Por Professores do Primário
Um grupo de professores do ensino fundamental debate o resultado do 1º turno das eleições brasileiras de 2026, em que Flávio Bolsonaro venceu Lula.
Lauretta: Bom dia, companheiros! Força que o novo sempre vem!
Panfilo: Só tendo fé na geração futura mesmo, porque a dos nossos pais e a nossa falhou miseravelmente.
Filomena: Educai a nova geração. A missão de vocês está árdua. Não estou muito otimista. Mesmo querendo ser! Acredito que a nossa geração nem vai a chegar ver um novo ciclo. Está só começando…

Filostrato: Como diz o Panfilo, falhamos miseravelmente! Não conseguimos nem mesmo convencer aqueles que sofrem as mazelas junto conosco.
Fiammetta: Sim. Mas nós lutamos tanto! Eu não consigo compreender a forma como tem que falar com essa galera.
Dioneo: Será que é falar? Nem estou sabendo o que pensar e dizer…
Fiammetta: Eu percebi que nossos alunos que se manifestaram contra a direita… É principalmente a galera que entrou nas universidades federais. Inclusive serão muito afetados pela entrada do Flávio.

Filostrato: Precisamos reordenar os sindicatos. Eles se tornaram base de política institucional eleitoreira, e o pior de tudo, uma política fascista e individualista. Vejo os embates no nosso sindicato, puro interesse eleitoral. Elegemos agora mesmo, um presidente no sindicato para derrubar os sanguessugas de lá, o que ele faz? Vai apoiar a direita na eleição.
Filomena: Fato! O modus operandi da esquerda tem falhado há muito tempo. É difícil resumir… Mas também é um reflexo da geopolítica mundial. A tendência ultra conversadora. O individualismo…
Filostrato: Sim, a luta contra a mídia foi feroz.
Filomena: A lógica neoliberal vai engolindo tudo que passar pela frente. Vejo que o indivíduo está se reorganizando politicamente para também enfrentar esses desafios. De uma forma equivocada, mas sim… Muito mais subjetivo. Nem o próprio indivíduo se reconhece nesse processo.

Panfilo: Eu acho que uma primeira observação é que não existe mais uma classe trabalhadora. A fragmentação do mercado de trabalho criou uma situação em que temos trabalhadores numa situação mais precarizada e outros numa situação menos precarizada. Ou seja, como criar uma consciência de classe, se a própria economia criou posições distintas? Todos são trabalhadores e são explorados, mas há distinções internas que impossibilitam uma identificação como parte de um todo coeso. Nesse cenário, o corporativismo domina. Uma coisa que poderia contornar essa fragmentação é a esquerda voltar a ser militante no sentido de ações de solidariedade, principalmente nas periferias. Quem faz solidariedade na periferia são ONGs e Igrejas, simples assim. A esquerda partidária e sindical não está nem aí. Não é à toa que o trabalhador da periferia não se identifica com a esquerda. Pelo contrário, ele vê uma esquerda que tem uma vida melhor, porque são pessoas que têm diploma universitário, fazendo discurso em prol da igualdade, mas não vê ações reais, então entende isso como hipocrisia e enxerga a esquerda como parte do establishment. O bolsonarismo nadou de braçada aí.
Elissa: Tem uma questão de falha de comunicação. Nós falamos uma língua, a classe trabalhadora fala outra, porque o dicionário da classe trabalhadora está vindo do discurso religioso, da meritocracia, do empreendedorismo, então não temos como dialogar. Vir falar de Karl Marx e mais-valia para quem está pensando em abrir um negócio ou trabalhar em aplicativo e, com a bênção de Deus, virar empreendedor, é chover no molhado.
Filomena: Concordo plenamente!! Estou cansada de ver pesquisadores frequentando a região rural de onde eu vim até para dizer “como se planta mandioca”, mas bem distantes dessa realidade. Com toda a modernização, informatização… discursos “intelectuais” não estão colando mais.
Elissa: Outra coisa é que esquerda gosta de polemizar questões identitárias que para a maior parte dos trabalhadores não fazem sentido algum. Linguagem neutra de gênero é visto pela maior parte da classe trabalhadora como uma maluquice sem sentido.

Filomena: Quando estava no mestrado, falava muito sobre isso com meus professores. Gente!! Vocês estão muito distantes de nós! Um ativismo na produção intelectual muito grande. Longe da prática!
Fiammetta: Enquanto a gente desmerece influencers e comunicadores de Tiktok, é lá que eles estão nadando de braçada. Parece que vamos ter que emburrecer para nos comunicar.
Panfilo: Eu acho que a questão não é emburrecer. Atos valem mais que palavras. O capitalismo tem um princípio fundamental que é o do individualismo/competição. Nós temos que nos contrapor a isso propondo ações coletivas/solidariedade. As pessoas irão perceber que a esquerda está propondo coisas do interesse delas quando elas perceberem que são parte de uma ação coletiva baseada na solidariedade.
Filomena: Acredito demais na força do coletivo! As poucas ações que ainda consigo fazer são as ligadas à Igreja, e com muito sacrifício. Convenhamos, aqui entre nós, na nossa realidade de tanto trabalho, quem está conseguindo alcançar a comunidade? Nós também estamos imersos nesse capitalismo cruel. Muito trabalho! E quando pensamos em querer trabalhar menos, damos conta da realidade e as contas não fecham. Nós estamos vivendo na lei da sobrevivência. Sinceramente, não sei como as pessoas que ganham um salário mínimo estão sobrevivendo.

Lauretta: O Flávio no seu discurso de ontem me impactou. “Acabou a era do PT”. Parece ser isso. A esquerda vai ter que se reconfigurar. Renovar o discurso.
Filomena: Além de tudo já discutido. Tem um fator crucial que é a religiosidade do nosso país. O Brasil é um país cristão. O partido que sabe usar o discurso em “favor dos cristãos” conquista o eleitor. Pode estar tudo ruim, mas se você disser que Deus proverá tudo. Pronto! A esquerda radical tem atacado muito os cristãos. Não é um discurso que a população brasileira aceita bem.
Elissa: A pauta antirracista, ideologias de gênero, direitos iguais… por aí vai! Sobressaiu demais nos últimos anos. O povo quer é pagar as contas e comer bem.
Filomena: A esquerda sempre esteve muito distante. Quando estava cursando o mestrado. Ficava pensando “Meu Deus, quem são os alienados da história?” Esse povo está muito fora da casinha.“ É muito distante da realidade brasileira. Tem que reconfigurar o discurso e a prática.
As imagens que ilustram este artigo são reproduções de obras de Tōkō Shinoda (1913-2021).

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