O que aprendi sobre Marx trabalhando em uma empresa transnacional

O que aprendi sobre Marx trabalhando em uma empresa transnacional

em 26 mar

Ao final do dia foram oito horas apertando teclas e falando ao telefone. Serei um trabalhador improdutivo? Por Trabalhador do setor de serviços

Recentemente tive a interessante experiência de conseguir um trabalho em uma consultora de gestão ao mesmo tempo em que iniciava um grupo de leitura do O Capital. Tentarei expor aqui o resultado desta vida dupla e como uma experiência me ajudou a entender a outra.

Quando escutamos “consultoria de gestão” e “empresa transnacional” talvez a primeira imagem que venha à mente seja a de executivos apertando mãos em escritórios. Isso está bem próximo da realidade, mas existe muito mais. Como antes de começar a trabalhar em qualquer corporação, o primeiro que se faz é assinar um sem fim de papéis sobre confidencialidade; mesmo anônimo prefiro não dar demasiados detalhes sobre a empresa específica onde trabalho nem sobre a outra empresa que nos subcontratava.

Descreveria a minha função da seguinte forma: suporte de sistemas da área de RH [Recursos Humanos] para uma indústria farmacêutica. Isso quer dizer que eu sou empregado de uma “consultora de gestão”, trabalhando como terceirizado para uma grande empresa do ramo farmacêutico. Para dar uma ideia do que estou falando, a consultora tinha um total de quase 400 mil trabalhadores ao redor do mundo em 2016, e a farmacêutica, aproximadamente 70 mil em 2015 — é uma das maiores no mundo. Mas como é possível que uma “consultora” tenha tantos empregados? Oras, a parte da empresa que faz o trabalho fino e técnico de consultoria é uma pequena fração de pessoas muito especializadas, que analisam a gestão do trabalho da empresa cliente e oferecem um projeto de reforma segundo critérios científicos de produtividades: eliminação de tempos mortos de trabalho, custos desnecessários, corte de mão de obra excedente, reorganização dos processos etc. Agora, a consultora na qual trabalho joga num mercado específico e muito dinâmico, que é o da tecnologia: se trata de uma consultora do setor tecnológico — não apenas por realizar trabalhos de consultoria também para o setor de empresas “tech”, mas também por utilizar e dominar a automatização e digitalização nos projetos de gestão. É aí que eu apareço. A consultora oferece à farmacêutica reduzir os gastos com pessoal em seu RH por meio da introdução de diversos sistemas informáticos (digitais? Acho que fica melhor do que informatizados) que permitem o “autosserviço” de operações dos gerentes para facilitar e dinamizar os processos seletivos, para atualizar automaticamente todos os dados de qualquer funcionário no mundo inteiro, etc. Um pouco a respeito pode ser lido aqui. Desta forma, a consultora não apenas oferece o projeto de gestão, mas também assina contratos para executar, com trabalhadores próprios, os setores reformulados com digitalização.

Mas a consultora na qual trabalho em realidade tem um passado um pouco obscuro e teve participação num famoso escândalo contábil nos EUA envolvendo uma grande empresa de energia. Neste momento, a consultora estava mais ligada ao setor de contabilidade e auditoria — mas logo mudou de nome e criou uma nova identidade. A parte de contabilidade continua tendo grande peso nas operações que realiza, mas ampliou-se para os diversos setores do chamado Back Office. Basicamente, são todas as atividades de uma empresa que não estão diretamente relacionadas com seu ramo de especialização, entre elas contabilidade, cobranças, sistemas, logística etc. Algumas são mais delicadas e devem ser mantidas mais “próximas” à gestão, como o jurídico ou o RH — outras, como sistemas, são rapidamente transferidas para países onde o salário seja mais baixo em dólares, principalmente a Índia.

A conta da empresa farmacêutica com a consultora está dividida em quatro serviços diferentes: os dois primeiros são referentes à área de pesquisa clínica — sistematização digital dos dados a nível global e o sistema estatístico de análise; o terceiro serviço é de marketing digital, referente a criação de conteúdo e estratégia; e o último é onde estou, a reorganização e digitalização dos processos de Recursos Humanos, com os grupos de suporte aos usuários por idioma.

Quanto ao grupo de leitura, apenas digo que se trata de um grupo de pessoas que se juntam para ler O Capital do começo até onde der. Todos os anos é criado um grupo novo que começa do zero, o primeiro foi em 1998, e alguns grupos antigos ainda existem e seguem avançando na obra. De qualquer forma, o mais interessante mesmo é o livro. Então irei agora fazer um pequeno percurso por alguns dos primeiros 14 capítulos (que é onde chegamos até agora), relacionando certos temas do livro com aspectos do meu trabalho. Desejo poder assim ajudar algum leitor iniciante como eu a entender o livro, e também colaborando para que nós da crescente classe trabalhadora do setor dos serviços possamos entender o papel central que nosso trabalho cumpre no atual estágio da economia capitalista.

Mercadoria: força de trabalho

Os três primeiros capítulos do O Capital são bastante conceituais e alguns autores recomendam saltá-los para uma leitura posterior. São tematizados a mercadoria, a troca e o dinheiro.

Sobre a mercadoria vamos tomar um ponto central da teoria de Marx: a de que a força de trabalho seria uma mercadoria — de fato, a única que o trabalhador livre possuiu (por trabalhador livre entende-se um indivíduo que disponha de sua própria força de trabalho para a venda, à diferença de um escravo ou um servo, e também livre por não dispor de um meio de produção próprio no qual aplicar sua força de trabalho, à diferença dos camponeses -— ver Capítulo IV.3). É uma mercadoria especial, segundo Marx, pois é a única capaz de produzir valor — e aqui jaz um ponto importante a respeito da mercadoria, apontado logo no Capítulo I: esta expressa em si mesma o caráter duplo do trabalho.

Tal como os valores de uso casaco e tecido de linho são combinações de actividades produtivas com pano e fio, com um fim determinado, e os valores casaco e tecido de linho, em contrapartida, são meras gelatinas de trabalho de igual espécie, assim também os trabalhos contidos nesses valores não contam pelo seu comportamento produtivo em relação ao pano e ao fio, mas apenas como dispêndios de força de trabalho humana. Costura e tecelagem são elementos de formação dos valores de uso casaco e tecido de linho precisamente pelas suas qualidades diversas; só são substância do valor casaco e do valor tecido de linho na medida em que se abstrair da sua qualidade particular e possuírem ambas qualidade igual, a qualidade de trabalho humano. (sublinhados meus, Capítulo I.2)

Nos parágrafos de abertura da obra, Marx começa a definir a mercadoria como um “objeto exterior” que satisfaz uma necessidade humana — necessidades estas que podem ter sua origem tanto no estômago quanto na fantasia. Assim, o casaco da citação tem seu valor de uso no fato de que protege contra o frio, ressalta o indivíduo pelo código de vestimentas (segundo a marca ou o estilo, etc). Por outro lado o casaco expressa um outro tipo de valor, que é o valor de troca: todas as mercadorias estão relacionadas entre si a partir de um valor de troca (1 galinha por 3 casacos, 1 casaco por 10 bananas, etc), a partir daquilo que Marx chama de “magnitude de valor”, ou seja, o tempo de trabalho gasto na produção de uma dada mercadoria. Assim, todas as mercadorias são, por um lado, um valor de uso, por outro, são “gelatinas de trabalho humano”, ou seja, absorvem uma tal quantidade de trabalho humano[1].

Pois bem, sei que minhas oito horas diárias são pagas, ou seja, têm valor de troca, e constituem uma “magnitude de valor” na medida em que são horas de trabalho humano, mas… que tipo de valor de uso terá, se eu não produzo nenhuma mercadoria material que por sua vez satisfaça uma necessidade qualquer como uma bota ou um casaco?

Para minha função e de meus companheiros de trabalho tivemos mais de um mês de treinamento e ainda um exame da capacitação feita para garantir que não cometêssemos erros graves nos sistemas. Nosso dia de trabalho pode ser descrito como: estar conectado à linha para receber ligações a qualquer momento, responder e-mails com dúvidas a respeito dos procedimentos e sistemas de Recursos Humanos da empresa, realizar procedimentos básicos nos sistemas em nome dos gerentes — ou dar suporte para eles o fazerem, processar dados e obter relatórios periódicos do sistema, contactar diferentes grupos (especialmente de TI [Tecnologia da Informação]) para resolver problemas dos funcionários, além de registrar cada uma destas ações para os processos internos e externos de auditoria e de gestão do trabalho. Ao final do dia não produzi nenhum parafuso ou metal fundido, nada palpável, foram oito horas apertando teclas e falando ao telefone. Serei um trabalhador improdutivo, um trabalhador que não produz valor?

Aprofundarei isso ao decorrer do texto, mas começo a elaborar minha hipótese dizendo que neste setor de serviços, o valor de uso do trabalho está intimamente vinculado com o conceito de Back Office que foi mencionado na introdução. Toda empresa, seja do setor primário, secundário ou terciário, necessita de uma magnitude dada de trabalho que não está direcionada à atividade produtiva específica da empresa. Hoje em dia os serviços terceirizados que mais saltam aos olhos de qualquer observador são os serviços de limpeza e de segurança privada, que usam uniforme próprio das empresas terceirizada — isso é visível em grandes empresas, em lugares como shopping centers, universidades públicas e privadas, e até nos edifícios estatais. Esse é o nível dos trabalhadores não especializados. Num segundo nível estão os escritórios de contabilidade, jurídicos etc, como mencionamos antes, que podem ser terceirizados pelas empresas mas que sempre necessitam de uma relação “íntima” entre cliente e prestador devido à sigilosidade e importância dos dados. Assim, o valor de uso do meu trabalho é basicamente substituir trabalhos “secundários” necessários em uma grande empresa produtiva, mas ao invés de fazê-lo exatamente como era feito antes, a partir das inovações propostas pela consultora passo então a prover o suporte a um sistema que, este sim, substitui muitas horas de trabalho humano, ao centralizar informações do globo inteiro e acabar com o suporte de papel e sua logística particular.

Em síntese, são duas as funções primordiais: realizar ações a pedido de funcionários, e instruir principalmente os gerentes sobre como devem realizar o processo no sistema. Um dos motivos pelos quais esse trabalho se faz necessário é a rotatividade dos gerentes e trabalhadores, que sempre devem adaptar-se a aprender as regras e procedimentos corporativos. Como alguns procedimentos simples devem ser feitos tanto pelos executivos como por meros gerentes comerciais, a empresa preocupa-se de que os executivos não percam 2 horas de seu dia de trabalho preenchendo um formulário de RH devido ao desconhecimento de uma regra do sistema ou coisa banal do tipo. Voltaremos a isso mais adiante, pois é algo central.

Dinheiro

No capítulo III, Marx trabalha o conceito de dinheiro. É um tema bastante complexo e aqui apenas vamos aproveitar a deixa para tocar numa questão relativa ao salário. A organização dos trabalhadores na empresa é quase nula, não fosse por dois delegados sindicais provisórios — situação essa reconhecida quando a empresa ainda não conta com uma comissão formada por delegados eleitos. De fato, há um problema com a direção do sindicato e os poucos ativistas da empresa, de forma que o sindicato se recusa a permitir eleições de delegados na empresa. De todas formas, uma das metodologias básicas usadas para começar a agitar os trabalhadores é por meio das redes sociais, onde os delegados criam posts abordando diferentes problemáticas relativas à empresa, como a existência dos terceirizados (“quarteirizados” em realidade), falta de promoções, comparação salarial etc. Em um destes posts abordou-se a questão dos “benefícios” dados pela empresa (plano de saúde especial, academia grátis, reintegração de gastos com internet até certo limite, entre um par mais), em especial um cartão de “vale-almoço” que estaria limitado a alguns comércios da região, e que ao não ser usado não se acumulava. Iniciou-se um debate nos comentários, onde os perfis defensores da empresa (gerentes? RH? lambe-sacos?) censuravam as críticas feitas dizendo que se tratava apenas de um benefício, e que as regras estavam bem claras e os trabalhadores deveriam usar estes benefícios de acordo com as regras, pois do contrário a empresa poderia retirá-los.

Oras, é claro que interessa à empresa diferenciar “benefício” de “salário”, pois dá a impressão de que a empresa é bondosa, “vai além” do que está obrigada a dar. Mas o importante para os trabalhadores é perceber que tudo o que recebem em troca das suas horas de trabalho é salário. O que vemos a empresa fazer aqui é pagar parte do salário em dinheiro (por meio do depósito bancário), e parte em mercadorias. Isso é beneficioso à empresa primeiro porque nem todos os trabalhadores chegam de fato a usufruir das “gratuidades”, mas também porque o preço pago pelo acordo da empresa com a prestadora de serviços (plano de saúde, academia, etc) é mais baixo do que o que seria pago pela soma de todos os trabalhadores individualmente. Também são todos “benefícios” que garantem a produtividade dos trabalhadores — seja em questões de saúde/presentismo, seja para possibilitar uma jornada de trabalho feita em casa.

Valor da Força de Trabalho

No capítulo IV encontramos a famosa fórmula geral do capital: D—M—D’. Na medida em que Marx vai explicando esse processo no qual o dinheiro (D) primeiro se transforma em mercadoria (M), para depois tornar-se novamente dinheiro mas com um acréscimo de magnitude (D’) (diferente do artesão que produz uma mercadoria M¹, vende por dinheiro D, para obter uma mercadoria outra que não pode ele mesmo produzir, M²: M¹—D—M²), na sua argumentação aparece a importância central que têm tanto a circulação das mercadorias quanto a forma dinheiro como equivalente geral. Essas são condições necessárias para que o dinheiro funcione como capital, ou seja, valor que se autovaloriza, um D que pode misteriosamente transformar-se em D’. Mas se a circulação é central neste processo, não o é por ser um momento de “engano”, de extrair lucro de uma operação comercial que seja pejorativa para um dos lados na mesma medida em que lucrativa para o outro.

Respeitando as leis de equivalência da compra e venda, o capitalista consegue extrair mais-valia, e o faz necessariamente na circulação de mercadorias, mas também necessariamente fora dela. Marx assim direciona a questão para abordar o âmbito da produção, o outro polo necessário para a existência da mais-valia, e o subcapítulo IV.3 fala justamente da “Compra e venda da força de trabalho”. Define-se força de trabalho: o complexo das capacidades físicas e espirituais que existem na corporalidade, na personalidade viva de um ser humano, e que ele põe em movimento sempre que produz valores de uso de qualquer espécie. (Capítulo IV.3) Depois de apresentar alguns condicionamentos históricos sobre o surgimento dos trabalhadores livres, chegamos a um esforço por calcular o valor da força de trabalho, isto é, “valor de uma determinada soma de meios de vida” do proprietário desta força de trabalho.

Pois bem, os meios de vida mais óbvios seriam a alimentação, transporte, habitação, vestimenta. Mas Marx chama a atenção para as necessidades dos capitais de terem trabalhadores mais capacitados:

Para modificar a natureza humana em geral, para que ela atinga destreza e prontidão num determinado ramo de trabalho, e se torne força de trabalho desenvolvida e específica, é preciso uma determinada formação ou instrução que, por seu lado, custa uma soma maior ou menor de equivalentes de mercadorias. Segundo o carácter mais ou menos mediado da força de trabalho, são também diversos os seus custos de formação. Os custos de aprendizagem, extremamente pequenos para a força de trabalho habitual, entram pois no âmbito dos valores despendidos para a sua produção. (Capítulo IV.3)

Qual é a formação que exige meu trabalho e que comporia o valor da minha força de trabalho? Meus companheiros em sua maioria são estudantes de diferentes áreas, não é exigida nenhuma formação ou estudos de ensino superior particular. O que, sim, é exigido é o domínio de ao menos dois idiomas, na maioria dos casos três, além de uma mínima capacidade de uso da informática, que para qualquer pessoa com menos de 35 anos já é parte incorporada da vida. Dando-me novas liberdades para avançar outra hipótese, eu diria que esse perfil é o padrão global de uma nova geração de proletários semi-qualificados; para os quais, em maior ou menor medida, o domínio de idiomas e da informática determinam o grau de empregabilidade em um vasto setor de serviços essencialmente regionalizados. Hoje a Índia consegue oferecer uma mão-de-obra tão grande para o setor de tecnologia não apenas pela formação técnica, mas pelo fato do inglês ser um idioma forte no país, como herança colonial. Por isso as empresas, como a consultora onde trabalho, necessariamente tem de adotar uma estratégia regionalizada para a mão-de-obra deste tipo, devido à predominância de certos idiomas em cada parte do mundo. Assim, nem todos os postos de trabalho de serviços podem ser passados à Índia, como diz o discurso “amedrontador” dos gerentes e empresários antissindicais, pois por mais que pagar um indiano seja barato, um indiano que fale português e espanhol, além de inglês e seu idioma natal, tem outro preço.

Mais-valia absoluta e capital constante

E já que estamos falando de Índia, em uma apresentação aos trabalhadores iniciantes na empresa, ouvi de parte da coordenadora uma formulação marxista bem clara. Como boa empresa que quer que seus trabalhadores se sintam mais como pequenos empresários e executivos em potência, ela nos recomendava fazer muito “networking”, conhecer o máximo número de pessoas possíveis, fazer contato com gente de todo o mundo para conhecer outras realidades. O exemplo dado foi uma conversa dela com um coordenador na Índia. Ele perguntou a ela como era o trabalho em nossa sede, ela responde mencionando os horários de trabalho. O quê? Vocês não trabalham à noite?, indagou o indiano. Não, oras, à noite dormimos. Então vocês ficam com o edifício inteiro vazio por horas à fio? … sim! E qual é a taxa de uso dos postos físicos de trabalho? … um por trabalhador. Uau! Aqui temos por volta de 1.8! [1.8 trabalhadores por cadeira, em diferentes horários do dia, claro].

Na teoria de Marx, o valor é produzido pelo tempo de trabalho aplicado na mercadoria, mas é importante notar que “apenas o tempo de trabalho socialmente necessário conta como formador de valor” (Capítulo V), isto é, apenas o trabalho requerido em média por todos os produtores para realizar tal valor de uso é que conta como formador de valor (um trabalhador preguiçoso não produz mais valor por produzir casacos de forma mais lenta que a média de seus companheiros). Pois bem, a mais-valia absoluta é caracterizada por Marx como a prolongação da jornada de trabalho a fim de aproveitar ao máximo o tempo do trabalho no qual o trabalhador produz um valor que excede a manutenção de sua força de trabalho, ou seja, o valor de sua força de trabalho, comprada pelo capitalista. Somando-se isso ao fato de que o capitalista paga pelos meios de produção necessários para o trabalho, como o aluguel dos escritórios, os computadores, a limpeza, etc, o que Marx viu desde os primeiros anos do capitalismo é o impulso dos capitalistas em utilizar ao máximo estes meios de produção, chamados de Capital Constante, para permitir a máxima extração da mais-valia. Na Inglaterra industrial do século XIX isso queria dizer fábricas operando 24h, pois em alguns ramos ainda havia o gasto extra de energia e tempo para voltar a esquentar as caldeiras, interromper as máquinas que necessitam estar sincronizadas, etc. Inclusive para a manutenção das máquinas havia capitalistas que obrigavam seus trabalhadores a limpá-las enquanto estas seguiam em movimento. Talvez o grau de crueldade tenha diminuído, mas a lógica do capital persiste, e lá onde a produtividade não é muito alta a estratégia segue sendo a de colocar os Capitais Constantes em produção o máximo de tempo possível, e é por este motivo que na sede da consultora na Índia o escritório aparentemente trabalha com horários muito mais estendidos.

Mais-valia relativa

A definição de mais-valia relativa, em comparação com a absoluta, está no começo do Capítulo X: A mais-valia produzida através do prolongamento do dia de trabalho chamo eu mais-valia absoluta; pelo contrário, à mais-valia que resulta do encurtamento do tempo de trabalho necessário e de correspondente modificação na relação de magnitude de ambas as partes componentes do dia de trabalho — mais-valia relativa. As partes componentes do dia de trabalho são o tempo de “trabalho necessário”, referente ao tempo trabalhado que reproduz o valor a força de trabalho, e o tempo de trabalho excedente, que produz um valor que então é apropriado pelo capitalista. A forma gráfica encontrada por Marx para exemplificar essa composição aparece no capítulo VIII, é mais ou menos assim: a______b__c. O trecho AC representa o total de horas trabalhadas em um dia, AB seria o trabalho necessário e BC seria o trabalho excedente apropriado (ou “mais-trabalho”).

Na mais-valia absoluta aumenta-se o trecho AC, e como a reprodução da força de trabalho se mantém a mesma (custos de residência, vestimenta, roupas, etc), todo o aumento ocorre no trecho BC, já que AB se mantém igual: a______b_______c. Aumentando BC, aumenta-se a proporção da jornada de trabalho dedicada à produção de “mais-trabalho”, valor apropriado pelo capitalista. Em outras palavras, aumenta a taxa de extração da mais-valia. Por sua vez, a mais-valia relativa diz respeito à diminuição do trecho AB, sem haver qualquer modificação no tempo total do dia de trabalho: de a______b__c passamos a a___b_____c. Isso se consegue de duas formas: a primeira, vinculada ao avanço geral dos meios de produção que barateia os custos gerais dos meios de vida (industrialização da alimentação, vestimenta, construção de residências, etc); a segunda é o aumento da produtividade do processo de trabalho específico da unidade produtiva. Isso faz com que, com menos tempo de trabalho, o resultado obtido seja igual ao que se alcançava antes — mas para isso é necessária a contínua revolução dos meios de produção que caracteriza o capitalismo. Também aumenta-se a taxa de extração da mais-valia, mas sem com isso recorrer a um aumento da jornada de trabalho nem da intensidade de trabalho.

Já mencionei que meu posto de trabalho surge justamente de uma destas revoluções dos meios de produção, especificamente a introdução dos sistemas digitais. Este tipo de aumento de produtividade normalmente diminui o número de trabalhadores necessários. Então por que é que sou necessário, por que vale a pena para a grande empresa farmacêutica pagar meu salário? A partir de minha leitura de Marx apresento a seguinte hipótese.

Marx, ao analisar o tempo de trabalho de um operário inglês do século XIX, podia, segundo as mais avançadas técnicas de “ciência do trabalho” de sua época, medir a quantidade de peças produzidas ou parafusos apertados durante toda uma jornada de trabalho. O que ele não podia ver ainda em sua época era a difusão global e empresarial do trabalho cientificamente controlado até os níveis dos trabalhadores especializados, incluindo o tal Back Office e outros ramos empresariais ainda não desenvolvidos neste momento. Se é fato que as empresas necessitam gastar “magnitudes de trabalho” nestas atividades fora de sua atividade especializada, também é verdade que os diferentes trabalhadores e gerentes especializados terminam gastando parte de suas horas de trabalho realizando pequenas tarefas administrativas-burocráticas que não agregam nenhum valor. Pensemos no exemplo de um pesquisador de ponta do setor farmacêutico, que ganha um salário gigantesco para segurá-lo na empresa e enormes bonificações por metas e etc. Digamos que sua jornada de trabalho (XZ) esteja dividida entre o tempo que ele passa realizando tarefas diretamente relacionadas com a pesquisa (XY) e o tempo gasto realizando qualquer tipo de tarefa improdutiva (YZ), como ir ao banheiro, preencher formulários administrativos, de auditoria, realizar trâmites trabalhistas, plano de saúde, resolvendo problemas técnicos com seu computador, com seu celular, etc: x____y___z. O dia de trabalho de um operário analisado por Marx é praticamente homogêneo, enquanto que um trabalhador altamente especializado tem diversos “tempos mortos” decorrentes de questões administrativas e dos instrumentos também altamente especializados que usa em seu trabalho. O objetivo de postos de trabalho como o meu é o de diminuir estes “tempos mortos” da altíssima produtividade de outros profissionais de indústrias de ponta: x______y_z. Somos uma forma de garantir os efeitos de aumento de produtividade da introdução de uma nova tecnologia no processo de trabalho — como qualquer trabalho pouco especializado, nossa tarefa é garantir que os processos automatizados fluam corretamente.

No fundo, meu posto de trabalho serve para que a empresa farmacêutica que nos contrata consiga extrair uma maior produtividade de seus trabalhadores ultra-especializados, ou seja, que o salário pago a eles represente um maior tempo de trabalho em suas funções específicas e o mínimo possível em qualquer outra atividade.

Subsunção real

O conceito de operário produtivo não inclui, por isso, de modo algum meramente uma relação entre actividade e efeito útil, entre operário e produto de trabalho, mas também uma relação de produção especificamente social, surgida historicamente, que cunha o operário em meio imediato de valorização do capital. (Capítulo XIV)

Chegamos até o capítulo XIV da obra, depois de um ano de leitura coletiva, e aprendemos que o trabalhador produtivo não é aquele que produz objetos sujeitos à força da gravidade, mas aqueles que estão implicados na valorização do capital. Até onde se estende esta implicação é uma boa questão para manter em mente na leitura do resto da obra: os trabalhadores do transporte, da limpeza, das operadoras de telecomunicações? Os trabalhadores da saúde… pública? Enfim. Mas existe uma última questão deste capítulo que gostaria de discutir.

Marx desenvolve e categoriza o conceito de subsunção do trabalho sob o capital como formal e real[2]: na subsunção formal, o modo capitalista de exploração se diferencia dos sistemas anteriores por não contar com a extração coercitiva do “mais-trabalho”, e sim com um “livre acordo” voluntário de venda de força de trabalho. A estratégia deste momento é a mais-valia absoluta, pois o trabalho segue sendo organizado como anteriormente (por exemplo, com técnicas advindas dos artesãos), devendo apenas ser prolongado no tempo para gerar maiores lucros ao capitalista. Já na subsunção real, o trabalho passa a ser organizado pela lógica própria do capital, de fato inserido na dinâmica capitalista, qual seja a revolução constante dos meios de produção. É o avanço das estratégias de mais-valia relativa, que aumenta a produtividade diminuindo o tempo de trabalho necessário. Devido às leis de competitividade entre empresas, o esforço no corte de custos vai de mãos dadas com a automatização dos processos, que eliminam postos de trabalho, ou seja, diminuindo o tempo de trabalho necessário por unidade produzida, podendo assim cortar salários e manter o mesmo volume de produção (considerando uma demanda estável).

Vou finalizando o texto, e peço desculpa se algumas de minhas “hipóteses” não forem de todo originais, mas são conhecimentos econômicos que cada trabalhador pode e deve extrair de suas experiências diretas. Termino fazendo um comentário a respeito de um breve texto ao qual fui remetido lendo neste mesmo site: Serviços: subsunção formal.

Nele, argumenta-se sobre o setor de serviços que pertenceria à subsunção formal por não ser passível de “revoluções” produtivas, citando os exemplos dados por Marx no processo histórico de industrialização das manufaturas (cooperação, manufatura, grande indústria e maquinário; Capítulos XI, XII, XIII). Minha discordância com este argumento poderia vir das realidades mais atuais, como toda a economia que gira em torno aos aplicativos de celular e à internet em geral, mas também casos “tardios”, como os terminais de autosserviço nas redes de fast food. Mas mais uma última vez usando meu trabalho como fonte, sei que a consultora onde trabalho fecha seus contratos com clientes oferecendo desde o início um aumento produtivo gradual, não apenas, é claro, da produção do cliente, mas também na do serviço prestado: a consultoria se compromete a diminuir o número de funcionários trabalhando na equipe de terceirizados, ou seja, diminuir o número de trabalhadores sem que se altere o volume de trabalho. Por outro lado, a consultora espera anualmente um número de ideias que os próprios trabalhadores devem dar a respeito não apenas do trabalho particular de seus projetos, mas também para o ambiente geral dos funcionários da consultora. Para tomar estas ideias “brutas” e transformá-las em um procedimento automatizado, que possa reduzir satisfatoriamente algumas horas de trabalho repetitivo ou cognitivamente mecânico, existe uma equipe especial na empresa que trabalha com isto, misturando regulação corporativa com programação. Não estamos muito longe do toyotismo e das estratégias utilizadas na indústria de ponta da subsunção real.

Todas as citações são retiradas do site Marxists.org, especificamente aqui.

Notas:

[1] A teoria que defende que o valor das mercadorias está vinculado com o tempo de trabalho humano é chamada de “teoria do valor-trabalho”.

[2] O nome do conceito pode assustar um pouco. “Subsunção do trabalho sob o capital” deve ser entendido basicamente como a forma pela qual a atividade produtiva de mercadorias está dominada e configurada pela lógica específica do capitalismo.

As imagens que ilustram esse artigo são do artista Sergey Tyukanov


Comentários 3

    • Renato Borghi

      |

      mar 27, 2017

      |

      Interessante o texto! Só queria comentar sobre uma ideia que me surgiu sobre a jornada de trabalho dos trabalhadores na Índia cobrir todo o dia; além dos argumentos apresentados pelo autor, não seria possível que isso também se devesse ao fato de que o inglês, idioma utilizado por esses trabalhadores, cobre uma área mais extensa do globo (mais longitudes), com horários de trabalho “normal” que cobrem todos os turnos de um trabalhador da Índia? Imagino que se essa mesma consultora presta serviços a empresas dos EUA (na Califórnia, por exemplo), da Inglaterra, da própria Índia e da Austrália, já se explicaria a necessidade de cobrir todos os turnos (considerando que se mantêm todas as operações na Índia pela mão-de-obra mais barata, é claro). Já o português se usa principalmente no Brasil e em Portugal (acredito que os PALOP ainda não devem estar utilizando os serviços dessa consultora), enquanto o espanhol se localiza principalmente na América Latina e na Espanha, não necessitando assim mais que um horário, por exemplo, de 8 a 20 para conseguir cobrir a jornada desses países. Não sei se será o caso, mas foi o que pensei quando li.

    • Trabalhador do setor de serviços

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      abr 1, 2017

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      Renato, você está certo no que diz respeito aos serviços de suporte técnico emergencial de TI, pois é sempre necessário que haja uma equipe pronta para apagar fogos grandes 24h, considerando já uma dinâmica completamente globalizada dos sistemas. No entanto, é necessário ter em conta que a minha função não é majoritária na consultora, ou seja, a atenção ao cliente, ou suporte técnico, qualquer uma destas modalidades de comunicação direta com o cliente, não é a função da grande massa de trabalhadores, especialmente a partir dos sistemas de tickets, que funciona como uma caixa de entrada e saída de operações: ao invés das solicitações de suporte serem feitas pelo telefone, “ao vivo”, o pedido entra por meio de um ticket que é submetido pelo sistema, o qual deve ser resolvido pelo trabalhador dentro de uma métrica que faz parte do serviço acordado com a empresa contratante. Isto quer dizer, para o meu caso, 72h para resolver questões normais, 24h para resolver questões importantes, e 8h para resolver questões urgentes (nisto entraria coisas como queda do servidor e outras situações que inviabilizam o trabalho em escala global — por sorte minha equipe nunca recebe este tipo de ticket).
      Tudo isso para dizer que a questão dos idiomas entra principalmente nos serviços intermediários de atenção e suporte direto ao cliente. Para exemplificar, a consultora tem sede em muitos países, mas na Europa a base de operações de terceirização fica em Varsóvia, no sudeste asiático é em Manila. A partir destes centros é que a região se “comunica” com os trabalhadores, mas já o processo de resolução interno corre por outros caminhos digitais e com tempos metrificados. Desta forma, a relação dos indianos com o inglês é principalmente através da linguagem dos computadores (e dos clientes com os computadores), não diretamente indiano-cliente (a não ser em poucos casos) — em boa parte das vezes o suporte é feito com nosso intermediário (cliente – suporte regional – TI). Daí que os indianos não necessitam estar todos trabalhando 24h por atender diretamente o mundo inteiro em inglês, mas sim o fazem com métricas que não são de resolução imediata e sem ter que falar diretamente com o cliente.

    • Renato Borghi

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      abr 2, 2017

      |

      Entendi, obrigado pela resposta! Evidentemente não sei muito sobre o funcionamento deste tipo de empresa.

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