Por uma activista do GAP

 

Uma activista portuguesa que pertence ao Grupo de Acção pela Palestina, grupo informal de activistas sediado na cidade do Porto, está em viagem de solidariedade na Palestina. Começamos aqui a publicação do diário desta viagem.

Primeiro dia

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A minha chegada no dia 8 ao aeroporto de Ben Gurion e a passagem pela polícia das fronteiras fez-se sem problemas, o que não foi o caso de muitos outros activistas que foram ora impedidos de saírem dos aeroportos de origem, ora deportados na chegada a Telavive. O meu voo vinha de Zurique e encontrei companheiros belgas, um grupo de cerca de 25 pessoas, entre as quais apenas passaram 3.

Curiosamente, as perguntas que me foram feitas eram tão gerais que não tive que mentir sobre os objectivos da minha estadia, pois desde o início que a ideia era ir para a Palestina e não ser detida logo à chegada.

Perguntaram-me o que vinha fazer a Israel, onde ia, se conhecia alguém e que nomes tinham. Depois de passar este breve interrogatório, ao que respondi que vinha em visita, que tinha amigos e cujos nomes dei ao polícia, fizeram-me seguir, passei por um grupo de jovens raparigas que me ofertaram uma rosa e indicaram-me o caminho para a saída.

Permaneci bastante tempo à espera dos outros companheiros, terá sido provavelmente mais do que uma hora e já estava a desesperar quando de súbito fui assaltada por uma série de jornalistas que me viram ali parada e começaram a questionar-me. Ao início respondi com alguma prudência, mas depois vendo que os companheiros não saíam, respondi mais assertivamente às questões relativas à missão. Os jornalistas estavam nitidamente à espera de algo muito importante, uma grande manifestação e muito mais, posto que vários meios de comunicação relatando as palavras dos dirigentes israelitas falaram em perigos de imolação, em hooligans, etc.

Finalmente, 3 companheiros belgas que conheci no avião saíram e disseram que todos os outros tinham sido levados para uma sala à parte para serem interrogados. Sabemos que estão presos em Israel.

Entretanto, tinha havido uma grande manifestação de israelitas anarquistas para nos acolher na parte da manhã, que foram igualmente presos.

Um contacto discreto da missão chegou finalmente e reunimo-nos todos com ela no café do aeroporto à espera de mais alguém. Chegaram mais 3 activistas franceses que também viram os seus companheiros presos e outros impedidos no aeroporto francês de Charles de Gaulle.

Parece que uma simples ida de pessoas à Palestina de forma abertamente assumida assusta as autoridades e leva-as a tomarem as devidas medidas junto dos outros países, para impedir as pessoas de se deslocarem à Palestina. Com efeito, nenhum dos activistas que passou disse que vinha para a Palestina mas apenas disseram ser turistas, que vinham visitar Belém, Jerusalém e Telavive.

Esperámos até às 19 horas e vendo que não chegava mais ninguém partimos para Belém, onde chegámos estafados e tristes pelo sucedido.

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Segundo dia

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O apelo da sociedade civil palestina aos povos do mundo foi feito no sentido de não nos calarmos sobre as injustiças cometidas neste canto do mundo, de não pactuarmos com o silenciamento sistemático do sofrimento e isolamento de um povo, assim como pelo desrespeito quotidiano, tanto dos direitos humanos como das decisões internacionais. Apesar do muro ter sido condenado, continua a ser construído.

A estratégia parece ser a de levar o povo palestino ao desgaste. A vida do quotidiano é imprevisível, é sempre uma vida adiada. Este apelo é apartidário e pacífico, é um apelo à resistência popular a que @s [email protected] já estão [email protected], mas é uma resistência popular internacional que está a ser solicitada. Este dia foi de «comemoração» para a Palestina pois, em 2005, o Tribunal Internacional de Haia declarou a ilegalidade do muro e dos colonatos. Pode parecer estranho falar-se em comemoração, posto que, perante as resoluções e decisões legais, o que se comemora é precisamente aquilo que a comunidade internacional é incapaz de fazer: que os sucessivos governos de Israel as cumpram.

Foi programada uma série de manifestações. Tivemos um pequeno breefing antes de partir com todos os activistas do nosso grupo, uma dezena de estrangeiros que conseguiram passar no aeroporto, outros activistas e voluntários estrangeiros já presentes em Belém e Mazin, com o mentor desta iniciativa da sociedade civil, onde nos foram explicados os riscos e as medidas a tomar. Quase todos os activistas se manifestaram no sentido de participar, sendo que alguns iriam participar à distância. Estávamos a pensar ir a duas manifestações, uma no Checkpoint de Qalandiya, entre Ramallah e Jerusalém, e outra em Ba’lin (Bi’lin). Estas foram as informações oficiais porque, após um longo trajecto até Ba’lin, onde nos encontrámos com mais cerca de trinta activistas estrangeiros e palestinos, o destino foi outro: An Nabi-Salih, uma aldeia isolada que fica a cerca de 15 km de Ba’lin.

O caminho foi bastante longo por pequenas estradas numa paisagem lunar… pedras e pó. Muito perto de An Nabi-Salih, tivemos que parar o autocarro [ônibus] porque avistámos soldados a impedir a passagem para a aldeia. Saímos com as nossas bandeiras e começámos a marchar em direcção aos soldados, para manifestar a nossa indignação por não nos deixarem passar. A uma pequena distância dos soldados, os confrontos começaram, pois, apesar de nos manifestarmos pacificamente com a intenção de nos dirigirmos a Nabi-Salih com bandeiras, ao som de «Free Free Palestine», muito rapidamente os soldados dispararam gases e bombas de ruído para, por várias vezes, nos impedirem de passar para Nabi-Saleh. A sensação do gás foi terrível, pois parecia que estávamos a sufocar e caminhávamos quase a titubear com o rosto e os olhos a arder, enquanto as granadas de ruído nos ensurdeciam. Tivemos que desistir sem conseguir passar. Ficámos com o desespero de seres humanos minúsculos, injustiçados e impotentes.

Regressámos ao autocarro que nos transportou para, ao virar a esquina, encontrarmos mais uns camiões [caminhões] de soldados na estrada. Ficámos um tempo parados, esperando as ordens dos soldados para poder seguir. Esperámos uns minutos e finalmente deixaram-nos passar.

Da parte da tarde, fomos cortar a rede colocada no local para futura continuação da construção do muro. Perto de Ramallah, tivemos que actuar rapidamente e preparar-nos para correr no caso de uma intervenção dos soldados. O acto foi simbólico, pois entrámos num espaço de «no man’s land». A rede foi cortada e uma bandeira palestina colocada.

Estas pequenas acções de resistência pacífica simbólicas são o quotidiano dos palestinos. Parecem-se estranhamente com actos desesperados e sentimos no povo uma imensa tristeza.

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GAP, Grupo de Acção pela Palestinahttp://grupoaccaopalestina.blogspot.com/

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