Os náufragos (2ª Parte)

Os náufragos (2ª Parte)

em 10 set

Quem soube lutar contra uns saberá lutar contra outros, foi este o pensamento que presidiu em todos os casos à atitude que o bureau político staliniano tomou para com os refugiados. Por João Bernardo

Asger Jorn, «Olhando o passado», 1962

Por que não se exilaram na União Soviética os fugitivos do fascismo, acabando por ser presos nas democracias? Mas é que muitos deles se exilaram, pois era ali o país da revolução de Outubro, a pátria do socialismo. E o que lhes aconteceu?

Se centenas de combatentes republicanos na guerra civil espanhola foram internados em França no campo de concentração de Le Vernet, a sorte de muitos outros não foi melhor na União Soviética. Quem se revelara capaz de lutar num lado poderia fazê-lo no outro, além do que, os comunistas espanhóis haviam mostrado uma capacidade de mobilização e de organização incómoda numa situação em que só se pretendia a obediência passiva. Stalin e o seu bureau político não tinham disposição para correr riscos e enviaram para campos de trabalho numerosos refugiados da guerra civil espanhola.

Robert Motherwell, «Elegia à república espanhola, nº 70», 1961

«Dos 6.000 militantes comunistas espanhóis chegados à URSS, quando eu me evadi mal tinham sobrevivido 1.200», declarou Valentín González, o lendário El Campesino, numa das audiências de um processo num tribunal francês acerca da questão dos campos de concentração soviéticos. Ele, que fora um dos principais chefes comunistas durante a guerra civil, sabia do que falava. Na batalha de Guadalajara, em Março de 1937, as tropas italianas ao serviço de Franco haviam sido derrotadas pelos milicianos comandados pelo anarco-sindicalista Cipriano Mera e pelos comunistas Lister e El Campesino, ajudados por brigadas internacionais e pelos tanques do general soviético Dimitri Pavlov. Com a vitória dos fascistas El Campesino partiu para a União Soviética, onde entrou em desavença com a linha oficial e foi detido num campo de concentração, conseguindo a notável proeza de fugir, atravessando toda a Rússia de norte a sul e refugiando-se na Pérsia. Mas as autoridades britânicas capturaram-no e devolveram-no aos soviéticos. Internado então num dos mais terríveis campos de trabalho, onde lhe deram a incumbência de limpar as latrinas, El Campesino escapou de novo, desta vez com êxito.

Houve outros exemplos, mais notórios ainda, de cooperação entre forças policiais. Depois da ocupação da França pelas tropas do Eixo, a direcção do Partido Comunista francês apelou para que os alemães e austríacos detidos em Le Vernet e noutros campos de concentração franceses regressassem voluntariamente ao Reich. Era a época em que vigorava o Pacto Germano-Soviético, e se ignoro quantos antifascistas seguiram aquele conselho e se enfiaram de livre vontade na boca do lobo, é mais conhecida a história dos que foram para lá enviados à força. Com efeito, em seguida à assinatura dos acordos diplomáticos com o Reich, os dirigentes de Moscovo entregaram aos nazis várias dezenas de comunistas dissidentes alemães e autríacos, que estavam presos na União Soviética.

Robert Motherwell, «Elegia à república espanhola, nº 70», 1961

Margarete Buber-Neumann, que conheceu os campos de concentração soviéticos e os nazis, narrou a sua experiência num dos depoimentos fundamentais para a compreensão daquela época. Ela fora casada com o filho do notável filósofo judeu alemão, depois israelita, Martin Buber, e após o seu divórcio casou-se com Heinz Neumann, um dos mais interessantes e menos estudados agentes da Internacional Comunista, especialista em insurreições armadas. Stalin enviara-o à China e, malgrado a sua intervenção catastrófica no levantamento de Cantão em Dezembro de 1927, ele continuou a beneficiar da confiança daquele que era já o homem mais poderoso do comunismo mundial. Neumann tornou-se então o representante pessoal de Stalin no interior do Partido Comunista alemão e foi ele quem verdadeiramente o dirigiu desde Outubro de 1928 até Outubro de 1932, encaminhando-o ainda mais decididamente para a nefasta perspectiva nacionalista e virada para o diálogo com a extrema-direita radical que analisei noutro artigo publicado neste site. Em Outubro de 1932 tornou-se público que Neumann caíra em desgraça e fora afastado do bureau político, embora a orientação ultranacionalista que ele preconizara se mantivesse em vigor, a tal ponto que a declaração oficial do Partido o acusou de não proceder a uma luta suficientemente intensa contra a social-democracia. Neumann foi então relegado para funções secundárias e empregue em missões de menor importância, até que em 1937 ele e Margarete foram presos na União Soviética e enviados para campos de concentração.

Francis Bacon, «Criança paralítica andando de gatas», 1961

Em 1940, ao abrigo do Pacto assinado com o Reich, as autoridades soviéticas retiraram dos seus campos de concentração várias dezenas de prisioneiros alemães e austríacos e entregaram-nos às autoridades nazis, que os meteram a todos em campos de concentração. Margarete Buber-Neumann contava-se entre eles. As suas responsabilidades no movimento comunista nunca haviam sido grandes e ela notabilizou-se sobretudo pelo testemunho que nos deixou, mas outras figuras que tiveram um importante papel político seguiram o mesmo percurso atribulado. August Creutzburg, por exemplo, um dos muitos que em 1920 transitaram do Partido Social-Democrata Independente para o Partido Comunista alemão, onde assumiu funções dirigentes, sobretudo a partir de 1929, emigrou em 1933, depois de Hitler ter alcançado o poder, e refugiou-se na União Soviética em 1935. Preso em 1937, foi entregue aos nazis em 1940. Destino semelhante teve Franz Koritschoner, um dos fundadores do pequeno Partido Comunista da Áustria. Refugiado e depois preso na União Soviética, foi entregue aos nazis em 1940.

Enquanto os dirigentes soviéticos remetiam à procedência várias dezenas de comunistas dissidentes alemães e austríacos, em sentido inverso dezenas de milhares de polacos fugiam da zona do seu país ocupada pelo Reich para a zona ocupada pelo Exército Vermelho. Mas reproduziu-se com eles o mesmo dilema em que o bureau político staliniano se encontrara perante os exilados da guerra civil de Espanha, com a agravante de que a esmagadora maioria dos refugiados polacos não era comunista e simplesmente, entre dois males, preferira Stalin a Hitler. Além disso, os numerosíssimos judeus polacos sabiam que na zona de ocupação soviética não seriam encerrados em ghettos e, depois, exterminados.

Mas Stalin não hesitou e decretou a detenção sistemática de toda aquela massa humana, tanto em prisões, para os suspeitos de activismo político, como em campos de trabalho, para os restantes. Contando com os refugiados e com aqueles que já antes habitavam a zona do seu país ocupada pelos soviéticos, calcula-se que a partir da Polónia oriental tivesse sido deportado cerca de um milhão de pessoas, quer para prisões e campos de trabalho quer para residirem obrigatoriamente em outras regiões. A última vaga de deportações incluiu uma elevada percentagem de membros do próprio Partido Comunista, especialmente os que haviam organizado os Comités Locais antes da chegada do Exército Vermelho, e de membros das Milícias Operárias. Só depois do ataque nazi à União Soviética, em 22 de Junho de 1941, que levou à assinatura do tratado entre Stalin e o general Sikorski, primeiro-ministro do governo polaco no exílio e comandante-chefe das forças polacas livres, é que os prisioneiros polacos foram libertados.

As detenções maciças de refugiados revelam que os dirigentes soviéticos queriam, por um lado, evitar que a população russa tomasse contacto com pessoas que tinham conhecido outros sistemas políticos e outras formas de vida e cujas mentalidades não haviam sido formadas pela propaganda staliniana; e, por outro lado, temiam a presença de exilados políticos que haviam dado mostras de coragem e de determinação e estavam ligados entre si por redes organizacionais independentes do monolitismo soviético. Quem soube lutar contra uns saberá lutar contra outros, foi este o pensamento que presidiu em todos os casos à atitude tomada para com os refugiados.

Jackson Pollock, «A loba», 1943

Enquanto vigorou o Pacto Germano-Soviético, as mesmas deportações maciças que se verificaram a partir da Polónia oriental ocorreram também a partir dos Estados bálticos, e note-se que entre as categorias de lituanos condenados à deportação contavam-se todos os membros dos partidos e facções de esquerda e extrema-esquerda, com excepção dos comunistas de obediência staliniana.

Pelas mesmas razões que o haviam levado a prender combatentes da guerra civil espanhola e antifascistas polacos e lituanos, o bureau político staliniano decidiu, terminada a guerra, internar em campos de concentração muitos, ou mesmo a maior parte, dos militares soviéticos que tinham sido aprisionados pelas forças do Eixo. Era comum a justificação de que esses militares haviam demonstrado pouca combatividade, pois não lutaram até à morte, mas o argumento revela uma completa indiferença quanto às condições em que se processara uma guerra onde os confrontos pessoais quase não existiam e onde se executavam deslocações de enormes massas humanas. A coragem individual pouco contribuía para que massas de soldados fossem ou não cercadas. Uma vez mais, vemos o que os dirigentes stalinianos realmente temiam ao sabermos que entre os antigos prisioneiros de guerra soviéticos condenados ao internamento nos campos de concentração da Sibéria estavam incluídos aqueles que se haviam destacado na formação de organismos de resistência dentro dos campos de concentração nazis. «Numerosos russos que haviam sobrevivido aos campos de concentração nacionais-socialistas foram depois internados nos do seu país. Mesmo um oficial superior como Nikolay Simakov, unanimemente considerado como o responsável pelos grupos de resistência russos em Buchenwald, foi posto depois da guerra nas prisões soviéticas», observa Hermann Langbein, um dos melhores especialistas do assunto. «Jorge Semprun, que naquela época foi um quadro superior do Partido Comunista espanhol e que esteve ele próprio internado em Buchenwald, escreve que “a maior parte [dos detidos soviéticos] passou directamente dos campos alemães para os gulags stalinianos”».

Mas os judeus, que a todo o custo procuravam escapar do Reich e dos territórios ocupados pelos nazis, não teriam eles encontrado nas democracias um refúgio mais ameno do que a deportação e os campos de trabalho com que as autoridades soviéticas os mimosearam até Junho de 1941?

Referências

As declarações de El Campesino na audiência de 15 de Dezembro de 1950 do processo movido por David Rousset, antigo deportado num campo de concentração nazi, contra o jornal comunista Les Lettres françaises encontram-se em Le Procès des Camps de Concentration Soviétiques, [Paris]: Dominique Wapler, 1951, pág. 88. A declaração oficial do Partido Comunista alemão relativamente ao afastamento de Heinz Neumann vem citada em Hermann Weber, La Trasformazione del Comunismo Tedesco. La Stalinizzazione della KPD nella Repubblica di Weimar, Milão: Feltrinelli, 1979, pág. 256. O testemunho de Margarete Buber-Neumann acerca dos campos de concentração soviéticos e nazis constitui a integralidade do seu livro Under Two Dictators, Londres: Victor Gollancz, 1949. Uma vez mais, foi Arthur Koestler um dos poucos autores a interessar-se pelo destino dos fugitivos políticos de esquerda na Europa de leste durante a segunda guerra mundial. Veja-se o seu livro The Yogi and the Commissar and Other Essays, Nova Iorque: Collier, 1961, sobretudo as págs. 180 e segs. A citação relativa à detenção em campos de concentração soviéticos dos antigos prisioneiros de guerra soviéticos no Reich encontra-se em Hermann Langbein, La Résistance dans les Camps de Concentration Nationaux-Socialistes, 1938-1945, [Paris]: Fayard, 1981, pág. 203 n. 17.

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Comentários 1

    • João Bernardo

      |

      maio 28, 2013

      |

      Relendo o livro de Margarete Buber-Neumann citado na bibliografia, encontro na pág. 35 uma informação que não tomei em conta quando escrevi este artigo. Já em 1936-1937, portanto muito antes do pacto Molotov-Ribbentrop, as autoridades soviéticas havia deportado para o Reich especialistas alemães que tinham ido trabalhar para a União Soviética no quadro dos planos quinquenais. Penso que essas deportações se relacionariam com o expurgo que estava então a ser conduzido entre os membros do Partido Comunista Alemão no exílio.

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