Linha Vermelha coloca-nos tudo em dúvida, o que é a verdade e o que é recriado. Por R. Delgado


Linha Vermelha é um documentário de José Filipe Costa, que venceu o concurso nacional do IndieLisboa 2011 e que está agora em exibição em Lisboa [1].

Nesse documentário o realizador pretende analisar o filme Torrebela, realizado [dirigido] pelo alemão Thomas Harlan [2] no verão quente 1975, na sequência do “25 de Abril”.

Torre Bela era uma propriedade agrícola com mais de mil e quinhentos hectares, pertencente ao Duque de Lafões, que estava ao abandono e que foi ocupada por trabalhadores rurais sem terra e sem trabalho e outros, e transformada numa Cooperativa Agrícola com o apoio do MFA (Movimento das Forças Armadas). Em Maio de 1976 a Torre Bela foi expropriada por proposta do IRA (Instituto de Reorganização Agrária) e a ocupação legalizada. Um ano depois extingue-se por desmotivação dos cooperantes, como tantas outras ocupações nascidas com a força da renovação que o 25 de Abril trouxe e a enorme esperança de mudança na população.

A ocupação teve a duração de 572 dias. Em 1985 a Quinta da Torre Bela foi devolvida aos antigos proprietários, que a venderam à SOPORCEL para plantio de eucaliptos.

Thomas Harlan filmou os acontecimentos na altura da ocupação (foram cerca de 100 dias de rodagem, de Abril até Agosto de 1975), e Torre Bela é um dos mais emblemáticos documentários feitos no imediato pós-25 de Abril. Em todo o filme destaca-se a figura do ocupante Wilson Filipe, enquanto líder do movimento. Ele fala aos ocupantes em assembleia, por megafone, ele explica o que é uma cooperativa, etc. O filme termina com a ocupação da casa do Duque e a sua transformação para proveito dos cooperantes. Essas cenas do filme são o culminar de todo o processo. Os ocupantes rebentam portas e vêem pela primeira vez os objectos de luxo da casa, sentam-se nas cadeiras, vestem roupas, observam os objectos e comentam. Algumas das cenas lembram a ceia dos mendigos do filme de Buñuel, Viridiana.

As imagens de Torre Bela ficaram para a posteridade como a verdade daquela ocupação, mais do que isso, como o exemplo vivo de uma ocupação no pós-25 de Abril, mostrando as reuniões com todos os ocupantes para as tomadas de decisão, a participação de todos na condução dos trabalhos, o papel decisivo das mulheres e a sua emancipação, a aprendizagem através da prática colectiva, a organização das tarefas correntes, etc. Mostra ainda como trabalhadores rurais, que sempre tinham vivido sob um regime de opressão, são capazes de se auto-organizarem e autogerirem.

O documentário de J. F. Costa, Linha Vermelha, é uma investigação sobre o processo de filmagem usado por T. Harlan e ainda sobre a situação actual de alguns, os principais, intervenientes da ocupação, nomeadamente o Wilson Filipe. Ao longo do documentário são recordadas as cenas mais emblemáticas do filme Torre Bela, ao mesmo tempo que seguem as entrevistas e cenas da actualidade. Através de entrevistas ao realizador [director] de Torre Bela, de quem nunca se chega a ver a imagem, somente a sua voz, e já muito doente (morre em 2010) e aos principais intervenientes da ocupação, interroga-se sobre o poder da imagem, e sobre o que é a verdade dos acontecimentos e o que é construção. E isto é conseguido não só pelo que dizem os que viveram a ocupação, mas também pelo que pensam os mais novos, filmando uma aula de história de alunos adolescentes, onde cada um dá a sua opinião sobre a ocupação, ou entrevistando uma jovem cuja avó foi ocupante.

Assim, o cineasta consegue mostrar que foi manipulado o espaço e o tempo para fazer passar uma mensagem política. Por exemplo, a ideia de ocupar a casa do duque veio directamente da decisão do colectivo dos ocupantes ou veio do realizador para poder terminar o seu filme de forma épica? [3] Linha Vermelha coloca-nos tudo em dúvida, o que é a verdade e o que é recriado. O que é autêntico e o que é posto em movimento para se poder construir um bom filme, com uma boa sequência e um final como um culminar de um processo. Onde ficou a verdade e onde começa a ficção? Mas mostra ainda a força do cinema para distorcer a verdade ou fazer passar uma ideia.

Notas

[1] Trata-se de um filme-tese de doutoramento apresentado pelo realizador na Royal College Art.

[2] Thomas Harlan, alemão, que veio para Portugal para filmar a Revolução de Abril, era filho de Veit Harlan, que fora cineasta do regime nazi. Veit Harlan foi o realizador [director] do filme Jude Süss [O Judeu Süss], que serviu para iniciar a fase letal da campanha anti-semita. A vinda de Thomas Harlan para Portugal, naquela altura, é vista como uma tentativa de limpar o nome da família.

[3] J. F. Costa diz numa entrevista à Time Out Lisboa (de 11 a 17 de Abril 2012): “É que a presença da equipa ali foi inerente ao processo, foi mesmo uma força motriz dos acontecimentos. A história real, claro, vai muito além do documentário, só que de repente a história é o que o filme mostra, é o que ficou para a posteridade.”

1 COMENTÁRIO

  1. Acho que a discussão do filme “Linha vermelha” (LV) neste texto parte do pressuposto seguinte: «o cineasta consegue mostrar que foi manipulado o espaço e o tempo para fazer passar uma mensagem política». Admito perfeitamente que, por exemplo, a ideia de ocupação da casa do duque de Lafões possa ter vindo do Harlan na altura. Creio, contudo, que o pressuposto a que aludi é um tanto ou quanto ingénuo. Não há acção social sem transformação. Para um lado ou para o outro. Esse pressuposto lembra-me sempre um dos argumentos que o político português direitista Pacheco Pereira mais usa para criticar o “comunismo”: ser uma operação de engenharia social. O que vou dizer pode parecer demasiado escandaloso, mas não há sociedade sem “engenharia social”.

    Ora, quando se fala neste texto no uso do «espaço e o tempo para fazer passar uma mensagem política» acho o argumento de uma imensa ingenuidade. Que eu saiba, a classe trabalhadora sempre que se mobilizou manipulou (e bem e ainda bem) o espaço e o tempo para passar uma mensagem política e para tentar construir novas relações sociais. O que na direita é horror pela transformação da matéria bruta da sociedade (e que chamam depreciativamente de engenharia social) é para certa esquerda uma ingenuidade pensar que os movimentos sociais e as mobilizações da classe trabalhadora apenas servem para pressionar o poder ou para reivindicar seja o que for. Efectivamente, toda a acção colectiva da classe trabalhadora está virada (ou deveria estar) contra os mecanismos da exploração capitalista o que implica manipular palavras, símbolos e, claro está, acima de tudo, as relações sociais.

    Por conseguinte, se é verdade que o autor deste texto identificou mto correctamente o pressuposto de base do filme “Linha Vermelha”, tb não deixa de ser verdade que a aceitação desse pressuposto constitui uma forma de deixar intactas as relações de exploração, pois alinha na tese da intocabilidade das relações sociais. Pena foi que não se tivesse discutido o filme do Harlan a partir da relação entre a vanguarda e as massas no contexto da ocupação. Claro que essa relação está ali subentendida, mas sempre na perspectiva da manipulação político-simbólica do Harlan relativamente às massas esquecendo que o dinamismo ou a inércia social e política dependem sempre das massas. Recorrendo ao mesmo exemplo que dei acima, se o Harlan “manipulou” a ocupação da casa do duque é porque, das duas uma, as massas concordavam com esse processo, ou porque o dinamismo inerente à mobilização colectiva já se estaria a desvanecer e a vanguarda (personificada aqui no Harlan) já teria poder decisório independente sobre essas mesmas massas. A meu ver, isto teria sido mto mais interessante e relevante do que a tese um tanto ou quanto pós-moderna do José Filipe Costa.

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