Por Marcelo Tavares de Santana*
Ferramentas digitais são práticas, rápidas, e nos ajudam em diversas tarefas, no entanto, há momentos que precisamos parar e fazer grandes reflexões sobre assuntos que deveriam estar pacificados. Desde os primórdios da civilização humana, a busca e a preservação da verdade têm ocupado um lugar central e insubstituível no desenvolvimento moral, ético e social das mais diversas culturas e tradições religiosas ao redor do globo. A verdade nunca foi tratada pelas sociedades ancestrais apenas como um mero conceito epistemológico ou uma simples correspondência entre o discurso e a realidade factual: ela sempre foi erguida como o alicerce espiritual e comunitário que permite a coexistência pacífica e a confiança mútua.
Em todas essas matrizes culturais, independentemente de suas diferenças teológicas e geográficas, podemos observar um consenso comum: a mentira corrompe a alma do indivíduo e desintegra o tecido da sociedade. A verdade, portanto, é a argamassa invisível que sustenta a humanidade. No entanto, a história moderna nos mostrou, de forma trágica e devastadora, como a subversão desse princípio ancestral pode levar a humanidade aos seus capítulos mais sombrios. Quando a verdade deixa de ser um valor moral e passa a ser tratada como um obstáculo a ser superado por projetos de poder, o terreno é pavimentado para o totalitarismo. Ninguém compreendeu e instrumentalizou essa distorção de maneira tão letal quanto Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista durante o Terceiro Reich. A ele é frequentemente atribuída a máxima maquiavélica que ecoa até os dias de hoje: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Goebbels percebeu que as massas não são movidas por argumentos lógicos e complexos, mas por apelos emocionais, medos primais e repetição exaustiva. Ele controlava rigidamente o rádio, a imprensa, o cinema e as artes, criando um monopólio da informação onde qualquer narrativa divergente era silenciada pela violência e pela censura.
Saltando das transmissões de rádio da década de 1930 para o hiperconectado século XXI, percebemos que o perigo da manipulação da informação não ficou confinado aos livros de história; ele apenas mudou de roupagem, ganhando uma escala e uma velocidade sem precedentes. Hoje, não lidamos mais com um Ministério da Propaganda centralizado, mas com um ecossistema digital caótico, fragmentado e algorítmico, onde proliferam as chamadas “fake news” e a difusão sistemática de desinformação nas redes sociais e plataformas de mensagens. A revolução digital e a Internet prometeram, em seus primórdios, uma democratização radical do conhecimento e, de fato deram voz a milhões que antes não a tinham. Contudo, a ausência de mediadores editoriais, de uma educação crítica, e o modelo de negócios das grandes empresas de tecnologia transformaram essa utopia em um campo minado. As redes sociais são projetadas para maximizar o engajamento do usuário, mantendo-o conectado pelo maior tempo possível para exibir anúncios direcionados. Consequentemente, os algoritmos tendem a promover organicamente teorias da conspiração, manchetes sensacionalistas e notícias fabricadas, pois elas viralizam até seis vezes mais rápido do que a verdade.
Grupos mal-intencionados, desde estelionatários em busca de cliques até agentes políticos e estatais interessados em desestabilizar democracias, exploram essa arquitetura digital. Eles utilizam exércitos de robôs (bots), perfis falsos, deepfakes (vídeos manipulados por inteligência artificial) e disparos em massa em redes como o WhatsApp para criar uma falsa percepção de consenso. As pessoas são então enclausuradas em “bolhas” ou “câmaras de eco”, onde só consomem informações que confirmam seus vieses preexistentes. O impacto disso é devastador: eleições são manipuladas, a confiança nas instituições democráticas despenca, reputações são destruídas e crises de saúde pública são agravadas, como vimos na proliferação de mentiras sobre vacinas e tratamentos sem eficácia comprovada durante a pandemia global.
Diante desse cenário de guerra informacional, a importância da formação cidadã contra as fake news torna-se, talvez, o maior desafio educacional do nosso tempo. Particularmente, crianças e adolescentes sem a devida orientação, correm o risco de se tornarem tanto vítimas da desinformação quanto vetores de propagação, compartilhando impulsivamente mentiras que parecem divertidas, chocantes ou que validam suas identidades em formação. Podem ser criadas gerações de pessoas desinformadas.
Nessa missão de separar o joio do trigo no vasto oceano de dados em que navegamos, destaca-se a importância das agências de verificação de fatos. Em uma era onde qualquer pessoa com um smartphone pode ser um emissor de conteúdo, as redações tradicionais e as iniciativas independentes de checagem atuam como um remédio social. Essas organizações não trabalham com opiniões, mas com uma metodologia rigorosa e transparente, baseada no jornalismo de dados, na consulta a fontes primárias oficiais, em laudos científicos e em registros públicos. Quando um boato viraliza, seja sobre a segurança de uma urna eletrônica, a procedência de um desastre ambiental ou uma suposta declaração polêmica de uma figura pública, as agências de verificação entram em ação para dissecar a informação. Elas reconstituem o caminho do dado, buscam a origem de imagens e vídeos usando ferramentas de busca reversa e consultam especialistas independentes. O trabalho das agências é fundamental não apenas para rotular o que é falso, verdadeiro, impreciso ou tirado de contexto, mas também para expor o modo de operação das redes de desinformação. Ao publicarem os passos de suas investigações, elas educam o público sobre como a mentira foi construída. Embora frequentemente sofram ataques orquestrados e sejam injustamente acusadas de viés político por grupos cujas narrativas falsas foram desmentidas, as agências de verificação seguem códigos de princípios internacionais rigorosos — como o da International Fact-Checking Network (IFCN) —, que exigem suprapartidarismo, justiça e transparência em suas correções.
No Brasil, por exemplo, o Projeto Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos que reúne dezenas de veículos de comunicação brasileiros de diferentes matrizes editoriais com um único objetivo: investigar e desmentir rumores, conteúdos fabricados e táticas de manipulação que ganham tração na internet, especialmente em períodos eleitorais e crises nacionais. No entanto, confesso que alguns dos parceiros desse projeto são mídias que inspiram suspeitas de interesses econômicos contra as instituições republicanas.
Contudo, delegar a responsabilidade da verdade apenas às escolas e às agências de fact-checking é um erro estratégico: a linha de frente dessa batalha moral e cognitiva encontra-se dentro de casa. A família é o primeiro laboratório de socialização, onde a criança aprende a ler o mundo, a formar seus valores e a interpretar a realidade. Quando pais e responsáveis se omitem do debate sobre o que os jovens consomem em suas telas, eles abrem espaço para que algoritmos e influenciadores de procedência duvidosa assumam a tutoria intelectual de seus filhos. O diálogo familiar eficaz sobre fake news não deve ser construído na base do autoritarismo, da vigilância punitiva ou do confisco de aparelhos, pois tais atitudes costumam gerar alienação e sigilo por parte do adolescente. Ao contrário, deve-se adotar uma postura de escuta ativa e curiosidade genuína.
Desse ponto, e aceitando que boa parte de nossas vidas já estão sequestradas pelas plataformas, principalmente as relações sociais, uma estratégia de redução de danos é procurar e começar a seguir agências de verificação em seus canais dentro das próprias plataformas junto à família, numa tentativa de fazer os algoritmos colocaram mais fatos checados mas nossas vidas. Sendo muito sincero, o cenário sobre a disseminação da verdade está ruim, mas podemos e devemos colaborar na formação de gerações mais vacinadas contra o fascismo e seus métodos de desinformação. Infelizmente, não parece razoável fazer sugestões de agências de verificação, assim cada pessoa ou família precisará pesquisar, discutir e escolher suas agências de verificação para seguir. Sem dúvida, atitudes assim são melhores que só adotar ferramentas digitais para fazer um trabalho que é intrinsecamente humano!
Boas escolhas a todos!
*Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.





