Estudantes são perseguidos/as na Universidade Rural do Rio de Janeiro

Estudantes são perseguidos/as na Universidade Rural do Rio de Janeiro

em 19 mar

Estudantes e grupos que participaram de manifestação pacífica sofrem graves intimidações, incitadas por professores da própria Universidade. Por Informativo Autonomia.

syngenta-assassinaApós realizarem uma manifestação pacífica durante a realização da palestra do Programa de Seleção de Trainees da Syngenta, empresa Suíça notoriamente conhecida por contratar milicianos armados para assassinar camponeses[1] e desrespeitar normas ambientais[2], estudantes de diversos cursos e grupos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro estão sofrendo ameaças e perseguições de um grupo de alunos e professores.

A palestra da Syngenta foi organizada pelo professor do Departamento de Fitopatologia Luiz Antônio Siqueira de Azevedo, que em carta aberta publicada no jornal semanal da UFRRJ reafirma o “compromisso de inserir os agronomandos no mercado competitivo do agrobusiness”, parte de um “grande” projeto seu para a Universidade Rural.

Luiz Antônio Siqueira de Azevedo

Luiz Antônio Siqueira de Azevedo

A perseguição explícita dos milicianos universitários da Syngenta, que consiste desde ofensas diretas à bombas jogadas nos alojamentos dos estudantes durante a madrugada, ganhou força com as declarações do professor João Pedro Pimentel, também do Departamento de Fitopatologia, que durante uma aula ministrada na Rural defendeu abertamente a ameaça e perseguição aos estudantes.

A manifestação contra a atuação desta multinacional foi organizada pelos membros do GAE (Grupo de Agricultura Ecológica), GETERRA (Grupo de Estudo e Trabalho em Ensino e Reforma Agrária) e da FEAB (Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil).

Segue um trecho de entrevista realizada pelo Informativo Autonomia com um dos estudantes que, por razões óbvias, prefere não se identificar:

Informativo Autonomia (IA): Qual era o motivo e como foi feita a manifestação durante a palestra da Syngenta?

X.: O Ato questionava a ação de um professor da Fitopatologia que, com o apoio do Decanato de Extensão, promoveu uma palestra na Rural para a seleção de trainees para a Syngenta. Pela tarde fomos para o Prédio Principal da Universidade (P1), onde estava acontecendo a palestra, com faixas, cartazes, som e uma banca com sementes crioulas. Conseguimos colar os cartazes por todo o P1, entre eles o cartaz em solidariedade ao companheiro Keno do MST [Movimento dos Sem-Terra], que fora assassinado por capangas contratados pela Syngenta em outubro de 2007. Colocamos nossas faixas e a barraca de sementes crioulas no saguão [átrio] de entrada do P1, fizemos uma marcha por todos os andares do prédio, puxando gritos como “transgênico é veneno, Syngenta é assassina” e fazendo falas colocando o nosso posicionamento a respeito das multinacionais do agronegócio e sua entrada nas Universidades. Nosso objetivo não era boicotar a palestra, mas apresentar os motivos de nossa insatisfação para os participantes da palestra, para a administração superior e para a comunidade que transitava pelo P1. No final da mobilização, quando as pessoas estavam saindo da palestra, fizemos um grande panelaço [bater com panelas] e praticamente expulsamos o professor e o assessor da Syngenta do prédio. Todas as ações foram filmadas para posterior divulgação.

IA: E o que seria a Syngenta? Quais os danos que ela causa aos trabalhadores e ao ecossistema brasileiro?

X.: A Syngenta é atualmente a multinacional que mais vende agrotóxicos em todo o mundo. Com sede na Suíça, suas vendas em 2007 somaram aproximadamente 10 bilhões [milhares de milhões] de dólares. Além de ser responsável direta pelos óbvios danos causados pelos seus agrotóxicos ao meio ambiente (poluindo solos, rios e mares, intoxicando e matando animais), às populações do campo (intoxicando e matando agricultores, aumentando o êxodo rural) e às populações da cidade (envenenando o alimento oferecido nas prateleiras dos supermercados), realiza pesquisas em sementes transgênicas com a tecnologia “Terminator”, que obriga a planta a produzir sementes que não germinam, o que impede que os agricultores produzam suas próprias sementes, tornando-os dependentes do mercado e das variações de preços.

Em março de 2006, a Syngenta foi multada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) em R$ 1 milhão, pelo cultivo ilegal de transgênicos, no entorno do Parque Iguaçu, o que é proibido pela legislação. A empresa questionou a multa, mas em 30 de novembro de 2007 a Justiça Federal do Paraná reafirmou a ilegalidade da empresa, confirmando a multa e proibindo a Syngenta de seguir desenvolvendo experimentos na área de Santa Tereza do Oeste. Mesmo após a decisão judicial, a transnacional continua negando-se a pagar a multa.

A Syngenta Seeds também é responsável pelo maior caso de contaminação genética comprovado no mundo. Durante quatro anos, a multinacional comercializou de forma criminosa o milho Bt10, vendido como Bt11, sem autorização, nos Estados Unidos. O milho transgênico da empresa não foi avaliado pelos órgãos reguladores e nem seus efeitos sobre a saúde humana e o meio ambiente. As sementes comercializadas contaminaram o milho exportado para vários países. Em dezembro de 2006 a Syngenta foi condenada a pagar multa de 1,5 milhão de dólares por ter vendido ilegalmente a variedade deste milho no mercado americano.

Em 21 de outubro de 2007, o trabalhador rural Valmir Mota, (conhecido como Keno), foi assassinado à queima roupa por seguranças de uma empresa privada contratada pela Syngenta, a NF Seguranças. Por volta das 13h30, um grupo de seguranças fortemente armados atacou a ocupação da Via Campesina no campo experimental da empresa, em Santa Tereza do Oeste, no Oeste do Paraná. No ataque, executaram Valmir Mota, balearam Isabel do Nascimento de Souza no rosto e a espancaram, além de ferir outros três agricultores. Keno deixou 3 filhos e a esposa. Isabel do Nascimento perdeu um olho e os movimentos de um braço.

IA: E quando começaram as perseguições?

X.: No mesmo dia, durante a noite, os estudantes que tinham participado do ato já eram insultados e ameaçados verbalmente quando passavam pelos corredores dos alojamentos, por anônimos. Na semana seguinte, foram afixados cartazes na porta dos quartos onde residem alguns dos participantes, com os dizeres “Morte aos haribols [hippies]!”. Também encontramos cartazes com os dizeres “Está aberta a temporada de caça aos haribols”.

Quase todas as noites bombas explodiam nos corredores e próximo às janelas das residências dos participantes. Foram jogados também lixo e lama nas portas das residências desses estudantes. Durante as aulas, a situação é de total constrangimento, com direito a cochichos e olhares ameaçadores e repreensivos por parte dos próprios estudantes. Essa situação continuou até o fim do período, em dezembro.

IA: É verdade que há alguns professores envolvidos nesse processo de intimidação contra os que participaram da manifestação?

X.: Sim. Após o ato, diversos/as professores/as utilizaram o tempo de suas aulas para proclamar suas opiniões pessoais sobre os estudantes rebeldes e os grupos organizados. Após brindar os estudantes de agronomia com a pérola “Quanto mais praga, melhor para nossa profissão!”, o professor Luiz Antônio “Luizão”[3], em sua aula de Fitopatologia Geral proferiu as sentenças “Esses agroecológicos vão tudo morrer de fome!” e “ Eu não falo com quem não toma banho!”, demonstrando preconceito, ignorância e intolerância às diferenças. Alguns participantes do ato estão matriculados em sua disciplina e após terem sido identificados por este distinto cavalheiro, estão sendo sistematicamente ignorados pelo professor. Suas dúvidas não são respondidas, ou são respondidas com chacotas como “não sei”, “me recuso a te responder isso” e “alguém ouviu algum barulho?”.

Outro professor, João Pimentel, se referindo ao momento do ato, disse que “Se fosse eu mandava os estudantes (na plenária) saírem e dar na cara deles (manifestantes)”, claramente incitando a violência dentro da sala de aula, ao invés de lecionar.

Esses são apenas alguns dos casos relatados. A situação infelizmente está nesse nível.

IA: Os grupos envolvidos além de denunciarem essas multinacionais possuem propostas para uma agricultura com menos veneno na comida e que estabeleça uma nova relação com o meio ambiente. Você pode falar rapidamente a respeito?

X.: Claro. Segundo dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] de 2006, 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros são provenientes da agricultura familiar. Diferentemente do agronegócio voltado para a exportação, geralmente baseado na produção de commodities, em monoculturas com uso intensivo de mecanização e de agroquímicos (fertilizantes e agrotóxicos), a agricultura familiar é diversificada, mais intensiva em ocupação e menos dependente dos agrotóxicos e dos organismos geneticamente modificados, as sementes transgênicas. E é justamente a agricultura familiar com bases ecológicas que acreditamos que seja o modelo de desenvolvimento mais justo para os trabalhadores rurais e para os consumidores urbanos. A agroecologia integra a produção de alimentos saudáveis e a recuperação ambiental, estimulando práticas como a manutenção das reservas legais e das áreas de proteção permanente e a preservação de nascentes e recursos hídricos, auxiliando a diminuir as ameaças do aquecimento global. Infelizmente, num país campeão em concentração de terra nas mãos dos latifundiários[4], pleitear a agricultura familiar, a reforma agrária e a agroecologia é passível de perseguição, punição e morte. Mesmo assim, não desistiremos jamais. Preferimos morrer de pé a passar a vida de joelhos.

Notas:

[1] Em 21 de outubro de 2007, o trabalhador rural e também integrante do MST Valmir Mota de Oliveira, o “Keno”, foi assassinado por pistoleiros contratados pela Syngenta no assentamento Terra Livre, no Paraná.

[2] Em 2006 a transnacional cultivava experimentos de sementes transgênicas dentro da zona de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu, o que era proibido pela lei de biossegurança e produzia poluentes que agrediam a biodiversidade do parque. Multada pelo IBAMA, nunca pagou a dívida. Todas essas denúncias estão no Relatório feito pelo MST, CPT e Terra de Direitos, entregue à Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, em audiência pública realizada no Paraná, na quinta-feira, dia 18 de outubro de 2007.

[3] O professor Luis Antônio Siqueira de Azevedo graduou-se em Agronomia na UFRuralRJ em 1977, especializou-se em defensivos agrícolas em 1980 e fez doutorado em fungicidas da soja em 2005. Autor de diversos livros sobre fungicidas, trabalhou pesquisando e desenvolvendo fungicidas por 12 anos na Syngenta e por 2 anos na Bayer. Mais informações em http://lattes.cnpq.br/6306189935902283. Cuidado para não se intoxicar…

[4] Situa-se no Brasil o maior latifúndio do mundo, mais precisamente em Terra do Meio, no coração do estado do Pará. Cecílio do Rego Almeida, dono da construtora CR Almeida, possui uma terra com uma extensão de 4,5 milhões de hectares, o equivalente a aproximadamente 4,1 milhões de campos de futebol. A fins de comparação, a área do estado do Rio de Janeiro é de 4,3 milhões de hectares.

NDR: Assista aqui ao documentário produzido pela Brigada de Audiovisual da Via Campesina/Brasil para a Campanha “Fora Syngenta do Brasil”. A Syngenta é uma transnacional suíça que atua em mais de 90 países [criada em 2000 a partir da fusão dos ramos agrícolas de duas indústrias farmacêuticas, Novartis e AstraZeneca] e detem 90% do comércio mundial em transgênicos [em conjunto com a Du Pont e a Monsanto]. Dentre outras atividades ilegais no Brasil, mantinha um campo de testes com transgênicos dentro da faixa de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu, patrimônio natural da humanidade, motivo pelo qual já havia sido multada em 1 milhão de reais. Numa ocupação pacífica da Via Campesina no local, em março de 2006, pistoleiros particulares, contratados pela empresa, assassinaram o dirigente do MST Valmir Mota, o Keno. Os camponeses mantiveram a ocupação e em novembro de 2006 o governo do Paraná publicou um decreto de desapropriação da fazenda.


Comentários 1

    • Opniao

      |

      maio 12, 2010

      |

      Acredito que muito no que diz respeito a empresa, não querendo defendê-la, não há provas, fatos, ou qualquer coisa que comprovem o que está escrito, desmerecendo e tirando o fundamento de todo o artigo. Por exemplo, no ultimo paragráfo, na nota de rodapé: “Dentre outras atividades ilegais no Brasil…” que outras atividades? Sinto também que há uma certa inocência em ao dizer que TODOS deveriam plantar de forma agroecológica, uma vez que o principal fator limitante na produção de alimentos das minor crops é justamente a falta de mão-de-obra. Outra que, somente a classe média alta e alta conseguem consumir somente produtos orgânicos/ agroecológicos. E quanto ao resto de todo nosso Brasil? Vale lembrar tambpem que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose. No caso de agroquímicos seria também o período de carência. Uma opnião: vocês como agronômos deveriam parar de ficar pensando em demagogias e FAZER uma maneira que se possa otimizar o processo de produção da agricultura que preferirem, ao invés de ficar lutando por um sistema que pode não se sustentar de forma ideal mas, a questão não é essa, a questão é como que pode-se produzir melhor e de forma coerente a realidade dos produtores? Vocês já visitaram uma roça hoje?

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