Na Segunda Guerra Mundial, ambas as frentes, tanto a democrática quanto a fascista, estão suscetíveis de serem derrotadas – uma militarmente, a outra economicamente. Por Otto Rühle
Comunista de esquerda alemão, Otto Rühle (1874-1943) [1] escreveu este artigo em 1940, durante seu exílio no México. Publicado pela primeira vez na revista estadunidense editada por Paul Mattick, Living Marxism (v. 5, n. 2, outono de 1940), “Which side to take?” é agora publicado em português, traduzido coletivamente pela Resistência Autonomista (RA) e revisado pelo Passa Palavra como parte do esforço de traduções do centenário da Revolução Russa (veja aqui a lista de textos e o chamado para participação).

A Segunda Guerra Mundial tem apresentado graves e fatais problemas ao movimento operário socialista. Novamente, ele se depara com uma situação semelhante à que o antigo movimento trabalhista se confrontou no início da Primeira Guerra Mundial. Existe o perigo de que os erros que trouxeram desgraça para a social-democracia se repitam.
A questão que se coloca hoje para nós é se o slogan de Liebknecht: “O inimigo está em casa!” continua válido para a luta de classes agora como era em 1914. Quando Liebknecht expressou seu slogan as condições da luta de classe eram relativamente simples. Na Alemanha, por exemplo, o governo semifeudal foi, sem dúvida, considerado um inimigo maior do proletariado do que os governos democráticos da Entente. Hoje, também, o governo fascista da Alemanha é aparentemente um inimigo mais perigoso dos trabalhadores do que a Inglaterra. O slogan de Liebknecht teria hoje uma validade ainda maior para a classe proletária alemã do que tinha em 1914.
Apesar disso, parece que hoje os trabalhadores nos países democráticos enfrentam uma situação diferente. A democracia burguesa os confronta na sua luta pela emancipação política e econômica. No entanto, estando em guerra com os Estados totalitários, principalmente com o fascismo alemão, as democracias não podem ser consideradas o arqui-inimigo do proletariado.
Devido à estrutura política e à mecânica de sua luta de classes, os países democráticos são forçados a conceder certas liberdades ao proletariado, o que lhe permite continuar a lutar à sua maneira. Nos países totalitários isso já não é possível. No quadro da ditadura, mesmo quando se autodenomina socialista, o proletariado não tem liberdades, nem direitos, nem possibilidades de lutar suas próprias lutas. Não há dúvida de que o totalitarismo é o inimigo maior, mais perverso e perigoso do proletariado. Assim, parece então que o slogan de Liebknecht perdeu validade para o proletariado nos países democráticos.
Perante esta situação, os movimentos proletários dos países democráticos mudam de foco e deixam de lado a luta contra a democracia enquanto ela se empenha numa guerra contra os países totalitários, numa grande cruzada contra o seu inimigo: o monopólio, o fascismo, o bolchevismo – o sistema totalitário em geral.
É esta conjuntura que origina a atual confusão, debate e controvérsia no interior do movimento operário. Contudo, para entender as atuais mudanças táticas é necessário ter algum conhecimento da conjuntura anterior à mudança de política em 1914. Leis, princípios, programas e slogans possuem validade transitória, são determinados historicamente por fatores de tempo, contextos e circunstâncias, e devem ser vistos dialeticamente. Assim, o que pode ter sido a tática errada de então, pode ser correta hoje, e vice-versa. Vamos aplicar isso à mudança tática atual.

Quando, em 1914, a Social-Democracia Alemã capitulou ao Kaiser e votou a favor dos créditos de guerra, o proletariado de todo o mundo classificou esse ato como uma vergonhosa traição ao socialismo. Até então, tinha sido uma política estabelecida dos socialistas nos parlamentos a de se oporem às dotações militares. No caso dos créditos de guerra foi dado como certo que os socialistas agiriam de acordo com a política estabelecida. Portanto, quando os socialistas votaram os créditos de guerra, romperam uma tática estabelecida e traíram um princípio estabelecido.
Este ato foi generalizadamente condenado e suscitou disputas acaloradas dentro de todo o movimento socialista. Os oportunistas o justificaram com o argumento de que trocavam “canhões por reformas sociais”. Os radicais, por outro lado, instaram a uma luta mais vigorosa contra o governo para transformar a guerra em guerra civil e preparar a luta final – a revolução que se aproximava.
Para as correntes atuais essa luta perdeu o significado, principalmente porque os partidos socialistas e os funcionários parlamentares perderam o significado em muitos países. E naqueles países onde eles ainda são tolerados, suas vozes se tornaram mera tagarelice. Ou não são consultados se irão apoiar a concessão de créditos de guerra, ou eles mesmos são seus defensores mais firmes. Sem deliberação e sem luta eles estão do lado de seus governos. Se antigamente eram aliados da burguesia, agora eles são seus servos e lacaios, sem estarem minimamente conscientes de seu papel de traidores. Na Inglaterra, França, Holanda, Noruega, Suécia, Finlândia, Bélgica, Suíça e Checoslováquia – na verdade em todos os lugares – os socialistas estavam e estão à margem da burguesia. E os “comunistas” – outrora os mais ferozes críticos e opositores dos social-democratas, para quem eles inventaram o termo “social-fascista” – inclinaram-se para a burguesia antes mesmo de sua degeneração política e traição que culminou na capitulação a Hitler e ao fascismo.
Como explicaremos essa mudança? É porque todos os representantes do socialismo e do comunismo se tornaram patifes e canalhas? Assumir isto seria muito simplista. Não importa quantos malandros e canalhas possam existir entre eles, a razão para esta mudança é mais profunda. Deve ser procurada na mudança das organizações partidárias, nos tempos que mudaram. Essas mudanças se tornaram evidentes e óbvias. O antigo movimento social-democrata surgiu durante a primeira fase da era capitalista, a qual se pode denominar de fase do capitalismo privado (laissez-faire). Foi daí que a social-democracia recebeu o impulso que a originou, as condições para seu crescimento, a estrutura de suas organizações de massas, o campo, a tática e as armas para suas lutas. Sua substância era derivada da substância do sistema em que viveu e lutou, e que esperava derrotar. Embora tentando ser o oposto, não poderia ajudá-lo, mas ser como ele em todos os sentidos.
Este sistema entrou em sua última fase com a Primeira Guerra Mundial. É agora uma luta de vida ou morte contra a nova fase ascendente, que descrevemos como Capitalismo de Estado. Assim como o primeiro encontrou sua expressão ideológica e política no liberalismo e na democracia, o segundo encontra sua expressão no fascismo e na ditadura. A democracia era a forma estatal do capitalismo ascendente, da luta contra o feudalismo, o monarquismo e o clericalismo, revelando todos os poderes individuais para a vitória e ascensão do sistema econômico capitalista, do ambiente social e do legado cultural da ordem burguesa. Este período ascendente terminou há muito tempo. A democracia torna-se cada vez mais insuficiente e insustentável para o capitalismo atual, pois os interesses capitalistas não podem mais viver e crescer sob ele. Eles exigem novas condições sociais e políticas, uma nova ideologia e uma nova forma estatal – um novo aparato dominante. A fase democrática é descartada e demolida para que o fascismo possa tomar o seu lugar. Pois apenas sob o fascismo o capitalismo de Estado pode se desenvolver e prosperar.

Quando a democracia deixa de ser a forma estatal válida e dominante, também cessa o movimento que dela recebeu seu ímpeto, direitos e forma de existência. Não pode continuar a viver com seu poder próprio. Parlamentarismo, máquina partidária, métodos de organização autoritários e centralizadores, técnica de agitação e propaganda, estratégia militar, tática de compromissos, racionalizações e ilusões metafísicas e irracionais – tudo isto a social-democracia recebeu do rico arsenal da burguesia. Tudo era parte integrante, carne da carne, do mundo burguês-democrático-liberal. E porque tudo isso terminou, o movimento desmoronou, tornando-se uma sombra de sua antiga forma. Ele só pode se debater e gemer sob a capa do manto rasgado e esfarrapado da democracia moribunda até que chegue sua própria morte.
O capitalismo privado – e com ele a democracia, que está tentando salvá-lo – é obsoleto e segue o caminho de todas as coisas mortais. O capitalismo de Estado – e com ele o fascismo, que lhe abre o caminho – está crescendo e conquistando poder. O velho se foi para sempre e nenhum exorcismo funciona contra o novo. Não importa o quanto possamos tentar reavivar a democracia, ajudá-la mais uma vez a ficar de pé sobre suas pernas, fazê-la respirar um sopro de vida, todos os esforços serão fúteis. Todas as esperanças de uma vitória da democracia sobre o fascismo são ilusões crassas, toda crença no retorno da democracia como uma forma de governo capitalista vale apenas como astuta traição e covarde autoilusão. Aqueles líderes trabalhistas que hoje estão do lado das democracias e tentando conquistar as organizações de trabalhadores para esse lado, apenas fazem o que seus governos particulares e os funcionários em geral estão fazendo. Ou seja, recrutando trabalhadores, sem-teto e emigrantes desesperados para seus exércitos e lançá-los nas frentes de batalha contra os fascistas. Estes oficiais de recrutamento voluntário, mercenários das democracias, são cavalheiros tão refinados quanto aqueles sequestradores que fornecem navios de morte com marinheiros escravizados. Cedo ou tarde, até mesmo as democracias serão forçadas a livrar-se deles, pois fica cada vez mais óbvio que os governos democráticos não desejam uma guerra real e séria contra o fascismo. Não proporcionaram ajuda real à Polônia. Nenhuma tentativa séria foi feita para salvar a Finlândia. Enviaram soldados mal armados para a Noruega. Assinam pactos econômicos com a Rússia, cúmplice e seguidora a serviço de Hitler. Tudo o que eles estão fazendo é calculado para forçar a Alemanha a ficar em uma posição tão difícil e insustentável a ponto dela se dispor a entrar em uma parceria de negócios capitalista-fascista que permitirá ambos os lados escravizar o mundo inteiro. Ambos os métodos de governo ficam a cada dia mais semelhantes. Que democracia real havia na Checoslováquia? Na Polônia? Que democracia os refugiados espanhóis e outros emigrantes encontraram na França onde todos os direitos humanos e a dignidade humana foram lançados aos cães? Quão democrático é o governo do capitalismo monopolista nos EUA? Toda a democracia está praticamente morta. E todas as esperanças dos trabalhadores de reanimá-la através de seus esforços são pura ilusão. As experiências da social-democracia austríaca, alemã e checoslovaca não são suficientemente assustadoras? É este o desastre do proletariado que estas organizações obsoletas, baseadas em uma tática oportunista, fizeram com que ele se tornasse indefeso contra o ataque do fascismo e perdesse sua posição própria no corpo político do tempo presente, deixando de ser um fator histórico da época atual. Foi varrida para a montanha de esterco da história e apodrecerá lado a lado com a democracia e com o fascismo, porque a democracia de hoje será o fascismo de amanhã.

A expectativa na revolta final do proletariado e sua libertação histórica não surge dos miseráveis remanescentes de velhos movimentos nos países ainda democráticos e menos ainda dos frangalhos das tradições partidárias que se espalharam pelo mundo afora na emigração. Também não surge de noções estereotipadas de revoluções passadas, independentemente de acreditar nas bençãos da violência ou na “transição pacífica”. Antes, a expectativa vem dos novos estímulos e impulsos que animarão as massas nos Estados totalitários e os forçarão a fazer sua própria história. A autoexpropriação e a proletarização da burguesia pela Segunda Guerra Mundial, a superação do nacionalismo pela abolição de pequenos Estados, a política mundial do capitalismo de Estado baseada em federações estatais, a difusão do conceito de classe até promover um interesse majoritário pelo socialismo, a mudança do eixo de gravidade da forma tipicamente laissez-faire da competição burguesa para a inevitável socialização do futuro, a transformação da luta de classes de categoria abstrata-ideológica para uma categoria prática-positiva-econômica, a ascensão automática dos Conselhos de Fábricas como desdobramento da autogestão do trabalho enquanto reação ao terror burocrático, a exata e racional regulação e orientação das atividades e condutas humanas por meio da abolição do poder impessoal, inconsciente e cego da economia de mercado – todos esses fatores podem nos tornar conscientes da enorme explosão de energias libertadas quando o primitivo, mecânico, cruel e brutal coletivismo social apresentado pelo fascismo for finalmente superado.
Ainda não enxergamos por quais meios o fascismo será superado. Contudo, nos parece razoável sustentar que a mecânica e a dinâmica da revolução sofrerão mudanças fundamentais. O conceito tradicional de revolução deriva principalmente desse período que viu a transição do mundo feudal ao burguês. Este conceito não será válido para a transição do capitalismo ao comunismo. O efeito e o sucesso da revolução podem ser percebidos a partir do fato de que a atual coletivização forçada, que agora está rompendo seus grilhões burocráticos, desenvolve sua própria dinâmica em direção a maiores e mais amplos equilíbrio, consolidação e essência. A depuração final deve conduzir a uma orientação baseada no princípio da liberdade, igualdade e fraternidade, para que o livre desenvolvimento de cada indivíduo se torne a pré-condição para o livre desenvolvimento de todos.

Não se trata de uma utopia, mas um aspecto de um desenvolvimento muito real na próxima época histórica que a Segunda Guerra Mundial está a introduzir. Concentrar a atenção neste desenvolvimento, contar com este processo – basicamente geral e profundamente revolucionário –, ajudá-lo a se fortalecer por meio de condutas e ações, defendê-lo contra obstáculos e distorções é a tarefa revolucionária com que nos confrontamos hoje. Na Segunda Guerra Mundial, ambas as frentes, tanto a democrática quanto a fascista, estão suscetíveis de serem derrotadas – uma militarmente, a outra economicamente. Não importa de que lado o proletariado se coloque, estará entre os derrotados. Portanto, não deve estar com as democracias e nem com os totalitários. Para os revolucionários com consciência de classe, há apenas uma solução: romper com todas as tradições e vestígios das organizações do passado, varrer todas as ilusões com a época intelectual burguesa e realmente aprender com as lições de debilidade e desilusão sofridas durante a fase infantil do movimento proletário.
Nota dos tradutores
[1] Sobre o autor: Otto Rühle (1874-1943) foi um dos que tentou pensar a revolução em todas as suas dimensões. Se interessou por história, economia, pedagogia, educação, psicanálise. Autor, entre outros, dos seguintes livros: “Programa para uma Escola Socialista” (1911), “Questões básicas de educação” (1912), “Psicologia da criança proletária” (1925), “Karl Marx. Vida e obra” (1928), “História cultural e social do proletariado” (1930), “A crise mundial. Para o Capitalismo de Estado” (1932, sob o pseudônimo de C. Steuermann), “Planos para uma nova sociedade” (1935), “A luta contra o fascismo começa pela luta contra o bolchevismo” (1939, publicado originalmente por Living Marxism, revista editada por Paul Mattick), “Perspectivas para uma revolução em países altamente industrializados” (1940). Em 1911 foi deputado do SPD na Dieta da Saxônia. Em 1912 foi membro do SPD no Reichstag. Simpatizou com a esquerda do partido. Em março de 1915, juntamente com Karl Liebknecht, se negou a votar os créditos de guerra. Em janeiro de 1916 foi um dos primeiros a chamar a cisão do partido e participou da fundação da Liga Spartacus. Em 1917 foi um dos líderes dos IKD (Comunistas Internacionais da Alemanha, organização que sucedeu aos ISD-Socialistas Internacionais da Alemanha, que reunia os “radicais de esquerda” contrários à direção socialista em 1916-1918). No final de 1918 tem atuação ativa na Saxônia, onde sua tendência se retira rapidamente dos Conselhos dominados pelos social-democratas. Foi porta-voz da maioria de esquerda no congresso de fundação do PC Alemão-KPD(S) onde apresentou a moção antiparlamentar, aprovada contra Rosa Luxemburg. Em outubro de 1919 participou do Congresso de Heidelberg propagandeando a “organização unitária”. Em abril de 1920 contribuiu para a fundação do KAPD (Partido Comunista Operário da Alemanha), sob a condição de que o partido se dissolvesse rapidamente na AAUD. Em julho de 1920, tendo sido eleito delegado do KAPD ao II Congresso da III Internacional foi a Moscou, mas se recusou a participar e foi expulso do partido por esse motivo. Sobre sua estadia na Rússia escreveu “O proletariado russo está ainda mais subjugado, oprimido e explorado que o proletariado alemão.” Foi um dos pioneiros da fundação da AAU-E. Em 1925 se retirou da política “militante” e retomou seu trabalho cultural e econômico. Em 1933 emigrou para a Checoslováquia e, em 1936, para o México onde dirigiu, juntamente com John Dewey, a comissão para apreciação das acusações stalinistas contra Trótski. Em discussões com este último, manteve suas posições antibolcheviques. Às vésperas da guerra rejeitou a frente antifascista e anunciou o fim da democracia – não em suas formas, mas em seu conteúdo – e o triunfo dos princípios fascistas (total dominação do capital e do Estado sobre a sociedade).





Duas datas-limite: 8 de março de 1917 e 8 de maio de 1937. Em, respectivamente, Petrogrado e Barcelona, abria-se e se fechava, à escala mundial, o ciclo histórico de revolução e contrarrevolução no século XX.
A tragédia da Comuna de Paris, luminosa iniciativa precursora massacrada após 72 dias (18 de março a 28 de maio de 1871) de ‘assalto aos céus’ seria exponenciada nesses 20 anos.
Há que examiná-las: Rússia – 1917, sim; Espanha – 1937, por que não?
Isto é, se quisermos compreender as derrotas do proletariado, há que examiná-las: revolução e contrarrevolução (Rússia & Espanha), ponto e contraponto, início e fim de um processo cosmo-histórico cujas nefastas sequelas estamos vivenciando…
suite:
GUERRA DE CLASSES (REVOLUÇÃO) versus GUERRA IMPERIALISTA (CONTRARREVOLUÇÃO)
Em Petrogrado, março de 1917, a guerra de classes – protagonizada pelas massas proletárias – anunciava o fim da primeira guerra imperialista mundial.
Em Barcelona, maio de 1937, o massacre do proletariado revolucionário viabilizava uma carnificina planetária: a segunda guerra imperialista mundial.
Em um momento em que os termos “fascismo” e “antifascismo” são mobilizados de forma a esvaziar seu conteúdo político, este texto mantem sua importância histórica.
Espero apenas que o sentido de “esvaziamento” conotado pelo comentarista não seja atrelado à fábula de alguns marxistas que dizem que o fascismo foi derrotado e não se apresenta mais enquanto forma política no século XXI. Se o for, amanhã se dará um passo a frente (na direção do precipício).
Mateus Alexandre,
o que é fascismo?
Olá, “Não Fascista”.
Eu acredito que o “fascismo” pode ser definido como um movimento político totalitário, integralista e expansionista, marcado por um forte nacionalismo, sendo expressão política da burguesia em aliança com a burocracia.
No entanto, a partir disso, o que mais me chama a atenção no texto de Otto Rühle é a afirmação de que “a democracia de hoje será o fascismo de amanhã”, pois, nas duas eleições passadas, a gente viu um esvaziamento constante do termo “fascismo”, movido por interesses eleitorais e políticos diversos. Essa banalização acaba servindo, muitas vezes, apenas como uma justificativa (às vezes, até envergonhada) para proteger a democracia burguesa. No entanto, já temos material histórico suficiente para compreender que a derrota definitiva do fascismo só ocorrerá em conjunto com a superação da democracia burguesa. Enquanto existir democracia burguesa e capitalismo, sempre teremos a chance de a burguesia precisar se unir com a burocracia em uma política expansionista e nacionalista. Então, para mim, derrotar o fascismo votando em partido político X (e ainda trágico no Brasil) é assinar a confissão pública de sua própria ignorância.
Que estes revolucionários – cativados por ilusões no passado – não sejam como um Rei Lear a quem, após trocar a verdade simples por mentiras exageradas, restou apenas se humilhar: “Ah! Não zombeis de mim, é o que vos peço. Sou um velho imprestável e caduco”. Mas, aí, já era tarde demais.
Para a pergunta “Qual posição tomar?”, sempre devemos escolher a revolução e não um Haddad ou um Lula, hahaha!!!!!
Mateus,
começarr com “eu acredito” e em seguida repetir quase palavra por palavra a definição de Nildo Viana é bastante engraçado. Você apenas mudou a ordem dos adjetivos, acrescentou “forte” e retirou “doutrinária”. Parece uma autonomia intelectual cuidadosamente vigiada. Talvez alterar um substantivo inteiro já seja considerado desvio revisionista. Cuidado aí
Nildo escreveu que o fascismo é um movimento político nacionalista, expansionista, integralista e totalitário, expressão da burguesia em aliança com a burocracia. Você escreveu exatamente isso e apresentou como algo em que chegou por conta própria. Nem para copiar houve coragem de citar a fonte. Fica parecendo ventriloquismo: Nildo pensa e você aparece para anunciar “eu acredito”.
O problema maior é que você copiou uma definição muito ruim. Dizer que o fascismo é “nacionalista, expansionista, integralista e totalitário” produz uma lista de características, não uma explicação. “Integralista” praticamente repete o conteúdo atribuído a “totalitário”; “expansionista” transforma uma característica do fascismo italiano e do nazismo em critério universal; nenhuma relação causal entre essas características é demonstrada. A definição ainda mistura movimento, doutrina, regime político e forma de Estado como se fossem a mesma coisa.
A afirmação de que o fascismo seria simplesmente a expressão política da burguesia em aliança com a burocracia é igualmente falsa. Em um nível tão abstrato, burguesia e burocracia estatal participam de praticamente todas as formas políticas do capitalismo. Isso não explica a especificidade do fascismo. Também transforma a burguesia em um sujeito homogêneo, apaga os conflitos entre suas frações, ignora a autonomia relativa adquirida pelas organizações fascistas e elimina a base social heterogênea que possibilitou sua ascensão. Pequena burguesia, ex-combatentes, militares, proprietários rurais, desempregados e parcelas do proletariado mobilizadas contra suas próprias organizações desaparecem por completo. Tampouco aparece o mecanismo central da contrarrevolução fascista: mobilização de massas, destruição das organizações autônomas dos trabalhadores e enquadramento corporativo da sociedade. A definição é tão genérica no plano de classe quanto estreita no plano histórico.
O uso de Otto Rühle também é peculiar. No próprio texto comentado, Rühle afirma que princípios, programas e táticas possuem validade historicamente determinada. Você retirou uma frase de 1940 de sua conjuntura e a transformou em mandamento eterno. Rühle reconhece ainda que o totalitarismo era o inimigo mais perigoso do proletariado e que as democracias burguesas concediam liberdades utilizadas pela luta operária. Essa contradição concreta desaparece no seu comentário.
Ninguém aqui tem ilusões com governos ou eleições. Você inventou esse adversário porque precisava transformar a discussão sobre fascismo em outro acerto de contas com os reformistas. Reconhecer as diferenças materiais entre democracia burguesa e fascismo não implica tratar a democracia burguesa como horizonte político. As condições de organização, greve, imprensa, associação e luta proletária são concretamente distintas. Apagar essas diferenças em nome de uma pureza revolucionária abstrata só dispensa o trabalho de analisar a conjuntura.
No fim, você conseguiu copiar uma definição limitada e falsa, retirar Rühle de seu contexto e responder a uma ilusão eleitoral que ninguém expressou. A definição veio de Nildo, a frase veio de Rühle e o espantalho veio do seu ressentimento. A análise crítica ficou faltando.
Professor “Não Fascista”.
Acredito que seja necessário um esclarecimento para corrigir alguns pontos de suas interpretações. Não estamos em um fórum regido por normalizações nas quais devo citar sempre as minhas fontes (se for de seu agrado, posso sugerir a instauração das normas da ABNT nesta seção de comentários, mas temo que a internet não esteja preparada para tamanha burocracia). Exigir rigor bibliográfico formal em um fórum online é, no mínimo, uma expectativa curiosa. Afirmar “eu acredito” antes de apresentar uma definição que considero adequada não equivale a registrar patente sobre o conceito. Significa simplesmente, pasme, apenas que concordo com a referida definição. Se fosse um artigo, eu o faria (tal como, inclusive, já referenciei corretamente esta definição de fascismo aqui https://redelp.net/index.php/renf/article/view/502/480). Agora, eu li e reli meu comentário e ainda não percebi as razões pelas quais o professor tenha considerado que eu esteja agindo de má-fé a ponto de tentar roubar definições ou acusar qualquer pessoa daqui de estar preocupada com governos e eleições. Essa interpretação destoa das minhas verdadeiras intenções. Portanto, para deixar ainda mais claro, eu quis apenas resgatar um bom texto para se pensar o quão terrível foi essa época para a classe proletária e para a humanidade em geral naquele determinado período histórico, lembrando do resgate que ocorreu do termo “fascismo” contemporaneamente. E citei, com todas as letras, dando o exemplo das “duas eleições passadas”, o perigo das mobilizações defendendo a democracia burguesa em detrimento de um suposto fascismo. Eu não afirmei que era alguém daqui, e sim algo que ocorre em épocas de eleições (mas, para citar exemplos concretos, já que o professor parece ser um discípulo de São Tomé e não gosta de realizar as próprias pesquisas, já neste ano, o presidente do PT afirmou que a “reeleição de Lula será a derrota do fascismo”, bem como o próprio Lula, em sua convenção de oficialização como candidato, afirmou que sua reeleição visa “impedir que um fascista volte a governar esse país”, e isso é uma forma de mobilizar as pessoas para a política institucional a partir da despolitização do termo. O que já é suficiente para dizer que não é (sic) “uma ilusão eleitoral que ninguém expressou”). Apenas resgatei a necessidade de pensarmos criticamente a democracia burguesa hoje e como esta também não é o suficiente para impedir que o fascismo renasça (e aí, eu citei a frase do Rühle, “a democracia de hoje será o fascismo de amanhã”, como uma reflexão crítica, pois estamos no amanhã de Rühle, e, claro, não como um (SIC) “mandamento eterno” como o professor interpretou). O fórum aqui do Passapalavra não é um metafórum. As pessoas podem falar de fenômenos que ultrapassam esse portal e ocorrem fora daqui. Essa é uma crítica ao reformismo e a alguns revolucionários que se mobilizam a partir disso. Mas, nunca afirmei que tenha sido alguém daqui.
Agora, depois de todos esses esclarecimentos tão necessários quanto desgastantes, vamos à discussão que julgo ser bastante interessante no seu comentário:
a) Integralista e totalitário não são sinônimos, por mais que a conveniência retórica tente uni-los. Por exemplo, o Estado de bem-estar social foi integralista, mas não foi totalitário. Integralista, nesta definição, quer dizer buscar integrar a população em geral ao fascismo. E essa é a parte da definição que você diz que esqueceu do “mecanismo central da contrarrevolução fascista” ou a sua “base social heterogênea”. O professor igualou integralista com totalitário e depois afirmou que a definição não abarca essa característica de ter uma ampla integração de diversas classes e grupos em sua base social. Isso foi uma política estatal fascista e foi realizada, mas não totalmente; ainda houve resistências, antagonismos, etc.
b) Já que a confusão terminológica parece ser o método adotado, torna-se necessário explicar o que seria totalitário também. O totalitarismo busca a aniquilação de todas as formas de organização autônoma, sejam elas revolucionárias, político-partidárias, etc, dificultando a organização para, de alguma forma, impactar as lutas de classes A ditadura militar brasileira, a título de ilustração, foi totalitária, mas não integralista. São fenômenos distintos. Quando o professor sentencia que minha definição ignora a “destruição das organizações autônomas dos trabalhadores e o enquadramento corporativo da sociedade”, o professor está apenas descrevendo a consequência direta do totalitarismo que eu já havia mencionado.
c) O fascismo concreto teve políticas expansionistas/imperialistas e a sua doutrina política afirmava isso. Inclusive, o integralismo auxiliava no cumprimento das tarefas expansionistas e imperialistas desses estados fascistas. Os exemplos dessa característica são vastos, tais como as invasões, ocupações e guerras promovidas pelos estados fascistas. Mas, aqui ficou fácil para você: se o professor identificou algum estado fascista que não teve uma política expansionista, ou uma organização fascista, que seja, que não tenha em sua doutrina política a defesa da autonomização da nação e sua expansão, pode apresentar exemplos para mim e posso com certeza redefinir o que penso; não sou dogmático e fica um desafio para o professor.
d) Em nenhum momento afirmei que não se deve reconhecer as diferenças entre democracia burguesa e fascismo. E também, nunca afirmei que realizar isso é defender a democracia burguesa. Eu afirmei, sim, que devemos aprender com o texto de Rühle sobre a democracia poder ser uma das condições de possibilidade do engendramento do fascismo, e que devemos ter a radicalidade de lutar contra um e contra o outro ao mesmo tempo. E isso não é algo que atualmente julgo ser um palavreado revolucionário abstrato. Estamos em uma democracia, e é algo relativamente fácil de se realizar: lutar contra a democracia burguesa e contra o fascismo em favor da revolução.
e) O professor criticou a definição que acredito ser a correta apreensão do fenômeno fascismo e, ao fundir palavras, a criticou. Mas, em nenhum momento, teve a coragem de trazer aqui a definição de fascismo que julga ser a correta ou sobre o que acha desse uso por políticos e partidos sobre estes termos.
Eu usei sempre pseudónimos na actividade política clandestina, muitos e variados. E usei nomes falsos nos documentos de identidade falsificados com que iludia as autoridades durante os anos de exílio. Tudo isso se tornou desnecessário depois de Abril de 1974. A partir de então nunca mais recorri a pseudónimos e assino com o meu nome o que escrevo e publico. Um texto que não estiver assinado com o meu nome, é porque não fui eu que o escrevi.
Ñ sou especialista em fascismo pra ficar dando pitaco aqui, mas tenho minhas duvidas sobre a ideia de fascismo serem apenas as experiencias italianas e alemãs, por execelência. O fascismo n poderia aprecer em países periféricos, do sul global, então?
Outra coisa: eu quase não comento aqui no PP, normalmente só leio e compartilho com meus amigos. Mas depois de olhar alguns comentários desse Mateus Alexandre, em algumas postagens aleatórias que li aqui no PP, sinceramente acho que ele é um pseudônimo do Nildo Viana. Não vejo muita outra lógica.
Ele aparece pouco e quando aparece é sempre texto do Nildo, definição do Nildo ou alguma ideia do Nildo. Até as palavras são praticamente as mesmas. Parece o próprio autor falando dele mesmo por outro nome. Fui olhar o texto que ele do Nildo mandou aqui e a forma de escrita é idêntica. Incrível
Também não vejo motivo para pseudônimo, já que aqui não parece ter nenhuma perseguição. Acho até uma coisa meio infantil. Se são duas pessoas diferentes mesmo, acho estranho que o Mateus nunca apareça com uma ideia que não seja do Nildo. Porque assim fica difícil acreditar que são duas pessoas diferentes.
Caro João Bernardo,
Peço desculpas se pareceu que eu o considerava algum pseudônimo daqui. Sua explicação, porém, não era necessária: embora discordemos em quase tudo, sempre admirei sua erudição, característica que, infelizmente, falta neste espaço. O que temos por aqui é a extrapolação nas interpretações, o julgamento de que o outro age de má-fé e a confusão retórica entre conceitos, o que é uma tristeza.
Sei que você discordaria de mim de uma maneira muito mais elegante. Talvez falasse da importância de uma definição de fascismo que carregue em si a inserção de interesses alheios aos do proletariado no próprio movimento operário, algo que ocorre sem a percepção deste último, por influência dos estratos mais baixos dos gestores. Ou falasse da importância da comparação histórica a fim de delimitar o que seria fascismo citando diversos fatos históricos, etc.
Ou, quem sabe, você trouxesse exemplos concretos ou autores que me fariam refletir, de fato. Teríamos, assim, um debate realmente produtivo e respeitoso, tornando desnecessário as ironias ou a necessidade de justificativas e esclarecimentos constantes que torna a discussão desgastante. Uma boa discussão está em falta hoje em dia, embora algumas almas resistam a isso.
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Maria Eduarda,
Isso é uma impressão. Eu cito diversos autores, e um deles é o Nildo Viana. No entanto, não importa quantos autores eu cite, se eu citar o Nildo, as pessoas acabam apontando isso, o que fica algo mais marcante. Inclusive, por aqui, eu cito mais Marx (acompanho o Passapalavra desde 2015, mas estava sem acompanhar desde 2024, quando as discussões estavam sendo nada produtivas), mas toda vez que eu citava Marx alguém me chamava de dogmático, por exemplo, na época. A grande questão é: eu acredito que as obras de Marx e outras de Nildo devem ser divulgadas e acrescentam algo, de fato, para a discussão em alguns casos. E eu não vejo problemas nisso. O que acho interessante é que, por muitas vezes, as pessoas atacam mais o fato de eu ter citado tal pessoa do que discutir o conteúdo para a discussão, o que é algo curioso. Quando as discordâncias se manifestam no nível do conteúdo, a discussão é bem produtiva.
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Maria Eduarda,
Comente mais por aqui, e não deixe apenas entre seus amigos.
P.S.: Eu sou uma pessoa real e inclusive já escrevi com o Nildo: https://redelp.net/index.php/rd/article/view/1585
A mesma pessoa não pode estar duas vezes num mesmo artigo, hahaha!
Os outros autores que o Mateus cita: os pseudônimos do Nildo Viana.
Mateus,
Ninguém pediu ABNt, nota de rodapé, cidade da editora ou data de acesso. Bastava escrever “seguindo a definição de Nildo Viana”. A internet inventou o hiperlink há algumas décadas e parece estar preparada para isso. Curiosamente, o próprio Passa Palavra informa no rodapé que a reprodução é permitida desde que os autores sejam citados
Você confundiu atribuição de autoria com normalização bibliográfica para montar uma resposta engraçadinha sobre burocracia acadêmica. O artigo que apresentou confirma que conhecia perfeitamente a origem da definição. Portanto, a questão nunca foi patente, propriedade intelectual ou intenção criminosa. A ironia dizia respeito à reprodução quase literal da definição do mestre, apresentada mediante um solene ‘eu acredito”. Agora a autoria foi reconhecida. Podemos passar ao problema real: a definição continua ruim…
Quanto às eleições, seus exemplos existem e a crítica à redução do antifascismo à reeleição de um governo é correta. Dizer que a vitória eleitoral de um candidato representa a derrota do fascismo confunde a derrota circunstancial de uma candidatura com a derrota de um fenômeno político e social. Dessa premissa não decorre que todo uso contemporâneo do conceito de fascismo seja vazio, nem que identificar tendências fascistas implique adesão ao reformismo. Seus exemplos demonstram que o PT instrumentaliza eleitoralmente o antifascismo. Não demonstram que o fascismo desapareceu ou que todo antifascismo conduz ao progressismo institucional.
Ninguém nesta discussão manifestou ilusões com governos ou eleições. Se seu alvo eram os dirigentes do PT, deveria ter dirigido a crítica a eles. Você preferiu encerrar o comentário falando em escolher a revolução no lugar de candidatos, como se estivesse corrigindo algum eleitor iludido presente aqui. O esclarecimento posterior muda o destinatário, não melhora o argumento.
Sobre “integralista”, eu não afirmei que a palavra fosse um sinônimo perfeito de “totalitário”. Afirmei que, na definição apresentada, ela praticamente repetia parte de seu conteúdo e não possuía capacidade de distinguir o fascismo de outras formas políticas. Sua resposta confirmou o problema. Se o Estado de bem-estar social também foi “integralista”, então o termo designa processos de integração presentes em regimes profundamente diferentes. Escola pública, seguridade social, serviço militar, cidadania eleitoral e políticas de massas também integram populações ao Estado. Nesse grau de generalidade, quase todo Estado moderno seria integralista.
A especificidade fascista está no conteúdo e na forma dessa integração: dissolução da autonomia de classe, enquadramento corporativo dos trabalhadores, nacionalização dos conflitos sociais, mobilização hierárquica e subordinação das organizações ao Estado e ao chefe. Dizer que o fascismo é integralista porque procura “integrar a população ao fascismo” é uma definição circular.
Você também confundiu duas questões distintas. Base social heterogênea é a composição de classes e grupos que participa da formação e da ascensão de um movimento. Integração estatal é um projeto de reorganização da sociedade. A pequena burguesia, os trabalhadores, os ex-combatentes, os proprietários rurais, os militares e as frações da burguesia não aparecem magicamente na definição porque foi acrescentado o adjetivo “integralista”. A palavra não explica quais grupos foram mobilizados, como foram mobilizados, quais conflitos mantinham entre si e como se relacionaram com as organizações fascistas.
O exemplo da ditadura militar brasileira como regime totalitário é ainda mais problemático. A literatura comparativa, de Juan Linz a Guillermo O’Donnell, classificou o regime brasileiro como autoritário ou burocrático-autoritário. Mesmo durante sua fase mais repressiva, ele manteve Congresso durante boa parte do período, oposição consentida no MDB, eleições controladas, tribunais, Igreja, associações profissionais, imprensa privada e espaços sociais que conservaram graus variáveis de autonomia. Houve cassações, tortura, censura, assassinatos e destruição de organizações oposicionistas de diversos lastros politicos. Ainda assim, não ocorreu a aniquilação de todas as organizações autônomas, critério que você mesmo apresentou.
O regime militar procurou restringir e despolitizar a sociedade, em vez de mobilizá-la permanentemente por meio de um partido único e de uma ideologia totalizante. Repressão intensa não transforma automaticamente uma ditadura autoritária em totalitarismo. Seu exemplo contradiz sua própria definição.
O enquadramento corporativo também não é consequência lógica do totalitarismo. O stalinismo destruiu organizações autônomas e costuma ser incluído entre os totalitarismos, sem integrar patrões e trabalhadores numa estrutura corporativa fascista. O corporativismo fascista possui uma função específica: suprimir a luta de classes mediante a organização hierárquica do capital e do trabalho como partes da nação. Colocar tudo dentro da palavra “totalitário” apenas esconde o mecanismo que deveria ser explicado.
Você pediu um movimento fascista que rejeitasse o expansionismo. O exemplo está no próprio Brasil: a Ação Integralista Brasileira. A historiografia a caracteriza amplamente como movimento fascista. Ao mesmo tempo, Miguel Reale, seu principal doutrinador jurídico, afirmou expressamente que “o Integralismo rejeita, portanto, o imperialismo”. Plínio Salgado também condenou a expansão sobre territórios alheios. Isso está documentado no estudo de Natália dos Reis Cruz sobre as contradições do discurso integralista.
A AIB não conquistou o Estado, porém seu desafio incluía explicitamente uma “organização fascista”. Eis a organização. Se você responder que a AIB não poderia ser fascista porque o Brasil não era imperialista, teremos um raciocínio circular: primeiro o expansionismo é transformado em condição necessária; depois todos os movimentos sem expansionismo são excluídos da categoria; finalmente, a ausência de casos é apresentada como prova da definição.
Você ainda juntou “autonomização da nação” e “expansão” como se fossem equivalentes. Não são. Defender soberania nacional não significa defender conquista territorial ou dominação imperial. Se “expansionismo” passar a significar apenas fortalecimento ou autonomia nacional, ele perderá qualquer precisão. Se conservar o sentido territorial e imperialista, a AIB constitui o contraexemplo solicitado.
Além disso, expansionismo e imperialismo nunca foram exclusividades fascistas. As democracias liberais britânica, francesa e norte-americana construíram impérios, ocuparam territórios e promoveram guerras. O expansionismo foi central em vários fascismos, especialmente na Itália, na Alemanha e no Japão. Ele não funciona como critério universal nem como elemento suficiente para distinguir o fascismo.
Você também deixou sem resposta a crítica principal à fórmula “expressão política da burguesia em aliança com a burocracia”. Em tal nível de abstração, ela poderia descrever várias formas políticas do capitalismo. Não explica por que, em determinadas conjunturas, certas frações da burguesia apoiaram os fascistas, outras resistiram, as organizações fascistas conquistaram autonomia relativa e as elites econômicas, militares, religiosas e burocráticas estabeleceram compromissos instáveis com os movimentos de massas. A relação entre fascismo e burguesia não foi a manifestação automática de uma vontade burguesa homogênea.
Quanto a Rühle, dizer que “estamos no amanhã” é uma coincidência de calendário, não uma análise histórica. O “amanhã” de Rühle possuía um conteúdo determinado: a democracia liberal estaria historicamente esgotada, o capitalismo privado seria substituído pelo capitalismo de Estado e o fascismo se tornaria sua forma política necessária. A história posterior não confirmou essa sequência. Depois de 1945, a intervenção estatal, o planejamento econômico parcial e o Estado de bem-estar (nos países do “norte global”) desenvolveram-se durante décadas sob democracias burguesas.
Agora você reformulou a frase de Rühle como se significasse apenas que a democracia pode oferecer condições para o surgimento do fascismo. Essa proposição é diferente daquela formulada no texto. Uma democracia burguesa pode, em determinadas crises, engendrar forças fascistas. Isso não significa que a democracia de hoje se transforme necessariamente no fascismo de amanhã.
O próprio Rühle afirma que princípios, programas e táticas possuem validade transitória e dependem de tempo, contexto e circunstâncias. Também reconhece que o totalitarismo constituía o inimigo mais perigoso do proletariado e que as liberdades existentes nas democracias permitiam aos trabalhadores realizar suas próprias lutas. Você escolheu uma frase, ignorou essas passagens e depois chamou o resultado de “reflexão crítica”.
A afirmação de que seria “relativamente fácil” lutar simultaneamente contra democracia burguesa e fascismo ilustra exatamente o caráter absstrato de sua posição. O problema começa quando se pergunta como realizar essa luta, com quais organizações, sob qual relação de forças e mediante quais práticas. Defender liberdades de greve, associação, imprensa e organização contra uma ofensiva fascista não exige qualquer ilusão na democracia burguesa. Exige compreender que essas liberdades são condições materiais da luta proletária.
Você pediu uma definição alternativa. Considero o fascismo um processo de reorganização contrarrevolucionária da ordem capitalista, impulsionado por movimentos de massas que capturam reivindicações, símbolos e formas organizativas provenientes de diferentes campos políticos, deslocam o conflito de classes para a unidade nacional e combinam organizações radicais com instituições conservadoras. Como movimento, articula partido, milícias, sindicatos e liderança carismática. Para se converter em regime, estabelece compromissos com forças armadas, Igrejas, burocracias estatais, elites tradicionais e frações do capital. Sua função histórica consiste em destruir a autonomia organizativa dos trabalhadores e reconstruir a coesão capitalista mediante repressão, mobilização, corporativismo e nacionalismo. Não tenho um autor de estimação para apresentar uma definição cristalina. Nesse caso, essas ideias são derivadas das reflexões de Poulantzas, Paxton, João Bernardo, Trotsky e outros que não consigo lembrar de cabeça nesse momento.
Essa definição distingue movimento, processo de ascensão e regime. Também permite explicar as diferenças entre os fascismos sem exigir que todos reproduzam integralmente o caso italiano ou alemão. Expansionismo, totalitarização e políticas de integração podem aparecer em graus e combinações diferentes. Eles precisam ser explicados historicamente, em vez de empilhados como adjetivos.
Não fascista, a certa altura do teu comentário lembrei-me de uma explicação dada por um professor, há uns 25 anos atrás, quando uma colega de sala pediu-lhe que explicasse em poucas palavras, se possível, as principais diferenças entre a ditadura militar no Brasil e um regime totalitário. Ele pensou um tempinho e disse: “A ditadura te proíbe de dizer certas coisas e o totalitarismo te obriga a dizer certas coisas”.
Caro Professor “Não Fascista”,
Para encerrar essa questão sobre a autoria, não vou me estender novamente sobre as extrapolações de interpretações. Como já esclareci, citei uma definição na qual realmente acredito e que conheço justamente porque escrevi um artigo de opinião utilizando-a, em que, como demonstrado, a referenciei de forma correta. Não há razão alguma para querer roubar a definição de outro autor, ainda mais porque em outra publicação já a havia referenciado. Tratando-se de uma seção de comentários em que você me perguntou o que acredito ser o fascismo, não julguei essa formalidade necessária. Essa insistência em desviar o debate para essa questão, mesmo eu tendo esclarecido, é desgastante.
Você também recorre a atribuições de significado irreais para tentar desqualificar a discussão que tento trazer. Em momento algum eu acusei os presentes nesta discussão de possuírem ilusões eleitorais. Apenas apontei algo real, o uso do termo “fascismo” como ferramenta de mobilização democrática e eleitoral de forma geral. Seria inclusive contraditório da minha parte fazer tal acusação, visto que foi o próprio Passa Palavra quem publicou o excelente texto do Rühle e ressaltei a sua importância. Da mesma forma, nunca afirmei que todo uso contemporâneo do conceito de fascismo seja vazio, até porque, se assim fosse, a própria definição contemporânea que eu utilizo também o seria.
Agora, voltando à discussão real, é preciso ter em mente que muitos fenômenos possuem características que se assemelham a outros sem se confundirem. O fascismo não é apenas integralista, ou apenas totalitário de forma isolada, ou apenas expansionista etc. Segundo a definição apresentada, ele é um fenômeno específico que manifesta todas essas características elencadas em conjunto. Essas características são partes que constituem um único fenômeno, e as formas como isso se manifesta varia em cada caso concreto. Seguindo a sua lógica, seria como se eu afirmasse que um morcego é “um mamífero que possui asas”, e você tentasse invalidar a minha resposta dizendo: “não, pois a baleia também é um mamífero e vive no oceano”. O fato de outros Estados também possuírem características, em alguns momentos históricos, que se assemelham a algumas particularidades do fascismo, não faz deles fascistas, pois lhes faltam as demais características que compõem o fenômeno, e essa maneira de manifestação faz com que o fenômeno tome uma forma especificamente fascista que você menciona e da qual traz exemplos concretos.
Em vez de recorrer a esse tipo de raciocínio, seria muito mais produtivo apontar que à definição que apresento faltariam elementos fundamentais constitutivos. Creio, inclusive, que você tentou levar a discussão para esse lado ao trazer exemplos concretos e destrinchar a questão. Contudo, aí esbarramos em uma outra questão: a diferença entre uma definição e uma conceituação. Eu apenas ofereci uma definição; você, por sua vez, está encaminhando o debate para uma conceituação (e ainda digo mais: os exemplos concretos que cita, me parece ser dsdobramento das características da minha definição). Atender a isso exigiria que eu me alongasse para explicar concretamente cada uma das características e isso, como sempre disse e agora repito, não é, nem nunca foi, o meu objetivo aqui. Felizmente, existe uma bibliografia muito vasta sobre o assunto para quem deseja esse aprofundamento e da qual concordo. A título de indicação, e ainda abordando o tema de usar esse termo para a mobilização a favor da democracia burguesa, recomendo a edição da Revista Enfrentamento dedicada ao tema, que pode ser lida neste link: https://redelp.net/index.php/renf/issue/view/79, bem como o “Guia de Autoformação sobre os limites e a crítica revolucionária ao antifascismo – Gabriel Teles” (aqui: https://criticadesapiedada.com.br/2020/06/02/guia-de-autoformacao-e-estudo-sobre-os-limites-e-a-critica-revolucionaria-ao-antifascismo-gabriel-teles/) e a série de três episódios do podcast do Crítica Desapiedada sobre fascismo e antifascismo, apresentada também por Gabriel Teles. O primeiro episódio pode ser ouvido neste link: https://open.spotify.com/episode/72yctnc41Vmep5aJFT1Ocu?si=xB4YQximTS67ByzyF-jrXQ. O Gabriel Teles mostra muito bem essa despolitização do termo fascismo e o consequente “antifascismo” no seu guia de autoformação, e é isso que gostaria de trazer aqui:
“A ausência de criticidade reina absoluta e a adesão ao chamado “antifascismo” é feita de maneira quase generalizada por aqueles que não sabem o que é fascismo e muito menos o seu pior produto, o antifascismo. A crítica revolucionária ao antifascismo, essa concessão à sociedade capitalista, é efetuada desde a origem desse fenômeno. E aqui não devemos temer ao dizer a verdade: o antifascismo não apenas não contribui com a perspectiva revolucionária, como se subordina à hegemonia daqueles que querem reproduzir essa sociedade miserável, independentemente se de maneira democrática ou ditatorial. Nesse sentido, a pergunta de Bertolt Brecht é correta: Como pode alguém dizer a verdade sobre o fascismo, a menos que esteja disposto a falar contra o capitalismo, que o traz à tona? Não há dúvidas de que existam indivíduos bem-intencionados que se reivindicam antifascistas, seja por desconhecer a história do movimento operário e suas lutas, seja pela vontade de agir contra o (suposto) fascismo (mesmo que de maneira irrefletida e por desconhecimento das experiências passadas). É exatamente para esses indivíduos, além daqueles que querem se aprofundar sobre o tema, que lançamos esse guia de autoformação sobre os limites e a crítica revolucionária ao antifascismo. A nossa pretensão é desmistificar alguns elementos tanto sobre o fascismo quanto sobre o antifascismo e apontar os limites deste último numa perspectiva revolucionária”.
Essa mesma linha de raciocínio vale para a sua crítica em relação ao nível supostamente abstrato da fórmula “expressão política da burguesia em aliança com a burocracia”. Primeiro, não é tão abstrato, porque nem todo movimento político é fruto de uma aliança da burguesia com a burocracia. E, em segundo lugar, para que essa aliança específica seja caracterizada como fascismo, ela precisa, obrigatoriamente, manifestar em conjunto todas as outras características elencadas na definição. Se não tiver os outros elementos, seria outra coisa, como você mesmo fala, e é isso que dá concreticidade à definição. Se você pegar características como sendo soltas e não parte da definição, aí sim é algo abstrato, mas não é em seu conjunto.
Quanto ao exemplo da ditadura militar brasileira, ainda que possamos debater suas particularidades e reconhecer realmente seus limites em relação ao totalitarismo e ao autoritarismo, então, eu poderia perfeitamente elencar outros casos. Basta observarmos o stalinismo, a China maoísta ou o Estado totalitário que existiu no Camboja. São exemplos históricos que buscam apenas ilustrar algo que parece não ter sido muito bem compreendido: o fascismo, para ser fascismo, deve manifestar todas aquelas características em conjunto, e não somente cada uma delas isoladamente.
Ainda no campo dos exemplos, sobre a Ação Integralista Brasileira ser classificada estritamente como uma organização fascista, noto primeiramente que a sua própria definição parece insuficiente para sustentar isso. Embora a Ação Integralista Brasileira possua diversos elementos semelhantes, ela não atende a todas as características que você mesmo apresentou, mesmo a sua definição sendo bastante abrangente. Por exemplo, você define o fascismo como um “processo de reorganização contrarrevolucionária da ordem capitalista”. Ora, não vivenciamos um período revolucionário no Brasil naquela época e a burguesia, portanto, não precisava de um “processo de reorganização contrarrevolucionária” para restabelecer essa “ordem capitalista”; logo, como falar em uma “reorganização contrarrevolucionária” neste caso específico?
Achei, também, curioso você citar os doutrinadores do integralismo afirmando que o movimento “rejeita o imperialismo” para tentar desvinculá-los do expansionismo. Se analisarmos o contexto histórico e social, percebemos que esse discurso era, na verdade, uma tentativa de defender uma autonomia do capitalismo brasileiro, buscando romper com a subordinação do país no capitalismo global. No nível do discurso político da época, seria impossível para eles afirmarem algo diferente sem acabar legitimando a dominação dos países de capitalismo imperialista, inclusive sobre o Brasil. Por isso, e acho que sua definição também se encaminha para isso, considero o integralismo brasileiro um protofascismo: um movimento com características fascistas latentes, mas que carecia das condições sociais para se desenvolver completamente como tal. Claro, levando em consideração as experiências históricas concretas que existiram, etc.
O que me leva a abordar a sua definição de fascismo, que não esclarece o que é fascismo, sendo bem confusa. Você começa definindo com a premissa de que se trata de um “processo de reorganização contrarrevolucionária da ordem capitalista” impulsionado por “movimento de massas”, o que pressupõe logicamente a existência prévia de uma conjuntura revolucionária concreta, ou de uma forte ameaça proletária, que exija tal restabelecimento da ordem, bem como uma grande adesão. A confusão começa quando você afirma que esse processo é impulsionado por “movimentos de massas” que combinam “organizações radicais” com “instituições conservadoras”: não fica claro se esses “movimentos de massas” são externas ou imanentes ao próprio fascismo, tampouco o que se entende exatamente por organizações “radicais”… seriam organizações de fato revolucionárias (como conselhos operários) ou o termo foi usado vagamente como sinônimo de “extremismo”? Da mesma forma, questiono como ocorre essa suposta combinação com as tais instituições conservadoras (que poderiam, me parece, abranger desde o aparato estatal até sindicatos e partidos políticos). Essa “fluidez conceitual” (para usar um eufemismo) transborda para a sua distinção entre fascismo como movimento e como regime. Ao definir o movimento pela articulação de partidos, milícias e sindicatos, não fica elucidado se essas ferramentas organizativas já nascem intrinsecamente fascistas ou se são instâncias prévias apenas instrumentalizadas pelo processo; e, ao caracterizar a fase de regime pelos “compromissos” firmados com as Forças Armadas, a Igreja, a burocracia e as frações do capital, sua definição acaba esbarrando na constatação genérica de que toda e qualquer tomada de poder institucional e não insurgente no capitalismo estabelece pactos idênticos com esses exatos mesmos setores. Portanto, ao empilhar características e dinâmicas de aliança sem explicar a essência que as unifica e as diferencia de outras formas corriqueiras de dominação e cooptação burguesa ou burocrática, a sua formulação deixa grandes lacunas sobre o que constitui, de fato, a especificidade do fascismo (parecendo um conjunto de organizações nacionalistas conservantistas que tem como objetivo ascender ao poder). No fim das contas, parece que essa definição carrega tantas características não esclarecidas que acaba desprovida de uma determinação fundamental e de verdadeira coerência teórica, confundindo ao invés de esclarecer.
Mas, como insisto desde o princípio, meu intuito aqui foi apenas resgatar um bom texto para refletirmos sobre a despolitização do termo fascismo. Isso nos leva de volta a Rühle. Temos a vantagem histórica de estar à frente do seu tempo. O que sugiro com a leitura do seu texto é justamente notarmos o quão terrível e específico foi aquele momento histórico, a forma como o fascismo foi derrotado e como essa derrota não foi suficiente para abolir o capitalismo, o que manteve vivas as raízes para o seu ressurgimento. Não estou dizendo que o fascismo ressurgirá sempre através da democracia, mas que é fundamental não nos limitarmos a defendê-la, pois ela é insuficiente. É preciso superar e abolir a base que dá sustentação tanto à democracia burguesa quanto à possibilidade do fascismo: o capitalismo (e a não percepção disso é o limite do antifascismo).
Você classificou isso como um palavreado revolucionário abstrato, argumentando que a democracia oferece as melhores condições de luta para o movimento revolucionário. Ora, concordo plenamente que a a democracia facilita a organização revolucionária se comparadas a um Estado fascista ou ditatorial. Quando afirmei que era “relativamente fácil”, estava comparando justamente com a extrema dificuldade de articulação sob uma ditadura. Contudo, a questão é que não estamos numa “encruzilhada” sendo forçados a escolher a democracia para nos salvar de outra coisa. Já estamos na democracia! E, por estarmos na democracia burguesa de um país capitalista subordinado, temos o dever, como revolucionários, de negá-la, aproveitando exatamente essas mesmas condições que ela nos oferece, e você mesmo apontou isso, para lutar radicalmente contra a nossa própria realidade, a democracia burguesa, o fascismo que tem condições de renascer mundialmente, e contra a sociedade capitalista em geral.
Se não aproveitarmos essas condições, já que estamos em uma democracia, e considerando que o fascismo (como você mesmo definiu) é uma forma de contrarrevolução para manter o capitalismo, acabaríamos presos em um ciclo infinito. Estaríamos sempre combatendo o fascismo em favor da democracia, sempre adiando o confronto real para defender as melhores condições de luta, em vez de lutarmos efetivamente contra a democracia burguesa, o fascismo e o próprio capitalismo, em conjunto. Como diria Paul Mattick, o fascismo é o último refúgio da burguesia. A propósito, sugiro outro texto de Mattick em que ele alerta: “Levantar ou ajudar a levantar o slogan da democracia em um período de fascismo não significa a superação, mas o fortalecimento das ilusões democráticas”. Se esse slogan é conservador nesta situação, qual o peso disso numa situação que já é democrática? Essa seria a reflexão que queria instigar aqui, e que, infelizmente, foi mal compreendida por você.
Por isso, não há nada de “abstrato” em querer aproveitar o melhor momento democrático para lutar de fato, em vez de se limitar a lutar pelas condições de luta. Há diversas formas e organizações para realizar essa luta de forma radical, há uma vasta discussão sobre organização revolucionária e formas de luta (inclusive, dos comunistas de conselhos); e, ainda acrescento, o próprio portal Passa Palavra pode assumir um papel importante nesse processo, o que mais uma vez mostra que não acusei ninguém daqui de nada.
Por mais que possamos discordar sobre a definição exata de fascismo, devemos notar, no entanto, que ambos o analisamos levando em consideração a luta de classes e o processo histórico. Essa convergência é o suficiente, a meu ver, para concordarmos no ponto que julgo ser o mais importante: a crítica à ilusão democrática de rotular o bolsonarismo como “fascismo”, reduzindo a ação “antifascista” a defender a democracia, ou, ainda pior, simplesmente ao utilitarismo de votar no Haddad e, posteriormente, no Lula. Diante da sua compreensível exigência por rigor em nossa discussão, é excelente perceber que, no fim, você não compartilha dessas ilusões. Como, felizmente, não pescamos essa ilusão e convergimos nessa crítica, já me dou por satisfeito com a nossa discussão.
Acreditar em uma definição, que por, apego dogmático a gramática dos chefes socialistas, e dos piores em matéria, diga-se de passagem, que o fascismo é, entre outras arbitrariedades definidas, a “expressão política da burguesia em aliança com a burocracia”, é se render a um mundo conceitual abstrato. É um dispaltério que não se encontra diante dos fatos. Caso, queira investigar os fatos da “administração” no Terceiro Reich, para usarnos o exemplo clássico, descobrirá que longe de querer uma aliança com a burocracia, os fascistas alemães fizeram de tudo para destruir a burocracia do Estado alemão pelos seus agentes e suas agencias descentralizadas, por delegação de responsabilidades. Olha só, meus queridos, que murro no estômago dos revolucionários… os fascistas alemães na implementação das suas práticas crueis, eram delegados responsáveis, e aqueles acostumados com as escrituras entenderam o sarcarmo. Esses agentes desburocratizados por princípios, informais antiestatistas, carrascos libertários de todas as amarras do Estado de direito e das leis escritas que oprimem a tortura e que limitam, autoritariamente, a liberdade do genocídio higiênico e saudável dos aptos diante dos inaptos. Esses cultuadores da oralidade e das ordens orais sem leis escritas e questionáveis, burocratas? Caros, esses agentes que não se submetem a burocracia formal mas adotam a liberdade de se submeter as ordens do Guia, libertos para passarem por cima da burocracia limitadora ao adotarem a liberdade de serem guiados pelo Fuher e suas palavras com poder de lei, o Führerprinzip.
Burocracia? Isso não condiz com os fatos! Não foi assim que aconteceu e é assim que acontece até hoje na sociedade da luta permanente dos gestores contra os colaboradores, essa nova gramática das lutas de classes atuais. Se queres saber o que é o fascismo em nossos dias, leia o texto: “A seita”, escrito por um colaborador. Esse pequeno texto e seus comentários, sem beleletrismo, colocará o confortável acadêmico em um mundo vivido pelos despossuídos e o seus locais de trabalho. Talvez sirva de exemplo para quem vive do deslumbre de ser um livre para obedecer e não tem nem a noção disso.
Olá, Gogol, como vai?
Bom, eu fiquei um tanto surpreso de alguém afirmar que os fascistas são antiburocraticos, ou antiestatais, quando, na verdade, inovaram na produção de novas formas de organização burocráticas ou na geração de um estado fascista. Aliás, eu diria que o fascismo burocratizou bastante as relações sociais, e isso é algo bastante conhecido.
Basta ver os sindicatos fascistas, os partidos, as organizações da juventude, o próprio estado fascista, as corporações, as milícias, etc. Tudo isso são organizações burocráticas. A burocratização das relações sociais foram essenciais, inclusive, para a integração da população ao fascismo, ao totalitarismo, a repressão, a criminalização, etc.
O dogmatismo é um problema sério e sou acusado disso constantemente por aqui, embora seja uma acusação sem nenhum fundamento. Apenas porque citei um determinado autor, não significa que não li e compreendi diversos outros. A necessidade de uma revisão bibliográfica em seção de comentários é uma novidade.
No entanto, isso ilustra muito bem a falta de reflexão ou a negação daquilo que um autor afirma apenas por ser tal autor sem a devida criticidade.
Caro Mateus,
Indico a você a leitura de “Livres para Obedecer: A gestão, do nazismo aos nossos dias” do historiador Johann Chapoutot. Todos os pontos que você levantou são verdadeiros sobre os regimes fascista, mas será isso burocracia? Os velhos conceitos não explicam tudo. O livro que te indiquei analisa o caso alemão e você se surpreenderá pois um dos objetivos da gestão nazista foi justamente se livrar das amarras burocráticas. No caso alemão, os burocratas que já estavam ali foram rebaixados e a inovação para desburocratizar o Estado foi a implementação das Agencias que delegavam responsáveis, que eram sempre os nazistas, para ter feito o que fizeram tinham um senso de missão zeloza muito bem fundamentada e não seria uma mera formalidade burocratica que os impediriam. Organização não é sinônimo de burocracia. A elasticidade e fluidez da gestão iniciada no Terceiro Reich é um instrumento de opressão que se sente até hoje, as influências ideológicas não sumiram junto com a queda dos regimes fascistas, estão aí, inclusive na boca e nas ideias de muitos daqueles que se dizem socialistas.
Um ambiente burocratizado não mobilizaria as massas, não as integraria, o feixe na poderia ser alinhado, a submissão feliz de ser guiado teve e tem um papel importante para a consolidação do regime. O que foi criado no Terceiro Reich em matéria de organização é algo diferente de burocracia, o Estado fascista foi um Estado de Novo Tipo e os mitos dos povos germanos que não se organização em Estado foram lembrados, a maneira nazista, e o camponês guerreiro era a personificação.
Caro gogol, lerei e depois retorno aqui para apresentar minhas reflexões.