pergunta: como derrotar a extrema direita na próxima eleição?

É uma pergunta necessária para partidos que disputam eleições. É muito menos suficiente como problema estratégico e para aqueles que pensam numa transformação radical da sociedade.

Se todo o diagnóstico termina perguntando como produzir outro resultado eleitoral, continuamos examinando o fenômeno exatamente no terreno em que ele apareceu, e não naquele em que foi produzido.

Evidentemente, campanhas, alianças e governos interferem nos resultados e nas próprias condições em que os trabalhadores se organizam. Isso não elimina uma diferença fundamental entre conquistar votos e constituir força social.

Nada disso elimina uma diferença fundamental entre conquistar votos e constituir força social.

Uma eleição pode ser vencida sem que se tenha alterado significativamente a capacidade autônoma de organização da classe trabalhadora. Também é possível administrar o Estado durante anos enquanto relações sociais que alimentam forças adversárias continuam sendo reproduzidas fora dele.

Outra pergunta

Talvez a pergunta deva ser deslocada: em que condições a classe trabalhadora pode voltar a se organizar como classe?

Isso recoloca no centro os locais de trabalho, os bairros, os conflitos cotidianos, as organizações próprias e as formas concretas de luta.

A formulação também exige cuidado. “Voltar às bases” não pode significar simplesmente reconstruir uma imagem idealizada da organização operária do passado. A própria composição da classe mudou, assim como seus locais de trabalho, seus deslocamentos, sua estabilidade ocupacional e suas formas de sociabilidade.

Há ainda um problema na própria palavra “base”. Uma base costuma pressupor algo situado acima dela. Muitas vezes a fórmula conserva a divisão entre uma direção que produz a política e trabalhadores que precisam ser conscientizados, mobilizados ou conquistados por essa direção.

Talvez o problema, portanto, não seja simplesmente como a esquerda pode “voltar às bases”. A própria formulação conserva aquilo que deveria ser posto em questão: de um lado, organizações que elaboram estratégias; de outro, uma base à qual é preciso retornar, organizar e conscientizar. Uma política da auto-organização começa quando essa divisão entre dirigentes e dirigidos deixa de ser tomada como natural.

A organização de classe coloca então outro problema: criar condições para que aqueles que vivem os conflitos possam produzir coletivamente interpretações sobre eles, decidir suas formas de ação e construir organizações capazes de permanecer para além de uma conjuntura eleitoral.

Uma sociedade não é disputada apenas nas eleições

Talvez uma das lições mais incômodas desse processo seja justamente esta: ninguém disputa uma sociedade apenas disputando eleições.

Eleições condensam relações sociais que continuam existindo antes e depois delas. Uma campanha pode modificar conjunturalmente essas relações; dificilmente consegue substituí-las.

Não existe, portanto, um atalho eleitoral capaz de resolver uma derrota produzida durante anos nas formas de organização, nas relações cotidianas e na capacidade de diferentes forças oferecerem interpretações para experiências reais de sofrimento social.

Isso não torna as eleições irrelevantes. Apenas impede que confundamos o resultado eleitoral com o conjunto das relações de força que o produziram. A questão decisiva é onde se encontra a capacidade organizada de agir para além do momento eleitoral e, sobretudo, em que medida os próprios trabalhadores conseguem constituir organizações relativamente autônomas diante do Estado, dos governos, dos partidos e das burocracias que pretendem representá-los.

Auto-organização, nesse sentido, não é uma palavra de ordem abstrata. É o processo pelo qual experiências dispersas de exploração podem ser transformadas em experiência coletiva, produzindo formas próprias de organização e capacidade de intervenção sobre as relações que as engendram. A classe não se constitui politicamente pela simples existência de milhões de indivíduos submetidos à exploração. Ela se constitui nas lutas através das quais esses indivíduos reconhecem interesses comuns e desenvolvem capacidade coletiva de agir.

É nesse processo que a luta de classes adquire uma existência propriamente política. Não porque todo conflito entre capital e trabalho produza imediatamente consciência ou organização, e sim porque determinadas lutas podem romper o isolamento em que a exploração é vivida, produzir solidariedades e criar organizações que sobrevivam ao conflito que lhes deu origem. A questão decisiva é a constituição de uma força social capaz de agir com continuidade.

A auto-organização, porém, não diz respeito apenas aos meios da luta. Há uma relação entre as formas pelas quais uma transformação é produzida e as relações sociais que podem emergir dela. Se a emancipação dos trabalhadores pressupõe que eles assumam coletivamente o controle sobre suas próprias condições de existência, essa capacidade não pode ser simplesmente delegada durante a luta para reaparecer depois de uma ruptura. As formas de organização construídas no presente já colocam, portanto, o problema de quem decide, quem executa e quem controla as decisões coletivas.

Essa capacidade exige autonomia. Organizações dos trabalhadores podem se relacionar com partidos, governos e instituições sem encontrar neles seu princípio de organização. Quando passam a depender de seus calendários, recursos e necessidades, a lógica se inverte: em vez de a representação institucional expressar uma força constituída na luta, é a reprodução das instituições que passa a estabelecer os limites daquilo que pode ser reivindicado, organizado e enfrentado.

A disputa eleitoral desloca a capacidade política para um terreno em que a ação dos trabalhadores assume necessariamente a forma da representação: escolhe-se quem decidirá, legislará e administrará. O problema, portanto, não está apenas na importância excessiva concedida às eleições. Está na substituição recorrente da capacidade coletiva de agir pela capacidade de escolher quem agirá em seu nome. Uma vitória eleitoral pode modificar as condições em que a luta se desenvolve; não elimina essa separação.

A luta de classes não começa na urna e tampouco encontra nela sua forma privilegiada. Sua força reside na capacidade dos trabalhadores de constituírem relações, organizações e formas de decisão que ampliem seu poder de agir diretamente sobre as próprias condições de existência. A urna pode registrar uma relação de forças; não pode criá-la. Nenhuma urna corrige aquilo que não foi construído na luta de classes.

Este artigo está ilustrado com desenhos de Roland Topor (1938-1997).

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