MST S.A. (3ª parte)

A agricultura orgânica foi um dos temas da propaganda nazi e a agricultura familiar foi fomentada no regime nazi. Hoje a agricultura orgânica familiar destina-se ao consumo das camadas de rendimentos elevados. Por Passa Palavra

Leia a 1ª parte e a 2ª parte deste artigo.

6. O mercado da agricultura orgânica

Numa série de artigos publicada no Passa Palavra em março e abril de 2012, João Bernardo mostrou que numa primeira fase, entre 1984 e 1995, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) defendeu como objetivo social as cooperativas de produção e como objetivo técnico a agroindústria (veja aqui). A partir de 1995, porém, quando o governo de Fernando Henrique Cardoso bloqueou e depois extinguiu o Programa de Crédito Especial para a Reforma Agrária (Procera) e o substituiu pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o MST abandonou a estratégia de desenvolvimento de cooperativas de produção baseadas na industrialização da agricultura e inseriu-se no quadro da agricultura familiar, ditado pelo governo. «A apologia da agricultura familiar e a agroecologia surgiram no MST sobre os escombros do cooperativismo e da produção colectiva», escreveu João Bernardo (veja aqui), acrescentando que «ao iniciar a nova linha de promoção da agricultura familiar e ao pressionar neste sentido a direcção do MST mediante os créditos do Pronaf, Fernando Henrique Cardoso obteve um notável triunfo estratégico».

Se a alteração das linhas de crédito foi determinante para a mudança de estratégia do MST, compreende-se que o crescimento das verbas disponibilizadas pelo Pronaf tivesse consolidado a opção do Movimento pela agricultura familiar e pela agroecologia. Segundo dados oficiais, «em 1999/2000, foram disponibilizados pouco menos de R$ 3,3 bilhões [milhares de milhões] com uma execução de 66%» e «em 2006/2007, o montante disponibilizado para financiamento do Pronaf chegou a R$ 10 bilhões, representando um crescimento em relação a 1999/2000 de 205% e com uma taxa de execução de 84%». Em 2008/2009 o Pronaf disponibilizou 13 bilhões de reais (veja aqui). Perante este crescimento dos subsídios, a luta pela conquista da terra passou a confundir-se, para o MST, com a disputa pela obtenção de uma fatia dos créditos do Pronaf.

Mas as verbas do Pronaf não foram o único fator determinante na estratégia do Movimento, e o próprio mercado começou a assumir um papel de relevo na opção pela agroecologia.É que, apesar das pretensões — ou ilusões — dos seus promotores, a agricultura orgânica destina-se não ao consumo popular mas ao das camadas de rendimentos elevados. Segundo a Organic Trade Association, os Estados Unidos, a Alemanha e a França constituem os maiores mercados de produtos orgânicos e, considerado per capita, o consumo mais elevado deste tipo de produtos deve-se à Dinamarca, à Suíça e à Áustria (veja aqui). Ora, são as camadas de rendimentos elevados que melhor resistem à crise econômica, o que explica que este mercado se tenha expandido nos últimos anos, apesar das dificuldades sentidas no escoamento de outros tipos de bens. Ainda de acordo com a Organic Trade Association, as vendas totais de produtos orgânicos, que foram de 50,9 bilhões de dólares em 2008, atingiram 54,9 bilhões em 2009 e a progressão manteve-se. «As vendas globais de produtos orgânicos continuam a desafiar o declínio econômico», escreve a Soil Association, «crescendo 8,8% em 2010 e mantendo o crescimento em 2011» (veja aqui). Com efeito, segundo o Organic Food: Global Industry Guide, o mercado mundial de alimentos orgânicos cresceu 9,8% em 2011, atingindo um valor total de 67,2 bilhões de dólares (veja aqui).

Assim, os principais centros de riqueza mundiais estimulam o crescimento da agroecologia e o processo repercute-se no Brasil. No Projeto Organics Brasil, que reúne cerca de oitenta empresas brasileiras de produtos orgânicos, a exportação desses produtos aumentou 50% de 2011 para 2012 (veja aqui). A mesma dinâmica ocorre no interior do país. A Associação Brasileira de Orgânicos (Brasilbio) indicou que o mercado brasileiro de alimentos orgânicos cresceu cerca de 40% em 2010 e esperava que essa taxa se mantivesse no ano seguinte (veja aqui). Com efeito, segundo o Organic Market Report 2012, da Soil Association, no Brasil a taxa de crescimento anual das vendas de produtos orgânicos foi da ordem dos 40% (veja aqui). Entendemos o motor deste crescimento ao lermos na Agência Brasil (veja aqui) que Arnoldo de Campos, diretor de Agregação de Valor do Ministério do Desenvolvimento Agrário, considerou em novembro de 2012 que o crescimento da chamada classe média arrastou o aumento do consumo de produtos orgânicos. Como, de acordo com Arnoldo de Campos, dos cerca de 90 mil agricultores brasileiros que têm alguma produção orgânica ou agroecológica, aproximadamente 85% são agricultores familiares, concluímos que um cultivo feito nas condições de sobre-exploração típicas da economia doméstica vai beneficiar preferencialmente, no mundo e no Brasil, os estratos sociais mais abastados. Por aqui se pode aferir a demagogia de quem afirma que a agricultura orgânica familiar fornece alimentos para os pobres. Pelo contrário, são os pobres a fornecer alimentos para os ricos. Mas é indispensável considerar outro aspecto.

Como é do conhecimento geral, um dos principais objetivos dos comerciantes consiste em fidelizar os consumidores, o que tem um duplo efeito. Por um lado, permite ao comerciante prever com maior exatidão o escoamento dos produtos, evitando desperdícios, minimizando as despesas de armazenamento e, em geral, otimizando a circulação do capital. Por outro lado, quanto mais fiéis forem os consumidores tanto menos se hão-de dirigir às lojas concorrentes ou adquirir outros tipos de produto, o que permite ao vendedor praticar preços mais elevados. A fidelização constitui, em suma, um obstáculo à concorrência, em benefício do vendedor. Ora, a agroecologia, ao mesmo tempo que é um ramo de negócios, apresenta-se também como uma ideologia, com os seus propagandistas, militantes e profetas. Comprar alimentos orgânicos não é só uma opção econômica, mas é fundamentalmente uma opção ideológica e até, para muita gente, um modo de vida. Nesta situação atinge-se uma fidelização máxima do consumidor, com os efeitos descritos. A venda de alimentos orgânicos é, para os comerciantes, uma fonte de lucros suplementar.

As consequências deste processo são ainda mais nítidas nos casos em que a produção de alimentos orgânicos se deve ao MST ou a movimentos similares. Se os produtos apresentarem a chancela de origem, o comprador poderá considerar que comer e beber constitui um ato de militância, e haverá coisa mais tranquilizadora do que ter mesa farta sem má consciência? Esta ambiguidade da agroecologia, procedendo ao marketing ideológico de um produto totalmente inserido no capitalismo, é ainda mais notória quando observamos a gênese histórica da agricultura orgânica.

7. Origem histórica da agricultura orgânica

Rudolf Steiner

O criador da agricultura orgânica foi Rudolf Steiner, a quem se deve a fundação da Antroposofia. Aliás, é curioso que, sendo a antroposofia tão difundida no Brasil, a gênese da agricultura orgânica não seja suficientemente conhecida entre os seguidores do MST e os grupos anarquistas brasileiros que a praticam. Nascido na Áustria e ativo em grande medida na Alemanha, Steiner integrou a agricultura orgânica, que ele denominava agricultura biodinâmica, no conjunto de noções místicas, mágicas e vitalistas que sustentam a antroposofia. A concepção da natureza e da terra como um ser vivo, que caracteriza algumas correntes ecológicas contemporâneas, encontra ali uma das suas variadas origens.

Rudolf Steiner morreu em 1925 e, embora os discípulos atuais prefiram salientar as suas fricções com alguns dos fundadores e chefes do nacional-socialismo, o certo é que havia também muitos elos a ligá-lo à extrema-direita germânica. De qualquer modo, a relação da antroposofia com o nazismo e o Terceiro Reich foi ambígua. Personalidades nazis de primeiro plano, como Göring e Bormann, manifestaram-se contrários à antroposofia e, o que nos interessa mais diretamente neste artigo, contrários à agricultura biodinâmica, enquanto outras personalidades não menos influentes, como Rudolf Hess, simpatizaram com os aspectos místicos da antroposofia e apoiaram a agricultura biodinâmica.

Walther Darré

Mas o principal apoio deveu-se a Walther Darré, que, filiado no partido nazi em maio de 1930, foi então nomeado conselheiro de Hitler para as questões agrárias. De junho de 1933 até 1942 Darré foi ministro dos Abastecimentos e da Agricultura e Führer dos Camponeses do Reich. E não só, já que para se avaliar a posição de Darré no regime nazi é indispensável conhecer a sua participação nos SS (Schutzstaffeln, Esquadrões de Proteção), ou seja, as milícias a quem se deveu a implementação da política racial e das medidas repressivas e que, durante a guerra, adquiriram uma enorme importância nas campanhas no Leste. Promovido a Obergruppenführer SS — o que constituía a mais alta patente logo abaixo do Reichsführer Heinrich Himmler, o chefe supremo dos SS — Darré ficou encarregado desde o final de 1931 do Departamento Central de Raça e Colonização dos SS, criado em grande medida graças aos seus esforços. Aliás, entre os funcionários do Ministério dos Abastecimentos e da Agricultura e os SS eram sistemáticas as filiações cruzadas, como já desde 1931 o haviam sido entre os SS e o Departamento Agrícola do partido nazi. Walther Darré não foi um mero tecnocrata especializado em questões agrárias, mas alguém que ocupou um lugar no próprio centro de poder do regime.

Walther Darré convidou vários antroposofistas para preencher os quadros do seu Ministério. Mudando-lhe o nome para agricultura orgânica, ele converteu a criação de Steiner na principal doutrina agrícola do Terceiro Reich e não se cansou de promovê-la, sustentando que se produziam assim alimentos saudáveis e de qualidade superior, sem deteriorar o solo, e fazendo campanha contra os fertilizantes artificiais e os inseticidas. Os temas dos atuais defensores da agricultura orgânica encontram-se já na propaganda emanada do Ministério dos Abastecimentos e da Agricultura nazi, em especial a convicção mística de que a química laboratorial e industrial seria fundamentalmente distinta da química ocorrida na natureza, nociva uma e benéfica a outra. Estas ideias encontraram eco em meios mais amplos do regime, a tal ponto que Himmler se queixou de que «o artificial está por todo o lado, por todo o lado os alimentos são adulterados com ingredientes que supostamente os fazem durar mais tempo ou ter melhor apresentação ou que os fazem passar por “enriquecidos” ou por qualquer outra coisa em que a publicidade da indústria queira que acreditemos […] estamos nas mãos da indústria alimentar, cujo poderio econômico e cuja publicidade lhes permitem ditar o que podemos e não podemos comer». E o Reichsführer SS prometeu que quando o Terceiro Reich triunfasse na guerra «tomaremos medidas enérgicas para evitar a ruína do nosso povo pelas indústrias alimentares». Em 1940 Darré enviou a todos os ministros um questionário versando a agricultura orgânica e, excetuando Hitler, que não respondeu, nove ministros opuseram-se a este tipo de agricultura com o argumento de que os seus efeitos poderiam prejudicar o esforço de guerra e três foram hostis por se tratar de uma ideia de Rudolf Steiner, mas sete ministros declararam-se favoráveis e três disseram que não se sentiam seguros acerca da questão.

Entretanto, o voo de Rudolf Hess para a Escócia em Maio de 1941, até agora sem explicação cabal, teve como uma das consequências privar os antroposofistas do seu principal protetor, o que levou Reinhard Heydrich, então a figura mais importante dos SS logo depois de Himmler, a lançar uma perseguição contra os discípulos de Steiner. A União dos Antroposofistas foi encerrada, mas é importante notar que o seu organismo encarregado da promoção da agricultura orgânica foi autorizado a prosseguir a atividade, embora sob outra designação. Darré empregou em defesa dos antroposofistas a influência que ainda lhe restava, no que foi retribuído, porque terminada a guerra os antroposofistas ajudaram-no financeiramente e continuaram a auxiliá-lo na promoção da agricultura orgânica.

Ao mesmo tempo, Darré deduziu as mais diretas consequências sociais daquela técnica de cultivo, recusando a produção em massa e consagrando a agricultura familiar como o quadro organizativo do campesinato. Neste sentido foi promulgada em setembro de 1933 uma lei, completada por um decreto três anos depois, que instaurou o regime de morgadio em terras de pequenas dimensões, a cargo de camponeses «de sangue alemão ou de raça semelhante». Fixando a linha sucessória, impedindo a divisão da terra por herança e proibindo a sua alienação pela venda e o seu sequestro por hipoteca, estes dois instrumentos legais instauraram a perenidade da agricultura familiar enquanto base da ordem nazi na sociedade rural. Em 1938 havia já mais de 670.000 morgadios, ocupando acima de um terço da superfície cultivada, e em abril de 1942 Hitler disse que dera instruções para que obedecessem àquele sistema as fazendas atribuídas aos colonos germanos nos territórios conquistados de Leste. A outra face do sistema deveu-se a uma lei de maio de 1934, determinando que os assalariados agrícolas precisariam de autorização para aceitar emprego na indústria. Ora, como é sabido, tudo o que dificulte a mobilidade da força de trabalho contribui para a redução dos salários. Já então, e tal como hoje, a agricultura familiar assentava num sistema de mais-valia absoluta, ou seja, de sobre-exploração.

Mas apesar dos esforços das autoridades o número dos pequenos camponeses não aumentou significativamente, e uma lei promulgada em 1933 com o objetivo de facilitar o desmembramento das grandes propriedades apenas proporcionou a instalação em terras próprias de pouco menos de cinco mil famílias em 1935 e de mil e quatrocentas em 1938. Também na organização global da economia não progrediu a parte devida ao setor rural, desfavorecido pelos movimentos relativos dos preços agrícolas e industriais. Por este motivo Darré defendia a autarquia econômica, de modo a proteger os camponeses do comércio internacional, o que recorda as atuais propostas de soberania alimentar.

Assim, o sistema estava longe de ser rentável e não se teria sustentado sem o caudal de subsídios emanado do Ministério dos Abastecimentos e da Agricultura. Walther Darré declarou num discurso em novembro de 1936: «O campesinato deve compreender claramente que na época da técnica moderna, dos transportes modernos, dos métodos modernos de trabalho e de economia, ele tem tão poucas razões de existência econômica como o barco à vela relativamente ao navio a vapor. Sob um ponto de vista puramente econômico, a forma e a dimensão da exploração camponesa não são rentáveis. A única razão de ser do campesinato é um fato que a história nos ensina, o de que um povo só se renova através do seu campesinato, o de que um povo deve manter em vida o seu campesinato para manter a sua própria existência». As autoridades nazis sustentaram uma classe de agricultores com custos tão pesados que entre 1934 e 1939, enquanto os orçamentos ministeriais aumentaram em média cerca de 170%, o Ministério da Agricultura viu o seu orçamento crescer cerca de 620%, ultrapassado apenas pelos ministérios dedicados à preparação militar e à repressão. Mesmo já depois de começada a guerra, só três ministérios dispuseram de um orçamento superior ao do Ministério da Agricultura. Estas prioridades orçamentárias do nacional-socialismo certamente farão crescer água na boca naqueles que no Brasil reclamam financiamentos do mesmo tipo.

No regime nazi, porém, os problemas sociais eram sempre concebidos num quadro racial, e aconteceu o mesmo com a agricultura familiar, o que levaria as relações entre Himmler e Darré a esfriarem progressivamente a partir de 1936. O objetivo a longo prazo de Darré, pelo menos desde 1931, era a formação gradual de um Estado camponês no interior do próprio Estado, de modo a que paulatinamente o campo conquistasse a cidade. Segundo Darré, a população estável e sedentária que compunha o mundo agrário fora o elemento fundador da raça nórdica e continuava a fornecer-lhe o esteio mais sólido e duradouro, em contato orgânico com a terra, regada pelo sangue dos antepassados. Os camponeses e os proprietários rurais, entre quem teriam outrora surgido os guerreiros e os nobres, seriam ainda a força vital da raça nórdica e deles haveria de renascer a nobreza de sangue, fortalecendo-se a nova raça de senhores. O Reichsführer SS Himmler partilhou inicialmente a mesma opinião, ainda para mais sendo agrônomo e membro do Conselho dos Camponeses do Reich. «A concepção de sangue defendida pelos SS está indissoluvelmente ligada à crença no valor do solo e no seu carácter sagrado», afirmou ele em 1936, e uma diretiva dos SS datando de 3 de abril de 1937 estipulou que «a excelência racial dos SS só pode ser perpetuada se eles tiverem raízes no campesinato».

Heinrich Himmler

Mas entretanto Himmler começou a interessar-se pelo recrutamento sistemático dos principais empresários, dos principais gestores, dos membros mais proeminentes das profissões liberais. Ora, como as normas de recrutamento dos SS constituíam elas mesmas um processo de depuração racial, não seria possível escamotear indefinidamente a contradição entre o quadro de seleção arcaico e rural que Darré insistia em defender e o quadro moderno e urbano em que Himmler passara a empenhar-se. A questão é controversa entre os historiadores, mas a hipótese mais verosímil, na nossa opinião, é que os interesses específicos da tecnocracia SS, sobretudo quando ela adquiriu o domínio absoluto nos territórios conquistados a Leste, tivessem dado azo a conflitos sérios quanto às modalidades de colonização e precipitado para o plano prático hostilidades que até então haviam podido disfarçar-se em termos ideológicos, comprometendo a antiga convergência de pontos de vista entre Himmler e Darré.

Vendo a sua influência declinar a partir de 1936 no interior do próprio Ministério dos Abastecimentos e da Agricultura, Darré foi substituído em 1938 na chefia do Departamento de Raça e Colonização dos SS e acabou por ser destituído da posição de ministro em 1942. Porém, a preservação do campesinato nunca deixou de ser defendida e em 6 de agosto de 1942 Hitler insistiu que «é uma grande tragédia quando uma nação deixa de contar com o sólido alicerce do seu campesinato». Embora os SS se vissem confirmados como a única instituição em que se concentravam os esforços para depurar o sangue nórdico e lhe garantir a hegemonia racial, os camponeses continuaram até ao fim do Terceiro Reich a ser amparados econômica e socialmente.

Em conclusão, a técnica da agricultura orgânica foi um dos principais temas de propaganda do Ministério da Agricultura nazi e o quadro social da agricultura familiar foi fomentado ao longo do regime nazi. Seria bom que aqueles que hoje nos apresentam a agricultura orgânica familiar como a última novidade anticapitalista meditassem sobre esta gênese histórica.

Referências

As declarações de Himmler em defesa dos alimentos orgânicos encontram-se em Jonah Goldberg, Liberal Fascism. The Secret History of the Left from Mussolini to the Politics of Meaning, Londres: Penguin, 2009, pág. 301. A passagem do decreto que instaurou os morgadios em setembro de 1933 encontra-se em J. Noakes e G. Pridham (orgs.), Nazism 1919 – 1945. A Documentary Reader, vol. II: State, Economy and Society 1933-1939, Exeter: University of Exeter Press, 2008, pág. 125. A passagem do discurso de Darré em novembro de 1936 vem transcrita em Charles Bettelheim, L’Économie Allemande sous le Nazisme. Un Aspect de la Décadence du Capitalisme, vol. I, Paris: François Maspero, 1971, pág. 50 n. 2. A declaração de Himmler em 1936 vem citada em E. K. Bramstedt, Dictatorship and Political Police. The Technique of Control by Fear, Londres: Kegan Paul, Trench, Trubner & Co., 1945, pág. 83. A diretiva dos SS de abril de 1937 encontra-se em Anna Bramwell, Blood and Soil. Richard Walther Darré and Hitler’s “Green Party”, Abbotsbrook: Kensal, 1985, pág. 140. A declaração de Hitler em agosto de 1942 encontra-se em Hitler’s Table Talk, 1941-1944. His Private Conversations, Nova Iorque: Enigma, 2000, pág. 619.

Bibliografia

A principal obra sobre Walther Darré e a política agrária seguida no Terceiro Reich é de Anna Bramwell, Blood and Soil. Richard Walther Darré and Hitler’s “Green Party”, Abbotsbrook: Kensal, 1985. William Walter Kay escreveu uma longa e minuciosa resenha crítica desta obra, que se encontra aqui. Acessoriamente pode ler-se: Charles Bettelheim, L’Économie Allemande sous le Nazisme. Un Aspect de la Décadence du Capitalisme, 2 vols., Paris: François Maspero, 1971; Édouard Conte e Cornelia Essner, La Quête de la Race. Une Anthropologie du Nazisme, [Paris]: Hachette, 1995; Peter F. Drucker, The End of Economic Man. A Study of the New Totalitarianism, [s. l.]: The British Publishers Guild, 1943. Deve ler-se também o capítulo a cargo de Peter Staudenmaier em Janet Biehl e Peter Staudenmaier, Ecofascism. Lessons from the German Experience, Edimburgo e San Francisco: AK Press, 1995.

Ilustrações: a primeira tela, a contar de cima, é de Adolf Ziegler e a segunda é de Oskar Martin-Amorbach, ambos pintores do Terceiro Reich.

32 respostas para “MST S.A. (3ª parte)”

  1. Tá, se agricultura orgânica=nazismo, que postura o movimento popular, especialmente no campo, deve ter diante de Bayer, Syngenta, Monsanto e outras empresas legais & amigas do progresso?

    Dar as mãos e seguir em marcha em nome do progresso técnico?

  2. André, se você quiser saber, não a postura que o movimento popular, notadamente o MST, deve ter, mas sim o que ele está tendo em relação as grandes empresas transnacionais, conviria ler o primeiro e o segundo artigo desta série.

  3. Os conceitos intelectualmente importantes : a capacidade do capitalismo recuperar as lutas contra ele e coloca- las em sua lógica do avanço da exploração. A produção/ reprodução da classe dos capitalistas gestores. Quem quiser aprender que vá estuda-los. Agora, se for pra insultar, PT/MST com esquerda assim, pra que direita?

  4. O artigo me parece cometer (ou no mínimo buscar induzir a) um erro de lógica banal:

    O nazismo defendia a produção camponesa e biodinâmica;
    O nazismo é __________ (tudo de mal que se possa pensar);
    Logo a produção camponesa e biodinâmica é __________ (tudo que se aplica ao nazismo).

    É como se dizer que o fato de algumas empresas incentivarem comissões de fábrica manipuladas para o aumento da produtividade invalidasse a estratégia de criação de comissões de fábrica autonomas como forma de resistência dos trabalhadores.

    Em outro momento o artigo diz que o Pronaf incentivou o MST a abandonar as cooperativas de produção e propor a agroecologia

    Até onde eu sei (e conheci alguns exemplos concretos), cooperativas de produção formadas por agricultores familiares podem acessar o Pronaf, além de que não há nele nenhum pré-requisito de produção ecológica ou coisa que o valha.

    Talvez seja uma falha de compreensão minha, mas elucidar esses dois pontos colaboraria para fortalecer a argumentação apresentada. As vezes parece que se força a mão para defender um ponto de vista pré-definido, ao em vez de tentar compreender a realidade.

  5. Felipe,
    No § 6 deste artigo a questão das verbas do Pronaf é evocada apenas como introdução ao tema específico desse §, que é o fato de o mercado de alimentos orgânicos ser constituído pelas camadas sociais com rendimentos elevados e de, portanto, se tratar de pobres produzindo alimentos para ricos e não para pobres. Quanto às repercussões do Pronaf na estratégia adoptada pelo MST, o leitor é logo de entrada remetido para uma série de artigos (http://passapalavra.info/?p=53997 ; http://passapalavra.info/?p=54051 ; http://passapalavra.info/?p=54095 ) onde é analisada a grande mutação ocorrida nessa estratégia — mutação social, passando das cooperativas de produção para a agricultura familiar, e mutação técnica, adotando a agricultura orgânica — e a sua relação com a passagem do Procera para o Pronaf. É aí que essa questão é estudada detalhadamente e sustentada em bibliografia especializada. Para aí remetemos.
    O objetivo do § 7 deste artigo está indicado no parágrafo final, onde dizemos que «seria bom que aqueles que hoje nos apresentam a agricultura orgânica familiar como a última novidade anticapitalista meditassem sobre esta gênese histórica». Em lugar nenhum afirmamos que a agricultura orgânica, pelo fato de ter sido inventada por Steiner, seja obrigatoriamente antroposófica; nem que a agricultura orgânica, pelo fato de ter constituído a doutrina oficial do ministério de Darré, seja obrigatoriamente nacional-socialista. O que se passa é que hoje nos pretendem muitas vezes apresentar a agricultura orgânica como intrínseca e necessariamente anticapitalista. O objetivo do § 7 deste artigo é mostrar que isso não é exato e fornecer elementos para reflexão. Com este objetivo narramos uma génese histórica que é pouco conhecida. Mas é claro que os elementos de reflexão não bastam. É necessário também que as pessoas queiram refletir. Se quiserem, a bibliografia que citamos será muito instrutiva, sobretudo o livro de Bramwell e o longo artigo de Kay. Mas quererão?

  6. Este artigo baseia-se em factos averiguados por pesquisas convergentes, conduzidas ao longo de muito tempo. Esses factos estão devidamente comprovados por notas, referências e bibliografia. Neste momento, as três partes do artigo foram já lidas por alguns milhares de pessoas e receberam um total de 46 comentários. Destes, 16 são hostis ao artigo. Ora, só 1 desses 16 argumentou de maneira fundamentada. Isto significa que 93,75% dos comentários críticos foram incapazes de se apoiar em argumentos que incidam nos factos expostos e analisados pelo Passa Palavra . Extraio daqui duas conclusões:
    1) não tendo apontado erros de facto, os 93,75% de comentários que discordam do artigo confirmaram — involuntariamente — a exactidão das afirmações do Passa Palavra;
    2) esta é mais uma expressão da indolência mental que afecta amplos meios de esquerda, facilitando a burocratização dos movimentos, com o habitual cortejo de consequências funestas.

  7. Importante o resgate da origem da agricultura orgânica familiar não para identificá-lá com o nazismo, mas sim para questionar o quão limitado é erigir a soberania alimentar e agroecologia como elementos estratégicos. Ou embelezar a adaptação ao mercado capitalista (seja necessária, tática ou não) com o pretexto da aliança com as classes médias.
    Por trás dos dados e informações dos três artigos, fica a questionamento sobre os rumos do MST, sobre como a defesa da reforma agrária com expropriação do latifúndio improdutivo, com indenização, como parte de um projeto de democratização do Estado burguês levou o movimento a esta situação atual. Não se trata de um julgamento moral, como manifestam os “ofendidos”, mas sim uma caracterização política que revela a inviabilidade deste programa do MST (mesmo em sua versão pré-agroecologia).
    Os artigos trazem elementos que merecem uma séria reflexão sobre a relação com as multinacionais, com o Estado, assim como sobre a degeneração que se manifesta em práticas de agenciamento de terceirizados.
    Vejo muito mais compromisso com o movimento dos camponeses e dos trabalhadores em geral na abertura de um debate franco do que no acobertamento de práticas que levam o MST ao aprofundamento de sua crise.
    Um bom eixo para o debate é a relação entre estratégia, tática e formas de organização. Como se lia nos muros do maio de 68, quando o dedo mostra a lua, o imbecil olha o dedo…

  8. Para aqueles que “quererão refletir” sobre alguns dos pontos polêmicos e saber mais da política agrária seguida durante o Terceiro Reich, o livro de Anna Bramwell, “Blood and Soil – Richard Walther Darré and Hitler’s Green Party”, indicado pelo Coletivo, pode ser baixado no link a seguir:

    http://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=Anna+Bramwell%2C+Blood+and+Soil.+Richard+Walther+Darr%C3%A9+and+Hitler%E2%80%99s+%E2%80%9CGreen+Party%E2%80%9D&source=web&cd=2&cad=rja&ved=0CDwQFjAB&url=http%3A%2F%2Fwww.jrbooksonline.com%2FPDF_Books%2FBramwell%2520-%2520Blood%2520and%2520Soil.pdf&ei=JrJrUevrO4Km9gTJuoCYDw&usg=AFQjCNFQUa3KsiDEJFgL0A7iPw3BamIr7A&bvm=bv.45175338,d.eWU

  9. Palavras do presidente da Embrapa Maurício Antônio Lopes a respeito da agricultura orgânica (em 4/2/2013) para a BBC Brasil:

    BBC Brasil – Há margem para produzir mais alimentos orgânicos no Brasil?

    Lopes – A produção orgânica é uma vertente importante. No entanto, temos que ser realistas. Vivemos aqui no Brasil uma realidade de clima tropical com solos naturalmente de baixa fertilidade, expostos a intempéries por milhares, milhões de anos.

    Aqui temos uma grande pressão de pragas e doenças, que, devido à humidade e à temperatura, se multiplicam rapidamente. Então produzir em maior escala conforme os preceitos da produção orgânica não é algo ainda factível.

    Temos, sim, que fazer com que a produção em maior escala se dê da forma cada vez mais segura e sustentável, racionalizando o uso principalmente dos chamados defensivos ou pesticidas.” (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/02/130122_embrapa_entrevista_2_jf_cc.shtml)

    E não diretamente relacionado ao tema (mas bastante esclarecedor a respeito do modelo de produção almejado pelo governo brasileiro):

    BBC Brasil – Como aumentar a produção agrícola no Brasil sem desmatar novas áreas?

    Lopes – Precisaremos aumentar a eficiência. Estamos trabalhando na busca de modelos de produção que integrem lavoura e pecuária, ou lavoura, pecuária e floresta. Temos cerca de 70 milhões de hectares de pastagens degradadas que poderão gradualmente vir a ser ocupadas por esses sistemas.

    Isso casa com outro objetivo importante: desenvolver uma agricultura mais sustentável. A agricultura ainda contribui muito com a emissão de gases de efeito estufa. Precisamos reduzir ou substituir insumos que contribuem para essa emissão.

    Outro grande desafio para a pesquisa agropecuária será trabalhar sistemas poupadores de mão de obra, porque ela tende a se tornar mais rarefeita no campo.

    A pesquisa terá que trabalhar sistemas de automação, equipamentos e máquinas que inclusive tornem a vida no campo mais atrativa. Do contrário, a tendência das pessoas que se tornam mais escolarizadas é migrar para as cidades.” (idem)

  10. (continuação comentário anterior)

    Para ilustrar o “aumento de eficiência” em detrimento da expansão da fronteira agrícola a que Lopes se refere, ver estes dois gráficos:

    1 – Série histórica da safra de arroz (Área Plantada X Produção):
    http://i808.photobucket.com/albums/zz1/glapido/Arroz-SeacuterieHistoacuterica_zps12df5ac1.jpg

    2 – Série histórica da safra de feijão (Área Plantada X Produção):
    http://i808.photobucket.com/albums/zz1/glapido/Feijatildeo-SeacuterieHistoacuterica_zpsa4c3d4b2.jpg

    Fonte: Gráficos produzidos por mim a partir das planilhas encontradas em CONAB – Séries Históricas Relativas às Safras 1976/77 a 2012/2013 de Área Plantada, Produtividade e Produção.
    (http://www.conab.gov.br/conteudos.php?a=1252&t=2&Pagina_objcmsconteudos=1#A_objcmsconteudos)

    Como se observa, a área plantada desses grãos tem vindo a ser reduzida, ao contrário da produção, que aumenta.

    Por outro lado, quando Lopes diz que quer “que a produção em maior escala se dê da forma cada vez mais segura e sustentável, racionalizando o uso principalmente dos chamados defensivos ou pesticidas,” quero crer que se refere ao sistema de plantio direto (http://sistemasdeproducao.cnptia.embrapa.br/FontesHTML/Milho/CultivodoMilho_2ed/mandireto.htm). É importante ter em conta que, se este sistema parece efetivamente conservar os nutrientes do solo e eliminar a erosão que há 20, 30 anos atrás era uma das fragilidades do agronegócio (quem não se lembra de reportagens sobre a desertificação causada pelo agronegócio no Sul?), por outro lado, requer o uso de herbicidas (para produzirem a palha que irá forrar o solo, protegendo-o) e sementes geneticamente modificadas resistentes a esses herbicidas (eis a explicação da parceria Embrapa – Monsanto)

  11. “Os conceitos de origem, de , de gênese e mediação devem ser tomados a priori como suspeitos: não só porque induzem sempre à ideologia que o produziu, (…). O conceito de origem tem por função, como no pecado original, assumir numa expressão o que não se deve pensar para poder pensar o que se quer pensar. O conceito de gênese tem por função por em ação, para as camuflar, uma produção ou uma mutação cujo reconhecimento ameaçaria a continuidade vital do esquema empirista da história” (ALTHUSSER. “Ler O Capital”, p.67)

    Sem querer entrar muito no tema, mas vejo com muita disconfiança essa tentativa de buscar uma “gênese histórica” do conceito, ou seja, um ponto no qual este apareça na sua forma “pura”, ao passo que desvelando esse momento fosse possível saber a “verdade” do seu desenvolvimento. Acredito que não há nada mais idealista do que acreditar que isso seja possível.

    Assim fica a seguinte questão: o que a investigação sobre esse “momento original” em que o conceito se mostra na sua pureza contribui para compreender a realidade atual do MST? Sendo que existe uma variável enorme de diferenças materiais entre ambos os casos comparados. Assim parece fazer sentido a falácia do argumento exposto pelo Felipe nos comentários.

    João Bernardo, o fato de recorrer aos números e percentagens para “provar” a validade do argumento exposto parece recair no mesmo idealismo, pois em qual lugar ficou estabelecido que o silêncio é igual ao consenso? Do mesmo modo que o argumento de autoridade também não vale como “prova” da exactidão do argumento, por mais notas e citações que tenha, ainda assim não será por isso que uma teoria corresponderá à realidade da qual pretender compreender.

    Abs,
    Manoo.

    OBS: Com isso não estou aqui como advogado de defesa do MST, só acho que não é lançando mão de uma “gênese histórica” que conseguiremos compreender a realidade atual da classe trabalhadora. Ao contrário, termina por confundir mais ainda, na medida em que não dá conta de explicar os motivos pelos quais nos encontramos nesta situação. Dizer que a produção orgânica é igual ao nazismo não ajuda em nada, só confunde.

    “Em conclusão, a técnica da agricultura orgânica foi um dos principais temas de propaganda do Ministério da Agricultura nazi e o quadro social da agricultura familiar foi fomentado ao longo do regime nazi. Seria bom que aqueles que hoje nos apresentam a agricultura orgânica familiar como a última novidade anticapitalista meditassem sobre esta gênese histórica.”

  12. Ficou estranha a citação, vai completa.
    “Os conceitos de origem, de solo originário, de gênese e mediação devem ser tomados a priori como suspeitos: não só porque induzem sempre à ideologia que o produziu, como porque, produzidos unicamente para uso dessa ideologia, são seus nômades, trazendo-a sempre mais ou menos neles. Não é por acaso que Sartre, e todos os que, entre categorias “abstratas” e o “concreto”, cometam esse erro de falar em origem, gênese e mediações. O conceito de origem tem por função, como no pecado original, assumir numa expressão o que não se deve pensar para poder pensar o que se quer pensar. O conceito de gênese tem por função por em ação, para as camuflar, uma produção ou uma mutação cujo reconhecimento ameaçaria a continuidade vital do esquema empirista da história” (ALTHUSSER. “Ler O Capital”, p.67)

  13. Manoo,
    Althusser pensava isso, claro, porque era contrário àquilo que correntemente se chama teoria da praxis. Por isso eu não sou althusseriano. Será difícil convencer um historiador da inutilidade do estudo dos processos históricos, assim como será difícil convencer um economista da inutilidade dos números.

  14. E assim, aquilo que poderia ser uma boa discussão de conteúdo vira debate epistemológico. Que destino este, o do MST, com defensores deste tipo.

    Só para começar, não acho que o silogismo proposto por Felipe seja válido, porque não existe nada “mal” (que neste caso escreve-se com “U”, não com “L”) no campo da política. Em política, pelo menos desde Maquiavel, sabe-se — ou supoe-se que todos aqueles que conhecem um pouco de ciência política saibam — que não há moral (e toda dicotomia “bom/mau” é moralista), mas sim ações e suas consequências.

    Dado isto, não acho que o contínuo alerta do PP sobre as origens da agroecologia queira dizer que “a agroecologia é má porque sua origem é nazista”. Uma vez que estamos, forçadamente, no campo da lógica e da epistemologia, confronto o silogismo de Felipe com uma analogia: a afirmação de Felipe quer imprimir ao PP um primarismo político absurdo, semelhante a dizer que a internet é “má” porque foi criada com base numa estrutura militar estadunidense de comunicação entre computadores, ou que não se pode usar computadores porque a IBM, através de sua subsidiária alemã Deutsche Hollerith Maschinen Gesellschaft (Dehomag), gerou e tabulou os dados das vítimas do holocausto em seus cartões perfurados, e isto é “mau”.

    Acho que o alerta do PP é de outra ordem: “a agroecologia não é essencialmente anticapitalista, pode servir a vários fins”. E a partir deste alerta, que elimina a univocidade supostamente anticapitalista da agroecologia, o PP nos convida neste e em outros textos a refletir sobre as consequências do uso atual da agroecologia como técnica produtiva pelo MST. Ponto.

    Fora da internet, onde o debate tem atingido um nível muito interessante de sinceridade, mesmo gente muito próxima ao MST com quem tenho conversado que conhece a agroecologia e sua história não se espantou com esta parte do ensaio. Uma amiga agrônoma chegou inclusive a dizer que sabe que de anticapitalista a agroecologia não tem nem nunca teve nada, mas é aquilo a que o MST pôde se agarrar nos últimos tempos para garantir crédito para os assentados. Um outro amigo, aos berros quase, disse quase a mesma coisa, e ainda fechou tese dizendo que se a produção agroecológica era destinada a uma parcela ainda pequena da população, por causa do preço, o MST tinha que fazer isso mesmo, porque os assentados precisavam sobreviver de alguma coisa.

    Posso discordar de ambos por razões variadas, mas é este tipo de debate que me interessa. Picuinha epistemológica num assunto tão importante é um verdadeiro desserviço à luta de classes.

    Por isto, Manoo, te pergunto diretamente: você diz que “o fato de recorrer aos números e percentagens para ‘provar’ a validade do argumento exposto parece recair no mesmo idealismo”, e que “por mais notas e citações que tenha, ainda assim não será por isso que uma teoria corresponderá à realidade da qual pretender compreender”. Então onde está a realidade que contradiz o que está escrito neste ensaio? Onde ela se deixou capturar pela escrita? Sem responder a isto, só posso deduzir — lógica, epistemologia, enfim… — que sua crítica não aponta onde está a realidade que o PP estaria a distorcer. E que é uma crítica pela crítica, vazia de conteúdo.

  15. Manolo, você chegou no ponto quando disse que gente muito próxima ao MST não acha, evidentemente, que a agroecologia seja anticapitalista por si (mas sim uma bandeira de luta ou opção tática).

    Não acompanho sistematicamente o MST, na prática ou no discurso. Nunca li algo vindo do MST de que a agroecologia seja anticapitaista por essência. Essa é a questão, acho que o artigo pendurou isso no pescoço do MST, implicitamente. E sinceramente, não acho que o MST teria ingenuidade de achar tal coisa.

    Se a frase principal do artigo é a última, e não a que está no lead, eu gostaria de saber concretamente quem são esses que apresentam a agroecologia ou agricultura orgânica como a última novidade capitalista?

  16. Passa Palavra,

    Eu havia lido já os artigos indicados, que são muito bons como crítica à adoção da da agroecologia e da agricultura familiar, apresentando pelo menos os perigos que disso decorre para quem se interessa pelo tema.

    No entanto, passando novamente os olhos nesses artigos, não achei nada sobre o MST apresentar a agricultura familiar ou agroecologia como a última novidade anticapitalista. A intrepretação cabível justamente é de que se tratam pra o MST de escolhas táticas, de bandeiras de luta, e não de práticas ou modelos anticapitalistas por si.

  17. Manolo, em nenhum momento do meu comentário busquei depreciar o texto em questão. Apresentei um argumento com base numa posição (ideológica, porque não?) clara. O próprio texto faz o “debate epistemológico”. Como entender uma “gênese histórica” senão por meio de uma condição de possibilidade de conhecer o conceito por meio de uma das suas facetas, sua gênese. Deste modo, não entendo porque chamar de “picuinha” o debate epistemológico se é o próprio texto quem primeiro toca no assunto.

    Claro que por ter utilizado Althusser como “abertura” do meu comentário, estava provocando uma reflexão sobre o estatuto do texto em questão. Que, ao meu ver, termina mais por confundir do que esclarece algo (isso se resume ao último texto da série MST S.A.)…as questões que o Leo V coloca são pertinentes, pois me parece que é a prática, ou melhor, os usos que alguma organização faz do conceito de agroecologia que termina por determinar seu caráter (capitalista ou anticapitalista).

    Manolo, na citação do meu comentário, você suprimiu uma parte importante que diz algo sobre a “política do silêncio”. Então, quando estou dizendo que nenhum lugar está estabelecido que o silêncio é igual ao consenso, estou simplesmente alertando para o fato de que o argumento do João Bernando, de que os números “provam” a exatidão da análise, me parece recorrer a um argumento idealista, tal como a busca da “gênese histórica” (se isso for possível), e não que os argumentos apresentados pelo passa palavra (nos dois primeiros textos, ao menos) são idealistas.

    Portanto, o meu comentário não foi, em nenhum momento, um ataque! Ao contrário, busquei dar ênfase num terreno em que o texto parece escorregar. Estaríamos cometendo um desserviço à classe se ficássemos num constante “consenso”, com medo de expor a posição por não “agradar” a todos.

  18. Não como debatedor, pois tenho muito pouco conhecimento sobre o MST, sua história e práticas; mas como leitor do debate, penso no que escreveu Leo V, a respeito da agricultura familiar e orgânica servirem apenas como táticas e bandeiras, não necessariamente como ideologia.
    Os artigos fazem menção à dissociação entre discurso e prática. Creio que no caso do agenciamente de tercerizados isso fica bastante patente, chocante até. No caso da agro-ecologia, haveria aí algum tipo de dissociação? Já que ela não é essencialmente anti-capitalista, parece que não, mas nos faz perguntar: qual a sua função na luta anti-capitalista?
    Estaria o MST perdendo sua veia mais anti-capitalista, dando lugar a um discurso e uma prática muito mais vinculado à ecologia? Como isto estaria relacionado à suposta cooptação do grande capital dentro do movimento?
    Qual é a estratégia por trás desta tática? Afinal, a luta contra o agrotóxico não é a luta contra o capital, isso fica claro com os artigos.

  19. Gomes,
    Nesta 3ª parte do artigo o § 6 é indissociável do § 7. O consumo de alimentos orgânicos carateriza os países mais ricos e as camadas de rendimentos superiores, sendo portanto estes produtos vendidos a preços mais elevados. E a fidelização do consumidor, mencionada sucintamente no artigo, permite aumentar ainda os preços. Por outro lado, a agricultura familiar, como toda a economia doméstica, é um quadro da mais-valia absoluta, quer dizer, da exploração brutal e pouco sofisticada, sendo a mão-de-obra muito mal remunerada. Pior ainda quando se trata de assentados. Assim, a defasagem é acentuada quando de um lado os preços são elevados e do outro lado a remuneração do trabalhador é baixa. Nestas circunstâncias, as margens para os intermediários são convidativas. Parece-nos ser esta a relação entre a agricultura orgânica e os meios empresariais.

  20. Acrescentamos o seguinte: A agroecologia não constitui para o MST uma mera tática. Em 1996 o Movimento integrou-se na Via Campesina, de cujo programa fazem parte a agroecologia e a sustentabilidade. E no 4º Congresso Nacional do MST, realizado em 2000, foi declarada oficialmente a adesão à agroecologia. Trata-se, portanto, de um dos elementos constitutivos do MST; e na medida em que o MST se pretende contrário ao capitalismo, os elementos do seu programa básico são obviamente apresentados como anticapitalistas. Não foi o Passa Palavra quem «pendurou isso no pescoço do MST», para empregar a estranha expressão de um leitor, mas o MST quem pendurou a agroecologia no seu próprio pescoço, com tudo o que ela implica no plano dos negócios.

  21. A série de artigos demonstrou de forma muito bem fundamentada que a agricultura orgânica e a agroecologia não são nada anticapitalistas nelas mesmas. De fato, as prateleiras dos supermercados de todos os supermercados voltados para quem tem dinheiro reforçam esse ponto e, ademais, não deixa de ser sempre suspeito falar de uma coisa “nela mesma”, “intrinsecamente”. Assim, também não creio que a terceira parte possa ser interpretada como uma defesa de que a agricultura orgânica, a agroecologia são intrinsecamente capitalistas ou ainda fascistas. A gênese histórica de que fala o Passa Palavra não me parece pretender chegar ao que seriam essas práticas nelas mesmas, puras. Estou errado?
    Assim, talvez caiba ir além do “debate epistemológico” (ainda que separar forma e conteúdo me pareça tornar abstrato e cindido aquilo que é concreto). Se a agricultura orgânica não é em si capitalista, não é necessariamente ela, mas o conjunto de elementos do modelo que o MST vem adotando que define esse rumo do movimento, que aparentemente compactua com o capitalismo. Estamos diante de uma recuperação, pelo capital, de uma luta que em algum momento tinha tendências anticapitalistas, recuperação em que operam, segundo os artigos, a aproximação com transnacionais e empresas varejistas, o mercado e seus mecanismos de exploração dos pequenos produtores (como os intermediários, papel que o próprio movimento assumiu num dos casos relatados), a opção política pela agricultura orgânica, a agroecologia e a agricultura familiar (três termos que não dizem exatamente respeito à mesma coisa). Em que medida foram as estratégias do governo e a própria necessidade de comercialização da produção dos assentados que impôs esse rumo ao movimento? Em que medida foram as opções políticas do MST? Se o movimento incentivasse a agricultura familiar, orgânica e agroecológica e combatesse os atravessadores, se aproveitando dos altos preços desse setor, ela poderia constituir uma alternativa interessante aos assentados? E o caminho das cooperativas de produção? Seria esse caminho uma aposta mais certeira, no trabalho rural e não no campesinato? Como fornecer às cooperativas capacidade de concorrer com a produção agroindustrial? O mercado mundializado é o grande mecanismo recuperador das lutas? Como combater essa recuperação? A redução da inserção e procura pela autossuficiência territorial (a exemplo dos zapatistas no México) ou não (em rede ou de outra maneira) é uma alternativa anticapitalista?
    Por fim, as contradições levantadas pelos textos no discurso do movimento, em sua prática e entre ambos são gritantes, mas o contraditório é característico do que é concreto, real, transformador. A luta pela reforma agrária, iniciada antes da formação do MST, já trazia consigo componentes contraditórios com a luta anticapitalista que seriam incorporados pelo MST (e mais tarde talvez até mesmo acentuados): a pequena propriedade privada, a importância da família (tanto no esquema da agricultura familiar como no da própria luta, em que ela é a célula política mais básica) e da religião (hoje se poderia acrescentar os cultos evangélicos nos assentamentos e acampamentos)… Pior seria se já houvessem cessado as contradições, pois isso significaria que o movimento teria sucumbido.

  22. Passa Palavra,

    Agora penduraram no meu pescoço que eu teria dito que penduraram no pescoço do MST a agroecologia, quando na verdade o que eu disse, e está mais do que claro, é que o artigo pendurou no pescoço do MST ele apresentar “a agricultura orgânica familiar como a última novidade anticapitalista”.

    Creio que deve ter sido um lapso, já que o site/coletivo diz prezar tanto o debate.

    De resto, para se discutir o que é essência do movimento, o que é constitutivo dele, e o que é mera tática, a discussão entraria num âmbito muito filosófico. Então que fique para cada um decidir o que acha, diante das interpretações e informações que tem.
    Segundo o raciocínio apresentado no último comentário, o único ponto programático de um movimento anticapitalista, coerente, seria o fim do capitalismo, a tomada dos (de todos os) meios de produção, a gestão coletiva pelos produtores. Todo resto jamais será anticapitalista por si, inserido num contexto capitalista.

  23. Leo V,
    Bom, eu, como alguém sem vínculo com o MST mas interessado na questão, também venho acompanhando a série de artigos do PP. Como tal, me parece que é exatamente nesse âmbito que você classifica de filosófico que o artigo quer entrar e, abrindo espaço para comentários, debater.
    Retirar essa questão do debate, me parece, é fugir disso que o PP teima em debater.
    Ou não entendi nada??

  24. Lendo o estudo A agricultura familiar e o programa nacional de biodiesel pergunto-me se não há uma excessiva sobrevalorização das limitações do movimento em questão nesta e noutras séries de artigos.
    O que o estudo aponta não seria um bom exemplo de que tem havido um esforço e até mesmo resultados positivos? Segundo informações do governo, “a produção de biocombustíveis movimentou mais de R$ 2 bilhões para a agricultura familiar brasileira na safra 2011/2012” num universo de “aproximadamente 105 mil famílias de agricultores em todo o País.”
    No estudo a que me referi inicialmente, o que se vê são narrativas de lutas do MST que destoam do caráter fisiológico que esta e outras séries de artigos do PP atribuem ao movimento, ainda que essas lutas pareçam se dar num horizonte ideológico bem mais modesto do que o horizonte dos primórdios do MST.
    Resultados como os que o estudo apresenta – até certo ponto positivos, mas sem deixar de possuir também contradições – não seriam mais representativos da realidade atual do movimento?

  25. Gustavo,
    O seu comentário, se não for uma subtil ironia, deixa-me perplexo, já que o relatório no primeiro link confirma a sistematicidade do relacionamento do MST com empresas capitalistas, precisamente o tema desta série de artigos.
    Leio na pág. 7 do pdf: «Claudionor Vieira, o Neguinho, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) no Piauí, explica que o movimento está em tratativas com a empresa [Petrobras Biocombustível (PBio)], uma vez que existe a perspectiva de ampliação das parcerias da PBio com os pequenos agricultores para atender a capacidade instalada da usina de Quixadá, no Ceará».
    Depois de evocar os maus resultados das parcerias com a Brasil Ecodiesel, primeira companhia privada a investir maciçamente no biodiesel, e de indicar que foram aprendidas as lições do insucesso, o relatório continua, na pág. 8: «Na região da usina da Petrobras em Quixadá (CE), o MST desenvolve os projetos com a empresa já levando em conta boa parte dos ensinamentos advindos da experiência no Piauí. Iniciada em 2007, a produção contava primeiramente com cerca de 300 produtores, em quatro municípios. Em 2008, a quantidade de famílias envolvidas passou para 1.600, chegando a pouco mais de 3.300 em 2010». E, segundo Antonia Ivoneide Melo Silva, a Nenê, do Assentamento 25 de Maio, na cidade de Madalena, dirigente do MST-CE: «Os agricultores […] se organizam em uma cooperativa, que trabalha em parceria com a PBio» [pág. 8].
    Quanto às relações do MST com a PBio na Bahia, vejam-se as declarações de Julio César Vasconcelos Campos, do MST, nas págs 10-11. Saliento a seguinte passagem do relatório, na pág. 11: «Entre as grandes vantagens para os agricultores, Campos destaca que a Petrobrás é uma opção ao atravessador, e que houve melhora do preço […]».
    Finalmente, o relatório apresenta uma avaliação de síntese: «Nos estados do Nordeste, produtores ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) avaliam positivamente as parcerias com a Petrobrás […]» [pág. 36].
    Espero que o Passa Palavra, nos próximos artigos em que analisar a evolução do MST, leve em conta este interessantíssimo relatório.

  26. João Bernardo,
    Não, não foi sutil ironia, mas apenas a vontade de agregar mais material ao debate, mesmo que ele não se configure como prova final e definitiva daquilo que quero exprimir (até porque não acredito muito em provas finais e definitivas).
    Agradeço a sua leitura crítica do texto.
    Ainda assim – ou seja, sem retirar, de forma alguma, o mérito da sua leitura – não consigo deixar de notar a escala razoavelmente grandiosa dessa parceria MST x Indústria dos Biocombustíveis (aproximadamente 100.000 famílias envolvidas), por um lado, e verificar que a suposta adesão aos mecanismos capitalistas parece estar longe de ser uma opção dada, consolidada, ou mesmo almejada como fim em si mesma, dentro do movimento(impressão que alguém como eu, um não militante do MST, tem quando lê as séries do PP), haja vista as palavras do mesmo Neguinho que você cita: ‘Para o dirigente do MST, “o modelo começou errado”, baseado na superexploração do trabalho dos agricultores, no endividamento familiar e na monocultura. “Chocava-se frontalmente com a nossa concepção de agricultura familiar e camponesa”. Vieira avalia que do modelo de produção verificado nas parcerias iniciais “não se aproveita nada”. Ou melhor: “aproveita-se a comprovação de que esse modelo não se aproveita de forma alguma. Nem do ponto de vista ambiental, nem do social e nem do econômico”’‘. (pg 8)
    Desconsiderar estes aspectos – benefícios modestos, mas benefícios, e numa escala nada desprezível; consciência das limitações e horizontes da luta, mas ainda assim, perseverança nela -, para ficar com uma argumentação que você usou no debate com outro comentador, também pode ser uma forma enviesada de me dar razão

  27. Gustavo,
    Mas o modelo que «começou errado», a que o dirigente do MST Claudionor Vieira, o Neguinho, se refere, o modelo de que «não se aproveita nada», não é o modelo da parceria com a generalidade das empresas capitalistas, mas só com a Brasil Ecodiesel. Neste caso os assentados do MST foram um elemento da concorrência entre a Brasil Ecodiesel e a Petrobras Biocombustível (PBio), em benefício desta última. E dadas as relações da Petrobras com o aparelho de Estado e com os fundos de pensão, esta questão remete para outro artigo publicado neste site, Estado e movimentos sociais (http://passapalavra.info/2012/02/52448 ).
    É certo que todos nós precisamos de ganhar a vida e queremos ganhá-la nas melhores condições. Mas contrariamente ao capitalista, que leva uma existência única, a de acumular capital, o trabalhador leva, na melhor das hipóteses, duas existências, a de melhorar o salário e a de lutar contra o capital. Ora, será que uma organização de luta contra o capitalismo deverá ter também a função de estabelecer parcerias com os capitalistas? Isto foi o que sucedeu com os sindicatos, que na sequência desse processo se converteram eles próprios em empresários capitalistas, um tema que abordei pela primeira vez num livro publicado em 1987 e voltei a tratar mais recentemente num livro escrito em conjunto com Luciano Pereira (Capitalismo Sindical, São Paulo: Xamã, 2008). É assim que organizações de luta contra o capitalismo se convertem no seu oposto, em grupos de pressão subordinados às regras do mercado de trabalho. Limitações da luta é uma coisa, e é o que a sensatez exige na maior parte do tempo. Mas um movimento que surge como anticapitalista e depois estabelece parcerias com empresários para melhorar os rendimentos dos seus associados não está a conduzir uma luta num âmbito limitado; está a fazer o oposto, a inserir-se nos mecanismos do capitalismo. O MST estará ainda na encruzilhada e uma tomada de consciência entre os seus miltantes poderá alterar-lhe o rumo? Ou o seu caminho já está traçado, como o dos sindicatos actuais?

  28. João,
    Tenho a impressão que não é nem uma coisa nem outra: o modelo a que Claudionor “Neguinho” Vieira se refere é o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel um programa interministerial do governo brasileiro, ou seja não é nem a relação específica com uma empresa (a Brasil Ecodiesel) nem a parceria com a generalidade das empresas capitalistas como dei a entender.
    Isto talvez seja um detalhe menor – e provavelmente é – neste pequeno debate entre nós mas… então não estamos a falar apenas da subjugação direta de movimentos sociais por empresas capitalistas, mas de uma relação entre trabalhadores, Estado e empresas. Talvez seja um detalhe menor – e provavelmente é – porque Estado, aqui, é entendido como mero mecanismo de dominação da classe trabalhadora pelo Kapital, para resumir muito grosseiramente o artigo por você citado.
    Uma coisa é certa: se dependesse apenas das empresas (do mercado), os moedores de cana e sementes (os segundos na cadeia de valor do biodiesel, os que produzem o óleo a partir das plantas, conforme Fig. 1 neste trabalho ) ignorariam solenemente os agricultores familiares. Não terá sido por outro motivo que não as duras regras do mercado que a Ecodiesel foi deixando de adquirir dos pequenos agricultores e acabou por perder o Selo Combustível Social, que lhe garantiria redução de impostos e privilégio em concorrências, a título de compensação pelo aumento da complexidade do seu processo de aquisição de matéria-prima (com a “obrigação” de atender os pequenos produtores).
    O Estado, em outras épocas, deixaria ao sabor do mercado e todos seriam felizes (menos os pequenos agricultores que, a essa altura já teriam certamente acabado por vender a sua terra e ido para a cidade).
    O fato é que o Estado entrou, o Programa foi criado, e hoje, por exemplo, com a prolongada estiagem no Nordeste do Brasil, acena com subsídios para ajudar os pequenos agricultores produtores de cana a se manter .

  29. Gustavo,
    O seu último comentário suscitou-me duas reflexões, não necessariamente críticas, mas um prolongamento.
    A primeira é que hoje as companhias transnacionais, com o recurso sistemático à terceirização, consideram em muitos casos vantajoso agregar microempresas e mesmo estimular a formação de cooperativas de produtores, tanto na indústria e nos serviços como na agricultura. Nestes casos, que se contam aos milhões por todo o mundo, a manutenção de uma independência formal no plano das relações jurídicas de propriedade conjuga-se com a integração no plano das relações económicas.
    A segunda reflexão diz respeito à conversão de um conceito num insulto. É corrente a extrema-esquerda brasileira insultar o governo federal chamando-lhe neoliberal, quando ele é exactamente o contrário, é um governo que não abandona o mercado a si próprio e que usa poderosos mecanismos de intervenção. Só que não se trata dos mecanismos arcaicos do capitalismo de Estado, de que a esquerda leninista é tão saudosa, mas de mecanismos modernos, antes de mais o BNDES, mas também os fundos de pensão sindicais, dada a conversão das principais centrais em instrumentos do poder executivo.
    Parece-me que é neste quadro muito amplo de uma reestruturação do capitalismo que o Passa Palavra procurou analisar as relações do MST com várias empresas.

  30. depois que li “O criador da agricultura orgânica foi fulano”, não tive coragem de prosseguir na leitura.

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