Por Leo Vinicius

A manutenção de alguns mitos e, ao mesmo tempo, o apego a certas indecisões fatais dependem de se apresentar o fascismo e o movimento operário como dois mundos separados, em vez de se desvendar o mecanismo que levou a dissolução de um a gerar a ascensão do outro. (João Bernardo – Labirintos do Fascismo)

Oito anos depois de 2005, diante dos fatos então recentes ocorridos em junho de 2013, e principalmente durante esses fatos, o último parágrafo da reflexão que escrevi sobre a revolta contra o aumento da tarifa de transporte de 2005 em Florianópolis pode soar como uma profecia que se realizou. Mas era ao mesmo tempo uma antecipação com base no conhecimento do que estava ocorrendo e uma tentativa de ajudar a criar essa própria prática, ou difundi-la. Claro que poderia ter sido escrita, com aquelas ou outras palavras, por praticamente qualquer outro militante do MPL na época:

De Salvador a Florianópolis. De Vitória a Uberlândia. De Campinas a Vitória da Conquista. Por todo o Brasil se acumulam com cada vez maior freqüência movimentos e revoltas em torno da questão do transporte coletivo. Um grande rechaço aos partidos políticos, às instituições, às entidades constituídas, às hierarquias, é a marca da composição juvenil que protagoniza essas manifestações. Época em que a independência, a autonomia e a rebeldia da juventude estão sendo constituintes não só de manifestações, mas de um novo ciclo de lutas sociais urbanas, capaz, quem sabe, de mudar o panorama das lutas sociais no Brasil. Até agora, a potência política que brota dessa independência, autonomia e rebeldia constituintes, tem tido sua expressão mais elaborada no MPL. A constituição do MPL como articulação nacional dessa independência e dessa rebeldia pode, assim esperamos, abrir e produzir histórias inesperadas até poucos anos atrás, em que essas guerras da tarifa de Florianópolis sejam apenas um prelúdio…[1]

E então, oito anos depois e após “revoltas da tarifa” em outras cidades, se fez “junho de 2013”. Para alguns poucos que vieram da esquerda, “junho de 2013” se tornou um mito. “Junho de 2013” voltará e nos trará uma redenção – o evento que tudo muda, de que tudo é capaz. Com sua composição juvenil, com seu rechaço aos partidos e às instituições, com sua revolta, com suas significações imaginárias – para usar o conceito de Castoriadis – de horizontalidade, apartidarismo e independência, produziu de fato histórias inesperadas e, talvez não seja exagero dizer, mudou o panorama das lutas sociais no Brasil. Mas podemos perguntar hoje: essa mudança se deu à esquerda ou à direita, ou também em direção àquilo que surge da interação de elementos vindos da esquerda e da direita, o fascismo?

Antes, vamos relembrar um pouco do que ocorreu nesses anos.

As lutas pela esquerda: ultrapassando o PT e os sindicatos?

A revolta contra o aumento de tarifa de transporte em São Paulo e também no Rio de Janeiro, onde as mobilizações eram simultâneas mas menores, conquistou a pauta imediata da revogação do aumento não apenas em São Paulo, mas em cerca de cem cidades país afora. É certo que tal conquista foi favorecida a partir do momento que a burguesia, através principalmente da grande imprensa, diante das circunstâncias[2], passou da criminalização à legitimação das manifestações na tentativa relativamente bem sucedida de capturá-las e ressignificá-las.

Belo Horizonte June 22, 2013. REUTERS/Sergio Moraes

É difícil medir a influência da repercussão das luta autônomas de junho de 2013 na classe trabalhadora como um todo. Ainda naquele ano, ocupações por moradia por fora de movimentos já organizados pipocaram em São Paulo[3], lutas expressivas como a desencadeada pelo assassinato de Amarildo ocorreram ao longo do segundo semestre no Rio de Janeiro, numa continuidade que fez o “junho de 2013” no Rio se estender ao longo do ano. Em Belo Horizonte a luta pela gratuidade no transporte passa a se organizar após o junho de 2013. Aliás, a pauta da tarifa zero foi alçada naquele ano ao amplo debate público, inclusive na grande imprensa, e dois anos depois a Emenda Constitucional 90/2011, que transforma o transporte em direito social, foi aprovada no Congresso.

O ano de 2013 foi o que teve maior número de greves, na série histórica iniciada em 1978 (tendo sido superado posteriormente pelo ano de 2016). Difícil saber a influência do “junho de 2013” nesses números, se é que teve alguma, até porque a influência deve ter ocorrido em greves e ações nos locais de trabalho por fora da ação sindical e não computadas nessas estatísticas. É provável que muitas ações autônomas de trabalhadores organizados tenham ocorrido sem que sequer tivéssemos notícia. A histórica greve dos garis do Rio, no carnaval de 2014, que foi por fora e também contra o sindicato, teve também sua influência das lutas autônomas de junho de 2013[4].

O ano de 2014 continuou com uma esquerda autônoma, de perfil juvenil, saindo às ruas, seja contra aumentos de tarifas de transporte, seja contra as consequências sociais dos megaeventos Copa do Mundo e Olimpíadas, já sem a presença dos chamados “coxinhas”, uma classe média com tendências de direita que os meios de comunicação levaram às ruas após passarem a legitimar e tentar ressignificar as manifestações contra o aumento das tarifas de transporte em junho de 2013.

Em 2015 é a direita que vai às ruas, em moldes “aprendidos” no junho de 2013, com o mote anticorrupção racionalizando um antipetismo e antiesquerdismo (trataremos disso mais adiante). No final daquele ano uma onda de ocupações de escolas em São Paulo contra um projeto estadual de “reorganização escolar” conquistou histórica vitória sobre o governo do PSDB – lembremos que o sindicato estadual dos professores, um dos maiores sindicatos da América Latina, só amarga derrotas aos governos do PSDB em São Paulo, há vinte anos. Além do trabalho de base da esquerda autônoma que resultou nessa luta de ocupações, a revolta contra o aumento das tarifas de transporte em junho de 2013 serviu também de formação política para uma parcela daqueles estudantes. Por sua vez, essa luta de ocupações de escolas foi revivida em outros estados no ano seguinte, com destaque para aquela que foi a segunda maior onda de ocupações de escolas da história mundial, embora concentrada no Paraná, e que lutava contra a reforma do ensino médio e a PEC 241, que congelava as despesas primárias do orçamento público por vinte anos. O esquecimento que paira sobre essa imensa onda de ocupações de escolas contra a reforma do ensino médio e a PEC 241, em todo o espectro de esquerda e até mesmo na academia, assim como o nulo impacto que teve na tramitação da PEC 241 ainda está para ser analisado.

Mesmo que tenhamos tido lutas significativas e vitoriosas de 2013 para cá, é difícil crer, com tal hegemonia da direita que percebemos em 2018 e a dificuldade de levar a cabo mobilizações de esquerda, que a mudança de panorama nas lutas sociais no Brasil tenha nos favorecido, decorridos esses cinco anos.

A repressão às lutas

Importante lembrar que essas lutas levadas a cabo pela extrema-esquerda e/ou uma esquerda autônoma a partidos em 2013 e 2014 foram reprimidas, criminalizadas e difamadas em uníssono pelo governo federal, então do PT, pela direita e pela grande imprensa. Para não falar da militância neopetista, engajada em caluniar os movimentos da esquerda autônoma. Tivemos uma unidade em plena sintonia entre os partidos de direita, o governo do PT, a Globo e demais órgãos da grande imprensa na criminalização dessa esquerda.

Nessa repressão em que direita e esquerda eleitorais estiveram unidas, o PT, como partido do governo, contribuiu sem ressalvas no desmantelamento e criminalização de militantes, de organizações e da contestação social, assim como contribuiu na construção de legislação e de aparatos repressivos. Pode-se dizer que conscientemente ou não agiu e muito para limpar o terreno para o avanço das classes capitalistas sobre o interesse geral dos trabalhadores como um todo. Guardadas as devidas proporções, em 2014 era possível fazer uma analogia com o papel que o PCI (Partido Comunista Italiano) desempenhou, então parte do governo no chamado Compromisso Histórico, ao perseguir a esquerda extra-parlamentar no final dos anos 1970. O PCI pavimentou assim o caminho para a consolidação nos anos 1980 da vitória das classes capitalistas sobre o movimento operário e social dos anos 1970.

Talvez nada mais simbólico dessa irmandade entre o governismo petista, a direita, a grande imprensa e a repressão, do que a palestra dada pela filósofa e petista Marilena Chauí na Academia da Polícia Militar do Rio de Janeiro, na qual afirmou que os black blocs agem como fascistas – sem nenhuma fundamentação lógica ou histórica, evidentemente[5]. Os black blocs, na medida em que se tornaram uma identidade, constituíram o “inimigo público número 1” em 2013 e 2014 – tanto da esquerda e direita eleitorais, quanto da grande imprensa e dos órgão de repressão. Como eram mais facilmente criminalizáveis pela sua forma de ação (embora visassem autodefesa e no máximo destruição de coisas), através da demonização dos black blocs tentava-se criminalizar os movimentos e militantes por associação, acusando-os de serem parte de black blocs ou de serem cúmplices. Em 2014, se tornou o alvo dessa perseguição com maior publicidade a ativista Sininho, no Rio de Janeiro. Perseguição que atingia até a advogada Eloisa Samy, que teve que pedir asilo no consulado do Uruguai. Algo inédito no pós-ditadura civil-militar, é bom recordarmos.

Como dissemos, a criminalização e demonização dos blacks blocs obviamente tinha relação com a tática de criminalização de um setor mais amplo a partir do grupo-identidade mais fácil de criminalizar, fazendo uso de preceitos morais disseminados na sociedade. Mas será que apenas isso explicaria tamanha sanha discursiva – da direita e da esquerda governista – contra os black blocs? Tamanha mobilização policial, política, midiática em torno de um bando de jovens de preto que se defendem da polícia a enfrentando e que quebram vidraças de bancos? Será a paz social e a ordem estabelecida tão frágil a ponto de “black blocs” as fraturarem? Por esse ângulo, medido pela reação que houve em 2013 e 2014, pareceria que a ingenuidade de alguns black blocs de que estariam participando de uma revolução, não seria tão ingênua. Ou será nossa sociedade tão conservadora a ponto de tornar inadmissível de tal maneira uma desobediência na forma dada por esses garotos? Seria nossa sociedade tão conservadora a ponto de ver um sinal de desvio comportamental como terrorismo? Ou os de cima sabem que estão sentados sobre uma panela de pressão, tamanho o grau de opressão nas periferias, na vida cotidiana das grandes cidade em meio ao proletariado? O terror que eles sentem não seria por enxergarem nos black blocs um furo por onde essa pressão poderia começar a escapar? Terrível medo de adesão de uma massa a esse tipo de desobediência, por saberem que existem condições objetivas reais para isso, principalmente nas periferias? E, ainda mais, pessoas que se organizam sem líderes e de forma aparentemente irrecuperável; um péssimo exemplo. O uso da força e da repressão mostra, por um lado, a fragilidade do poder constituído. A incapacidade de recuperação. Mas estaria a energia dessa esquerda autônoma em vias de ser recuperada por canais não institucionais?

É um erro, no entanto, apontar a repressão como fator determinante do refluxo dos movimentos de rua da esquerda autônoma. Qualquer movimento social deve estar preparado em alguma medida para repressão, em certa intensidade e duração, independente da cor do governo de plantão. Os movimentos da esquerda autônoma refluíram por suas insuficiências e características acima de tudo, pela sua incapacidade de contágio e de mobilizar em torno de suas pautas a certa altura.

A direita renovada e os ingredientes do fascismo

Aqueles meses em que os trabalhadores ultrapassaram a direcção do PSI [Partido Socialista Italiano] e dos sindicatos sem conseguirem, por outro lado, organizar de maneira estável a sua iniciativa própria serviram, afinal, para reforçar a penetração social do fascismo e o seu radicalismo de actuação. Foi este o terreno da vitória de Mussolini. (João Bernardo – Labirintos do Fascismo, terceira edição, p.31)

Primeiramente sintetizarei em seis pontos alguns fenômenos que caracterizam o fascismo historicamente, tendo como base a obra de João Bernardo sobre o tema, contida em artigos, cursos e no extenso e profundo livro, fruto de décadas de pesquisa, Labirintos do Fascismo.

1. Deve-se ter claro que podemos falar de fascismo tanto como movimento quanto como regime. Evidentemente nem todo movimento fascista leva ao estabelecimento de um regime fascista.

2. O fascismo pode ser entendido como uma revolta na-e-para-a ordem. Uma revolta na-e-para-a coesão social.

3. O fascismo só ganha espaço e emerge após derrota da classe trabalhadora. A derrota e dissolução dessa última é condição para a ascensão do fascismo. Movimentos de esquerda se derrotados, entrando em refluxo, seu legado acaba potencialmente se tornando uma ponte para o fascismo melhor se difundir na sociedade.

4. Embora um regime fascista só se estabeleça com envolvimento de todas as classes, inclusive da classe trabalhadora, o ressentimento e falsa consciência dos estratos médios em processo de proletarização tem sido fenômeno destacável, levando essas camadas a darem o corpo inicial ao fascismo.

5. O fascismo só se estabelece como regime em economias estagnadas, que já não podem avançar pelo caminho do aumento da produtividade e da mais-valia relativa.

6. O fascismo surge da circulação de temas, figuras, formas de ação – de significações imaginárias para usarmos novamente o conceito de Castoriadis – entre esquerda e direita. Na gênese do fascismo a direita se inspira e se renova a partir de movimentos de esquerda.

MBL (Movimento Brasil Livre): sua formação data de novembro de 2014, segundo o Wikipedia.

Vem pra Rua: segundo o Wikipedia, sua formação data de outubro de 2014.

Ambas organizações de direita emuladas da esquerda, a partir do alcance que o MPL e alguns dos slogans e significações que caracterizavam suas mobilizações tiveram em junho de 2013. “MBL” é uma imitação fonética de “MPL” e “Vem pra Rua” é um slogan cantado frequentemente em manifestações da juventude mobilizada pelo MPL. Ora, o uso desses signos retirados ou copiados da esquerda tinha como objetivo trazer com eles significações a eles associadas: sim, significações como de rebeldia, apartidarismo, independência, ação direta, horizontalidade… Aquelas mesmas que estavam na constituição de um novo ciclo de lutas urbanas já na década passada, com potencial de mudar o panorama das lutas sociais no Brasil, como destaquei no início deste artigo.

Amauri Gonzo chamou o dia 20 de junho de 2013 muito interessantemente de “revoada das bandeiras vermelhas”. No dia 20 de junho, o MPL de São Paulo foi às ruas para comemorar a revogação do aumento da tarifa. Naquele dia na Avenida Paulista toda a esquerda apanhou ou esteve em vias de apanhar da extrema-direita, a qual agia abertamente e à vontade sobre o terreno formado por uma classe média que foi às ruas de verde e amarelo com grande ajuda da convocação dos grandes meios de comunicação. Violência e hostilidade contra camisas vermelhas que iria se tornar relativamente comum em dias de manifestações anticorrupção nos anos seguintes, e até hoje, como em atentados com arma de fogo contra o acampamento Lula Livre ou contra a própria caravana de Lula antes de ser preso.

Voltando àquela semana de junho de 2013, em quase todas as grandes cidades a situação era tensa entre a esquerda e a direita que começava a ir às ruas. Mas o que é muito ilustrativo do que queremos mostrar está no testemunho de Amauri Gonzo nesse dia 20 de junho. Ao encontrar por acaso um pequeno bloco anarquista de bandeiras vermelhas e pretas, percebeu que havia várias pessoas em volta, de verde e amarelo, gritando para esse bloco anarquista: “sem partido!”, “sem partido!”. Segundo o relato, os anarquistas estavam desesperados tentando explicar a essas pessoas que se alguém inventou isso de não ter partidos em manifestações eram exatamente eles![6] Significações que eram tidas como essencialmente de esquerda e libertárias tiveram penetração social, mas naquele “momento de virada”, como definiu Amauri Gonzo, pudemos descobrir ou perceber que elas não eram inevitavelmente emancipatórias, e se voltavam contra a própria esquerda que havia as criado e/ou difundido através de suas ações e lutas.

Embora o fascismo em constituição que temos presenciado nitidamente no Brasil nos últimos anos tenha, como todo fascismo, elementos de diferentes origens políticas e sociais, o que liga os acontecimentos de junho de 2013 a ele é:

i) a circulação de temas e significações entre esquerda e direita, mais especificamente a renovação e inspiração que a direita encontrou, durante aqueles eventos de junho de 2013, em um movimento de esquerda;

ii) a penetração social de certas formas de ação e de significações que um movimento de classe trabalhadora, de esquerda, que ultrapassou a direção do PT e dos sindicatos mas que não conseguiu se sustentar de maneira estável, forneceu ao fascismo que foi se constituindo em seu lugar.

A passagem abaixo de João Bernardo parece uma bela síntese descritiva do processo que também temos presenciado nesses últimos cinco anos no Brasil:

Nenhum fascismo se limitou a ser uma resposta da ordem à revolução. Todos eles foram, antes de mais, uma revolta dentro da ordem, e por isso começaram por procurar na esquerda uma inspiração que permitisse renovar a direita, ao mesmo tempo que transportaram para a esquerda alguns temas gerados na direita. O cruzamento entre correntes da direita e da esquerda e a sua acção recíproca não foram o resultado de um processo, mas a condição prévia desse processo[7].

Ora, a composição ocorrida em junho de 2013 com a referência política do MPL, as significações a ele associadas, a legitimação-convocação às ruas pelos grandes veículos da imprensa após o dia 13 de junho e a pauta “anticorrupção” que veio com ela constituíram o modelo que a direita iria utilizar nos anos seguintes, particularmente no processo de mobilização, pressão social e consequente “legitimação popular” ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff. O surto de revolta de junho de 2013 continha o modelo a ser usado pela direita[8].

Os grandes meios de comunicação de massa estariam certamente ao lado na luta “anticorrupção”/pró-impeachment, o que de fato ocorreu com divulgação dos atos e coberturas positivas em tempo real, que foram verdadeiras convocatórias para a população ir às ruas. Parecia necessário, entretanto, para completar o modelo, emular a referência política “MPL” e suas significações para marcar e convocar as manifestações. Significativo que MBL e Vem pra Rua tenham sido criados exatamente nos meses das eleições de 2014. E se junho de 2013 teve alguma relação com o impeachment da presidenta reeleita Dilma Rousseff foi por ter gerado o modelo a ser seguido; e se o MPL tem algo a ver foi por ter servido involuntariamente de inspirador e renovador da direita. Acrescente-se que outro grupo de direita, esse com perfil mais estereotipadamente fascista e que se destacou como referência da direita social, chama-se Revoltados Online. O tema da revolta se voltava para manutenção de uma ordem capitalista. Era o próprio tema ou significação imaginária de revolta, insubmissão e insurreição que era transferido pela direita para o quadro da ordem e da mudança de elites ou gestores.

Pode-se afirmar com toda a razão que MBL e Vem pra Rua emulavam movimentos autonomistas de esquerda mas de fato não eram horizontais, apartidários ou anti-institucionais como aqueles. O MBL recebeu recursos e dinheiro do PMDB, por exemplo, e logo teve candidatos por velhos partidos como o DEM. O Vem pra Rua emprestava seu carro de som para discurso de políticos do PSDB. Enfim, a pauta institucional do impeachment era comum e foco tanto do PMDB, PSDB e DEM quanto objetivo primordial de MBL e Vem pra Rua. Nesse sentido MBL e Vem pra Rua eram praticamente tão pouco autônomos e apartidários quanto a CUT em relação ao PT. Ora, as significações e auto-organização criadas ou difundidas pela esquerda autônoma foram mobilizadas por essa “nova direita” como simulacro, desnaturando-as e mudando-lhes os objetivos. Nesse sentido é possível enxergar abaixo mais uma vez uma síntese análoga desse processo:

O fascismo não se limitou a desnaturar instituições criadas pelas lutas colectivas e activas e a transferi-las para a esfera do Estado, mas transportou para o quadro genérico da opressão o próprio tema da revolução. A revolta no interior da coesão social pressupunha que se tivesse levado a um ponto extremo a dissolução de quaisquer formas de auto-organização, mas se os meios clássicos da política burguesa se revelavam insuficientes para completar a recuperação das instituições que os trabalhadores haviam criado no seu âmbito próprio, então surgiam os fascistas. […] «Não só o fascismo se apodera de slogans […] mas, nas suas modalidades mais radicais, todos os seus processos de pensamento sofrem, consciente ou inconscientemente, a influência do campo revolucionário», escreveu um estudioso muito arguto, concluindo que «o fascismo se mascara frequentemente com a imagem dos seus inimigos». Nesta perspectiva, a revolta dentro da ordem foi a sombra da luta anticapitalista projectada no âmbito do capital, a nostalgia da auto-organização no interior dos limites da hetero-organização.[9]

Embora o MBL tenha organizado grupos para forçar a desocupação de escolas em 2016, o que nos lembra as milícias fascistas e seu uso da força contra movimentos, organizações e militantes de esquerda, é certo que organizações como MBL, Vem pra Rua ou Revoltados Online são de direita e não, pelo menos ainda, propriamente fascistas. Mas vimos que o fascismo se constitui de ações recíprocas do campo da esquerda e da direita, e os elementos de constituição e operação do fascismo perpassam muito claramente o surgimento e atuação dessas organizações de direita. Elas surgem da renovação e inspiração da direita pela esquerda, recuperam e desnaturam as criações e lutas da esquerda autônoma e anticapitalista, mudando-lhes o objetivo, “mascarando-se com a imagem do inimigo”.

Algumas pessoas próximas à esquerda autônoma defendem a hipótese de que o PT foi derrubado ou dispensado pela burguesia por ter se mostrado incapaz de recuperar os movimentos autônomos que resultaram no “junho de 2013”. Já não seria capaz de apassivar essa nova classe trabalhadora. Não pretendo aqui gastar linhas argumentando que, por exemplo, o crescimento real do salário mínimo era muito mais insuportável à burguesia do que as manifestações e mobilizações que a esquerda autônoma ou a atividade autônoma dos trabalhadores produzia a partir de 2013. A incapacidade ou impossibilidade de recuperação desses movimentos por parte de um governo, ou mais corretamente por parte do Estado, pode ter levado, isso sim, à abertura de espaço para que o fascismo se desenvolvesse como forma de recuperação desses movimentos ou significações instituintes, já que os meios convencionais da política burguesa se mostraram incapazes.

Se esses movimentos da esquerda de inspiração autonomista ou anarquista por um lado se blindavam contra a recuperação pelas vias institucionais, carregando um aprendizado histórico da classe trabalhadora e parecendo assim irrecuperáveis, por outro lado deveriam despertar para outro aprendizado, presente por exemplo nos acontecimentos de junho de 2013 aos dias de hoje. Esses movimentos são, sim, recuperáveis, mas sua recuperação não se dá pela via institucional, mas pela transferência da revolta que eles canalizavam para dentro da ordem; pela recuperação das suas significações e modelos em movimentos tendencialmente fascistas. O rechaço a partidos políticos, às entidades constituídas, às instituições representativas e mesmo às burocracias sindicais[10], assim como a independência e a revolta podem ser recuperados num movimento de unidade nacional ou social, sem clivagens partidárias, sem clivagens entre esquerda ou direita e por fim sem clivagens de classe, numa unidade típica do fascismo; numa revolta dirigida a trocar elites ou gestores ampliando a coesão social numa sociedade que continua a ser de classes.

Como bem aponta João Bernardo: “qualquer estudo do fascismo que não seja ao mesmo tempo uma crítica do capitalismo liberal e uma autocrítica do movimento anticapitalista fica condenada a falhar nas questões fundamentais”[11]. Críticas à social-democracia estão longe de esgotar o entendimento de onde chegamos sem uma autocrítica da esquerda autônoma e anticapitalista.

Novembro de 2016: ainda não sabiam que eram fascistas?

Nas vésperas do conflito pareciam estar reunidas as condições necessárias para cruzar num vasto movimento à escala nacional o eixo da direita conservadora com o eixo onde se reflectiam certos temas e estilos de acção gerados na esquerda radical (João Bernardo – Labirintos do Fascismo)

Após a reeleição de Dilma Rousseff em 2014 se desenvolve um processo de mobilização social pelo impeachment. Não é preciso insistir na articulação entre Judiciário[12], grande imprensa e as novas organizações de direita nesse processo (MBL, Vem pra Rua, Revoltados Online, entre outras). Algumas tantas mobilizações dominicais massivas com apoio midiático foram realizadas durante 2015 até o impeachment consolidado em final de agosto de 2016. “Quem não pula é petista!” era cantado em massa em Florianópolis, por exemplo, em mais uma apropriação de formas de manifestações do MPL. Em outra, também em Florianópolis, no caminhão de som puxando os milhares de manifestantes de verde e amarelo era gritado seguidamente “Nossa bandeira jamais será vermelha!”[13].

A pauta anticorrupção que canalizava a revolta de um estrato da população para temas morais e, pelo menos em parte, racionalizava motivações outras como era bastante nítido por esses gritos, seria retomada por algumas dessas organizações de direita seguindo a repercussão que a grande imprensa no final de 2016 deu às denúncias de um ex-ministro de Temer. Em novembro de 2016 o então Ministro da Cultura Marcelo Calero pede demissão e denuncia a cúpula do governo, Eliseu Padilha (Ministro da Casa Civil), Geddel Vieira Lima (ex-ministro da Secretaria de Governo) e o próprio presidente Michel Temer, por tentarem pressioná-lo a liberar uma obra de interesse de Geddel. A denúncia foi acompanhada de gravações de conversas, entregues a Polícia Federal.

Foi então que se viu propostas partirem abertamente de uma fração da esquerda fora da órbita do PT, boa parte de origem autonomista, para que a esquerda fosse às ruas com a pauta anticorrupção e, até mesmo, nos chamados mais extremos, que aderisse às manifestações anticorrupção convocadas por organizações de direita, como o Vem pra Rua. O chamado abaixo é bastante ilustrativo pois parte de um intelectual que veio da esquerda autonomista, que ainda é em alguma medida ouvido por militantes e ativistas dessa esquerda, que possui razoável espaço público aberto e que no auge da criminalização dos black blocs utilizava esse espaço público em jornais de grande circulação para se contrapor a essa criminalização. Ou seja, um intelectual que possui proximidade e que esteve nas últimas décadas inserido nessa esquerda autonomista e com diálogo com a “tática black bloc”.

O esforço de Pablo Ortellado de levar temas da direita para a esquerda já data pelo menos do ano anterior. Lembro, como já destacamos antes, que todo fascismo foi uma revolta dentro da ordem que se iniciou com a renovação e inspiração da direita encontrada em movimentos de esquerda, ao mesmo tempo em que temas característicos da direita foram levados para a esquerda. Todo fascismo foi também a supressão de clivagens e divisões partidárias, ideológicas e de classe em nome de uma unidade seja nacional, social, étnica. Quando os temas de classe, da exploração, dão lugar à indignação moral com a “roubalheira” entre os trabalhadores, o fascismo não anda longe. A esse respeito sugiro o excelente e didático artigo Entre a luta de classes e o ressentimento também do João Bernardo. O fascismo não existe sem essa circulação de figuras entre esquerda e direita e com elas os temas e formas de um a outro.

Apesar dos projetos de reforma que vieram com o golpe de 2016 já estarem a pleno vapor em novembro daquele ano (PEC 241 passando no Congresso, reforma trabalhista e da previdência sendo encaminhadas), com temas que afetariam diretamente os trabalhadores e cujas lutas ajudariam a reconstituir a classe trabalhadora na sua autonomia e antagonismo direto ao capital, essa fração da esquerda preferiu seguir as pautas midiatizadas anticorrupção, com um espontaneísmo que não só beirou mas atravessou o limite da irresponsabilidade histórica. A Rede, partido difícil de definir no espectro político, que alguns colocam na direita e outros colocam na esquerda, mas que teve origem de fato na esquerda, parece que aderiu aos apelos de que todos se mobilizassem numa pauta de unidade nacional anticorrupção. Não aderiu ao chamado do Vem pra Rua, mas criou o seu próprio.

Talvez seja um desafio a alguém que tenha alguma noção do que é ou do que foi o fascismo encontrar um panfleto com tantos elementos e características fascistas quanto este produzido pela Rede em novembro de 2016. Quanto mais em organizações que não sejam de extrema-direita e abertamente neofascistas. O assustador é que tal panfleto foi produzido e circulou dentro da esquerda, sem alardes. O que mostra o nível de desorganização e de dissolução da classe trabalhadora na sua existência sociológica (classe para si) e de falta de referências das esquerdas.

“Brasil unido”; “eliminar a impunidade”; “combate à corrupção”; o “golpe” como tentativa de barrar o combate à corrupção e não a derrubada de governo eleito; defesa incondicional da Operação Lava-Jato; “ATITUDE de unidade nacional”; “supere as diferenças entre os campos ideológicos e dos diversos grupos políticos”; “É chegada a hora brasileiros, de nos posicionarmos contra esse grupo amorfo, desagregador, reacionário retrógrado e usurpador da dignidade nacional”… São muitos os elementos para uma boa análise de conteúdo: o tema da unidade nacional, a pauta moral usada para trazer essa unidade nacional suprimindo as diferenças ideológicas, de classe, de campos políticos, a significação de energia, ação e vitalidade contidas na palavra ATITUDE, o tema do progresso e revolução ao afirmar que combatem os reacionários e retrógrados e, talvez o mais marcante, o combate dos “brasileiros” ao “grupo amorfo e desagregador”. A revolta para ampliação da coesão social está toda aí. Todos os elementos da revolta dentro da ordem que caracterizam o fascismo estão postos, inclusive o combate à decadência civilizacional e desagregação nacional (não era desagregação étnica, ufa!). Não é segredo que a Rede possuía militantes que vieram da e circulam pela esquerda autonomista, e não me surpreenderia se tal panfleto teve a mão e influência direta desses militantes. E sim, para alguém que sabe que os judeus eram considerados pelos nazistas não uma raça inferior, mas uma antirraça, que desagregava as raças, a significação de “grupo amorfo e desagregador” mostra de forma extrema como, sob determinada conjuntura, a esquerda é capaz de participar e trazer ativamente os elementos necessários ao fascismo enquanto olha torto para Bolsonaro. Aliás, o fascismo não se constitui sem essa dinâmica e não se estabeleceu sem a absorção do proletariado revolucionário na nação.

Bem, naquele mês de novembro, no entanto, uma esquerda mais consequente estava engajada nas lutas contra a reforma do ensino médio e da PEC 241, a qual estava em votação no Senado. Dia 29 de novembro houve uma manifestação “Ocupa-Brasília” contra a PEC 241. Houve repressão policial, manifestantes virando e queimando carro de TV, enfrentando a polícia, ao estilo black blocs. Alexandre Frota, subcelebridade que nesses tempos obscuros se tornou celebridade da direita, e que possui ligações e simpatias com o grupo neofascista Carecas do Subúrbio, fez o seguinte comentário no rescaldo do Ocupa-Brasília:

Como disse certa vez um dos principais teóricos do fascismo francês no pós-guerra, o fascismo é uma solução heróica. E como diz nossa referência aqui, o fascismo usou as armas da desordem para sustentar a ordem. Foi na esquerda que o fascismo encontrou a energia e vitalidade de que necessitava. Nos exemplos que trouxemos do mês em que a dinâmica de constituição do fascismo saltou aos olhos, novembro de 2016, Pablo Ortellado leva os temas da direita para esquerda e Alexandre Frota quis levar os estilos de ação gerados pela esquerda radical para a direita. É dessa circulação de temas e formas de ação entre esquerda e direita que se trata quando se quer entender o fascismo. A depender de Pablo Ortellado e Alexandre Frota teríamos no horizonte black blocs anticorrupção, com a ação desse proletariado absorvida no quadro da nação – uma “nação em cólera”[15] contra a “casta política”. O antagonismo entre esquerda e direita encontra sua síntese dentro do capitalismo apenas no fascismo. Síntese que Pablo Ortellado tem buscado e que Alexandre Frota desejou mesmo que por um momento.

É impossível compreender o fascismo sem atribuir uma importância primordial à mobilização popular que ele gerou e sem constatar […] que essa mobilização transportou para o meio operário os temas caracterizadamente nacionalistas das esferas conservadoras e conferiu à direita um dinamismo político que até então fora apanágio da base trabalhadora animada pela esquerda.[14]

No paradigmático fascismo italiano uma fração do sindicalismo revolucionário lhe forneceu a vitalidade da ação e dinamismo. Essa parte do sindicalismo revolucionário, também na França, serviu igualmente para introduzir na classe trabalhadora temas da direita e enquadrar o proletariado na nação. Em junho de 2013 já estava presente um processo análogo, nas suas devidas proporções e que se estendeu nos anos, àquele em que um processo revolucionário anticapitalista degenera numa revolta fascista. A dissolução de um leva à ascensão do outro; um mesmo fenômeno. Se a Rede naquele curto momento se colocou à frente para aglutinar e fazer convergir todos esses elementos do fascismo já presentes, posteriormente a figura de Joaquim Barbosa como candidato à presidência parecia ter maior potencial para dar unidade a esses elementos. Com um pé em temas de esquerda, de justiça social, e outro pé nos temas morais da direita, personificava a síntese entre a indignação anticorrupção mais típica dos estratos médios e questões sociais que afetam os mais pobres. Vindo do Judiciário – o único dos três poderes não representativo – Joaquim Barbosa paradoxalmente representava também a revolta dentro da ordem contra as instituições representativas.

Em 2018 Pablo Ortellado continua a sua cruzada em favor de uma síntese fictícia. Aliás, o fascismo foi uma ficção política[16], um teatro, pois só na retórica e estética era possível navegar de um extremo a outro da política e produzir a paradoxal revolta na-e-para-a ordem. Como exemplo, nos basta seu artigo publicado na revista Época quando dos cinco anos de junho de 2013: Legados de junho: como o levante da sociedade civil contra o estado virou briga entre “coxinhas” e “petralhas”[17].

Junho de 2013, para Pablo Ortellado, foi um “levante”, uma revolta, da sociedade civil – da “unidade da sociedade civil” para utilizar uma expressão que ele emprega mais de uma vez – contra o Estado. Usar o palatável conceito de sociedade civil que teve origem no liberalismo no lugar de um old fashion unidade da nação (erro cometido talvez pela Rede no seu panfleto), e colocar como antagonista um abstrato Estado pode servir para se afastar de um jargão “fascista”, trazer a simpatia de libertários, autonomistas e também de liberais, mas em nada muda o conteúdo tendencialmente fascista do seu discurso e sua tentativa de construção de uma ficção política[18].

A sociedade civil contra o Estado nos remete facilmente ao já clássico artigo que dá título a um livro do antropólogo libertário Pierre Clastres: A Sociedade contra o Estado. Clastres nesse artigo procura mostrar que algumas importantes sociedades na América do Sul, que chamamos de indígenas, estavam em permanente vigilância e luta contra a constituição do Estado no interior delas. Ora, a ideia de uma sociedade (una) contra o Estado ganha razão e sentido apenas naquelas sociedades, que não eram divididas por classes e que portanto não possuíam Estado. A luta contra a constituição do Estado era a luta para ao mesmo tempo manter uma sociedade sem classes. A unidade da sociedade nesse caso não era uma ficção política, ela existia nos fatos. Transplantar a ideia de luta da (unidade da) sociedade (civil) contra o Estado para uma sociedade de classes e que já possui Estado seria apenas um erro conceitual, não fosse claramente também o esforço para construção de uma ficção política e de um mito sobre junho de 2013.

O Estado por sua vez aparece como conceito vazio para Pablo Ortellado. A luta em junho de 2013 era contra a corrupção dos partidos políticos, por saúde e educação, para aumentar o poder do Ministério Público (PEC 37), contra o aumento da tarifa dos transportes? Como que tudo isso era uma unidade de luta contra o Estado, parece inexplicável. O antagonismo ao Estado se explica assim como retórica ao mesmo tempo libertária e liberal, renovando o repertório discursivo de conteúdos tendencialmente fascistas. Ora, para unir classes e interesses antagônicos que tendem a se afastar mutuamente é preciso criar um inimigo comum que estabeleça essa participação unitária que obscurece as divisões de classe e interesses[19]. No plano da ficção, junho de 2013 não foi um processo de disputa de classes, de disputas internas entre esquerda e direita nas mesmas manifestações a partir de uma data, de intervenção da grande mídia burguesa na criminalização da luta contra o aumento da tarifa de transporte e depois na legitimação e ressignificação delas inflando-as com pautas difusas e do seu interesse como a PEC 37. No mito de junho de 2013 a extrema-direita não deu as caras após a mudança tática da grande imprensa e do aparato repressivo, da criminalização ao apoio e ressignificação. No mito de junho de 2013 não houve aquilo que próprios militantes do MPL de São Paulo nomearam como “revolta dos coxinhas”[20]. Nessa ficção política não houve a “revoada das bandeiras vermelhas”. Nessa ficção a mudança política da grande imprensa e do comando da PM não expressavam interesses de classe e nem afetaram diretamente as manifestações (não mais pela repressão, mas pela massificação e degeneração)[21]. É preciso revisar a história e os fatos para criar a ficção política da unidade da sociedade civil contra o Estado e transformar junho de 2013 num mito fascista, que esconde o processo de degeneração da luta anticapitalista em uma revolta na-e-para-a ordem.

Aquelas frações do sindicalismo revolucionário que estiveram na gênese do fascismo italiano e francês do século passado evidentemente Ainda não sabiam que eram fascistas, até que o fascismo ganhasse uma identidade e dimensão política e histórica. Será se a mesma questão caberia a Pablo Ortellado? Não saberia ele o conteúdo do seu projeto político? Definitivamente não. Ao leitor talvez seja uma surpresa, mas a obra cujo conteúdo tem servido de referência para esta análise, Labirintos do Fascismo, tem na sua primeira edição – a única edição impressa – um agradecimento do autor a Pablo Ortellado. Ironia do destino? O fato é que Ortellado conhece razoavelmente bem a obra de João Bernardo e possui inteligência privilegiada para compreendê-la corretamente. Que cada um tire suas conclusões. Quanto a mim, já que o momento é de luta por moralidade, resta como dever e obrigação ética de quem teve a oportunidade de se dedicar a estudos e de acumular algum conhecimento da prática, de apontar as armadilhas quando elas aparecem à minha classe – a que tem que vender sua força de trabalho para sobreviver. Quanto mais quando essas armadilhas partem de correntes e pessoas com quem compartilhei caminhos e experiências políticas na esquerda.

O que não fazer

Quando divulguei em 2005 o relato da revolta contra o aumento da tarifa de ônibus daquele ano aos companheiros e companheiras do MPL de Florianópolis, do qual reproduzi o parágrafo final no início deste artigo, alguns não o receberam inicialmente muito bem. Ele continha uma autocrítica aberta a nossa atuação enquanto MPL naquela luta que revogou o aumento da tarifa. Fiz questão de iniciar este artigo com aquela autocitação. Para além de atualizar a história a partir daquele ponto final, ela era o ponto inicial de uma nova autocrítica. Não uma autocrítica individual, mas uma crítica do campo político e de práticas na esquerda à qual me identifico, à qual estive ligado e ainda estou ligado de alguma forma. Talvez seja influência ainda da capacidade e prática de autocrítica pública do Reclaim The Streets – movimento britânico dos anos 1990 – , que era inspiradora e demonstrava um espírito libertário e uma saúde que eram o oposto do fechamento dogmático e identitário. Como a esquerda autônoma e anticapitalista da qual eu fiz ou ainda faço parte pode ficar sem desenvolver uma autocrítica que vá além de questões pontuais? Que seja uma autocrítica do processo da última década ou duas e que nos fez chegar até aqui, um momento de tamanho retrocesso de direitos e de hegemonia da direita como uma geração não havia visto? Como essa esquerda que alcançou um protagonismo naquele ano de 2013 se coloca fora dos desenvolvimentos posteriores esperando que uma autocrítica seja feita apenas pelo PT?

Ora, pelo que vimos até aqui a chave para uma autocrítica pode ser encontrada seguindo um caminho semelhante ao de compreender quais os mecanismos da dissolução ou derrota de um movimento anticapitalista levam ou contribuem à ascensão do fascismo.

Quando se diz que em 1920 os trabalhadores na Itália ultrapassaram a direção do PSI e dos sindicatos ocupando as fábricas, se quer dizer que os trabalhadores saíram de uma posição passiva e através da sua auto-organização foram mais longe em mobilização e na radicalidade de suas lutas do que a prática dos sindicatos e partidos. Em suma, a atividade autônoma dos trabalhadores rompeu o controle das burocracias. Essas lutas ativas e coletivas da classe trabalhadora serviram por fim ao fascismo, de um modo que só pudemos apresentar aqui muito resumidamente[22].

Pulamos então para 2018, Brasil. Caminhoneiros autônomos há algum tempo têm sentido sua perda de liberdade na atividade de trabalho devido aos monitoramentos remotos de empresas contratantes, com estipulação estrita de itinerários (procedimentos e tempos). Com a agenda que assumiu o poder em 2016, se viram fortemente pressionados em seus rendimentos devido à política de preços de combustíveis do governo, completando um quadro típico de proletarização (padronização e quantificação do trabalho) de profissionais autônomos ou liberais. Alguns dias antes do dia anunciado de paralisação pela CNTA (sindicato da categoria – Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos) já havia notícias circulando de que algumas paralisações já ocorriam. O que vimos naquelas semanas foi os trabalhadores antecipando e ultrapassando o sindicato[23]. A negociação feita entre os dirigentes sindicais e o governo foi rejeitada e ignorada pelos caminhoneiros, que continuaram paralisados. Diferentemente de outras lutas coletivas e ativas – lembro nessa hora da Revolta do Buzu –, as direções de entidades representativas não conseguiram desmobilizar e encerrar a luta negociando em nome da classe. Fato que demonstra um elevado nível de auto-organização dos caminhoneiros autônomos nessa luta. Ultrapassaram os sindicatos da categoria. Mas diversos fatores – dentre eles uma certa ambiguidade na localização dessa categoria nas relações de produção e uma relativa alta circulação entre esses trabalhadores de referências políticas conservadoras ou reacionárias – levaram a esquerda a um fundamentado receio de que tal mobilização poderia ser o ingrediente popular ou proletário que faltava para dar vida a um movimento de massa de características fascistas.

Ora, se, por um lado, o rompimento com a passividade e com as burocracias sindicais, estudantis e outras é condição para o avanço da classe trabalhadora e para a própria criação de relações sociais que superem a sociedade de classes, por outro lado, a não passividade e mobilização social é elemento fundamental do fascismo também. Estamos então condenados a aquiescermos às burocracias sindicais e partidárias no seu latente temor de que os trabalhadores se auto-organizem e ajam sem ou para além do controle e direção delas? Definitivamente não. Até porque, se concordarmos com Bakunin, a revolta é uma das condições do desenvolvimento coletivo e individual[24]. Se a esquerda não conseguir ou não souber canalizar a necessidade humana de se revoltar, contra a ordem, será com ajuda da direita que será canalizada, a favor da ordem. Depois de anos com a esquerda sendo associada a governos – ao status quo – e ao politicamente correto, não é difícil entender como uma figura como Bolsonaro se tornou ícone antissistema ou candidato contracultural, e por que grupos ultraneoliberais e conservadores como o MBL conseguiram ter inserção na juventude.

A questão, portanto, não é se render a um paradigma burocrático e a um projeto de governo de “esquerda” para não se correr o risco de recuperação fascista. A questão é entender cada vez mais as condições em que essa recuperação é possível ou mais provável, os instrumentos e meios através dos quais essa recuperação se dá. O papel que tem tido os grandes meios de comunicação, por exemplo, de ressignificar e alterar os objetivos e resultados de mobilizações populares. Nas mobilizações em torno do assassinato de Marielle Franco, que uniu toda a esquerda, pudemos ver que a incapacidade de impedir que suas mobilizações fossem ressignificadas e recuperadas não é apenas do MPL, mas da esquerda como um todo. Com receio de que elas se tornassem manifestações multitudinárias a grande imprensa logo procurou ressignificá-las e utilizá-las para reforçar a opinião pública em favor da própria intervenção militar à qual Marielle e a esquerda se opunham.

No fim das contas, na luta de classes é preciso ter clareza dos processos de recuperação e das armas que ambos os lados possuem, sem ilusões. Não apenas para buscar a vitória, mas para prever e escolher a forma que se será derrotado e as possíveis consequências da derrota.

Notas:

[1] Vinicius, Leo. A Guerra da Tarifa 2005: uma visão de dentro do Movimento Passe-Livre Floripa. São Paulo: Faísca, 2005, p.70.

[2] Essas circunstâncias estão explicitadas aqui.

[3] Famílias fazem ocupações em série em terrenos no extremo sul de São Paulo.

[4] Para gari escritor, protestos de 2013 inspiraram greve.

[5] Ela afirma que os black blocs não podem ser anarquistas porque eles atacariam pessoas e não apenas coisas. Estranha definição de anarquista e fascista. Desconhece ela que muitos anarquistas já atacaram pessoas, inclusive as matando? Foram uma minoria na história do anarquismo, mas eram anarquistas. Que ideia ela tem sobre fascismo para definir alguém como fascista por entrar em confronto ou se defender do aparelho repressivo estatal? “Black blocs” agem com inspiração fascista, diz filósofa a PMs.

[6] Veja aqui o relato do Amauri Gonzo a partir dos 58 minutos.

[7] Labirintos do Fascismo, p. 283, terceira edição.

[8] Alguma semelhança histórica no processo de apropriação de um modelo: “Em Março de 1919, antes de se ter iniciado o grande movimento de ocupações, os operários de uma empresa metalúrgica situada em Dalmine, perto de Bérgamo, entraram em greve e, desafiando o lock-out patronal, fecharam-se dentro do estabelecimento e continuaram a produzir, com o argumento de que estavam a servir a economia do país. A bandeira nacional que hastearam na fábrica ilustrava-lhes os propósitos patrióticos. Enquanto as ocupações fabris que haveriam de se iniciar cinco meses mais tarde pretenderam subverter o fundamento da ordem capitalista, alterando as relações sociais de trabalho, a greve em Dalmine propôs-se reforçar a ordem reinante, ou não fosse ela organizada pela UIL, uma central sindical fundada no ano anterior por pessoas que participaram na génese do fascismo. Aqui a hostilidade ao patrão não se projectava numa luta contra a globalidade dos capitalistas, mas, pelo contrário, servia de pretexto para promover a conciliação de classes a nível naciona.l […] Assim, quando os fascistas viram chegado o momento de recuperar em seu proveito o surto revolucionário das ocupações, dispunham já do modelo que lhes havia sido fornecido em Dalmine”. (João Bernardo, Labirintos do Fascismo, terceira edição, pp.32-33)

[9] João Bernardo, Labirintos do Fascismo, terceira edição, p.23.

[10] “De 1928 até Fevereiro de 1933 a propaganda nacional-socialista ajudou a levar este processo ao seu termo, sabendo que contava com o apoio de muitos trabalhadores ao denunciar a burocracia sindical, não para restabelecer o poder dos conselhos, mas para acabar com os próprios sindicatos. Compreendemos assim a lógica de um processo que, começando pelo desejo de emancipar os trabalhadores da disciplina vigente nas empresas, abriu o caminho ao poder discricionário dos patrões”. (João Bernardo, Labirintos do Fascismo, terceira edição, p.41)

[11] Labirintos do Fascismo, terceira edição, p.259.

[12] A divulgação de conversa telefônica entre a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, pelo juiz Sergio Moro, e com trabalho em tempo recorde da Polícia Federal, foi provavelmente o exemplo mais ilustrativo do ponto que poderia chegar o engajamento político do Judiciário e outras corporações do Estado para tirar o PT do governo sem eleições.

[13] Sobre o antiesquerdismo ou anticomunismo como falsa consciência ou defesa psíquica de classes médias proletarizadas ou em vias de proletarização, ver: João Bernardo, Labirintos do Fascismo, terceira edição, pp.212-214 e pp.303-304.

[14] João Bernardo, Labirintos do Fascismo, terceira edição, p.287.

[15] Maurice Bardèche, um teórico do fascismo no pós-guerra definiu sinteticamente o fascismo como “o partido da nação em cólera”.

[16] João Bernardo, Labirintos do Fascismo, terceira edição, p.23.

[17] Legados de junho: como o levante da sociedade civil contra o estado virou briga entre “coxinhas” e “petralhas”.

[18] Mais nitidamente desde 2015, Pablo Ortellado tem se esforçado para criar algumas ficções. Tem sido o ideólogo da polarização simétrica. Ao contrário de intelectuais norte-americanos que tem descrito como uma “polarização assimétrica” o fenômeno de uma extrema-direita em oposição virulenta ao centro ou à centro-esquerda, corporificados no Tea Party e em Obama, Ortellado trata como uma polarização simétrica uma direita brasileira cada vez mais extrema e a social-democracia leve (centro e centro-esquerda) representada pelo PT. O esforço tem sido grande para equiparar os dois lados, mas não cabe aqui dar exemplos. Ora, se a social-democracia é apontada como pólo extremo, o efeito disso é empurrar o espectro político mais para a direita, encontrando o “equilíbrio” ou o “ponto de sensatez” e consenso em algum lugar entre a direita e o centro, ou entre a direita e a centro-esquerda. Até mesmo seus surveys realizados em manifestações da direita e da esquerda servem a esse propósito. Não cabe aqui fazer uma crítica metodológica dos mesmos, mas a manipulação política mais evidente está no fato de as perguntas para aderentes das manifestações da direita e da esquerda serem assimétricas, de modo que no resultado aparente haver uma simetria entre ambos aderentes. Fora isso, ele confunde nas análises dos resultados opiniões com motivações, não relaciona opinião sobre um tema na escala de valores da pessoa e em quais condições ela de fato se mobilizaria por aquele tema, se é que o faria. Além disso, nessas análises está embutido um paradigma de indivíduo no qual o sujeito é totalmente racional e transparente. Se ele fizesse esses surveys numa manifestação fascista na Itália em 1930 iria concluir que os aderentes eram de esquerda, ou potencialmente de esquerda pois responderiam a favor de direitos trabalhistas e sociais quando perguntados. O que não é formalmente errado, mas serviria para esconder o principal, o fascismo debaixo do nariz, que não se detecta por surveys. Certa vez, conversando com um amigo que é militante do PT ele afirmou que a maioria da população apoiava o Lula. Essa era a conclusão dele a partir das pesquisas eleitorais. Respondi a ele que não, além de Lula só ter cerca de um terço dos votos, as pesquisas diziam em quem o eleitor votaria, o que é muito diferente de apoiar Lula ou se mobilizar por ele. A enorme maioria da população não se mobilizaria por político nenhum, e não precisa fazer pesquisa para isso. Basta estar vivo. A questão é que Pablo Ortellado faz equívoco do tipo, só que pretendendo status de ciência. Os erros metodológicos são grosseiros e não seriam explicáveis em alguém tão preparado intelectualmente a não ser por conveniência política. De fato ele não é “isentão”, como muitos o chamam e ele desgosta. Ele tem posição, e tenta se equilibrar nela e manter ao mesmo tempo um pé na esquerda. E pela sua exposição pública afirmo sem receios que é o principal intelectual do fascismo no Brasil. Não fascismo como caricatura, mas fascismo no sentido profundo, como resultado político de uma determinada dinâmica social e de circulação de significações e formas de ação entre esquerda e direita. Seu esforço como ideólogo da “polarização simétrica” fazendo uso de “pesquisas” fica mais claro através da crítica metodológica que Renato Rovai realizou da sua pesquisa sobre fakenews e da análise metodológica e política que Luis Nassif fez dessa mesma pesquisa. Nessas críticas fica mais do que explícito como Pablo Ortellado utiliza pressupostos assimétricos na direita e na social-democracia para concluir uma simetria entre os lados. Tudo isso para construir uma ficção política e mitos. Com qual propósito? Aqui a crítica de Rovai; e aqui a de Nassif.

[19] Foi assim também no fascismo: “O fascismo, enquanto caso extremo de conjugação de classes antagónicas, requeria forças capazes de contrariar as inevitáveis tendências centrífugas. Para isso recorreu à guerra, experiência de coesão entre pessoas dos mais variados grupos sociais perante um inimigo tido como comum” (João Bernardo, Labirintos do Fascismo, terceira edição, p.252)

[20] Como nesse artigo, assinado pelo coletivo passa Palavra, no qual participavam militantes do MPL: 20 de junho: a Revolta dos Coxinhas.

[21] Comandante-geral da PM pede protesto contra mensalão. E ver também a já mencionada memória que escrevi: Escrito em 5 de julho de 2013: relembrando junho.

[22] Conferir em: João Bernardo, Labirintos do Fascismo, terceira edição, pp. 27-38.

[23] Devo essas e outras informações sobre a greve dos caminhoneiros a um debate que assisti com Larissa Jacheta Riberti, que trabalha no portal para caminhoneiros Chico da Boleia, e com Francine Rebelo, que exerceu a profissão de caminhoneira. Uma entrevista com elas pode ser lida aqui.

[24] A revolta para Bakunin é um instinto de vida. Segundo ele, poder-se-ia dizer, de forma geral, que “a energia vital e a dignidade comparativa de todo animal se compara à intensidade do instinto de revolta que ele traz em si” (Mikhail Bakunin. Escritos contra Marx. São Paulo: Imaginário, 2001, p. 89). A revolta estaria entre os três princípios fundamentais que constituiriam na história as condições de todo desenvolvimento humano, coletivo ou individual: a animalidade humana, correspondente à economia social e privada; o pensamento, correspondente à ciência; a revolta, correspondente à liberdade. Os homens, mais do que os outros animais, seriam dotados de duas faculdades preciosas: “a faculdade de pensar e a necessidade de se revoltar” (Mikhail Bakunin, Deus e o Estado. São Paulo: Imaginário, 2001, p.15, grifo meu).

4 COMENTÁRIOS

  1. acho que o texto acerta muito nos aspectos formais que vão alimentando um possível movimento fascista brasileiro; parece que temos vários aspectos potentes já em jogo mas não tanta organicidade entre eles. No caso aqui tratado, algumas das formas de “transação” entre esquerda e direita são bem analisadas.

    Mas se de ir além do “mito” se trata, ultrapassemos também a mitologia petista. Esboçar um parágrafo sobre os efeitos de Junho2013 nas greves do mesmo ano é continuar com os olhos tapados para a curva de greves que vem de antes. Segundo dados do dieese, de 2002 a 2007 tivemos um período glorioso de “pax” lulista, seguido de um aumento não tão expressivo mas consolidado de greves a partir da crise de 2008 até 2011 – ano em que o número chega a ultrapassar por muito pouco mas ultrapassar o ano 2000, e então seguindo a tendência de alça, 2012 tem um número de greves que o país não tinha visto desde 1996. Por fim, 2013 e 2016 são os anos com maior número de greves da Nova República, ultrapassando por pouco 1989.
    https://www.dieese.org.br/balancodasgreves/2013/estPesq79balancogreves2013.html
    https://www.dieese.org.br/balancodasgreves/2016/estPesq84balancogreves2016.html
    – O detalhe aqui é que o DIEESE demorou mais de 2 anos para publicar os resultados sobre 2013, quando em geral o fazia ou no mesmo ano ou no ano seguinte ao analisado, contribuindo assim para que se instalasse uma mitologia petista a respeito de Junho 2013 que nada tivesse a ver com a economia do país e os conflitos de classe. Assim fica fácil pensar que tudo girou em torno à práticas de um setor minúsculo da extrema-esquerda e uma manipulação maliciosa da midia corporativa e posteriormente de grupos de internet da nova direita.

    Pessoalmente, estou de acordo com aqueles que enxergam uma sobre-estimação do MPL em algumas análises publicadas neste site, como se o fenômeno Junho2013 respondesse à prática deste pequeno grupo. Acho que parte de autocrítica da esquerda autônoma passa primeiro por separar bem o que foi faísca do que foi a gasolina na casa. Em segundo lugar, por mais que o MPL tenha cumprido um papel importante na reorganização das expressões autônomas no país, acho que uma autocrítica histórica deveria se focar em pensar o que ocorreu nos anos 90 para que chegados os 2000 as forças organizativas autônomas fossem tão magras a ponto de ter que arvorar-se num movimento pouco orgânico e de pauta única como o foi o Passe Livre. O que ocorreu com os lugares de trabalho, estudo e moradia? Por sorte este movimento parece estar se revertendo, e como o autor mesmo o indica, a partir das ocupações das escolas pelos país (e da greve geral de 2017), os e as ativistas do campo autonomista parecem estar voltando a dar centralidade a estes espaços.
    Agora, se o setor do autonomismo que necessita uma ducha de autocrítica é aquele que claramente já não tem interesse na luta de classes, acho que o que nós precisamos é de uma boa reorganização de nossas caracterizações sobre o “nós” e o “eles”, e neste sentido é que o rótulo “autonomismo” as vezes mais atrapalha do que ajuda.

  2. Em julho de 2013 analisei o Boletim de Greves 2012 do DIEESE: https://www.academia.edu/11660175/Anota%C3%A7%C3%B5es_para_uma_conversa_com_o_Centro_de_Estudos_Victor_Meyer_em_9_de_julho_de_2013

    A chave para o “maior número de greves na Nova República” é simples, e se explica pela tendência do ano anterior. Trata-se de mudança de tática, com aumento das greves de metalúrgicos no Sudeste realizadas não mais por categoria territorializada, mas por empresa. Em suma: o número aumentou porque o que seria, digamos, uma greve municipal, estadual ou nacional transformou-se em várias.

    Não faço nenhum julgamento sobre esta mudança. Minto: para falar a verdade, a greve por empresa pode ser mais interessante que a greve por categoria. Mas enfim, só quis deixar registrada esta tendência.

  3. Manolo, seu comentário me chamou a atenção para confiar menos cegamente na metodologia do DIEESE. Existirá publicada alguma crítica interessante?

    MAS de todas formas, dei uma pesquisa sobre o ponto que você menciona, e me parece que ele não procede.
    Vejamos, no balanço de 2008 já está dito, “Aproximadamente 90% das greves na indústria ocorreram no âmbito das empresas.”, sendo metade destas deflagradas pelos metalúrgicos. (https://www.dieese.org.br/balancodasgreves/2008/estPesq45balancoGreves2008.html); no balance de 2009/2010, diz:
    “Em 2009, das greves na indústria no setor privado, 84% ocorreram no âmbito das empresas e 16% no âmbito das categorias. Em 2010, as greves deflagradas no âmbito das empresas cresceram proporcionalmente ainda mais, chegando a 95%, enquanto as greves de categoria caíram para 5%.” (https://www.dieese.org.br/balancodasgreves/2010/estPesq60balGreves20092010.pdf)

    Em 2013 para a indústria privada a porcentagem é praticamente a mesma (94% de greves por empresa), em 2016 o balanço não desglosa a tabela da esfera privada por setor, mas dá um porcentagem de 90% para greves por empresa (podemos supor que na indústria é mais alto pois em serviços era mais baixo).

    Frente a estes dados desde 2008 não me parece ser possível identificar o aumento do número de greves a partir de 2011 apenas por uma mudança de tática – que está mencionada nas considerações do balanço de 2012 mas que quando comparada com os dados dos anos anteriores não salta à vista como uma novidade particular. Se eu tivesse que arriscar, os balanços parecem indicar um aumento consolidado do setor de serviços nas greves, além de uma mudança sensível de “greves propositivas” para “greves defensivas”. Ou seja, tem gente nova fazendo greve, e estão fazendo greve porque o bagulho tá ficando feio desde 2011.

  4. O problema não é a metodologia do DIEESE, como questionado (com certa razão) por Lucas. É que o tipo de greve de um ano não é o tipo de greve de outro. A conjuntura muda, as formas de luta também. Às vezes algumas condições se repetem, outras não.

    Contrariamente ao que eu disse, os dados copiados dos balanços por Lucas demonstram a preponderância de greves por empresa, com flutuações sazonais. No momento não terei tempo de percorrer novamente relatórios que li há muitos anos. Lembro de cabeça que foram 411 greves em 2008, 518 em 2009, 446 em 2010, 554 em 2011, 873 em 2012, 2.050 em 2013, depois um hiato nos balanços do DIEESE entre 2014 e 2015 e, fechando a série, 2.093 greves em 2016. Não teria como, por exemplo, analisar que setor puxou as greves (público? privado?), se houve a fragmentação de greves amplas em greves por empresa, nada disso. O hiato 2014-2015, por sinal dois anos de recessão econômica, é inexplicável. Impede, por exemplo, comparações diretas entre as greves de 2013 e as de 2016. Não nos deixa saber se a cifra de greves se manteve na casa das 2 mil e poucas por ano durante a recessão, se diminuiu, se aumentou. Registro, entretanto, que se o relatório 2013 demorou 2 anos a sair, o relatório 2009 demorou três e saiu junto com o relatório 2010. Não sei o que acontece no DIEESE para estes dois balanços cruciais semorarem tanto a ser publicados, mas ele nos deve essa.

    Mas passando o olho pelo balanço de 2013, vejo uma preponderância de greves curtas. É um retorno à tendência histórica (greves curtas sempre foram a regra). De igual maneira, notei também no relatório 2013 um aumento das greves de advertência e uma redução na média de trabalhadores por greve, sugerindo um cenário de proliferação de greves de advertência em pequenas empresas.

    No que diz respeito à situação econômica, o Passa Palavra está publicando uma série que escrevi sobre o fascismo “à brasileira” que traz algumas indicações sobre o assunto. Vale a pena cruzar as informações depois.

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