20 de junho: a Revolta dos Coxinhas

20 de junho: a Revolta dos Coxinhas

em 21 jun

Esta movimentação necessita urgentemente de uma resposta de toda a esquerda anticapitalista. Hoje. Porque devia ter sido ontem, e amanhã será tarde. Por Passa Palavra

Desde a sua criação, o Passa Palavra tem alertado para o fascismo larvar e para os riscos do nacionalismo, inclusivamente na esquerda. O que para muitos era uma ideia espúria verifica-se agora ser um fato muito real, sentido na carne. Na sociedade as coisas não nascem do nada e convém vê-las antes de elas entrarem pelos olhos dentro. Ora, nos últimos dias, mas sobretudo desde quinta-feira, dia 20 de junho, assistimos a um movimento inédito, pelo menos inédito com esta amplitude. As manifestações que a esquerda organizou num grande número de cidades pela redução da tarifa dos transportes públicos começaram a ser sequestradas por forças sociais conservadoras e nacionalistas, e dentro deste movimento começou a desenvolver-se uma contra-revolução. Chamamos-lhe a Revolta dos Coxinhas (veja aqui). Pertencendo àquela gente a quem os jornalistas gostam de chamar classe média, os coxinhas passaram agora para primeiro plano político, como agentes de um fascismo potencial.

É certo que em todas as grandes movimentações há muitas pessoas, por vezes a maioria, que pela primeira vez saem e gritam na rua. É natural que os seus gritos sejam confusos e as suas posições oscilantes. Não é isso que nos preocupa, porque a adesão de pessoas novas revela a força de um movimento. O que nos preocupa, e muitíssimo, é o fato dessas multidões, que foram convocadas à rua pelo Movimento Passe Livre e pela problemática dos transportes públicos urbanos, serem agora mobilizadas pela extrema-direita e por uma problemática com características de classe opostas às iniciais. Essas contramanifestações surgidas dentro das manifestações são algo inédito.

O Passa Palavra publica em seguida alguns relatos da Revolta dos Coxinhas. Esta movimentação necessita urgentemente de uma resposta de toda a esquerda anticapitalista. Hoje. Porque devia ter sido ontem, e amanhã será tarde.

São Paulo

O que deveria ser um ato de comemoração da revogação do aumento do ônibus, dos trens e do metrô tornou-se um massacre da esquerda e dos “vermelhos”. Uma massa amorfa pairava pela Av. Paulista vestindo bandeiras do Brasil, com as caras pintadas, não sabiam para aonde ir, o que fazer e nem o que se indignar. As palavras de ordem puxadas como “o povo acordou” e “o gigante acordou” eram cantadas juntamente com o hino nacional. Como disse um companheiro, a caixa de comentários da Folha de S. Paulo saiu para a rua.

Já na concentração na Praça do Ciclista alguns militantes petistas tentavam levantar suas bandeiras, mas foram achincalhados por gritos de “sem partido!, sem partido!”. Alguns blocos de esquerda se organizavam para fazer uma manifestação pelo lado da avenida (sentido praça Osvaldo Cruz) com bateria, maracatu e músicas. Ao longo do trajeto houve muito tensionamento. Havia skinheads e agentes provocadores da direita querendo se infiltrar. Não aceitavam que “comunistas” caminhassem. Éramos “assassinos”, “petistas corruptos”.

O prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) passou a exibir num jogo de luzes a bandeira nacional. De “ei, FIESP, vai tomar no cu”, os gritos passaram a ser transformados no hino nacional.

Na esquina seguinte da av. Paulista, entre a alameda Campinas e em frente do prédio da Gazeta, um ataque aos “vermelhos”. Um grupo de agentes provocadores insuflaram os coxinhas a atacar o bloco. Conseguiram pegar uma bandeira e queimar. Aos gritos de “oportunistas” para os partidos, os agentes provocadores continuaram a atacar e foram bem vistos pela massa amorfa. A polícia havia se retirado completamente do local.

No meio dos blocos lançaram dois fogos de artifício contra os “vermelhos”. Pânico, uma parte dos militantes correm e se isolam embaixo de uma marquise do prédio, acuados. Uma comissão de segurança dos partidos entra então em ação e revida o ataque. Um skinhead ficou ferido e foi levado de viatura policial para o hospital. No carro disse que havia sido agredido “por um petista”. Os ataques cessaram quando os militantes recolheram as bandeiras.

Para se ter uma melhor dimensão do que aconteceu. Os blocos de hoje caminhavam dentro da massa amorfa em cólera. Os blocos percorriam organizadamente pelas ruas (ou tentavam), mas passavam ao lado de pessoas da classe média que portavam cartazes, bandeira do Brasil e entoavam palavras de ordem contra o governo (Dilma e o PT) e o hino nacional. Pessoas que não sabiam o que fazer, pois provavelmente nunca foram numa manifestação.

Na frente do ato havia um bloco autônomo aonde se carregava uma faixa contra as catracas e pela tarifa zero. Foi necessário uma linha de segurança lateral e frontal para conseguir proteger o bloco e impedir uma invasão. Em vários momentos a massa amorfa tentou fagocitar este bloco e também houve tentativa de puxar palavras de ordem nacionalistas.

O bloco terminou com um jogral na frente da praça Osvaldo Cruz. Enquanto isso a massa amorfa conclamava para ir para a Av. 23 de maio. Fazer o que exatamente ninguém sabia. Aos poucos, a massa foi se dissipando e as pessoas abaixavam os cartazes e voltavam pelo metrô para sua casa.

As nossas palavras de ordem foram absorvidas e ressignificadas pela direita em fúria. “Vem pra luta” significa agora ir enfrentar o PT, “quem não pula quer tarifa” transformou-se em “quem não pula é petista” e “vem pra rua, vem (contra a tarifa)” transformou-se em “vem pra rua, vem (contra o governo)”. O ódio contra a Globo e as emissoras de televisão é que elas são “esquerdistas”, pois “fazem o jogo do governo”.

A maioria ali não sabia o que havia presenciado ou o que se constituía ali, mas já não se tratava de uma comemoração, mas sim de uma classe média em cólera: os coxinhas contra o governo petista e a esquerda. Era uma manifestação dos patrões e da diretoria, mas não dos trabalhadores. Se foi esse o gigante que acordou, é então necessário colocá-lo para dormir. Dessas bases sociais e dos “indignados” sabemos que ergue-se um movimento fascista. Não podemos esperar que surja um Duce ou um novo Fuhrer.

Por trás dessa massa amorfa há “movimentos” articulando um ataque sistemático contra o governo de olho nas eleições de 2014. A “insurreição” e “revolução” que esses movimentos conclamam não é por mudanças radicais contra o capitalismo, mas apenas para mudar a forma que deve gerir o capitalismo.

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Em São Paulo, na quinta-feira, dia 20 de junho, foi o horror. Mesmo toda a esquerda tendo se reunido, planejado antecipadamente e tentado se organizar, o que se viu foi o achincalhamento público: bandeiras rasgadas, agressões, saudações fascistas e, claro, agressão física. Tomamos pedradas, cusparadas e por aí vai. O cenário que hoje se viu aqui foi o de uma nação em cólera, precisamente a situação que o fascista francês Maurice Bardèche considerava ideal para o desenvolvimento do fascismo. Os motivos de preocupação são muitos.

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Em São Paulo há horas em que é impossível dizer que aquelas pessoas em sua volta estão a favor de qualquer pauta progressista. Hoje ouvi um fascista dizer que ele finalmente conseguiu bater num petista… e beijava a bandeira vermelha destruída.

Foi “o Horror! o Horror!”, era como se se materializasse na minha frente o filme A Onda. Temos que o chamar pelo nome correto. O “gigante” que acordou é o movimento fascista. Só falta um líder, alguém orgânico que saia dali. Há um evento no Facebook clamando uma “greve geral” que é convocado pelos empresários anti-Dilma. Vocês conseguem acreditar que eles são contra a Globo, por a considerarem “esquerdista”?

Guarulhos

Rodrigo Cezar Mendes Perez relata a situação em Guarulhos com Notas e Questionamentos sobre o “Brasil acordou!”

Tenho muitas expectativas e entusiasmo com a situação atual, mas, acima de tudo, algumas dúvidas. Participei da manifestação dessa terça-feira, dia 18 de junho, e enquanto escrevo esse texto estão ocorrendo as manifestações dessa quinta-feira, dia 20 de junho. Apesar da evidente derrota dupla do PSDB e PT, além da sintomática manifestação de crise moral na política (leia-se: de Estado) isso não impedirá manobras da direita.

Em Guarulhos, uma passeata  convocada para essa sexta-feira é obra, às escusas, de membros do PSDB local. É óbvio o intuito de atingir o prefeito petista Almeida, do PT local. Longe disso, minha preocupação é outra: não somos massa de manobra! Mas querem tratar as pessoas assim. É necessário ter claro essa situação e não permitir que ela se repita.

Outro questionamento que acho evidente nesse espaço: há uma manifestação acentuada do nacionalismo… Muitas pessoas, principalmente de classes médias, ingenuamente acreditando que não serão agredidas com as bandeiras nas costas devido a códigos de conduta moral da polícia, entoam o hino nacional entre um grito de guerra e outro. Até a FIESP manifestou-se, como é sabido, acendendo suas luzes com as cores nacionais.

O espaço ou fissura que possivelmente foi aberto para manifestações à esquerda contra “algo maior” não impede a manifestação de forças conservadoras em uma sociedade historicamente autoritária como a brasileira.

Muitos gritavam entusiasticamente: “Fora Dilma!”. Mas quem entra em seu lugar? Michel Temer?!? Que grupos políticos e econômicos serão de fato atingidos? Não haverá a manipulação trivial da mídia para atingir as organizações anticapitalistas brasileiras e favorecer as capitalistas, como sempre?

Me preocupa também a possibilidade da degenerescência das manifestações justificar uma intervenção autoritária mais franca. Um golpe militar talvez, e tomara não aconteça, mas essa ideia habita os sonhos de muitos saudosos dos tempos de chumbo no país. O nacionalismo manifestado nas passeatas pode estimular mentes conservadoras. Uma pessoa morreu hoje em Ribeirão Preto. O que mais acontecerá?

Salvador

Na manifestação de quinta-feira, dia 20 de junho, em Salvador, a coluna do Tarifa Zero seguiu um trajeto diferente dos outros. O trajeto já havia sido deliberado. De repente, numa esquina que determinaria a virada para o trajeto decidido ou a continuidade num trajeto tradicional de mobilizações nessa cidade, rolou um “golpe de rota” e vários tentaram mudar o trajeto para o roteiro tradicional, que passa por ruas estreitas e com poucas rotas de fuga, enquanto o roteiro deliberado nos levaria a uma enorme área aberta, com pelo menos quatro saídas largas. Mas não houve estratégia montada para este golpe. Enquanto uns malacos velhos do PT puxavam a subida pelo roteiro tradicional, correntes políticas dividiam-se entre um lado e o outro. A União da Juventude Socialista (UJS) mesmo rachou sem o saber: militantes iam ora por um roteiro ora pelo outro, sem se comunicarem.

Não tínhamos controle nenhum, nem queríamos ter. Levamos a faixa, uma bateria e saímos cantando.

A parte menor da mobilização seguiu pelo trajeto tradicional e foi encurralada. Enquanto estávamos na praça aberta, ouvíamos as bombas. Para variar, a polícia montou uma armadilha: a tropa de linha abriu para a mobilização passar, deixando a linha de frente na mira da Choque e da Caatinga (tropa especializada em combates na caatinga, é a mais assassina entre todas as tropas da Polícia Militar, PM, baiana). A repressão esteve no script até à noite. Foi uma ação muito forte. Uma parte dos manifestantes desceu para a casa do governador e lá não teve conversa: bala de borracha e todo tipo de bomba.

Uma coisa importante saiu do roteiro. Desde há muitos e muitos anos, esta foi a mais ampla, a mais vasta e a mais demorada ação repressiva contra um protesto urbano armada pela PM baiana. O ponto inicial da repressão, na entrada do Dique do Tororó, fica a 6km, aproximadamente, do ponto de repressão final, na praia de Ondina. E os manifestantes foram sendo empurrados para longe mesmo em ruas secundárias, o que contraria a doutrina tradicional da Choque de só atacar em ruas principais. Outra coisa saiu do roteiro. Na repressão a protestos urbanos a PM baiana dispersa o protesto e deixa os dispersos irem embora. Na quinta-feira foi todo mundo perseguido e bombardeado até à dissolução em grupos de 3 ou 4. Balanço. O Centro de Salvador está em ruínas. Não ficou um só ponto de ônibus de pé. Curiosamente, o Teatro Castro Alves foi poupado pelo pessoal da linha de frente; um de nós viu quando redirecionaram um rapaz que tentava apedrejar o prédio. Mas soube-se que duas de suas vidraças foram quebradas – pouco diante do que já houve.

A polícia saiu atacando todos. Até os coxinhas sofreram. O protesto entrou pela área com o metro quadrado mais caro de Salvador – o Corredor da Vitória. Nunca, jamais, em hipótese alguma, havia chegado nas portas da mais alta burguesia de Salvador a fumaça acre do lacrimogêneo. Isto terá consequências? Algo a analisar. Para já, o certo é que a repressão mudou a cabeça de muito menino criado com vó. A entrada do Vale dos Barris ficou completamente depredada, mas não veio um só grito de “sem violência”, porque todo mundo via que tudo era para se fazer barricadas e fogueiras. Da mesma forma, quando os shuttle buses foram depredados em frente a uma delegacia, poucos foram contrários. A sensação geral era de que “foram eles que começaram”, então tudo estava valendo.

Uma companheira foi presa, mas não chegaram notícias de outras prisões. Essa companheira está sendo acompanhada por advogados já previamente articulados, e um fato importante, quase um dos Flagrantes Delitos do Passa Palavra, é que ela foi presa por um policial com adesivo da UJS pregado no peito.

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Nesta manifestação de quinta-feira havia muitos coxinhas, mas a periferia veio em peso também. Para quem não conhece Salvador, a estratificação social é bem marcada na cor da pele. Os mais pobres e precarizados são negros, os menos são brancos. Em Salvador não tem essa de anarco-punk ou skinhead. Aqui é Periferia e Orla, e a periferia assumiu o confronto com a polícia. Aliás, quanto à clivagem geográfica, note-se que o subúrbio tem orla também. Ora, os coxinhas não conseguiram pautar nada, mas mesmo entre eles as pautas não eram conservadoras e ouviam-se muitas críticas à “Cura Gay” e contra a PEC 37.

A faixa do Tarifa Zero era disputada, mesmo pelo PT e a UJS. De qualquer forma, bem mais de 5 mil vieram atrás cantando músicas pelo passe livre. Ao todo, deveria haver uns 30 mil ou mais em todas as ruas, mas foi tudo bem disperso e a grande maioria nem chegou a sair da concentração.

Muita gente se animou com a coluna do Tarifa Zero. Outros grupos de caráter mais autonomista se juntaram. Havia outros grupos de esquerda que se juntaram também, mas nenhum encaminhamento prático foi tirado. Já entre os grupos de caráter mais autonomistas pautou-se a diminuição do valor da passagem no ato de sábado.

A ideia é continuar pautando questões em torno da tarifa e quem quiser que se junte. A expectativa de alguns é, inclusive, que a próxima manifestação seja um pouco mais conservadora, mas quem se arrisca a fazer uma avaliação? Quando se sai para a rua, nestes dias, não se sabe o que vem pela frente.

Porto Alegre

De Porto Alegre, escreve Theo Lima:

Vi minha cidade hoje de uma forma que nunca havia visto antes. Um tanto quanto labiríntica, buscando através dela algumas estruturas para me fornecem cobertura, para servirem de abrigo ou camuflagem. Arruelas, vias, parques, todos servem, todos contêm algo útil para o momento, aquele cenário de batalha campal, como comumente se expressa. Busco estruturas que me possam dar um pouco de segurança que seja.

Já não a encontro nas pessoas, apenas em um punhado. Pois estas se dividem basicamente em três.

A primeira anda fardada, é raivosa e se sente bem com o que faz. Como todos nós, acha que ganha pouco por isso, e alguns acham que eles são explorados, como todos nós. Sem entrar no mérito, o fato é que se utilizam de diversos instrumentos de tortura: gasosos, sonoros, sólidos. De certa maneira, protegem as estruturas que supracitei, propriamente por serem o que são, seres inanimados. De outra maneira, protegem as mais absurdas intencionalidades. Dificilmente me sinto seguro em sua presença.

A outra é uma parte que simpatiza com eles, acha que, inclusive, devem denunciar outros manifestantes. Não possuem um pingo sequer de algo como “consciência de classe”. Esses não se importam com quem estão ombro a ombro, no menor sinal de instabilidade do que acreditam ser um momento “sem violência”, evaporam. Voltam para suas casas, deixam suas flores em suas respectivas floreiras, quem sabe para a próxima, se ainda estiverem desabrochadas. Não simpatizo com eles.

A última parte, finalmente, é de quem verdadeiramente segura a barra, quem está até o pescoço, que sabe que a violência está em outro lugar, inclusive no próprio ato de se ver obrigado a ocupar as ruas por algo tão simples como se locomover. Pessoas animadas com uma gana que não é sobre uma reivindicação, um direito simplesmente, um descontentamento pontual.

A luta por um transporte coletivo em sua totalidade é, sim, a pauta que move as presentes manifestações. E deve continuar sendo, até que todos tenham a devida chance de chegarem a todos os pontos da malha urbana. Disso virão novos conflitos, certamente, que englobam toda a segregação sócio-espacial. Mas uma agonia a cada dia, o fato é que estão se movendo e a cada passo aumentam seu horizonte. Sinto-me confortável ao seu lado. E, talvez estranhamente para alguns, seguro. Estão aprendendo a brincadeira. Estão ficando mais ligeiros, mais espertos, mais solidários. Estão se equipando e tecendo estratégias. Um dia serão forças em pé de igualdade, e já não correrão, pois em cada momento entendem como fazer: suas vozes soarem mais alto, seus passos pisarem mais forte, suas mãos empunharem mais firmemente.

Aos verdadeiros indignados, o que desejo é que resistam!

Rio de Janeiro

Num comentário colocado no Passa Palavra, Pablo descreve o que se passou no Rio de Janeiro:

Acabo de voltar do Ato de quinta-feira, dia 20 de junho, no Rio de Janeiro.

Hoje vivi a seguinte situação: embora não seja de nenhum partido, fiquei próximo às bandeiras, porque vinha acompanhando a atuação autoritária da direita, em outras cidades e também aqui, nos atos anteriores. Na passeata estávamos o tempo todo pressionados pela direita, que vinha atrás tocando o terror. Estávamos defendendo as bandeiras erguidas, contra os fascistas, autoritários e nacionalistas-imbecis-politicamente-inexperientes-com-raiva-social-direcionada-pro-alvo-errado, quando um dos nossos acabou apanhando e caindo, antes que conseguíssemos restabelecer a posição. Mas eis que quando chegamos o fascistinha abaixa a bandeira estava a chutar nosso camarada enquanto simultaneamente gritava: “liberdade de expressão, porra!”. Seria de rir se não fosse de chorar. E não acho que seja sarcasmo do fascistinha, e sim imbecilidade mesmo.

Estou em pânico. Vivi o terror hoje e tive que ir embora porque depois de mais de uma hora dessa luta física antifascista, de pau comendo e povo burro ao lado apoiando o fascismo, e caminhão de som totalmente descolado do chão, e de ao fim perdermos a luta — sim, passaram! — acabei não conseguindo ficar no ato, porque todo grupo de que me aproximava me dava medo de serem os fascistas, me reconhecerem e me espancarem. Antes de ir para o ato até comentei nas redes sociais que hoje a batalha seria intrafileiras, mas a coisa foi tão feia que depois de dias enfrentando a repressão policial para construir nossa luta, quando fui embora eu procurava os focos de policiais e passava perto deles, de tanto medo da direita organizada e violenta.

Temos urgentemente que mudar o grito de “amanhã vai ser maior” para “amanhã será organizado”. A desorganização só favorece a direita. Praticamente todas as contradições do movimento, que em outros contextos fazem o próprio movimento avançar e se auto-superar, no contexto atual jogam a favor da direita. O apartidarismo, especialmente quando confundido com o antipartidarismo, joga a favor da direita. A inexperiência política da massa joga a favor da direita. O ufanismo protofascista, que sempre esteve latente e há décadas vem sendo alimentado por Galvão Bueno etc., joga a favor da direita. As divergências e picuinhas internas à esquerda jogam a favor da direita. As merdas históricas dos órgãos clássicos da classe trabalhadora causam a ojeriza aos partidos e sindicatos, também entre os que não são tão principiantes politicamente, e isso joga a favor da direita. A crise capitalista aprofundada e sua gestão por um partido pretensamente “de esquerda” joga a favor da direita. A raiva acumulada por séculos de superexploração, e seu resultante, um ódio mal-direcionado, jogam a favor da direita. Enfim, quase tudo joga a favor da direita. A organização da esquerda é para ontem. O fascismo está aí, comendo pelas beiradas e se aproveitando de todas essas contradições, que jogam a favor da direita.

Goiânia

Também em Goiânia a extrema-direita tomou conta da manifestação de quinta-feira, 20 de junho, colocando essa pauta maldita da PEC 37 e da corrupção.

Houve vários casos de manifestantes estranhos jogando bombas em cima de outros manifestantes “partidários” e contra pessoas da causa LGBT, ao mesmo tempo em que gritavam “sem violência”. A repressão interna da manifestação foi fortíssima, uma coisa que eu nunca imaginei ser possível. O pessoal da periferia, que são os de cara coberta por aqui, conjuntamente com a extrema-esquerda, eram reprimidos o tempo todo, denunciados e atacados.

O único momento em que a coisa saiu do controle e a manifestação deixou de ser uma massa amorfa de gente passiva andando por roteiros pré-estabelecidos pela polícia foi quando houve enfrentamento com a tropa de choque na tentativa de invadir a Assembleia Legislativa. No entanto, os carros de som dos malditos “Contra a Corrupção! Fora Marconi!” conseguiram isolar quem estava tentando invadir a Assembleia e levaram os outros manifestantes para a direção do nada, enquanto a gente tentava de fato fazer alguma coisa.

As torcidas organizadas de Goiânia também garantiram aí um foco de resistência ativa e um discurso de luta.

Houve um policiamento constante do discurso da manifestação. Não se podia falar de transporte, não se podia falar de conflito, e o hino nacional tocava o tempo todo! Ao mesmo tempo que rolavam inúmeros arrastões da playboyzada contra os impostos.

Irônicamente, a centralização do discurso possibilitada pela comissão de carro de som foi a única coisa que garantiu que a organização de luta pelo transporte tivesse alguma voz, frente aos zumbis do “sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”.

Estou muito preocupado, mas com uma clareza muito grande de quem são nossos aliados e nossos inimigos.

Finalmente, eu vi policiais distribuindo flores para os manifestantes e estabelecendo uma comunicação extremamente eficiente no sentido de enquadrar sem precisar bater. A polícia mudou totalmente de tática e simplesmente não sabemos como lidar com isso ainda.

O cerco da mídia e da polícia continua intenso. No dia após a manifestação, a imprensa apareceu com várias “lideranças” e “organizadores” do movimento, que não se sabe de onde surgiram, defendendo o fim da corrupção, que a corrupção se torne crime hediondo e o fim dos impostos. Vemos que há uma pressão intensa de todos os lados para que sejam criados os líderes do movimento e estão sendo criados líderes à altura das reivindicações impostas pelos meios de comunicação. São as pessoas que querem que corrupção se torne crime hediondo e a derrubada de Renan Calheiros do Senado. Discurso fortíssimo de minoria vândala que “felizmente” foi contida pela própria manifestação. Os coxinhas de branco na manifestação gritavam “sem violência” apenas ao ver pessoas da periferia, com roupa mais desgastada ou pele mais escura.

Florianópolis

Terça-feira, 18 de junho

Na terça-feira houve uma manifestação convocada pelo Facebook por um estudante da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) entusiasta de revoltas. Na empolgação com o que ocorria em São Paulo e no resto do país, ele resolveu criar o evento na rede social na noite de segunda-feira. O chamado à manifestação incluía diversas pautas: a tarifa zero, as PECs, a corrupção, o blablablá e terminava com um indigesto “pelo que você quiser”. Terça-feira à noite a manifestação reuniu pelo menos 20 mil pessoas. Florianópolis tem 420 mil habitantes e até então nunca havia visto algo com aquele tamanho.

Um parêntesis. Participei, desde 2004, de todas as campanhas contra o aumento da tarifa aqui na ilha, com a exceção da de 2010. Apenas durante a Revolta da Catraca de 2004 a Polícia Militar se mostrou “pacífica” (a prefeita era oposição ao governador e havia eleição municipal naquele ano), mas mesmo lá apanhamos todos quando resolvemos desobedecer o acordado e ir ocupar as pontes da cidade. Em todas as outras campanhas por redução da tarifa a PM foi rigorosamente truculenta. Fecha o parêntesis.

A manifestação parecia um bloco de carnaval. Todos de branco, felizes e orgulhosos, cantando o hino nacional e protestando contra qualquer coisa. Por poucos momentos vi a turba cantar as conhecidas músicas do Movimento Passe Livre (MPL) e quando isso acontecia era por um brevíssimo momento. A manifestação que se concentrara à frente do Ticen (o terminal central de ônibus) percorreu o caminho em direção à Assembleia Legislativa (que foi onde a encontrei) e de aí atravessou a avenida Mauro Ramos em direção à avenida Beira-mar.

Somente durante as Revoltas da Catraca de 2004 e 2005 conseguimos alcançar a avenida Beira-mar. A partir de então sempre nos foi impossível botar os pés lá. Acontece que na manifestação de terça-feira não houve impedimento algum. Aquilo estava por demais estranho. O próprio contingente policial era irrisório para o tamanho da manifestação. Mas, por outro lado, a manifestação não apresentava perigo algum à ordem. Quem bloqueava as ruas e coordenava tudo era a PM e assim o foi até o fim.

Percorrendo a Beira-mar era visível o desânimo das pessoas de esquerda que eu encontrava pelo caminho. Estavam isolados, em pequenos grupos, perguntando-se que coisa era aquela. Alguns desanimados, outros emputecidos, mas todos, sem exceção, engolidos pela Marcha dos Coxinhas. Da Beira-mar passamos facilmente à ponte Colombo Salles, que já estava fechada para o trânsito. Tudo organizado pela PM. Não foi a manifestação que ocupou a ponte. Foi a PM que fechou a ponte para os coxinhas irem lá bater fotos para postarem no Facebook. Era por volta de 20h30 quando todos chegaram à ponte e já às 20h45 começava a dispersão. Parecia na verdade que todos estavam apressados para chegar às suas casas e não perderem a novela.

Caímos no desânimo e às 21h já estávamos na Travessa Ratcliff, pequeno refúgio da boemia da cidade, afogando as mágoas na cerveja. Às 21h30  apareceu uma turma um pouco mais animada, porque haviam feito um catracaço no Ticen. Depois fiquei sabendo que a polícia deixou todos eles fazerem aquilo e que o próprio presidente do sindicato das empresas de ônibus já havia liberado os ônibus gratuitamente aos manifestantes. Não houve confronto algum. Tudo aquilo não passara de encenação.

A cerveja desceu amarga aquela noite. Não era só porque havíamos sido engolidos pelos coxinhas. Mas porque havíamos sido completamente derrotados no campo de batalha que sempre foi o nosso: as ruas. Ao contrário do que ocorria em outras cidades, onde o MPL ou o similar havia começado as manifestações para depois elas serem apropriadas e as pautas diluídas, em Florianópolis logo a primeira manifestação foi coxinha. Completamente coxinha.

Quarta-feira, 19 de junho

Por conta de tudo o que havia acontecido na noite anterior, os partidos e coletivos de esquerda de Florianópolis resolveram articular-se para a manifestação que estava marcada para quinta-feira. O MPL decidiu antecipar em uma semana o debate sobre tarifa zero que iria promover a fim de tentar pautar a discussão em torno da questão da mobilidade urbana. E foi marcada com todos os grupos de esquerda uma reunião ampla após esse debate.

O debate contou com um número surpreendente de pessoas. Havia mais de duzentas; o auditório do Centro de Filosofia e Humanas da UFSC ficou completamente lotado. Quem conhece o dia a dia do MPL sabe como é difícil ter tantos interessados no assunto. A reunião que seguiu o debate foi algo que nunca vi. Toda a dita esquerda (PT, PCdoB, PCB, PSTU, PDT, Coletivo Anarquista Bandeira Negra, Brigadas Populares, Juventude Comunista Avançando, MPL, feministas e independentes) decidiu unificar sua participação no ato do dia seguinte sob a pauta da tarifa zero. A Frente de Luta Pelo Transporte, pela primeira vez desde que foi criada em 2005, decidiu agir como uma coisa só. Ficou acordado que cada partido poderia levar sua bandeira — ora, o PSTU havia sido hostilizado no ato de terça-feira, tendo suas bandeiras rasgadas e uma militante agredida — e que teríamos uma postura pedagógica no ato, procurando dialogar com a massa difusa que certamente iria à manifestação.

Quinta-feira, 20 de junho

O dia amanheceu chuvoso e frio. Muitos da esquerda imaginavam que isso esvaziaria a manifestação. Mas já no meu trabalho percebi que não. Cheguei ao trabalho e todos estavam animados para a manifestação. Uma colega apareceu com uma camiseta onde estava escrito “Sou brasileira e não desisto nunca”. Disse que tinha comprado no site do Luciano Huck. Esse é o ambiente onde trabalho. Coxinhas, coxinhas por todas as partes. E lá estavam eles, preparando-se para o grande ato. Todos com câmeras e capas de chuva, além de bandeiras do Brasil e cartazes contra a corrupção. E como tanto o prefeito quanto o governador estavam apoiando a manifestação (ambos do PSD), fomos todos liberados do trabalho às 16h30.

Dirigi-me ao Terminal Central de Ônibus (Ticen), mas ainda no caminho uma amiga avisou por mensagem que um confronto já se havia iniciado. Um grupo tentara tirar as bandeiras de quem ali estava. Cheguei perto das 17h à concentração. O clima era tenso. A Frente de Luta Pelo Transporte (umas 300 pessoas àquela hora) estava no passeio da av. Paulo Fontes, em frente ao Ticen, completamente envolvida por pessoas hostis às bandeiras de partido. E isso que a concentração fora marcada para às 18h. Tentamos intervir no grito, substituindo o “sem partido!” dos coxinhas raivosos por “sem tarifa!” ou “sem catraca!”, mas apesar da coisa ter surtido efeito, os partidos, amedrontados, decidiram afastar-se dali. Há um vídeo desse episódio, pode ser visto aqui.

Depois disso, a PM formou um cordão de isolamento entre a Frente e os demais manifestantes. E fomos alvo de provocadores. Um sujeito apareceu ao nosso lado com um cartaz onde se lia: “Militares, voltem para botar ordem neste país!”. A coisa ia mal. Rapidamente resolvemos designar um pequeno grupo para ir aos manifestantes e convencê-los a juntarem-se ao nosso grupo. Durante todo o tempo éramos observados por figuras estranhas, não sei se P2 ou fascistas organizados. Quando se deu isso, eram já 18h e a Marcha dos Coxinhas partiu para o outro lado em direção à Assembleia Legislativa. Como muita gente acabou chegando depois da partida dos coxinhas, acabamos conseguindo juntar bastante gente perdida ao nosso grupo e forçamos um retorno para a frente do Ticen. Não sem um pouco de conflito e muito grito pedindo unificação e foco na tarifa. Organizamo-nos num grupo relativamente coeso de 10 mil pessoas aproximadamente e partimos em direção às pontes.

O caminho até às pontes foi marcado por diversas tentativas de insulto e agressão aos partidos que ali estavam. A ação conjunta da Frente de Luta Pelo Transporte, contudo, evitou maiores confrontos. Entramos na ponte cantando, gritando e pulando pela tarifa zero, numa demonstração nunca antes vista na cidade. Ocupamos as duas pontes por um bom tempo. No retorno à ilha, já na cabeceira da ponte, nos encontramos com os coxinhas que acabavam de chegar, vindos da av. Beira-mar.

Quem estava com bandeira de partido foi hostilizado, perseguido. O principal alvo eram os militantes do PSTU. Aos gritos de “PSTU, vai tomar no cu!”, muitos grupos perigosamente se aproximavam do nosso espaço. Como saí do trabalho direto para a manifestação, estava vestido de coxinha, praticamente um militante à paisana. Nessa hora um desses bombadinhos me puxou de canto e convidou para espancar o povo do PSTU. A coisa não ia nada bem. Não demorou muito até um grupo agredir fisicamente os trotskistas.

Depois de sairmos da ponte, fomos em direção à Praça XV. De lá seguiríamos à Prefeitura. Por falta de organização, porém, nossa manifestação se desarticulou. Parte voltou ao Ticen, parte foi à Prefeitura e outra parte foi ao gabinete do prefeito. Espalhados pelo centro da cidade, muitos sem saber onde exatamente ficava a Prefeitura, a manifestação dispersou. Florianópolis tem esse problema, notadamente com os estudantes da UFSC, que só conhecem os arredores da Universidade. Conhecem muito pouco o centro. Certamente muitas manifestações teriam outra configuração se os seus participantes compreendessem minimamente a geografia do centro da cidade. O grupo que se dirigiu ao gabinete do prefeito teve ainda de enfrentar o ódio antipartidário dos coxinhas e correr dali para não terem o mesmo destino dos militantes do PSTU.

A PM estima em 30 mil o número de pessoas presentes na manifestação de quinta-feira. Mas outras estimativas falam em 50, 70 ou até 100 mil pessoas. Independentemente do número, certamente havia mais coxinhas do que pessoas organizadas pela Frente de Luta Pelo Transporte nesse ato. E os coxinhas estavam organizados. De forma difusa certamente. Mas costurando com pautas genéricas e moralistas o tecido social onde um certo tipo de direita adora desfilar.

Os leitores portugueses que não percebam certos termos usados no Brasil
e os leitores brasileiros que não entendam outros termos usados em Portugal
encontrarão aqui um glossário de gíria e de expressões idiomáticas.


Comentários 32

    • POLIANA FERREIRA

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      jun 21, 2013

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      Quem escreveu sobre Salvador? foi exatamente isto que aconteceu. Eu estava lá e vi!

    • irado

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      jun 21, 2013

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      Também participei em Floripa de 2004 a 2006, ou 7 não me lembro exatamente a última vez. Em 2010 estava em outro lugar. Fui terça e ontem ao centro, mas o que vi foi, pela primeira vez e para o meu horror, o fascismo em status nascendi. Qualquer batuque em um tapume de obra era reprimido com gritos raivosos de “sem vandalismo”, além dos casos de agressão física que felizmente não presenciei, mas logo soube. O alívio, não mais do que parcial, foi encontrar Passe Livre, anarquistas e outros companheiros no terminal antigo, organizando-se para ir à prefeitura. É bem verdade que este momento, sem o vigor de outrora, estava claramente abafado pela turba da ordem…

      Assustador!

      Com a Jornada Mundial da Juventude para ocorrer em breve, soma-se uma nova força conservadora ao atual contexto. Era o sujeito que faltava, a Igreja…

    • Carou

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      jun 21, 2013

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      Da mesma forma que a massiva presença de coxinhas nos atos pelo país me preocupa, me preocupa como a esquerda organizada lidará com isso. Aqui em SP é óbvio que continuar as manifestações só fomentará o inchaço coxa (o próprio MPL declarou não chamar atos tão cedo). A tal ultra direita organizada talvez nem seja tão grande, mas a massa de manobra – todo o “povo” empolgado que sai ás ruas numa linda demonstração de civilidade (civismo, cinismo, fascismo, ignorancia, etc) – cresce assustadora e quase apaticamente.

      Ir pra rua, mesmo que de forma organizada é ir pra rua – e povo nas ruas é sempre uma ótima desculpa pra qualquer coisa – é dar margem pra uma batalha campal como aconteceu ainda que em pequena escala em SP e não é pedagogico. Educação TAMBEM se faz nas ruas, mas o que tem acontecido é que as pessoas saem as ruas para gritar os mesmos absurdos ditados pela _mass media_.

    • Maria

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      jun 21, 2013

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      Pá vocês estão loucos!?

      O Passa Palavra agora defende o Governo do PT contra as “massas amorfas”? Aqui de longe, em Lisboa, não compreendo nada a vossa posição.

      Que é isto?
      “Por trás dessa massa amorfa há “movimentos” articulando um ataque sistemático contra o governo de olho nas eleições de 2014. A “insurreição” e “revolução” que esses movimentos conclamam não é por mudanças radicais contra o capitalismo, mas apenas para mudar a forma que deve gerir o capitalismo”

      “Já na concentração na Praça do Ciclista alguns militantes petistas tentavam levantar suas bandeiras, mas foram achincalhados por gritos de “sem partido!, sem partido!”

      O debate segue também no 5dias:
      http://5dias.wordpress.com/2013/06/21/cuidado-com-as-imitacoes

      Um abraço

    • Brenda

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      jun 21, 2013

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      Seria de grande utilidade se o autor do texto sobre Goiânia entrasse em contato. Não que eu seja grande coisa, mas sinto uma necessidade latente de saber o que realmente acontece nessa cidade já que tudo que vejo é uma grande dispersão do movimento. Gostaria de participar também.

    • Passa Palavra

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      jun 21, 2013

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      Maria,
      Calculamos que você esteja longe das ruas brasileiras e verificamos nem sequer leu com olhos de ler os relatos que aqui coligimos. O Passa Palavra esteve sempre preocupado com a forma como o fascismo pode surgir no interior de movimentos de massas, e agora não somos só nós quem tem essa preocupação no Brasil. Não são só os militantes do PT e da CUT que foram agredidos pela extrema-direita no interior das manifestações de ontem, 20 de junho, com a excepção de Salvador, como pode ver pelos relatos. Foram igualmente os militantes do PSTU e dos outros partidos esquerdistas, bem como os militantes do PSOL, todos os que levantavam bandeiras vermelhas ou algum tipo de bandeira que não fosse a nacional, ou seja, brasileira. Incluindo membros do colectivo do Passa Palavra, que sofreram as mesmas agressões. As críticas que o Passa Palavra, como todos os anticapitalistas, dirigem ao governo brasileiro, como a todos os governos, não se confundem com as diatribes e os insultos provenientes do fascismo. E quando os fascistas atacam alguém, se um de nós estiver perto correrá em defesa da pessoa atacada, como correrá em sua defesa, Maria, se um dia isso lhe suceder.

    • Nathy

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      jun 21, 2013

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      Uma Sugestão se querem mobilizar o pais, porque nao aqui em goiânia parar a br-153 as duas vias, não é sonhar alto, mais ai, não só goiania pararia, boa parte do brasil também!

    • Igor de Bastos

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      jun 21, 2013

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      Sou de Goiânia,
      e foi exatamente oque aconteceu, a massa movida por rede social achando que o movimento era uma festa, playboys com roupas sem manga, óculos escuros e cerveja na mão, patricinhas mostrando as pernas e tbm bebendo cerveja. O movimento foi totalmente sem foco, carros de som cada um especulando uma coisa diferente, a massa gritando ‘O Gigante Acordou’, ‘Vem para a rua’, ‘Fora Marconi’, mas ninguém sabia oque realmente queria.
      Houve um preconceito imenso para com os grupos da periferia (não nego que tbm agi de forma preconceituosa), pois coincidentemente houve algumas explosões quando este grupo chegou à Prç Cívica e todos gritavam sem violência, então todos se sentaram e apenas o grupo ficou em pé…
      Por coincidência ou manipulação, todo o manifesto se dividiu em três, um grupo continuou na Prç Cívia sem fazer nada, um enorme grupo se dirigiu para a Assembléia Legislativa e o 3º e maior se dirigiu inutilmente para a Prç do Ratinho na Av. 85, local totalmente inútil pois não existe nada governamental ou político na região.
      As ações na Assembléia Legislativa já foram descritas no artigo, os outros dois grupos eram apenas coxinhas gritando sem motivo e sem foco.
      Eu e colegas estamos decepcionados com oque aconteceu, desejamos que o MPL não desista de movimentações em Goiânia, pois ainda vamos voltar o foco.
      Infelizmente nasci e cresci em uma família de coxinhas, meus pais são tão passivos que preferem as novelas e serem manipulados pela mídia comprada do que se informar e correr atrás dos direitos que temos. Estou tentado mudar tudo isso em mim e estou nas ruas desde os protestos dos professores estaduais, não gosto de como as coisas estão acontecendo e prefiro continuar com uma manifestação não tão grande e com foco, do que esta multidão zumbi.

    • Gus

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      jun 21, 2013

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      Maria, você não consegue perceber o que está acontecendo. Não se trata de um protesto contra um partido ou contrário a forma institucional partidária. Não. Para muitos que hostilizaram, o PT historicamente significa uma pauta de esquerda. São pessoas contrárias aos (mínimos) avanços progressistas levados a cabo pelo PT, favoráveis inclusive a ditadura militar.
      O problema do PT e sua inabilidade política nessa situação é problema do PT, mas quando passam a queimar todas as bandeiras vermelhas e somos chamados de “comunistas assassinos”, aí há um perigo já conhecido.

    • Marcelo Lopes de Souza

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      jun 21, 2013

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      De fato, Maria: sua crítica ao Passa Palavra é, no mínimo, injusta – inclusive porque parece não dedicar atenção à coerência com que o PP vem, desde sempre, fazendo críticas “pela esquerda” ao governo do PT, tomando o cuidado de não deixar que se confundam com as críticas “pela direita” que, neste preciso momento, abundam e mostram sua boca espumante de ódio.

      Eu quase me veria tentado a dizer que a atual onde de protestos (e que alguns, em flagrante equívoco conceitual e político, chamaram de “movimento social”, coisa que não foi propriamente nem em seu início) começou relativamente promissora, mas foi tornando-se preocupante a cada novo dia. Contudo, dizer isso é dizer muito pouco – e sonegar o essencial. Bastava olhar a correlação de forças na sociedade brasileira e os vários ensaios de mobilização neoconservadora (ou mesmo [proto]fascista, em alguns casos) para imaginarmos que os desdobramentos mais recentes eram, se não inevitáveis, ao menos esperáveis.

      O PP adverte e critica, mais uma vez, as hesitações do campo anticapitalista – libertários e marxistas. Ao que parece, muitos foram pegos de surpresa pela “guinada conservadora” dos últimos dias. Não tinham esse direito, ouso dizer. Mas podemos nos redimir por meio de ações rápidas e decididas – e talvez decisivas. Estamos atrasados, mas a história não terminou de ser escrita. Somos coautores dela, e disso não podemos escapar.

      Parabéns ao PP pelos vários textos relevantes dos últimos dias, e em particular por este.

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      jun 21, 2013

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      Confesso que desde cedo estava sentindo necessidade de ouvir algo do meu saudoso Professor Marcelo Lopes.

      Abraço a todos.

    • Thiago Oliveira Martins

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      jun 22, 2013

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      Sou de Goiânia, e gostaria de completar o texto sobre a manifestação que ocorreu aqui ontem. Bem logo que sai de casa já vi que a coisa seria controlada pelos coxinhas, na internet, na televisão o discurso já era de vamos acabar com a corrupção no Brasil com manifestações pacíficas. Quando fui me aproximando da Praça Cívica, já notei que a coisa seria muito próxima de um Carnagoiânia, carnaval fora de época aqui em Goiânia. E não deu outra, o que mais tinha era gente com cerveja na mão, drogas de todo tipo e tinha até um sujeito com um cartaz com o seguinte slogan “ESTOU SEM NAMORADA, POR FAVOR ME DÊ UM BEIJO”. Tinha um grupo que é financiado pelo PMDB controlando um carro de som gritando palavras de ordem contra o Governador Marconi Perillo,outro falando da corrupção, PEC 37, CURA GAY, mas o que havia em comum entre eles era a o vamos protestar com PAZ. Toda hora eles pediam para os manifestantes sentarem. Na minha opinião, o que aconteceu ontem em Goiânia foi um grande carnaval, regado a cerveja e drogas. Hoje os jornais foram enfáticos na utilização do que ocorreu ontem para reforçar as bases do que já está posto a décadas.

    • Carlos

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      jun 22, 2013

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      O momento tem que ser de autocrítica, coisa que a extrema-esquerda não gosta muito de fazer, nem está acostumada.

      A começar por um exemplo: quem começou a gritar contra os partidos foram os anarquistas. Olha o que virou. Que tal uma nota crítica das lideranças anarquistas sobre o tema?

      O Facebook como único mecanismo de mobilização permitiu a vinda dessa massa conservadora. Não há mobilização em bairros da periferia, em trens, em ônibus. É tudo no Face e ai não se sabe quem se está chamando. Exceto pelo trabalho do pessoal da Rede Extremo SUL, todos os demais grupos políticos não possuem capilaridade em base popular alguma. PSTU, LER-QI, MPL, PSOl apresentaram jovens de classe média, brancos, e de meio universitário. Trata-se de um perfil que vai atrair um público distinto daquele chamado pela Rede Extremo SUL.

      Os locais dos atos foram sempre, basicamente, os mesmos locais de consumo e lazer da mesma classe média conservadora que agora se repudia. Só a Rede Extremo Sul organizou lutas nos locais de habitação dos populares. Há também ai um aceno estético de classe média propícia à chegada dos que agora se rejeita.

      A forma como foi construída a luta em SP não resultou de um trabalho nos meios populares nem de uma revolta popular. Surgiu como algo tocado por uma classe média universitária e a coisa acabou sendo vista como uma recusa a pagar mais por um transporte ruim ou atitude descolada contra a sociedade do automóvel. Não veio na esteira de uma problematização sobre as condições de vida dos populares. Tudo foi tocado, após, como uma revolta de consumidores. Exigindo não pagar mais por algo ruim e, depois, exigindo melhores produtos por tantos impostos pagos:o que inclui lutar contra a corrupção.

      Mais coisa há para ser pensada. Certamente outros terão algo mais a dizer sobre o que há na forma como a luta foi tocada em SP e acabou atraindo a classe média conservadora, alguns deles, certamente, vizinhos ou colegas de classe dos que foram expulsos com suas bandeiras.

    • Caio

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      jun 22, 2013

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      Os protestos na Grande São Paulo seguem, bloqueando importantes estradas. Alguém tem mais informações sobre eles? São diárias mas os portais de notícias não dão absolutamente nenhuma informação a respeito de quem são, nem de número de pessoas.

    • |

      jun 22, 2013

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      Recife

      Nesta quinta Recife viveu seu primeiro “protesto” na onda de levantes nacional. Mas o que chegou aqui, talvez por ser tão longe da origem dos levantes, foi um carnaval-espetáculo da democracia. O clima era de festa verde e amarela; as pautas eram vazias, fruto de velhos jargões que insistem nos tais investimentos em educação e saúde como a salvação da vida – talvez o sonho nostálgico do Estado do bem-estar social. E, quando pior, as pautas eram as pautas da grande mídia, que tem em si a razão de existir totalmente ligada ao controle das mentes e corpos dos mesmos recifenses : combate à corrupção, combate à impunidade e a principal de todas, o combate ao “vandalismo”. A palavra de ordem “sem violência” era gritada contra os próprios manifestantes e os Pacifistas ajudavam a polícia a identificar e prender os “vândalos”. Submeter alguém aos tratos da polícia por que estava se expressando num muro: é essa a não-violência dos Pacifistas-Nacionalistas. Era difícil entender se algumas pessoas eram policiais infiltrados ou Pacifistas. Como disse alguém: só faltava às pessoas irem vestidas de policiais. Não precisava de polícia na manifestação, pois o clima de perigo era constante até pra quem quisesse pintar um muro ou atirar uma bola de tinta.

      Há algo de errado quando os políticos acordam e vão trabalhar normalmente, felizes por terem sido bem-sucedido, após o maior protesto que Recife já viu nos últimos tempos.

      Está estabelecida a tríplice santíssima da ordem vigente: a mídia, a polícia e, agora, os cidadãos-Pacifistas. Aliás, o que impressionava na atitude desses cidadãos era como eles estavam organizados em torno da certeza da luta contra o “vandalismo”. Num país altamente despolitizado quem eram as milhares e milhares de pessoas nas ruas? Como conseguiram unificar uma pauta desta forma tão forte? Pra nós não resta dúvida: é o aparelho ideológico capitalista quem ta unificando essas pautas vazias, cuja única consequência é o freio da revolta e, talvez pior, um possível fortalecimento dos setores conservadores. Era como se a Marcha da Família com Deus pela Liberdade estivesse lá, presente, simultânea, lado a lado, reagindo aos perigos da revolta dos “vândalos”, pronta para criar um mundo livre para a exploração capitalista e dominação intensificados.

      paz-policiaMas apesar deles a resistência estava lá. Esta resistência certamente não é o DCE da Unicap, que levou o ato para o marco-zero, concretizando o espetáculo carnavalesco e ainda publicou uma nota elogiando a mobilização dos 100 mil (que eles de alguma forma que não sabemos estimaram). Essa resistência eram grupos fragmentados que ficaram até mais tarde criando pequenos focos de luta. Como foi o caso do foco da prefeitura, talvez o mais significativo, como pode ser visto aqui. Também aconteceram no Derby e na Av. Agamenom Magalhães. Os Pacifistas já haviam ido embora e por volta das 22:00h da noite a polícia reprimiu esses focos com bala de borracha. Alguns foram detidos, há relatos de pessoas que levaram tiro de bala de borracha no rosto e foram direto para o Hospital da Restauração. Entretanto, mesmo nesses grupos, não há uma clareza ideológica e de projetos. Alguns deles ainda cantavam o hino nacional com bandeiras do Brasil, dando um tom meio esquizofrênico para a aglomeração.

      A resistência deve fluir de forma inteligente, deve entender dos perigos e das armadilhas dos protestos, pois ficou definitivamente claro: a contra-revolução está nas ruas!

    • Vermelho e Preto

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      jun 22, 2013

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      Companheiros, vou fazer um relato de um libertário que, sabendo das provocações que os nossos camaradas de partidos sofreriam no Rio de Janeiro, decidiu marchar ao lado deles para prestar solidariedade e protegê-los.

      A concentração no Largo de São Francisco, que abriga o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (IFCS), estava abarrotada de militantes de diversos movimentos e partidos, de favelas, GLBTs, Movimento Negro, indígena, enfim, de todos aqueles companheiros que lutam há décadas pelas reivindicações mais politizadas que a população em fúria hoje reivindica nas ruas. Éramos mais de 3.000 militantes de esquerda. Chamamos o povo às ruas a vida inteira, e agora ele estava lá! Vamos ao seu encontro.

      Seguimos pelas vielas do antigo centro do Rio – Ouvidor, depois Uruguaiana -, encontrando com o grande rio de manifestantes na Presidente Vargas. 500 mil? 1 milhão? A massa, para além dos nossos grupelhos.Impossível não se perder, dialogar com os manifestantes dos mais diversos grupamentos, gente que havia sido liberado do trabalho mais cedo e ainda afrouxava a gravata, pessoas com cartazes os mais brilhantes e os mais medíocres, até que encontro uma companheira do Psol aos prantos, dizendo-me que os companheiros estavam sendo atacados.

      Eram linhas de 20 ou trinta, gente treinada para o confronto, pagos por sei lá quem (Fetranspor? Metrorio? Sérgio Cabral?), alguns com máscaras, outros sem. Não eram, em sua maioria, neonazistas ou de partidos declaradamente fascistas, mas respondiam a ordens superiores. Nos atacavam com chutes, pauladas, pedradas, bombas, mas não queriam nos matar. O objetivo era disseminar o pânico, obrigar a baixar aquelas bandeiras vermelhas e dividir o movimento entre “a-partidários” e “partidários”.

      A típica paranóia do PSTU serve quando o momento é de paranóia. Os camaradas do partido já tinham levado porrada no ato de segunda e se prepararam para defender a esquerda. Formaram um cordão de isolamento com suas rústicas bandeiras de pé de enxada, e nós, “independentes”, militantes do PCB, PSOl, e até do PT e PSB, formamos outras linhas, de mãos dadas, impedindo que as hordas da direita atacassem as fileiras dos camaradas de esquerda. O Pstu fez a coisa certa, e com uma bravura que só quem apanhou ali saberá reconhecer com o devido crédito.

      Recuamos quilômetros pela Presidente Vargas sendo atingidos por chutes, pedras, pedaços de pau, bombas. Os companheiros seguiam à frente com o carro de som. Em um dado momento, baixamos as bandeiras para evitar mais tensionamentos com os provocadores. Mas a intenção não era apenas baixar as bandeiras dos partidos. Era afastar a esquerda do centro dos protestos, nos isolar do resto dos manifestantes, criar o terror e supostas divergências entre “manifestantes”. Sabiam muito bem o que estavam fazendo. Uns 500 metros antes de chegar à Prefeitura (destino do ato), lançaram-nos uma saraivada de pedras, obrigando-nos a correr e nos dispersar. O que seguiu foram confusões, ataques a prédios que não sabíamos de onde viam, e a resposta da PM: uma chuva de bombas de gás lacrimogêneo atiradas por lançadores de longa distância. As bombas se fragmentavam no ar, a 20 ou 30 metros de altura, e caíam, compartimentadas em 3 ou 4, varrendo os manifestantes “sem partido” da Presidente Vargas. Seguiu-se uma heróica resistência popular, que combateu a tropa de choque, acuando-os em vários momentos madrugada a dentro. Só mesmo vendo os vídeos para dimensionar o heroísmos daqueles que trocaram tiros e pedras com a odiosa Tropa de Choque (https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=3myg7k7iV4g).

      Do milhão de pessoas que saíram às ruas, a esmagadora maioria usava verde e amarelo. Eram os “Coxinhas”, como dizem. Levantavam cartazes contra a corrupção. Muitos desfilavam, tirando fotos para postar no Facebook. Mas a juventude que “concretamente” temos é essa, e não outra. A maioria deles sente a merda em que estamos afundados. Grande parte das reivindicações eram por saúde e educação. Muitos jovens gays mostraram suas caras sem máscaras. As ruas se abriram outra vez, e isso é uma grande conquista!

      Os provocadores organizados que deixaram um companheiro do PSTU em coma e vários outros de nós feridos eram uma ínfima minoria. Menores do que nós, de esquerda, que jamais estivemos tão numerosos e mobilizamos tanta gente. E é por termos mobilizado tanta gente que a extrema-direita nos atacou. A violência deles é sistêmica, portanto ninguém irá apurá-las. A nós nos cabe nos defender, ou enfrentar a polícia encapuzados e sermos responsabilizados por nossa violência. E o seremos, de uma forma ou de outra, pois lutar contra o sistema é necessariamente violento e um crime.

      A extrema-direita se aproveita do levante popular em curso no país para dar vazão a sua ira e para dividir o movimento. Estão desesperados, e permanecerão na obscuridade quando tudo isso acabar. Nós, a esquerda, conquistamos, em duas semanas de demonstração de força, a redução das passagens dos transportes públicos em centenas de cidades e uma clara indicação de que os tão almejados 10% do PIB para a educação serão alcançados via utilização dos 100% dos royalties do petróleo para este fim. Migalhas perto do que ainda podemos conseguir caso não caiamos na ilusão de que somos divididos por isso ou aquilo, “baderneiros” ou “pacíficos”, partidários ou a-partidários. Neste momento, o importante é que todos da esquerda, comunistas ou anarquistas, estejam juntos para resistir às provocações e manter a direita à margem do grande processo de construção social do qual a esquerda participa há décadas e, não por acaso, eclodiu num levante popular agora. Os coxinhas são confusos, mas já conquistamos com eles, em duas semanas, coisas que não conseguimos em vinte anos de protestos puros, mas isolados e sempre com os mesmos. A coisa fugiu do controle? Que bom, pra eles também.

    • Carlos

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      jun 22, 2013

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      Tinha esquecido de postar: o blog do Reinaldo Azevedo está dando record de acessos dia a pós dia. Parte do que está sendo feito é aplicação clara do que ele escreve.

      São mais de 340 mil visitas dia. A extrema-direita o lê.

    • ANA PAULA

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      jun 23, 2013

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      E tem alguma coisa que voces possam fazer para impedir esta desgraça???? Ou voces vão ficar só só comentando e olhando, se voces puderem fazer alguma coisa para impedir isso, por favor, lutem, ajudem o povo!!!

    • Paulo

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      jun 23, 2013

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      Auto-organização, horizontalidade… acho que isso tá rolando na direita e toda a esquerda (partidária, autonomista, etc) está ficando atônita…

    • Leo Vinicius

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      jun 23, 2013

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      Paulo,

      Essa é uma boa questão.

      mas é precisa distinguir a direita organizada (horizontalmente ou não) e a massa dos aqui chamados coxinhas que vão para as ruas, sem organização alguma.

      Mas sim, tem muita coisa para se refletir no que está acontecendo, inclusive questão que você levanta: horizontalidade, apartidarismo, rechaço a partidos.. tudo isso não são necessariamente libertários, e o vemos claramente diante dos acontecimentos. O seu conteúdo libertário só vai se dar dentro de um determinado contexto, dentro da totalidade das relações políticas e sociais, ou vindo junto com outros princípios políticos.

    • |

      jun 24, 2013

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      Os interesses que estão em jogo:

      1) Classe dominante: dividida entre esquerda do capital e direita do capital, busca polarizar os protestos em torno de temas (economia nacional empreendedora vs benefícios sociais pelo estado, frente única antifascista vs fascismo) necessariamente fantasiosos, espetaculares, que mascaram, como era de se esperar, o cotidiano da escravidão do salário (inclusive as forças repressivas altamente mortíferas que garantem a continuidade dessa escravidão) da quase totalidade da população.

      2) Proletariado: embora os protestos tenham se inicidado com um objetivo que tem imediato interesse para os proletários (preço dos transportes), e embora tenham sido vitoriosos a esse respeito (reversão dos preços), o proletariado continua trabalhando, isto é, continua privado de meios de vida pelo aparato repressivo, rastejando por empregos, acuado nas empresas, submetido aos patrões, e inconsciente de sua própria força colossal e internacionalista. Sem sua luta (a luta de classes), todo protesto é necessariamente “revolta dos coxinhas”, mesmo que desfilem trabalhadores cansados e mal vestidos nas passarelas do espetáculo. Enquanto o proletariado não surgir como classe, os manifestantes serão necessariamente joguetes das polarizações espetaculares dadas pela esquerda do capital e pela direita do capital.

      3) Classe média: capitalistas e proletários são todos “classe média” (média alta alta, média alta média, média média média, média média baixa, média baixa baixa….), que é a identidade individual que o capital fornece e que é necessária para o bom andamento do capital, assim como a “nacionalidade”. A “classe média” compra e oferece mercadorias “voluntariamente” em “pé de igualdade”, mesmo que seja a venda da própria carne e pensamento humanos, como no mercado de trabalho. Ou seja, a classe média não existe exceto na imaginação. Um possível resultado da repressão brutal nas manifestações é a constatação por muitos mauricinhos, almofadinhas, coxinhas, de que a classe média não existe de fato, já que pode frustrar a ilusão de que existe o “brasileiro” defendido incondicionalmente pela polícia (e, mais ridículo, pelo idolatrado BOPE). Mas não tenhamos ilusões, pois a classe dominante (esquerda e direita) sabe que não pode se sustentar sem insuflar na população divisões que se apoiam na união da fantasiosa “classe média” (“gente do bem”) com a repressão contra algum bode espiatório, igualmente à esquerda e à direita.

    • Tem de tudo

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      jun 24, 2013

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      Ficamos a vida inteira esperando o povo ir as ruas, nao podemos agora nos asssustar com ele – mesmo em suas facetas conservadoras, que nao sao majoritarias. As agendas agora tendem a se separar, e a esquerda autonoma precisa estar atenta para levar a cabo uma verdadeiramente radical, propositiva, que dialogue com a furia dos antipartido e que nao caia na conversa de alguns que querem se fazer parecer que estao do nosso lado, quando sao parte do inimigo, nao importa o que digam.

    • Aurismar

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      jun 25, 2013

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      Quem acende um pavio tem que saber pra que lado sopra o vento …

      Miopia política já nos levou a 20 anos de ditadura, no passado. Chamavam Jango de ‘reformista’, era bombardeado diariamente pela esquerda e direita, deu no que deu.

      A verdadeira revolução socialista não se conquista com ativismos explosivos imediatistas, dizia Gramsci. Ela é um longo e díficil processo que tem que ser precedido pela educação das massas para o autogoverno, ou fracassará. A educação das massas para essa nova realidade tem que vir ANTES. (desculpem usar maiúsculas)

      Não fazer isso e tentar rebelar alguém é, na realidade, tentar usurpar as lutas e demandas. Tanto os fritadores de coxinhas quanto os insufladores da ‘revolta popular’ fazem isso, a meu ver.

    • Leo Vinicius

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      jun 25, 2013

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      Aurismar,

      e qual o papel da direita num golpe de direita?

      Pela sua explicação do processo histórico é a esquerda, ou melhor, as conquistas sociais, que existindo, leva a direita ao poder.

      Que a tal revolução socialista é um longo e difícil processo, isso não se discorda (eu preferiria falar em prática das massas para o autogoverno em vez de educação). Mas você não vê no processo de mobilização, de luta direita, de organização parte desse processo, de prática e educação, de criação da própria classe?

      Por que será que nas revoltas ou mobilizações populares (como se queira chamar), em Porto Alegre, Goiania, Florianopolis, Vitória, entre outras, que reduziram o valor da tarifa do transporte nunca se colocou esse receio de golpe ou capitalização pela direita?
      Ora, nunca se colocou porque ela nãos e explica por essa prática de mobilização e luta da esquerda, mas pela prática que a direita agora, ousadamente e ineditamente fez uso. Esse é o dado novo.

    • Pablo

      |

      jun 25, 2013

      |

      Aurismar,
      Concordando com a linha da resposta do Leo Vinicius, você não acha que ao acender o pavio há a possibilidade da classe se formar na própria luta e fazer o vento soprar mais à esquerda? Não foi assim nas experiências revolucionárias do passado, que tiveram sucesso? Na luta de classes não dá pra garantir a vitória de antemão, seja à direita ou à esquerda.
      Como diz o João Bernardo, “a autogestão da sociedade prepara-se na autogestão das lutas”, então a própria luta tem um peso de educação política, que não precisa ser “anterior”. Acho que é isso que o Leo Vinicius quis dizer com “eu preferiria falar em prática das massas para o autogoverno em vez de educação”, e concordo plenamente. Temos que aproveitar esse momento pra conquistar o máximo possível de autonomia de classe nas nossas lutas sociais. O medo da direita não pode nos levar ao pacto com o PT e a atirar no lixo anos de acúmulo de crítica ao petismo, que aliás é o grande responsável por muitas das atuais debilidades da esquerda.

    • Talitha

      |

      jul 2, 2013

      |

      Pablo,

      O que seria, exatamente, “pactuar” com o PT? Votar e defender o voto em seus candidatos? Admitir que as lutas anteriores talvez não tenham tido a repercussão de 2013 porque há forças conservadoras que sim se utilizaram dos movimentos sociais e da crítica feita à esquerda para confundir e dar uma atmosfera glamurosa a esta crise institucional que não ameaça o governo com uma revolução socialista em hipótese nenhuma?
      Concordo com Aurismar se entendi o que o incomodou e acho que o momento é sim para autocrítica. Acho muito legal a substituição da palavra educação proposta pelo Leo Vinícius, até porque poucas palavras são mais permeáveis à ideologia do que esta. E também entendo que o Aurismar não tem toda a razão quando se refere à ordem que se estabelece entre o processo de conscientização e de luta. Mas se o que ele questiona é a ingenuidade de ter pensado em algum momento que seria possível que um movimento difundido pelos meios que difundiram este movimento pudesse conscientizar através da luta, estou plenamente de acordo.
      Todo o tempo vejo as pessoas dizendo que a internet, o facebook, etc, são elementos que fazem deste um movimento nunca visto, algo inteiramente novo, etc. Pois só o que vejo de muito novo é a ilusão da facilidade, a ideia de que é possível sem militante sem o desgaste que isto implica.

    • Leandro Ramos Benfatti

      |

      out 2, 2013

      |

      Me arrependo de ter participado de algumas manifestações de junho, pois elas tiveram um caráter fascista e antipartido. Não sou fascista e também não sou de direita nem coxinha, muito pelo contrário: sou de esquerda e milito no PSB e considero horrível e bizarra, pra não dizer fascista, a palavra de ordem”sem partido”. Tá errado isso, pois a democracia se faz com partidos, se eles tem erros e muitas falhas é porque falta uma Reforma Política, algo que os manifestantes de junho nem sabem o que é.

    • Fabio

      |

      mar 25, 2014

      |

      Pessoal, me assusto com o radicalismo, da direita e também como o radicalismo da esquerda.

      Não podemos deixar que o sr. Ah … é … sim, e o restante da sua corja, se aproveitem da situação em que o Brasil se encontra. Contudo, não fechemos os olhos para o contexto em que o Brasil atravessa. É preciso cobrar o governo federal, quando deste for a responsabilidade, e cobrar os municípios e estados por suas inúmeras falhas de gestão.

      Coxinha? Perder tempo conceituando “coxinha”? Onde estamos?
      Isso sim é discurso vazio …

      Foda-se os coxinhas, os BB’s, os BBB’s … quero é discutir soluções reais que poderão minimizar o sofrimento dos menos favorecidos …

      Mas uma coisa é certa, a DIREITA nunca deve voltar a comandar esse país … para tanto, a esquerda tem que deixar de ser um tanto quanto radical e trabalhar, estudar, tentar não se corromper, dialogar quando preciso e bater de frente quanto essa for a solução.

      Precisamos fortalecer os partidos … fortalecer a esquerda e acabar com as briguinhas ideológicas que apenas enfraquecem nossa militância.

      Tem muita achando absurdo os gritos de “sem partido”. Concordo, democracia sem partido é … nem preciso dizer … mas se a cada discussão mal resolvida da esquerda, o camarada resolver criar um partido, eu serei obrigado a entoar o coro: dois partidos, dois partidos …

      Não temos mais tempo para vaidades … elas diminuem as forças da esquerda … todos querem ser vanguarda, não há diálogo entre a esquerda, e quem ganha com isso? Hein?

      Os porcos são unidos e brigam a qualquer custo pelos seus interesses … observar o adversário pode ser o caminho.

      ESQUERDA DE TODO MUNDO, UNI-VOS!

    • Taiguara

      |

      mar 25, 2014

      |

      O mais cristalina pensamento petista foi descrito acima. A palavra de ordem agora é: Esquerda brasileira, rachai-vos!

    • 2000 e desespero

      |

      mar 17, 2016

      |

      E cá estamos nós…

    • Padaqui

      |

      mar 18, 2016

      |

      Creio que os acontecimentos atuais demandam um novo debate pelo e através do Passa Palavra…

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