Post-scriptum: contra a ecologia. 5) Georgescu-Roegen e o decrescimento económico

Post-scriptum: contra a ecologia. 5) Georgescu-Roegen e o decrescimento económico

em 27 set

Se admitirmos a formulação de Boltzmann para a segunda lei da termodinâmica, cai o pressuposto das limitações naturais ao crescimento económico. Por João Bernardo

Os ecologistas recorrem a um argumento que tem a aparência de realismo, o de que os recursos naturais são finitos e quanto mais coisas se tirarem do saco mais depressa o saco ficará vazio.

1.

A noção de que os recursos naturais são finitos deve ser analisada criticamente sob várias facetas, mas antes disto convém notar que metodologicamente se converteu num gato escondido com o rabo de fora.

Perante as pressões dos ecologistas e os clamores nos órgãos de informação, as grandes empresas decidiram mostrar que a sua gestão dos recursos naturais não põe em causa a renovação desses recursos. Aliás, aproveitaram o movimento de opinião para sujeitar os assalariados a controlos mais rigorosos e para levar os clientes a prescindir de serviços que antes estavam incluídos no preço. Trata-se de mais um dos casos em que as pressões do movimento ecológico suscitaram o aumento de lucros do capital, como analisarei no último artigo desta série, mas na perspectiva que agora me ocupa este efeito é secundário, porque o principal é que as grandes empresas conseguiram mostrar que podem ampliar as suas operações e proporcionar uma maior abundância sem com isso esgotarem os recursos naturais. Proclamaram então o crescimento sustentável.

Os ecologistas, porém, não se conformaram com esta sustentabilidade. Eles haviam lançado o seu movimento para limitar o consumo, baixar o nível de vida e pôr travões ao crescimento económico. Não podem agora aceitar que os próprios argumentos da ecologia sejam usados para defender a continuidade do crescimento. É este o rabo de fora que, aqui como noutros casos, revela o motivo prático de uma ideologia. O fundamental é a defesa de uma paragem, ou mesmo uma inversão, do progresso económico, com as consequências que isto implicaria no plano da sobre-exploração da força de trabalho. E quando as empresas provam com argumentos ecológicos que o crescimento é possível, os ecologistas ou desprezam esses argumentos ou os consideram viciados ou decretam que eles não correspondem à verdadeira ecologia — e porquê? Porque só corresponde à verdadeira ecologia aquilo que limitar o consumo e o crescimento. Nada pode mostrar melhor os objectivos práticos da ecologia do que a sua oposição ao crescimento sustentável. Mas argumentos como este, de carácter epistemológico, são formulados no plano das deduções, enquanto que a vida e a morte se regem no plano dos factos.

2.

No plano dos factos, o último recurso dos ecologistas e, entre eles, dos partidários do decrescimento económico é a forma como definem a segunda lei da termodinâmica, pretendendo que a entropia de qualquer sistema aumenta com o tempo, ou seja, que caminhamos para um aumento da energia dissipada e inacessível. A energia total mantém-se constante, mas a sua distribuição tenderia a nivelar-se numa energia latente, inutilizável. Assim, anunciam estes profetas, mesmo que o crescimento económico pareça sustentável graças a uma adequada gestão dos recursos naturais, a segunda lei da termodinâmica estabelece que quanto mais energia despendermos no processo produtivo, mais aumentaremos a entropia. É essa lei que nos dita o apocalipse.

As teses do decrescimento económico estão na moda e em Portugal é um espectáculo deplorável ver pessoas — todas elas reivindicando-se daquilo que, por razões complexas, continua a chamar-se esquerda — defenderem um decrescimento económico definitivo, quando a troika e o governo o propõem apenas temporário. Mas não vou ocupar-me aqui com os teóricos em voga, já que, precisamente por isso, são eles os mais superficiais.

É esclarecedor considerar que os clássicos, aqueles que primeiro analisaram uma dada realidade ou formularam uma certa doutrina, são quem melhor sobrevive à prova do tempo. Quando os relemos, passados séculos, se não passados milénios, encontramos neles a observação de aspectos que na época mal tinham vindo à luz. Por que motivo os possíveis desenvolvimentos de uma realidade são melhor detectáveis por alguém situado na sua génese? Hoje, que os universitários entraram no estádio da pós-modernidade, hegelianismo acrescentou-se à lista dos insultos e quando alguém usa injuriosamente um termo dispensa-se de saber a que é que ele se refere. No entanto, mesmo para uma pessoa como eu, longe de aceitar o hegelianismo enquanto sistema, muitas noções e conceitos propostos por Hegel são imprescindíveis em certas análises concretas. É o caso dos clássicos, porque em termos hegelianos compreende-se que no momento da génese de uma dada realidade as linhas de desenvolvimento existentes enquanto possibilidade sejam mais facilmente discerníveis em função do desenvolvimento global inerente a essa realidade do que o seriam numa época tardia, quando algumas dessas linhas de desenvolvimento se realizaram já enquanto factos e podem surgir como ilusórios termos finais. Tudo isto para esclarecer por que motivo prefiro analisar a doutrina do decrescimento económico através da obra do seu fundador, Nicholas Georgescu-Roegen.

Duas frases sintetizam o livro publicado por Georgescu-Roegen há mais de quarenta anos: «[…] a natureza do processo económico considerado na sua totalidade é puramente entrópica» (pág. 11); «[…] a tese que me propus desenvolver neste livro, que a natureza básica do processo económico é entrópica e que a Lei da Entropia rege superiormente este processo e a sua evolução» (pág. 283). Foi neste quadro que Georgescu-Roegen expôs os seus argumentos.

3.

Georgescu-Roegen considerou que a ciência económica teria toda ela obedecido erradamente ao paradigma da física mecânica ou, mais apropriadamente, mecanicista. Contra o mecanicismo, ele sustentou uma noção vitalista e teleológica, embora o termo vitalismo estivesse tão mal visto que se sentiu obrigado a proceder a uma certa ginástica com aspas. Escreveu ele que «fora poucas excepções, os economistas (tal como outros cientistas sociais) opuseram-se a qualquer sugestão de que o conceito geral de organismo pudesse ser um instrumento útil no seu domínio» (pág. 106).

Convém aqui sublinhar a importância que o organicismo teve na filosofia romântica da transição do século XVIII para o século XIX, nomeadamente o romantismo alemão, e no irracionalismo que lhe é inerente. Georgescu-Roegen defendeu que a biologia e a economia deveriam convergir, já que «o processo económico é […] uma extensão da essência biológica do homem» (pág. 352). E tal como o modelo do organismo fora invocado pelos românticos contra a razão abstracta dos jacobinos, também Georgescu-Roegen sustentou contra o mecanicismo uma causalidade de tipo teleológico, defendendo que, contrariamente ao que pretende a física mecanicista, incluindo a termodinâmica estatística, existe uma «purposive activity» (pág. 194), uma actividade intencional, feita com um objectivo. «A causa final», afirmou ele a respeito da «purposive activity», «ocupa não só o seu lugar certo nestas ciências», ou seja, nas «ciências da vida», «mas constitui também um instrumento de análise indispensável e extremamente útil». E assim Georgescu-Roegen defendeu o vitalismo no domínio das ciências da vida. «Um biólogo ou um cientista social tem de ser um “vitalista” e, consequentemente, tem de ter o hábito de procurar uma intenção [purpose]» (págs. 194-195). Do mesmo modo, essa actividade intencional e esse vitalismo deveriam dominar também a economia, enquanto uma das ciências da vida. Ao defender «a infinidade qualitativa da natureza» (pág. 94), Georgescu-Roegen estava a insistir num dos temas centrais da filosofia romântica, que promovia o concreto qualitativo contra o abstracto quantitativo.

O romantismo do concreto acusa a razão abstracta de insuficiência, por não dar conta da complexidade da realidade. Mas a razão abstracta pode invocar a sua eficácia prática como demonstração de que a sua validade decorre precisamente do facto de não colocar certo tipo de questões. É porque diminui o escopo da problematização que a razão abstracta alcança sucesso; enquanto o romantismo do concreto, querendo abarcar a totalidade da complexidade, se condena ao fracasso prático. É no plano prático, e não no plano estritamente ideológico, que se demonstra o triunfo da razão abstracta.

Georgescu-Roegen reivindicou a tradição romântica da ciência e na sua crítica ao racionalismo científico procedeu a uma reencenação da polémica do romantismo alemão contra a racionalidade jacobina. Foi nesta perspectiva que expressou repetidamente a sua admiração por Marx, incluindo-o entre os «economistas românticos», juntamente com a escola histórica e os institucionalistas (pág. 121). E quando criticou a indevida matematização dos conceitos, a «superstição aritmomórfica» (pág. 80), Georgescu-Roegen evocou Darwin e Marx como exemplos de cientistas cujas descobertas haviam sido possíveis porque se mantiveram alheios à obsessão matematizante. Este apreço que um pensador formado na direita — e para mais na direita romena, cujas manifestações ideológicas foram tão complexas e em que o fascismo místico conseguiu uma influência ímpar — manifestou por Marx, na estrita medida em que o incluiu entre os românticos, é compreensível na perspectiva aberta por um notável estudo de Karl Mannheim. Mas como o meu objectivo aqui não é o de analisar a relação da génese do marxismo com o desenvolvimento da filosofia conservadora alemã, limito-me a indicar esta pista ao leitor interessado.

Ao mesmo tempo, a admiração de Georgescu-Roegen por Marx foi ambígua, porque a sua crítica à pretensão de assimilar todas as ciências, incluindo a economia, ao modelo da física mecanicista era pertinente, mas injustificada quando esquecia as correntes críticas e, relativamente à economia, quando punha de lado todos aqueles que entraram em conta com os bloqueios institucionais, os time-lags e, no caso do marxismo, os conflitos de interesses. A este respeito Georgescu-Roegen dedicou-se afanosamente a abrir portas já abertas, e o facto de haver quem insistisse em mantê-las fechadas não significa que não houvesse quem as abrira. E seria realmente necessário chamar tanto a atenção para os limites da análise quantitativa? Não se tratou, uma vez mais, de abrir uma porta aberta?

Para manter a pretensão da validade da sua crítica a uma ciência económica inserida no paradigma da física mecanicista, Georgescu-Roegen referiu-se sobretudo à economia tal como ela existe na sequência de Jevons e Walras. Na perspectiva destes economistas «o processo económico nem suscita nenhuma mudança qualitativa nem é afectado pela mudança qualitativa do meio em que se insere», escreveu Georgescu-Roegen. «Trata-se de um processo isolado, autocontido e a-histórico […]» (pág. 2).

Georgescu-Roegen considerou que, no máximo, os modelos dominantes na economia estabelecem um contacto com o mundo natural através da teoria ricardiana da renda, e mesmo esta «é expressamente definida como um factor imune a qualquer mudança qualitativa» (pág. 2). Mas a economia política clássica, de Adam Smith em diante, só considerara como variáveis a produção industrial e o que dela decorria. Ora, a produção de alimentos fazia parte da natureza entendida como um já-dado. Só quando a ciência e a indústria começaram a expandir-se para a produção agrícola é que a economia passou a tomá-la em conta no mesmo plano que os outros factores. Assim, a crítica feita por Georgescu-Roegen aos economistas clássicos pressupõe uma natureza limitadora e não passível de expansão, e ele opôs-se à noção de que o modelo industrial pudesse aplicar-se à agricultura. É curioso que o fundador da teoria do decrescimento económico, numa das partes mais datadas deste livro, afirme que os princípios da indústria nunca poderão aplicar-se à produção agrícola (págs. 251-252), enquanto os seus herdeiros actuais vituperam a indústria precisamente pelo facto de se ter estendido sobre a agricultura.

4.

A afirmação básica de Georgescu-Roegen nem sequer é a de que a teoria económica tem de levar em conta a lei da entropia, mas a de que a entropia é em todos os casos irreversível. Esta foi uma das noções em que mais insistiu ao longo do livro. Georgescu-Roegen considerava que «o processo económico consiste numa transformação contínua de baixa entropia em alta entropia, quer dizer, em desperdício irreversível ou, para usar um termo actual, em poluição» (pág. 281). Ou ainda, noutra formulação, que «do ponto de vista estritamente material, o processo económico limita-se a transformar baixa entropia em desperdício» (pág. 305). Georgescu-Roegen defendeu exclusivamente a formulação originária da entropia, devida a Clausius, na sequência do artigo de 1824 de Sadi Carnot sobre as máquinas a vapor, e concentrou os ataques contra a formulação de Boltzmann, que transpusera a questão para termos estatísticos.

Jacob Bronowski, matemático e biólogo que foi um excelente divulgador, observou no seu livro mais lido, publicado no ano da sua morte, em 1974, que a formulação clausiana da segunda lei da termodinâmica «foi uma boa ideia há cem anos atrás, porque então o calor podia ainda ser concebido como um fluido». Interrompo para notar que é este um dos fios da teia ligando Georgescu-Roegen aos vitalistas, que também eles entendiam a energia como um fluido. E Bronowski prosseguiu: «Mas o calor é tão pouco material como o fogo ou a vida. O calor é um movimento aleatório dos átomos». Foi a partir desta noção que Boltzmann desenvolveu a sua versão da segunda lei da termodinâmica. «Quando a energia se degrada», prosseguiu Bronowski na explicação do modelo boltzmanniano, «são os átomos que assumem um estado de maior desordem. E a entropia é uma medida da desordem». Esta concepção estatística da entropia permitiu chegar a conclusões muito diferentes das de Clausius e, depois de admitir que «os estados desordenados são muito mais prováveis do que os estados ordenados, porque praticamente qualquer conjunto aleatório de átomos será desordenado», Bronowski preveniu que um alto grau de probabilidade estatística não leva uma ocorrência a ser absolutamente certa. «Não é verdade», prosseguiu ele, «que os estados ordenados constantemente se degradem em desordenados». E aqui Bronowski chegou ao aspecto que mais directamente me interessa. «A estatística permite que a ordem seja edificada em algumas ilhas do universo (aqui na terra, em si, em mim, nas estrelas, numa variedade de lugares) enquanto a desordem prevalece noutras» (pág. 222).

Georgescu-Roegen objectou que «a probabilidade foi introduzida na termodinâmica precisamente para salvar a representação mecanicista da natureza» (pág. 148). Ora, Boltzmann considerara a entropia como podendo ocorrer simultaneamente com graus de probabilidade distintos numa variedade de estados, alguns deles com diminuição de entropia — as «ilhas» que Bronowski expressivamente referiu. Todavia, Georgescu-Roegen considerou a entropia como um todo único numa evolução temporal linear. Foi por conceber deste modo a questão que ele pôde pretender que para Boltzmann a entropia seria globalmente reversível no tempo, embora com um baixíssimo grau de probabilidade. «Mas, por mais pequena que seja a probabilidade de um acontecimento, ao longo do Tempo esse acontecimento tem de ocorrer um número infinito de vezes. Senão o coeficiente de probabilidade perderia todo o significado físico. Por consequência, na eternidade sem limites, o universo necessariamente atinge o Caos e depois renasce das cinzas um número infinito de vezes» (pág. 165).

O modelo de Boltzmann, porém, comporta-se de maneira diferente do que pretendeu esta versão risível e, evocando tais objecções, Bronowski formulou retoricamente a pergunta: «Se fosse verdade que a probabilidade nos tivesse trazido até aqui, não seria essa probabilidade tão baixa que não temos nenhum direito de estar aqui?» (pág. 222). E respondeu à objecção argumentando que «não é assim que a natureza funciona. A natureza funciona por degraus. Os átomos formam moléculas, as moléculas formam bases, as bases dirigem a formação de aminoácidos, os aminoácidos formam proteínas e as proteínas constituem células. As células constituem os primeiros animais simples e depois os complexos, ascendendo degrau a degrau. As unidades estáveis que compõem um nível ou estrato são a matéria-prima de encontros aleatórios que produzem configurações mais elevadas, algumas das quais terão possibilidade de ser estáveis. Enquanto houver um potencial de estabilidade que não se tenha realizado, o acaso não terá outro caminho a seguir. A evolução é a subida de uma escada desde o simples até ao complexo, degrau a degrau, cada um deles sendo estável em si» (págs. 222-223).

Com aquela desnaturação do modelo estatístico proposto por Boltzmann, inaceitável para o leitor comum na forma inverosímil em que era apresentado, Georgescu-Roegen esforçava-se por sustentar o modelo de Clausius, em que a entropia caminha globalmente em sentido único e é irreversível. Ele insistiu que «a irreversibilidade do processo entrópico não é uma manifestação do acaso» (pág. 169). Este ataque infundamentado a Boltzmann é o ponto central da argumentação de Georgescu-Roegen, porque se admitirmos a formulação de Boltzmann cai o pressuposto das limitações naturais ao crescimento económico.

5.

A tal ponto Georgescu-Roegen se ofuscou na defesa das concepções de Clausius que se esquivou a considerar as implicações do modelo formulado por Schrödinger, em que um organismo vivo pode compensar a sua degradação entrópica e inverter o percurso, extraindo entropia negativa do meio que o rodeia. Ora, esta tese de Schrödinger só faz sentido no quadro estatístico avançado por Boltzmann, e aliás Georgescu-Roegen reconheceu que o seu gérmen se encontrava já na obra de Boltzmann (pág. 192 n. 79). Como aceitar então o modelo de Schrödinger sem admitir que ele confirme a visão probabilística da entropia? «Não há», escreveu Georgescu-Roegen, «nada de errado em dizer que a vida se caracteriza pela luta contra a degradação entrópica da simples matéria. Mas seria um erro grave interpretar esta afirmação no sentido de que a vida possa evitar a degradação de todo o sistema, incluindo o meio que a rodeia. Com ou sem a vida, a entropia da globalidade do sistema tem de aumentar» (pág. 192).

Voltamos assim às «ilhas do universo» a que Bronowski se referia, onde é estatisticamente possível a diminuição da entropia. O grande problema da interpretação estatística — entenda-se, o grande problema para Georgescu-Roegen — é que ela exclui a irreversibilidade e a homogeneidade que deve ser postulada para que a segunda lei da termodinâmica fique posta ao serviço da teoria do decrescimento económico. Georgescu-Roegen formulou claramente a questão, ao perguntar se «o aumento da entropia é maior quando está presente a vida do que quando não o está?». E deu a resposta: «Se a presença da vida é importante, então a vida tem sem dúvida algum efeito sobre as leis da física. O nosso conhecimento comum acerca das mudanças no meio material acarretadas pela biosfera parece confirmar a ideia de que a vida acelera a degradação entrópica de todo o sistema» (págs. 193-194).

Todavia, a propósito da distinção entre stocks e fluxos, Georgescu-Roegen procedeu a uma observação que pode ser voltada contra a sua tese geral. «O âmago do problema em discussão é que um fluxo não representa necessariamente um decréscimo ou um acréscimo no stock de uma dada substância», escreveu ele, e adiantou em seguida: «O fluxo dos alimentos consumidos pela humanidade desde a sua origem não proveio de um stock existente no tempo da Criação. Numa analogia perfeitamente explicativa, o Tempo está sempre a fluir mas nunca existe enquanto stock» (pág. 223). É numa perspectiva similar que a mais-valia deve ser entendida como uma diminuição da entropia. Ao tradicional adágio dos manuais de economia de que there is no such thing as a free lunch, de que não existe nada que surja de graça, opõe-se a mais-valia, que é o free lunch motor do crescimento económico. Tal como escrevi num livro de 1991, «a mais-valia constitui, no capitalismo, a entropia negativa» (pág. 24 do pdf). Mas este tipo de objecções é afastado desde início por Georgescu-Roegen, que se restringiu à formulação clausiana da entropia. Por isso ele pretendeu que «a conhecida máxima económica de que “não se pode ter uma coisa a troco de nada” deve ser substituída por “não se pode ter nada senão a um muito maior custo em baixa entropia”» (pág. 279).

Georgescu-Roegen considerou que, «contrariamente ao que alguns entusiastas acreditam e pregam», as «vantagens da mecanização» «têm um preço». E explicou: «Só as podemos obter diminuindo mais depressa o “capital” de baixa entropia de que o nosso planeta é dotado. Este é, na verdade, o preço que pagámos e ainda pagamos não só pela mecanização da agricultura mas por qualquer progresso técnico» (pág. 303). Para que não houvesse ilusões, Georgescu-Roegen deixou claro que «até hoje, o preço do progresso tecnológico implicou uma substituição da fonte mais abundante de baixa entropia — a radiação solar — pela menos abundante — os recursos minerais do planeta» (pág. 304). E insistiu, sublinhando, que «mesmo com uma população constante e um fluxo de recursos minerais constante per capita, o dote da humanidade acabará por se esgotar se outros factores não puserem termo mais cedo ao curso da espécie humana» (pág. 296). Para Georgescu-Roegen a escassez resultaria de uma lei natural e não de uma lei social e, por conseguinte, teria de se admitir a escassez como um pressuposto absoluto. «Se o processo entrópico não fosse irreversível», escreveu ele, «a escassez dificilmente existiria na vida humana» (pág. 6).

Assim, o ponto de partida da crítica de Georgescu-Roegen à formulação boltzmanniana da entropia é que ela decorre de uma «idiossincrasia» humana (pág. 7), da «nossa relutância a reconhecer os nossos limites relativamente ao espaço, ao tempo e à matéria e energia» (pág. 6). Não padecendo desta idiossincrasia, Georgescu-Roegen partia do postulado da escassez, que era para ele um axioma e não uma conclusão. A função ideológica e o método de raciocínio ficam desvendados logo de início. Temos aqui, na própria génese da teoria do decrescimento, o rabo de fora da sua metodologia.

Georgescu-Roegen considerou, referindo-se a Malthus, que «apesar da maneira desajeitada como se exprimiu», ele «acertou no essencial» (pág. 317). Foi uma menção infeliz, como são todas as menções semelhantes feitas pelos ecologistas e outros partidários do decrescimento económico, porque Malthus não foi só o proponente de uma teoria da limitação relativa dos recursos naturais. Georgescu-Roegen e os seus inúmeros seguidores parecem ignorar o Malthus dos Principles of Political Economy, em que a capacidade crescente de produção, incluindo a produção agrícola, é o factor determinante.

Referências

A obra de Nicholas Georgescu-Roegen a que me refiro é: The Entropy Law and the Economic Process, Cambridge Mass. e Londres: Harvard University Press, 1971. O estudo de Karl Mannheim que permite entender a relação entre o surgimento do marxismo e o desenvolvimento da filosofia conservadora alemã é: Conservatism. A Contribution to the Sociology of Knowledge, Londres e Nova Iorque: Routledge & Kegan Paul, 1986. A obra referida de Jacob Bronowski é: The Ascent of Man, Londres: The Folio Society, 2012. O meu livro publicado em 1991 é: Economia dos Conflitos Sociais (1ª ed.: São Paulo: Cortez, 1991; 2ª ed.: São Paulo: Expressão Popular, 2009).

As ilustrações deste artigo representam esculturas de luz de Dan Flavin.

A série Post-scriptum: contra a ecologia é formada pelos seguintes artigos:
1) a raiz de um debate
2) o lugar-comum dos nossos dias
3) a hostilidade à civilização urbana
4) a agroecologia e a mais-valia absoluta
5) Georgescu-Roegen e o decrescimento económico
6) Malthus, teórico do crescimento económico
7) «Os Limites do Crescimento» ou crescimento sem limites?
8) oportunidades de investimento e agravamento da exploração


Comentários 15

    • Leo Vinicius

      |

      set 27, 2013

      |

      Lembro até hoje da primeira “explicação” que tive sobre entropia, na disciplina Termodinâmica I. O professor disse simplesmente: “entropia é você chegar em casa, jogar os sapatos pra cima e pular na cama. Entropia é a flecha do tempo”. Claro que eu e meus colegas olhamos um para a cara do outro sem entender nada.
      Dos conceitos que conheci ou tive que aprender nas chamadas ciências naturais, o conceito de entropia é para mim, de longe, o mais abstrato. E é por ser abstrato que se recorre a figuras de linguagem para explica-lo.
      A argumentação do João Bernardo me lembrou comentários de um outro texto (http://passapalavra.info/2013/07/81647) em que o autor recorre a uma passagem da ópera Siegfried de Wagner, em que o personagem em vez de seguir conselhos de como ele deveria matar o dragão, o faz de uma forma muito mais simples, simplesmente enfiando-lhe a espada pela frente. Digo isso porque acho que era muito mais fácil matar o dragão, no caso o uso do conceito de entropia pelo Geogescu-Roegen (que não li), e as consequências que ele quer tirar disso.
      Não tenho nada contra o uso de conceitos das ciências naturais nas ciências humanas, e vice-versa. Existem casos em que esse intercâmbio pode ser bastante produtivo ou interessante… Porém, nunca, jamais, apesar de ser muito utilizado, encontrei um uso que não fosse pura retórica sem sentido do conceito de entropia em outro campo que não o da termodinâmica. Quando alguém ler “entropia” em qualquer livro de ciências humanas ou sociais, tenham certeza de que na melhor das hipóteses ele possui apenas o nome e a suposta alusão ao conceito da termodinâmica, e na pior das hipóteses a palavra não faz o menor sentido. Normalmente ele é levado às ciências humanas a partir das figuras de linguagem que são utilizadas para explica-lo a alunos ou aprendizes de termodinâmica, o que leva a se sustentar as maiores barbaridades no plano social. Tive um professor se sociologia/filosofia, por exemplo, que usava o conceito de entropia para insinuar que a mistura de raças ou o fim das hierarquias não era algo desejável. Bem, costuma-se dizer em termodinâmica, como figura de linguagem, que a entropia mede ou se relaciona ao grau de desordem de um sistema (quanto maior a “desordem” maior a entropia). No entanto “ordem” e “desordem” de um sistema termodinâmico são expressões puramente convencionadas, sem nenhum juízo de valor moral. Convenciona-se que “ordem” é quando moléculas de substâncias diferentes estão separadas e “desordem” quando estão misturadas, por exemplo. Já no plano social as palavras “ordem” e “desordem” possuem uma carga de valor enorme, possuem um significado carregado de investimentos. O mecanismo é simples: entropia = desordem; entropia = mistura, logo mistura = desordem; e como a gente não gosta de desordem no plano social, querem que concluamos que a mistura não é bom nem desejável.
      Bem, ouve-se não é de hoje que a “poluição” significa um aumento de entropia, e como o aumento de entropia é uma coisa ruim, porque é “desordem” ou algo do tipo, logo a “poluição” é ruim. Eu também acho poluição ruim, mas não coloquem entropia no meio porque não tem nada a ver uma coisa com outra.
      Por que se diz que a entropia é a flecha do tempo? Porque ela está ligada à irreversibilidade dos processos, e porque a entropia só aumenta. A entropia num sistema sempre aumenta. Isso é lei da termodinâmica como se conhece hoje. E a entropia vai aumentar não importa o que a gente faça ou deixe de fazer. E ela aumenta desde antes do planeta Terra existir. E não há absolutamente nenhuma relação entre aumento de entropia e mal-estar social ou humano. Seria o mesmo que dizer que a existência do tempo é algo terrível que temos que impedir ou nos livrar… Não, a nossa própria existência se dá no tempo, é parte da nossa própria condição. Da mesma forma o é a flecha do tempo.
      As ciências naturais sempre foram usadas por filósofos e cientistas sociais, ou ideólogos, para dar um caráter “científico” às suas proposições. Não é por outro motivo que barbarizam o conceito de entropia.

    • João Bernardo

      |

      set 28, 2013

      |

      Um leitor apresentou no Facebook o seguinte comentário:
      «Aconselho o João Bernardo a informar-se melhor sobre as leis da termodinâmica e a noção de entropia, em particular das diferenças (ou não diferença) entre entropia termodinâmica e entropia estatistica. De facto para quem passa a vida a zurzir nos pós-modernistas, nada melhor do que recorrer aos seus tiques para melhor os atacar… no melhor pano cai a nódoa! http://spq.pt/boletim/docs/boletimSPQ_096_038_15.pdf ».
      Este comentário parece-me confuso, porque não entendo o que a questão tem a ver com o pós-modernismo.
      Abordei a segunda lei da termodinâmica nesta série de artigos somente porque ela é invocada como justificação pelo fundador da teoria do decrescimento económico. E no decurso do artigo tive de me cingir às formulações de Georgescu-Roegen e à terminologia por ele usada — apesar de saber que não são as melhores — porque é desse autor que se trata. Penso que deixei bastante claro que o meu objectivo neste quinto artigo não é o de fundar um modelo de crescimento económico na termodinâmica estatística, mas apenas o de negar que se possa recorrer à termodinâmica clássica para fundar um modelo do decrescimento económico. Neste sentido, aliás, o texto didáctico citado por aquele leitor no Facebook é interessante quando afirma que a noção de entropia não deve aplicar-se a objectos macroscópicos que não estão em interacção e que, por conseguinte, «a desordem macroscópica não deve ser interpretada como entropia». Muito interessante é também a analogia com as distribuições possíveis do dinheiro entre os habitantes de um país. Tudo isto são mais argumentos para mostrar que a posição sustentada por Georgescu-Roegen e pelos seus seguidores actuais é indefensável.
      Para expor de maneira acessível a diferença entre as concepções de Boltzmann e as de Clausius recorri ao livro de Bronowski, em boa medida porque fiquei com a ideia de que na passagem que cito Bronowski estava a criticar directamente Georgescu-Roegen, cuja obra ele não podia deixar de conhecer, dadas as especialidades profissionais de ambos. Bronowski não citou Georgescu-Roegen, mas os argumentos dele colam-se-lhe de tal modo que fiquei com essa ideia. Aliás, é curioso verificar como subjacente a toda a reflexão de Bronowski sobre a história e a história da ciência está uma polémica com a reflexão ecológica que começava então a ser formulada de maneira sistemática.
      O meu amigo Leo Vinicius diz-me, no seu comentário, que eu não precisava de estar com todo este trabalho para atacar os defensores do decrescimento económico e que bastaria fazer como Siegfried e furar o dragão pela frente. E eu concordo com o Leo, evidentemente. Se mostrei repetidas vezes, em textos e aulas, como foi perniciosa a fórmula de Haeckel, de que «a política é biologia aplicada», e a fórmula dos nazis, de que «o nacional-socialismo não é mais do que biologia aplicada», considero não menos nocivo o lugar-comum hoje vigente, de que a política deve ser ecologia aplicada.
      O problema, Leo, é que eu não estou aqui no campo da luta prática, em que se deve matar os dragões, mas no plano da polémica teórica, em que cabe alinhar razões para os leitores que realmente leiam e queiram dar-se ao trabalho de pensar.

    • jms

      |

      set 28, 2013

      |

      O decrescimento não é opcional, ou seja, não depende de gostarmos ou não gostarmos da ideia. É simplesmente inevitável. Porque uma economia assente em crescimento exponencial, como a capitalista, não é viável nem sustentável. Não é sustentável, desde logo, por causa da sua destrutiva pressão sobre os ecossistemas, mas também porque depende decisivamente de um “bem” cada vez mais escasso: energia barata. Ora, numa época em que já quase só resta no solo petróleo caro de extrair (a 90-100 dólares o barril), o crescimento acaba, inevitavelmente, porque os altos preços da energia travam o crescimento económico, e uma economia concebida para o crescimento exponencial implode quando atinge os limites do crescimento. É o famoso e inevitável rebentamento das bolhas especulativas, de que talvez o J. Aguiar nunca tenha ouvido falar, mas que são bem reais e estão muito bem estudadas. E toda a sociedade industrial é uma gigantesca bolha especulativa na história da humanidade, uma bolha inflada pela abundância de energia fóssil. O petróleo é o sangue da sociedade industrial-tecnológica, tal como o crédito é o sangue da sociedade de consumo. E se não há crescimento torna-se impossível pagar todos os saques que, sobretudo nos últimos 30 anos, contraímos sobre (hipotéticas) riquezas futuras, já que outra coisa não é a dívida. O futuro será necessariamente mais pobre do que o passado recente. A riqueza para todos é um sonho alegre, mas fisicamente impossível. É impossível e impensável que 7 mil milhões de pessoas (and counting!) acedam ao sonho americano, vulgo american way of life.
      O capitalismo permitiu um incremento exponencial da riqueza e da complexidade das nossas sociedades. Ninguém diz que tudo foi mau, e que a civilização industrial não trouxe também benefícios. Claro que trouxe, sem a sociedade industrial não teria havido todo o avanço na ciência, nas artes e mesmo na moral, nos últimos 200 anos. Mas esses efeitos positivos foram contrabalançados, e de que maneira!, pelos negativos: exploração do homem pelo homem, colonialismo, explosão demográfica, exaustão dos recursos, destruição dos ecossistemas, alterações climáticas, etc. Pode-se dizer que foi bom enquanto durou, mas agora acabou a festa. Paciência. Portanto, o decrescimento é a ideia política mais sensata que existe, é a nossa única saída. Se não decrescermos a bem (redistribuindo sensatamente os recurso globais de forma igualitária), vamos decrescer a mal (ou seja, numa guerra de todos contra todos pelas migalhas disponíveis).

    • João Bernardo

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      set 28, 2013

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      Acerca do comentário anterior, e para que os leitores apreciem a qualidade intelectual do seu autor, convém conhecer dois comentários. Num comentário colocado aqui http://passapalavra.info/2012/01/50861 em 22 de Maio de 2012, às 04h54, JMS escreveu:

      «Lamento, JB, mas não são os ecologistas que são fascistas, é a própria natureza».

      Num comentário colocado aqui http://passapalavra.info/2012/06/60646 em 10 de Julho de 2012, às 19h01, eu escrevi:

      «Em comentários colocados no Passa Palavra JMS chamou a João Bernardo “lunático”, “ignorante”, desprovido de “curiosidade científica”, caracterizado por “um deficit gritante de conhecimentos científicos”, “pretenso analista económico”, partidário do “tecno-fetichismo”, defensor de “uma doxa baseada em preconceitos cristalizados”, alguém que “representa admiravelmente a esquerda tradicional”, cujas “análises da realidade política e social parecem feitas através do binóculo economicista/sociologista”, alguém que quer “continuar a sentir-se uma pessoa influente”, partidário das “ideias hegelianas” e “cartesiano”. Num comentário colocado no Vias de Facto (http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2525053614363345408&postID=8655611561434351264 ) JMS afirma: “Eu não conheço a obra de JB, com a excepção de alguns textos esparsos […]”».

      As noções sociais do personagem e a sua noção de probidade intelectual ficam aqui documentadas. De resto, o leitor que quiser informar-se mais extensamente pode consultar os comentários que JMS colocou nos meus artigos de crítica à ecologia. Para encontrar esses artigos basta pesquisar JMS no mecanismo de busca localizado no cimo da coluna da direita.
      Enquanto comentador, JMS é uma dádiva dos Céus, porque ilustra tudo aquilo que eu pretendo mostrar como mais nocivo entre os defensores da ecologia.

    • |

      set 29, 2013

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      Resposta a João Aguiar no blogue Vias de Facto, na qual, e não por acaso, se responde a algumas das acusações e insinuações feitas por J. Bernardo no post acima. E gostaria de recordar, talvez para que se aprecie devidamente a “qualidade intelectual” e moral do autor, que JB NUNCA tentou refutar ou sequer contestar a nenhuma das inúmeras objecções que eu coloquei às suas curiosas ideias sobre ciência em geral e ecologia em particular, e que ainda agora no seu comentário prefira chamar a atenção para o anedótico duns insultozinhos inocentes e não para os FACTOS que eu propus à sua reflexão. Não compreendo como é que alguém intelectualmente tão superior e tão mais de esquerda do que eu não consegue, aparentemente, argumentar com mais do que o conhecido impostor e pró-capitalista Lomborg. Mas há coisas em certa “esquerda” que eu já desisti de tentar compreender. (Ou talvez compreenda bem demais…)

      João Aguiar,
      Lamento, mas você não está a perceber nada. Aquilo a que chama “previsões sem qualquer sentido” são simplesmente os factos da geologia e da física. Devo concluir que o J. Aguiar acredita que as alterações climáticas, a acidificação dos oceanos, a extinção de espécies, a perda de biodiversidade, o pico petrolífero, a sobrepopulação, etc. não são problemas reais? Será então tudo uma conspiração da comunidade científica, a soldo dos verdes? Será que o pico petrolífero que ocorreu nas explorações petrolíferas dos EUA (1970), do RU (2006), da Indonésia (1997), da Síria (1995) ou do Egipto (1997) entre outros, é uma mentira? Se é uma mentira, apetece perguntar, porque é que não está em grandes parangonas na comunicação social? E se é verdade, como afirmam os geólogos, não será um bocadito provável que o mesmo aconteça mais tarde ou mais cedo na Arábia Saudita ou na Rússia?
      E não será verdade que o petróleo é cada vez mais caro, porque a maior parte daquele que era fácil (barato) de extrair já se extraiu? Porque é as petrolíferas andarão a investir balúrdios de milhões em perfurações de alto mar ou em lugares cada vez mais inóspitos como a Sibéria e o norte do Alasca – pior, porque é que se anda a explorar o pseudo-petróleo das areias betuminosas do Canadá, cuja viabilidade económica só se justifica com preços de 80-90 dólares o barril, se há, supostamente, petróleo barato aos pontapés? Será só para disfarçar? Melhor, será uma conspiração dos magnatas do petróleo e da finança (vulgo New World Order) para implementar a austeridade a nível global? Oh!
      Eu sei que para um marxista tradicional a energia nem sequer conta como factor de produção (porque de facto era quase irrelevante no tempo do profeta), mas será mentira que os combustíveis fósseis são um recurso finito, e que o mais importante deles – o petróleo – custa hoje cinco vezes mais do que em 2001? E esta subida de preço não terá provocado um choquezito na economia global? Eu diria que sim, e que a famigerada austeridade, pelo menos para países totalmente dependentes de importações de petróleo como Portugal, Espanha, Grécia, etc. é INFELIZMENTE inevitável. Se eu concordo com ESTA austeridade, que nos é imposta pela banca internacional em seu favor? É ÓBVIO que não concordo. O que defendo, já agora, é que a austeridade deve começar pelos de cima e ser gerida em função dos interesses da maioria, e que isso só se pode fazer tendo como base um programa político de decrescimento sustentado. O que a maioria não pode, porém, é continuar a acreditar no sonho capitalista do consumismo, porque esse sonho se transformou num pesadelo destrutivo.
      Aquilo da natureza ser fascista era uma ironia metafórica, mas o seu colega Bernardo fez-me compreender que é contraproducente usar de ironia e metáforas em discussões com cabeçorras tão apegadas a compêndios de sociologia. Mas eu explico: tal como um regime fascista se apoia na coação da liberdade geral, também a natureza impõe restrições ao geral das espécies. Tal como elefantes não podem voar, nem os peixes cantar ópera, a liberdade humana está SEMPRE condicionada pelas leis da natureza, essa fascista de merda (percebeu agora?). Eu compreendo que certas disposições da natureza (doença, finitude, entropia, acessos de mau génio, etc.) sejam um pouco chocantes, mas dou-lhe aqui a minha palavra de honra de que não fui eu quem as escreveu, nem qualquer ecologista que eu conheça. Por outras palavras, por muito injustas e cruéis que as leis da natureza pareçam aos elefantes e aos homens, isso não altera em nada a sua força e a sua inevitabilidade.
      Quanto ao genocídio (o termo técnico é extinção), tem piada que você fale nisso, porque esse é precisamente o locus horrendus para onde a nossa e muitas outras espécies tendem a passos largos, se a humanidade não perceber que a tentativa (de resto, condenada ao fracasso) de manter em funções a nossa economia de crescimento está a matar o planeta Terra. Vou repetir em câmara lenta, porque a ideia tem a sua importância. Está. A. Matar. O. Planeta. Terra. Você talvez prefira não acreditar nisso. Mas eu confesso que ainda não percebi ao certo o que é que você defende ou em que é que acredita e por quê. A única coisa que eu vejo, mas pode ser dos meus óculos, na “esquerda” que o J. Aguiar e o J. Bernardo representam é um desprezo absurdo pela ciência e uma tremenda confusão ideológica e moral.

    • Leo Vinicius

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      set 29, 2013

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      JMS escreveu:
      “O que defendo, já agora, é que a austeridade deve começar pelos de cima e ser gerida em função dos interesses da maioria, e que isso só se pode fazer tendo como base um programa político de decrescimento sustentado. O que a maioria não pode, porém, é continuar a acreditar no sonho capitalista do consumismo, porque esse sonho se transformou num pesadelo destrutivo.”

      Você quer trocar então “o sonho capitalista do consumismo”, pelo sonho capitalista do “descrescimento sustentado”.

      Não estou habilitado a dizer se o capitalismo é compatível com descrescimento programado, mas posso dizer que o ‘consumismo’ não é um sonho, mas uma consequência de relações de produção, ou melhor, de um sistema de produção (capitalista). Sendo assim acho bem estranho – sem discutir se o apocalipse ainda está por vir ou se nos acostumamos a ele – tratar o ‘consumismo’ como um sonho e não algo determinado pelas relações de produção, como se fosse questão de impor uma moral, uma pedagogia, criar uma consciência.

    • JMS

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      set 29, 2013

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      Leo Vinicius,

      Se não se importa, indique-me em que parte do meu comentário é que encontrou fundamento para afirmar que “Você quer trocar então “o sonho capitalista do consumismo”, pelo sonho capitalista do “descrescimento sustentado”.

      O capitalismo não é compatível com o decrescimento, pois baseia-se na emissão de dívida. Outros sistemas sócio-económicos de dominação são compatíveis com o decrescimento ou com uma economia de estado estacionário. Por exemplo, o feudalismo. Mas o capitalismo não. E espero é que a minha alusão à economia medieval não me valha agora o apodo de feudalista!

    • Leo Vinicius

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      set 29, 2013

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      JMS,

      quando você diz que a “austeridade deve começar pelos de cima e ser gerida em função dos interesses da maioria” qual outra conclusão se pode tirar? Havendo ainda os de cima e os de baixo, se não é capitalismo, certamente é alguma formação com existência de classes. E mais, a própria idéia de “austeridade” pressupõe mecanismos de repressão e controle do “consumo”, e portanto a lógica do consumo (no sentido baudrillardiano da expressão), produto de um sistema de produção baseado em certas relações de produção, continuaria a existir. Portanto, o sonho capitalista do descrescimento sustentado está implícito na sua argumentação.

    • JMS

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      set 29, 2013

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      Leo Vinicius,

      OK, admito que a minha formulação é suficientemente ambígua para permitir essa interpretação. Entre outras. Porque o facto é que a existência de classes não é exclusiva do sistema de dominação capitalista. Em todo o caso, esse ponto parece-me acessório. O ponto principal, para mim, é a inevitabilidade do decrescimento nos países da OCDE, e o modo como esse decrescimento se fará, se democraticamente e de forma justa e equilibrada, ou se de forma caótica e autoritária. A minha preferência vai, como é óbvio, para a primeira via. Infelizmente, não acredito que a transição para a sustentabilidade se vá processar com a suavidade desejada, se até a esquerda supostamente anti-capitalista (e que devia ser o aliado natural da ecologia) prefere ignorar os dados das ciências e projectar no futuro as fantasias material-positivistas do passado, ou aquilo a que alguns chamam a “religião civil do progresso”.
      Portanto, e só para clarificar posições, eu não acredito que as propostas dos decrescimentistas tenham qualquer viabilidade. Considero-as positivas, mas não acredito (por razões que levaria demasiado tempo a explicar) que elas algum dia recolham a aprovação de um número significativo de cidadãos. Neste aspecto, os inimigos do decrescimento podem ficar descansados. Só que, ao contrário do que eles julgam, isso não é uma boa notícia.
      Só para que não haja dúvidas, aquilo em que eu acredito, com base nos dados da biologia, da geologia, da climatologia, etc., é que o planeta Terra está a caminho da sexta mega-extinção, muito provavelmente ainda no decurso deste século. O que, suponho, me qualifica mais como catastrofista (doomer em inglês) do que como ambientalista do género a-salvação-está-nas-energias-renováveis. Porque na verdade o ambientalismo é mais uma variedade de wishful thinking, e a ingenuidade deles é quase tão grande como a dos defensores do business as usual da sociedade industrial.

    • Renato

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      out 4, 2013

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      João Bernardo, acompanho muito dos seus textos e e tenho grande afinidade com o marxismo heterodoxo. Gostaria de saber se o senhor conhece o chamado Projeto Vênus, que vem de um projeto de engenharia social de Jacque Fresco. Se conhece, o acha a respeito.
      uma visão superficial do assim chamado Projeto Vênus:
      http://youtu.be/KphWsnhZ4Ag

      Me parece uma visão bem século XX de uma sociedade planificada, mas com os assuntos na moda do século XXI. Como estamos num período terrível de refluxo e contrarrevolução pensar em utopias torna-se urgente.

      Muitas outras informações no sítio de internet.

    • João Bernardo

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      out 4, 2013

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      Renato,
      É a primeira vez que ouço falar desse projecto e de Jacque Fresco, e para lhe dar uma opinião fundamentada teria de os estudar atentamente, o que não tenho tempo de fazer agora. Para mais, seria necessário entendê-los no contexto das utopias sociais geradas nos Estados Unidos, sobretudo na Califórnia, a partir da década de 1960 e das utopias tecnológicas. O problema é que nós temos vivido entre utopias que na prática se revelam como distopias.

    • ST

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      out 20, 2013

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      Tentarei uma síntese difícil das difíceis questões que este outro texto de João Bernardo e respostas dos comentaristas me suscitaram. Não consigo deixar de encontrar argumentos aceitáveis de ambos os lados, apesar de uma total “desidentificação” com sistema capitalista, fascista e comunista. Como proceder em relação às profundas modificações recentes do planeta (que muito pouco sabemos sobre elas e menos ainda sobre o futuro)? Por outro lado, a natureza não é fascista, nem comunista, nem capitalista, não é uma fonte de recursos, nem é um deus castigador. É um sistema complexo e limitado, tal como Homem. Mas tem uma enorme capacidade de transformação, tal como o Homem. Não faz sentido empobrecer, mas também não fazem sentido os I’pods, na minha opinião. Confesso-me perdida perante um texto de qualidade extraordinária, que revela uma enorme pesquisa, e também dos comentadores que se lhe opõem. Poderá ajudar-me, pelo menos no que diga respeita à possibilidade de um sistema que integre a natureza nas suas estruturas ou processos? obrigada

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      jul 13, 2014

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      Sensacional, temos agora gente que acredita em leis da física que permitirão criarmos novo planeta se quisermos, enquanto afundamos numa crise gigantesca com extinção acelerada da vida, essa crença não vai nos ajudar muito… mesmo que fosse verdadeira…

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      mar 8, 2017

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      Texto (e série) seminal, e também os comentários, muito interessantes. Talvez interesse a vocês esse outro texto que trata basicamente das mesmas questões (ideologia da escassez, entropia, recompensas e punições, ecologia, economia, fetichismo da mercadoria, teodiceia, auto-sacrifício etc):

      DISSECANDO A METAFÍSICA DA ESCASSEZ [link: https://goo.gl/WlAko3%5D
      “Anteriormente [em https://goo.gl/aXk4oy%5D, criticamos a ideologia da escassez do ponto de vista da transformação da vida cotidiana [1], ou seja, na perspectiva concreta da práxis social-histórica; no entanto, alguns acreditam que, independentemente disso, a escassez continuaria válida como característica inerente ao tempo e ao espaço, como fundamento metafísico (geralmente usam o conceito termodinâmico de “entropia” para fundamentar essa ideia). Com isso, alguns supõem que, nesse universo entrópico, cada ser específico se pauta pela competição recíproca pela escasso, e, consequentemente, também os seres humanos e as sociedades, o que faria a forma social que a escassez toma, a propriedade privada (e, portanto, a sociedade de classes, o trabalho, o Estado e o capital), ter um fundamento eterno, cósmico e imutável. Neste texto, procuraremos criticar essa metafísica de um ponto de vista especificamente filosófico. […]” O resto do texto: https://goo.gl/WlAko3

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