Por João Bernardo

A classe trabalhadora pode ser definida no plano económico ou no plano sociológico. É indispensável não confundir estes dois planos.

Eu defino o tempo como a substância do capitalismo, porque a mais-valia, ou seja, o processo de exploração, ocorre no tempo e resulta de contradições operadas no tempo. Aqueles que controlam o seu próprio tempo de trabalho, ou participam nesse controle, e simultaneamente controlam o tempo de trabalho alheio constituem as classes exploradoras (burgueses e gestores). Aqueles que não controlam o seu próprio tempo de trabalho nem o tempo de trabalho alheio constituem a classe trabalhadora. Aqueles que controlam o seu tempo de trabalho e não controlam o tempo de trabalho de mais ninguém são exteriores ao modo de produção capitalista, com o qual se relacionam apenas através do mercado (artistas, artesãos individuais e o que resta das velhas profissões liberais).

Neste plano económico a classe trabalhadora tem uma existência permanente e verificável. A Gestão dos Recursos Humanos está no centro das preocupações de qualquer patrão ou administrador, e falar de «recursos humanos» é simplesmente um eufemismo para não dizer «classe trabalhadora».

Quem ler as análises publicadas pelos teóricos e pelos técnicos do capitalismo sobre os sistemas de produção e os desafios colocados à administração de empresa depara inevitavelmente com a classe trabalhadora. Nenhum estudo económico pode ser feito sem a ter em conta. Os conflitos que ocorrem nas relações de trabalho, desde os mais passivos e individuais até aos mais activos e colectivos visam, ou pelo menos têm como efeito, perturbar ou interromper o fluxo do tempo de trabalho. E as técnicas de administração visam, no fundamental, evitar ou antecipar as insatisfações e os movimentos reivindicativos, de modo que o tempo de trabalho possa fluir sem interrupções. É este o antagonismo interno que se verifica no tempo enquanto substância do capitalismo, e é neste plano que a classe trabalhadora manifesta permanentemente a sua existência.

No plano sociológico, porém, a classe trabalhadora nunca conseguiu ter uma existência permanente. Os trabalhadores só tomam consciência da sua realidade enquanto classe quando enfrentam activamente a globalidade dos capitalistas. Só neste confronto a classe trabalhadora pode existir no plano sociológico.

Em 1846-1848 a classe trabalhadora assumiu uma existência sociológica no âmbito europeu, desde as ilhas britânicas até ao sul da Itália, desde Portugal até à Polónia repartida. A classe trabalhadora voltou a assumir uma existência sociológica num âmbito mais vasto, incluindo toda a Europa e os Estados Unidos, desde os anos finais da primeira guerra mundial até ao início da década de 1920. Mais recentemente, e já num âmbito mundial, a classe trabalhadora assumiu de novo uma existência sociológica desde a década de 1960 até à década de 1980. Poucos sabem hoje, ou desejam recordar, mas foi então que nós estivemos à beira de vencer, como escrevi em «Epílogo e prefácio (um testemunho presencial)».

Nessa época o capitalismo estava enleado na última das suas crises económicas estruturais, e a unificação internacional da classe trabalhadora no plano sociológico parecia tornar iminente a conversão dessa crise estrutural numa crise terminal. Mas a situação inverteu-se, e nas últimas décadas um capitalismo globalizado manipula sem grandes dificuldades os trabalhadores fragmentados e dispersos. «O capitalismo pressupõe a produção de especialistas e a balcanização do conhecimento», salientou Paul Morrison; «a eliminação ou demonização de qualquer perspectiva global pode apenas servir os interesses de uma ordem económica que ela própria se define pelo globalismo» (The Poetics of Fascism. Ezra Pound, T. S. Eliot, Paul de Man. Nova Iorque e Oxford: Oxford University Press, 1996, pág. 14). Hoje a classe trabalhadora não existe no plano sociológico.

A hegemonia adquirida pelos identitarismos no plano sociológico e ideológico é a expressão directa do desaparecimento da classe trabalhadora nesse plano. Esta hegemonia é tão completa que a esquerda — ou aquilo a que a desnaturação do vocabulário continua a chamar esquerda — apresenta os trabalhadores como uma outra identidade, que eventualmente se pode acoplar às demais. O desaparecimento sociológico e ideológico dos trabalhadores enquanto classe e a sua inserção no xadrez das identidades representa a maior vitória do identitarismo.

A afirmação de identidades reproduz todos os vícios do nacionalismo. Tal como Paul Valéry preveniu em 1931, numa época em que os nacionalismos se tornavam deveras ameaçadores, «A História é o produto mais perigoso que a química do cérebro elaborou. As suas propriedades são bem conhecidas. Faz sonhar, embriaga os povos, gera-lhes falsas memórias, exagera-lhes os reflexos, nutre-lhes as velhas mágoas, atormenta-os no repouso, condu-los ao delírio das grandezas ou ao da perseguição e torna as nações amargas, arrogantes, insuportáveis e vaidosas» (Regards sur le Monde Actuel et autres Essais. Paris: Gallimard, 1945, pág. 27). Tudo isto se pode hoje dizer acerca do identitarismo.

Mas os nacionalismos, pelo menos, referiam-se a fronteiras fixas, enquanto as identidades, reais ou presumidas, projectam a sua histeria em horizontes indefinidos, já que se reivindicam de limites fluidos, sobreponíveis e, aliás, subjectivos. E assim como o nacionalismo assumiu as formas mais extremas — e também mais delirantes — no racismo, em que numa dança de roda se passava dos aspectos culturais para os biológicos e dos biológicos para os culturais, também os identitarismos fazem o mesmo, tanto os de género como os de cor de pele ou de sexo ou de qualquer outra coisa. Há já muitos anos eu mostrei que a oscilação entre biologia e cultura no nacional-socialismo tem uma estreita afinidade com idêntica oscilação característica da forma moderna de feminismo. O mesmo se deve dizer de um movimento negro capaz de defender que «Miscigenação também é genocídio» e que invoca os fenótipos com o mesmo afã com que os invocaram os cultores das raças. Os identitarismos reproduzem não só as formas mais perversas do nacionalismo, mas também a forma mais perversa dos fascismos, o racismo nacional-socialista.

Todavia, o aspecto principal que as novas identidades têm em comum com o velho nacionalismo é o carácter supraclassista. Enquanto que a afirmação da classe trabalhadora no plano sociológico rompe, ou visa romper, a sociedade horizontalmente, marcando com clareza a clivagem entre os que produzem mais-valia e os que se apropriam dela, o nacionalismo e o identitarismo reúnem trabalhadores e capitalistas em torno de um mito comum, ou geográfico ou cultural e biológico.

Ora, qualquer forma de união entre exploradores e explorados tem como efeito imediato consolidar o processo de exploração. A história mostrou-o abundantemente no caso dos nacionalismos. No caso dos identitarismos verificamos o mesmo resultado com a política de cotas, que mobiliza massas de pessoas de uma dada identidade, ou presumida identidade, para promover a ascensão social de um número reduzido dessas pessoas, convertendo-as em nova elite ou inserindo-as na elite já existente. Assim como a expansão territorial obtida por meios militares era o resultado lógico dos nacionalismos, a promoção de elites graças à política de cotas é o resultado lógico dos identitarismos.

É certo que na vida corrente as coisas aparecem confusas, nos conflitos do dia-a-dia, na convivência das cervejarias. Quem se limite a viver no meio da confusão não sabe desembaraçar-se das dificuldades. Mas a função da ciência, e do seu equivalente na política, é precisamente a de simplificar e cortar a direito. O problema é que hoje praticamente só existem dois tipos de marxismo: o marxismo pré-galilaico e o marxismo esponja.

Quanto ao primeiro, tal como os opositores de Galileo se recusavam a espreitar pela luneta para ver os satélites de Júpiter e continuavam fiéis à cosmografia grega, também estes marxistas se recusam a ver as estatísticas e bastam-lhes os textos do mestre. Desapareceram assim do reino dos vivos e foram para o museu das múmias.

O marxismo esponja, por seu lado, absorve tudo aquilo que as marés lhe trazem. A operação vocabular é simples, colando-se o adjectivo «marxista» a qualquer tipo de identitarismo. A operação política é mais complicada, porém, e tem os mesmos efeitos que teve, entre as duas guerras mundiais, a colagem do marxismo aos nacionalismos, que por um lado precipitou massas trabalhadoras em apoio ao fascismo, e por outro lado apressou a degenerescência extrema do marxismo que foi o stalinismo.

Hoje, quando se trata de começar, a partir do seu nível mais baixo, um novo ciclo de lutas, é indispensável distinguir a política de classe e a política de identidades, sem supor que uma possa aliar-se à outra.

O artigo foi ilustrado com máscaras da coleção do Museu Nacional de Etnologia (Portugal).

38 COMENTÁRIOS

  1. Um texto muito pertinente e que me levou a pensar no seguinte.

    De facto, a questão do “marxismo esponja” revela um dado pertinente sobre a política das últimas décadas. Se se reparar, é esse mesmo pretenso marxismo que a esquerda pós-moderna foi criando a que a direita radical chama de “marxismo cultural”. Ou seja, uma corrente teórica e política que se concentrava, mesmo que nas suas limitações e ambiguidades, no plano socioeconómico passou a ser considerada, quer por uma parte da esquerda, quer por uma parte da direita, um identitarismo.

    E isto leva-nos para o maior problema, ou pelo menos um dos mais significativos, que é o facto de a luta política se encontrar polarizada entre duas barricadas de identitarismos. Os que à esquerda aspiram a um mundo de tribos e clãs incomunicáveis entre si, e os que à direita se batem por um mundo reminiscente de uma fantasia de sociedade sem contradições e sem os empecilhos das mulheres com direitos, etc. À pala da culturalização do mundo, os dois identitarismos rivais ampliam-na ainda mais. É deste terreno fértil que surgem os chamados populismos, a descrença na ciência e a correlativa paixão pelo oculto, o extremismo religioso, o afã proibicionista, a vigilância da linguagem, a realidade como uma coleção de narrativas, o labirinto. Dentro destas tensões que marcam os dois campos identitários talvez faça sentido o dizer da Rainha de Copas de que, no seu mundo fantasioso, seria preciso estar sempre a correr para nos mantermos no mesmo sítio. É mais ou menos isto para que serve a conflagração identitária.

  2. Caro João Bernardo,

    Não sei se estou pensando em termos de um “marxismo pré-galilaico”, mas no parágrafo, “O desaparecimento sociológico e ideológico dos trabalhadores enquanto classe e a sua inserção no xadrez das identidades representa a maior vitória do identitarismo”, não seria mais preciso dizer “vitória do capitalismo”, posto que a luta é de classes, e os identitarismos não são classe? E se “as identidades, reais ou presumidas, projectam a sua histeria em horizontes indefinidos, já que se reivindicam de limites fluidos, sobreponíveis e, aliás, subjectivos”, esta fluidez, indefinição e subjetividade não seriam pressupostos capitalistas contidos nos próprios identitarismos, representando uma espécie de desenvolvimento das forças produtivas, tanto nas novas formas de produção (sendo, talvez, a uberização uma representação, como causa e consequência simultâneas, deste desenvolvimento) quanto no desenvolvimento de novas mercadorias, inclusive a mercadoria força de trabalho? Enfim, a observação prática e mesmo teórica, me faz pensar os identitarismos como uma forma de desenvolvimento capitalista em termos estritamente capitalista, em que a maximização da fragmentação dos trabalhadores no campo social, tem como oposto a maximização da integração ao trabalho destes mesmos trabalhadores: a “desunião” é compensada pela “união” nas identidades, e “qualquer forma de união entre exploradores e explorados tem como efeito imediato consolidar o processo de exploração”, e, assim sendo, o identitarismo não seria a realização de si próprio, mas seria a realização do próprio capital?

  3. Vou responder em conjunto aos comentários anteriores, prevenindo, no entanto, o primeiro comentador de que serei um pouco menos rigoroso e muito menos simples.

    Ao longo de mais de dois séculos temos sofrido as vitórias do capitalismo, de imediato ou a prazo, senão o capitalismo já teria acabado. Não avançamos sequer um milímetro se repetirmos a propósito de tudo que a culpa é do capitalismo. O importante é analisar, em cada época e em cada circunstância, como é que o capitalismo obteve essas vitórias e de que maneira e por que processos os trabalhadores foram vencidos. Neste caso, através do identitarismo. Como comecei por dizer no artigo — que aliás é mais um roteiro do que um artigo — é indispensável distinguir os planos, económico ou sociológico, em que definimos a classe trabalhadora. Ora, no plano económico os conflitos sociais são permanentes, mas podem estar reduzidos a modalidades fragmentadas, individualizadas ou mesmo latentes. É no plano sociológico que a classe trabalhadora pode existir enquanto classe, desde que supere a sua fragmentação, e os conflitos e fricções promovidos pelos identitários indicam precisamente uma inexistência sociológica da classe trabalhadora enquanto classe. Por isso me parece preferível discriminar, num primeiro passo do raciocínio, a hegemonia do identitarismo e depois, no passo seguinte, a forma como essa hegemonia fortalece o capitalismo.

    Todavia, o grande problema aqui resulta da impossibilidade de delinear perfeitamente a história da época em que se vive. Por um lado, alguns processos não são perceptíveis, já que ainda não ocorreram as suas consequências mais drásticas, que os hão-de tornar visíveis. Por outro lado, sem tempo para se desenvolverem, mesmo os processos perceptíveis não mostram ainda as suas importâncias relativas. Além disso, continuam em vigor processos herdados da época anterior, que irão esgotar-se. Em termos simples, o presente surge sempre como uma amálgama confusa do passado e do futuro.

    Apesar disso, creio ser possível enunciar uma constelação de fenómenos que caracteriza globalmente o capitalismo na época actual. Indico alguns que me parecem mais relevantes neste momento:
    – a industrialização da agricultura, tanto do agronegócio como das pequenas explorações agrícolas, e a aplicação da electrónica a todos os processos de produção deixaram sem significado a velha divisão em agricultura, indústria e serviços;
    – a aplicação da electrónica aos processos de produção cancelou a distinção entre fabrico de bens materiais, que obedecem à força da gravidade, e produção de bens imateriais, que não obedecem à força da gravidade (por esta razão eu analiso o capitalismo e as relações de exploração em termos de processos de trabalho decorrendo no tempo, e não de produtos);
    – difundem-se a subcontratação, a terceirização e a sua forma extrema, que é a uberização;
    – os movimentos ecológicos promovem a inversão dos mecanismos de produtividade, no que convergem com a barbárie pós-capitalista implementada por alguns fascismos durante a segunda guerra mundial;
    – um mesmo instrumento, o computador, serve de instrumento de trabalho, de meio de lazer e de mecanismo de fiscalização;
    – a dependência relativamente aos telefones celulares (telemóveis, em Portugal) e relativamente às redes sociais leva as amizades pessoais a serem substituídas pelas afinidades virtuais;
    – o facto de a vigilância policial cobrir praticamente toda a internet permite-lhe o conhecimento detalhado de ideias e contactos, e — o que pode parecer surpreendente — apesar disso as pessoas expõem obsessivamente na internet as suas ideias e os seus contactos;
    – a concentração e a reflexão são substituídas, inclusivamente nos métodos pedagógicos, pelo fraccionamento da atenção;
    – os telefones celulares e as redes sociais facultam a expansão da indústria cultural de massas e permitem que a demagogia e as notícias falsas atinjam proporções avassaladoras, tanto fomentadas por governos como geradas e difundidas por movimentos de contestação;
    – generaliza-se o carácter supraclassista das modas, em que a diferença de qualidade dos tecidos é disfarçada pela similaridade das formas do vestuário;
    – expande-se o conjunto de superstições e de religiosidade pseudo-arcaica geralmente classificado como New Age, agravado pelas feitiçarias a que alguns identitarismos dão um novo fôlego;
    – adquiriu a hegemonia nas ciências sociais — chamo-lhes “ciências” só por hábito — a noção de que não existem factos, mas apenas constructos, e de que qualquer sociedade é estritamente auto-referente, o que impede a história comparada e liquida a noção de uma história conjunta da humanidade, uma história que, embora internamente contraditória, seja conjunta;
    – as noções de que não existem factos, mas apenas constructos, e de que a linguagem é simbólica e não referente a factos concentraram a política na esfera do dicionário e criaram uma lista, ilimitada e em expansão, de termos e gestos simbólicos admitidos como politicamente correctos.

    Penso que o identitarismo é um dos dois ou três processos que se colocam no centro desta constelação de fenómenos, mas por enquanto sou incapaz de desenhar a teia e de hierarquizar a estrutura de tudo isto.

  4. Uma lição de equívocos, presunção e engessamento: a substância do capital é o tempo, mas o tempo é disposto pelo próprio capital. Feliz do capitalista imaginário que pudesse dispor do próprio tempo e não doá-lo até o esgotamento ao acumulo excessivo de capital. O capital é o único sujeito da relação, mas o autor acredita que não! Definir a classe trabalhadora como sociológica dá nisso! Recursos humanos! Segue o barco do marxismo positivista e seus asseclas! O único modo de abstratizar a classe! uma classe sem ninguém já que a luta das mulheres e dos negros não a compõe! ficaremos assim esperando você trabalhadores brancos e europeus indicarem o caminho da universalidade da classe! Universalidade sem mediação…

  5. O bom é que Bolsonaro tem contribuído muito para barrar a produção de novas elites já que está criando emendas contra as cotas! Parabéns ao autor, ao Holiday e ao Passa Palavra por jogarem luz nesse processo tão ruim que é ter negros nas elites!

  6. Caro João Bernardo,

    Eu não quis dizer que tudo é culpa do capitalismo. De fato, “Não avançamos sequer um milímetro se repetirmos a propósito de tudo que a culpa é do capitalismo”. Porém, se “o presente surge sempre como uma amálgama confusa do passado e do futuro”, os “identitarismos” me parecem ser um fenômeno específico, que surge historicamente no modo de produção capitalista e que, creio eu, foi por ele condicionado, ainda que os vários grupos identitários se autodenominem ou reivindiquem-se anticapitalistas.

    Por isso a questão vai muitíssimo mais além que os tão debatidos (aqui e acolá) escrachos ou as cotas no âmbito estudantil. A título tão somente de exemplo:

    “Segundo o Instituto Locomotiva, os empreendedores negros movimentam cerca de R$ 219,3 bilhões no país. Buscando ultrapassar as barreiras sociais, econômicas e estruturais que impedem a mulher negra de crescer nesse contexto, a Rede Brasil Afroempreendedor (Reafro) e o grupo Mulheres do Brasil uniram-se para dar vida ao projeto “Afromentoring”. (…) Os dados econômicos comprovam a importância de se investir na preparação das mulheres negras para que se tornem pessoas de maior sucesso e serem lideranças empresariais no país. A pesquisa “Os Donos de Negócios no Brasil: Análise por Raça/Cor (2003/2013), desenvolvida em 2015 pelo Sebrae, identificou que entre 2003 e 2013 o perfil de donos de negócios no país era de maioria declarada negra ou parda, sendo quase 12 milhões de pessoas. Contudo, apenas 31% do total de donos de negócios eram do gênero feminino.”(https://www.ecommercebrasil.com.br/noticias/afromentoring-auxilia-e-prepara-mulheres-negras-para-empreendedorismo-no-brasil/).

    O exemplo acima pode ser aplicado para várias outras “linhagens” identitárias. Por isso, João Bernardo, minha dúvida. Como distinguir o plano econômico do sociológico? Não há um movimento conjunto e necessário de submissão social e econômica dos identitarismos ao capitalismo ainda que sob uma bandeira anticapitalista, numa espécie de desenvolvimento desigual e combinado?

    Obrigado por sua atenção!

    G.O.R

  7. Numa relação de compra e venda da força de trabalho, o que um capitalista adquire é uma determinada quantidade de tempo, vendida por aqueles sujeitos que foram previamente destituídos da propriedade dos meios de produção e que para sobreviverem são obrigados a venderem o seu tempo àqueles que possuem, ou gerem/controlam, os meios de produção. O que será possível ao capitalista obter de trabalho dentro desse tempo que ele comprou não está pré-definido e dependerá de vários fatores, como por exemplo, das técnicas de gestão e das tecnologias de produção. Nesse sentido, não entendi qual a objeção por parte de um dos comentaristas acima a respeito de duas colocações feitas por João Bernardo: o “tempo como substância do capitalismo” e sobre os “recursos humanos”, enquanto gestão das relações de trabalho.
    Qualquer pessoa que tenha se dedicado a ler algumas linhas sobre as transformações dos processos de gestão da força de trabalho deve ter se deparado com alguma informação a respeito, por exemplo, das pesquisas desenvolvidas por Elton Mayo. Nem todos os pesquisadores e gestores ao longo do século XX consideraram que as disputas entre capitalistas e trabalhadores poderiam ser resolvidas por meio da repressão explícita (demissões, porretes e balas) ou exclusivamente por meio de salários considerados, por eles próprios, como adequados (um salário justo para um dia de trabalho justo). Alguns buscaram tornar as próprias relações sociais no chão da fábrica menos conflituosas, ou se preferirem, mais harmônicas ou mais “humanas”, se antecipando aos conflitos.
    Será que até mesmo fatos estruturantes das relações capitalistas de produção – como o tempo de trabalho e, por conseguinte, a extração de mais-valia – passaram a ser “desconstruídos” e tornaram-se “opiniões”?

    A respeito da outra definição feita por João Bernardo nesse texto, sobre a definição econômica e a definição sociológica da classe trabalhadora, tampouco parece trazer tantas dificuldades de compreensão. Dentro da tradição marxista, outros autores trabalharam com os conceitos de “classe em si” e “classe para si”; também já se falou em “consciência de classe” e “consciência revolucionária” etc. O crucial aqui parece ser o fato de que ao longo de uma jornada de trabalho há uma luta constante entre os trabalhadores e os capitalistas em torno do tempo que os primeiros deverão dedicar exclusivamente às tarefas que foram contratados para realizar, mas que eles frequentemente gastam sem nada fazer ou fazendo outras coisas para as quais não foram contratados. Essa luta é estruturante das relações de trabalho e qualquer capitalista sabe muito bem que precisa combatê-la e levá-la em consideração para estabelecer metas de produção, realizar cálculos de custo e assim por diante. Também é por meio desse tipo de luta, mas não apenas, que laços de solidariedade entre os trabalhadores vão sendo construídos, ações coletivas são pensadas e organizadas…
    Porém, nem sempre, ou raramente, essa disputa entre trabalhadores e capitalistas nos locais de produção e de circulação de mercadorias resultou em ações destinadas a colocar em causa a própria essência do modo capitalista de produção. Assim, se não estou sendo um mal “assecla”, compreendo que o João Bernardo buscou estabelecer uma conceituação que possibilite diferenciar as lutas cotidianas e que perpassam todo o desenvolvimento do capitalismo e as lutas que resultaram, ou almejaram forjar, em relações sociais de tipo novo.

    E aí chegamos ao ponto mais polêmico: a dura crítica feita por João Bernardo aos identitarismos. As lutas cotidianas continuam a ocorrer diariamente e basta observar o mundo à nossa volta para se constatar isso (há inúmeras maneiras de se fazer cera). Por outro lado, um número cada vez maior de movimentos que se auto definem como de esquerda – ou que nem fazem questão de se definirem como de esquerda, mas que são assim definidos pelos outros – têm, ao longo das últimas décadas, considerado que a identidade de classe é apenas mais uma entre outras identidades que se escolhe numa prateleira física ou virtual para se vestir num determinado dia e, consequentemente, que a luta de classes é apenas mais uma entre outras lutas. Isso fez com que das legítimas reivindicações das mulheres, dos negros e dos homossexuais para que suas reivindicações por igualdade fossem incorporadas às lutas dos trabalhadores se chegasse a uma situação em que ao invés da unidade se chegou a uma pulverização colossal de todas essas formas de luta, o que acaba por reforçar diuturnamente as relações capitalistas de produção.

    Nos anos 1960 e 1970, os trabalhadores em várias partes do mundo colocaram em questão a rígida distinção entre concepção e execução do trabalho. Essa luta foi reapropriada pelo capitalismo e resultou em relações de trabalho em que além da capacidade física dos trabalhadores passou-se a explorar também suas capacidades mentais.
    O mesmo vem acontecendo com as lutas das mulheres, dos negros e dos homossexuais. O capital se reapropriou das mesmas com o fim de fragmentar a classe trabalhadora e de estimular que mulheres, negros e homossexuais passassem a atuar cada vez mais em lutas supraclassistas. Isso pode causar incômodo aos militantes de tais causas que por ventura se posicionam como anticapitalistas, mas como explicar a defesa da segregação racial por alguns militantes negros? Como explicar a exaltação de reis ou tiranos africanos? Como explicar o ato de se comemorar o fato de uma mulher negra tornar-se capitalista? Como explicar a naturalização do fato de determinados grupos do movimento LGBTQI se recusarem a marchar ao lado de militantes de outras vertentes do movimento numa manifestação? Como explicar o silêncio diante do número cada vez maior de casos de agressões entre membros de casais do mesmo sexo? Por acaso a exploração de uma mulher negra por um capitalista branco é condenável, mas passa a ser aceitável (talvez desejável) se essa mesma mulher tornar-se funcionária de uma “empreendedora” também negra?
    É muito diferente afirmar que as lutas contra as discriminações de gênero, contra as discriminações em função da quantidade melatonina na pele e contra as discriminações decorrentes da orientação sexual dos sujeitos não têm importância e afirmar que tais lutas devem voltar a compor a luta mais ampla de todos aqueles que vivem da venda da sua força de trabalho. Ao contrário do que dois comentaristas afirmaram, um inclusive fazendo menção indireta ao fato de o João Bernardo ter nascido num país europeu, entendo que o fundamental desse debate é apontar como os identitarismos têm contribuído para se fragmentar cada vez mais a classe trabalhadora e para se fortalecer as relações sociais de tipo capitalistas.
    Talvez fosse mais fácil para alguns e, por conseguinte, mais honesto intelectual e politicamente, admitir que não estão preocupados em lutar pela construção de uma sociedade igualitária e fundamentada em relações sociais de tipo novo. Nesse caso, poderiam não mais se posicionarem como anticapitalistas e simplesmente admitir que se limitam a almejar que alguns elementos de seus “grupo minoritários” passem a compor as elites que controlam a sociedade na sua forma atual de organização econômica, política, social e cultural. Se feministas, militantes negros e outros tinham razão ao afirmarem que a supressão das relações capitalistas de produção eram insuficientes para se superar as múltiplas formas de opressão, infelizmente, chegamos hoje a uma realidade inversa, em que não raro deixou-se de colocar em causa a exploração.

  8. Bolsonaro leitor do PP, o atual governo não pretende barrar a construção de novas elites. Pretende criar outras novas elites, seguindo os preceitos de Olavo de Carvalho e esse movimento mais amplo capitaneado por Steve Bannon. Possivelmente há mais semelhanças do que diferenças entre os dois projetos de construção de elites.

  9. O interessante é que o autor não escreveu, em momento algum, que as lutas em nome das igualdades racial, entre homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, entre outras, são nocivas à luta de classes: a história nos mostra que, ao contrário, tais lutas sempre reforçaram o caráter libertário da luta da classe trabalhadora contra a exploração, a opressão política e o imperialismo.

    Se está simplesmente afirmando que, quando tais lutas são definidas e prosseguem em termos de identidades supraclassistas, não podem ser jamais consideradas fatores de constituição e fortalecimento da classe trabalhadora “para si”, ou da classe trabalhadora sociologicamente considerada, na luta contra as demais. Se está simplesmente afirmando que tais lutas devem inserir-se numa “política de classe”, e nada mais. E, para que isso ocorra, as práticas promovidas no interior dessas lutas devem reforçar, ao mesmo tempo, a classe trabalhadora em seus embates com as classes capitalistas: toda luta que contribui para desvelar as contradições de classe e projetar a classe trabalhadora contra as classes exploradoras, sem que daí resultem instituições capazes de renovar as bases da exploração, da opressão política e do imperialismo, é extremamente necessária. Nesse sentido, o identitarismo falha miseravelmente e propositalmente, pois seu objetivo é outro.

    Os identitários se apropriaram de tais lutas e, desde então, as instrumentalizam, nefasta e covardemente, em benefício próprio. O que vemos é a militância das organizações identitárias reforçando a conciliação de classes e a vitalidade das classes exploradoras, tanto a burguesia quanto os gestores, fornecendo-lhes novos quadros e manobrando, para isso, contingentes consideráveis de trabalhadores que, embriagados pelas ilusões da representatividade, nutrem a falsa consciência de que a ascensão de uns corresponde à ascensão de todos. É interessante como a democracia representativa é denunciada, em muitos meios de esquerda, como uma farsa: argumenta-se, e com razão, que as pessoas que ascendem na pirâmide social através da política acabam representando, na verdade, quando passam a ocupar gabinetes, a si mesmas, e não ao conjunto daqueles que compartilham de sua anterior condição social. O mesmo tipo de crítica é feito ao sindicalismo. No entanto, para os identitários, a ascensão de novas elites a partir das minorias oprimidas é celebrada como um progresso efetivo para todos os indivíduos que as compõem. Não é incoerência, mas hipocrisia.

    É evidente que inserir as lutas por igualdade numa “política de classe” não tem nada a ver com gerir coletivos feministas excludentes e punitivistas, enquanto, apenas no plano do discurso, afirma-se que a luta feminista é também anticapitalista, quando, na prática, fica claro que o principal ou único objetivo é promover a ascensão social e política de uma fração muito limitada de mulheres. É a isso que o feminismo deve se reduzir? Não, mas é a isso que os identitários querem que se reduza. Também não tem nada a ver com gerir coletivos do movimento negro que, apenas no plano do discurso e de modo muito rudimentar, afirmam que a luta contra a desigualdade racial é indispensável para a luta contra o capitalismo, enquanto, na prática, tais coletivos perseguem um principal ou único objetivo: consolidar a ascensão social e política de uma fração muito limitada de negros. O mesmo pode-se dizer de vários outros movimentos.

    Será possível que — no mundo atual, em que o capitalismo se expandiu por todo o globo e subjugou a totalidade da população mundial, sem fazer distinções de raça, sexo etc. — um anticapitalista libertário e anti-imperialista autêntico seja contra a igualdade racial e a luta pela igualdade racial? Não, absolutamente, na medida em que o racismo impede a união entre trabalhadores brancos e negros e favorece a identificação entre trabalhador branco e patrão branco, trabalhador negro e patrão negro. Pelas mesmas razões, é absolutamente impossível que um autêntico anticapitalista libertário e anti-imperialista seja contra a igualdade entre homens e mulheres e a luta por essa igualdade. Mas, contudo, quem promove e desenvolve a “política de identidade” e, ao mesmo tempo, se diz anticapitalista trabalha exatamente contra a união entre trabalhadores e trabalhadoras, trabalhadores branco e negros, e a favor da identificação entre patroas e empregadas, patrões negros e empregados negros. É exatamente por isso que não são anticapitalistas, não são libertários e não são anti-imperialistas autênticos.

    Vocês, identitários, são a fraude, a indução ao erro, o ardil, a enganação, o estelionato, da militância do nosso tempo. Vocês são a institucionalização da falsa consciência. Mesmo que afirmem ser contrários a esse tipo de cisão na classe trabalhadora, a esse tipo de conciliação de classes, mesmo que acreditem firmemente nisso, quando vocês desenvolvem, na prática, uma política excludente e de promoção de elites, vocês atuam no sentido contrário da luta contra o capitalismo, a opressão política e o imperialismo.

    É por isso que só a falta de honestidade e de caráter de alguns comentadores acima pode explicar por que ainda pretendem se passar por algo que não são.

  10. Confesso que até dá uma preguiça demonstrar que há uma redução gritante contida na noção de tempo como ‘substância” do capital. Mas vou fazer o esforço para demonstrar que é uma falácia tremenda dizer que “aqueles que controlam o seu próprio tempo de trabalho, ou participam nesse controle, e simultaneamente controlam o tempo de trabalho alheio constituem as classes exploradoras (burgueses e gestores)”, como se fosse possível por um golpe de força os capitalistas superarem o tempo social médio da produção e reprodução do capital. (Isso para não rir da noção de que as áreas liberais estão fora do processo e podem se considerar lump-proletarios).

    É evidente que a substância comum de mercadorias permutáveis só pode ser o dispêndio de trabalho que as criou. O que difere bastante de afirmar, sem mais, que o tempo é a substância do capitalismo. Também é evidente, quer dizer para quem leu o bê-a-bá, que o trabalho é mensurável a partir da respectiva duração quantitativa. Logo, o valor de cada mercadoria depende da quantidade de trabalho que foi dispendida para produzi-la.

    Ora, o trabalho que fundamenta o valor de cada mercadoria só pode ser obtido pelo dispêndio de tempo necessário para ser executado. Aquilo que Marx chamou de “trabalho abstrato”. O valor, o segredo ocultado pelo positivismo, forma-se a partir de uma quantidade determinada de trabalho abstrato contido numa mercadoria. Que se torna abstrato porque se abstrai de toda qualidade e independe de suas características particulares. Atenção amigo assecla do marxismo positivista, a mercadoria é aí a unidade do valor de uso e do valor, mas também do trabalho concreto e do trabalho abstrato.

    O valor vai ser determinado pelo tempo, acontece entretanto, que esse tempo é independente do capitalista individual que aí está também abstraído pelo próprio valor. Quero dizer com isso que nem capitalistas e nem gestores (aqui estou até fazendo concessões já que gestores só são capatazes do capital, qualquer leitura de um economista social democrata demonstra a ilusão de se falar de novas elites, ainda mais de pretos, ciganos, mulheres e LGBTQI, num momento de máxima concentração e plutocracia) controlam o seu tempo de trabalho. Mas são controlados, pasmem, por aquilo que Marx chamou de tempo de trabalho socialmente necessário. De modo que quem controla o tempo é o capital e a forma mercadoria.
    Ué, mas não há homens nessa relação? Todos estão determinados pelo capital no seu processo de produção e reprodução social. E vou além, a própria luta de classes determina em grande medida esse processo do sujeito automático.

    É claro que ao afirmar o tempo como substância do capitalismo se borra a distinção entre trabalho abstrato e trabalho concreto, valor de uso e valor. Tudo vira trabalho e se pula diretamente para a noção de mais-valor para se abraçar a indistinção do próprio trabalho em si. O trabalho é o universal, mesmo que nele se mantenha distinções que vão do aspecto objetivo até o subjetivo. Estamos assim as voltas com o inconfessado ideal de um possível regresso a produção simples de mercadorias sem mais-valor nem capital. Daí que a própria noção de classe é essa indistinção abstrata. Ao invés de se fazer da crítica do mais-valor a partir do próprio desmascaramento do valor. Parte-se da mais-valia para de novo glorificar a pretensa classe que nos livrará do mal, ao invés de verificar a possibilidade de evanescimento da própria noção de classe no interior das contradições imanentes que ela própria impôs por estar atada ao capital, se apega ao ideal pequeno-burguês proudhoniano de gestão direta da produção. Sabe-se lá que diabos é isso…

    A questão da análise estanque é tão tresloucada que intervertendo a questão dá para afirmar que a única posição identitarista é a do próprio autor…

  11. De novo isso… Teu be-a-bá não tem pé nem cabeça!
    No teu be-a-bá “dispêndio de trabalho” não acontece no tempo não?
    Volte aos livros!

  12. É interessante notar como o nobre colega partiu de uma acusação genérica de que o João Bernardo representaria o “marxismo positivista” para chegar a acusações pretensamente mais “sofisticadas” de que ele representaria o retorno ao “ideal pequeno-burguês proudhoniano” e, pasmem, “a única posição identitarista” nesse debate.
    Como o comentário também me causou grande preguiça, logo no começo da manhã, vou me limitar a indagar se: voltar ao “be-a-bá” significa, em última instância, considerar o capital enquanto coisa e não enquanto uma relação social?
    Ao tentar voltar ao “be-a-bá”, me recordo que no livro I do Capital, Marx afirma que “[…] o capital não é uma coisa, mas uma relação social entre pessoas, efetivada através de coisas” já que os meios de produção e de subsistência “só se tornam capital em condições nas quais sirvam de meios para explorar e dominar o trabalhador.”

  13. O engraçado é que por diversas vezes na resposta aparece o dispêndio de tempo de trabalho, claro não como a redução da escolinha positivista, mas como a forma-valor. Significando assim que o modo de produção e reprodução do capital passa necessariamente pelo tempo socialmente necessário de sua própria produção e reprodução e que, portanto, não há um capitalista ubermensch capaz de dominar o próprio tempo e o tempo alheio senão seguir a dinâmica imposta por um tempo que também age por trás de suas costas.
    Já o segundo abiguinho apegando-se a relação social para salvar seu mestre sequer leu a resposta. O capital é isso mesmo a redução da relação social efetivada através de coisas, agora o amiguinho sequer se deu conta que nessa relação há a subsunção das particularidades à forma do valor, isto é, a abstração das características particulares em nome do acúmulo, da formulinha m-d-m’, e que portanto o único agente do processo é o capital e não capitalistas ou gestores, pois se não se declinaram a ordem do capital fatalmente deixarão de ser capitalistas!
    Tudo isso é dito para que possam salvar a abstração da classe? O que move o antagonismo ao capital é o mais urgente na vida dos trabalhadores que escapam a essa abstração de suas características e de sua vida. Entender tais dinâmicas é compreender que as pautas podem ultrapassar seu caráter economicista, corporativo, identificatório, para tornar-se uma perspectiva de classe em devir! Nem estou falando de identidade, ou política de identidade que é uma quimera. Estou falando de contradições no interior do próprio desenvolvimento imanente na forma de vida reduzida aos pressupostos do capital. Redução que o marxismo sociológico descartou por não estar no interior de seus próprios pressupostos.

  14. O nobre colega “De novo isso?” buscou desconstruir o artigo do João Bernardo a partir da problematização da sintética definição que ele apresentou das classes sociais. Para ele, a leitura do autor representaria a reprodução de um “marxismo positivista”, seja lá o que ele entende por isso.
    A interpretação adequada, de acordo com o douto colega, estaria na interpretação das relações sociais a partir da teoria do valor (não estou certo se consegui interpretar adequadamente seus argumentos tão sofisticados, mas que não abordaram a questão do valor de uso e do valor de troca, do tempo socialmente necessário como fruto das relações sociais e, portanto, se transformando constantemente ao longo do tempo etc.).
    Tampouco sei se o colega conhece a obra do João Bernardo ou se está se baseando exclusivamente neste artigo para defini-lo como “marxista positivista”, “pequeno burguês” e “identitarista”.
    Pelo pouco que conheço, me parece que um argumento central na interpretação do autor é a questão do controle: ser capaz de controlar o tempo de trabalho alheio. Obviamente, que ao falarmos de modo de produção capitalista, estamos falando de uma relação social global e não de indivíduos interagindo isoladamente. Os capitalistas são aqueles que controlam o tempo de trabalho alheio. Afirmar isso é expressão do “marxismo positivista”? É “abstratizar a classe”?

    E pergunto ao nobre colega: “o que move o antagonismo ao capital”?

    E indo além e tentando retomar o cerne do debate que o autor se propôs nesse artigo: o “antagonismo ao capital” se moveria a partir de reivindicações que colocam lado a lado trabalhadores e capitalistas? Quando setores cada vez mais numerosos dos movimentos feministas, negros e outros passam a lutar exclusivamente pela afirmação das suas especificidades estão a contribuir para a luta anticapitalista?

  15. Concordo com “De novo isso” que a formulação “aqueles que controlam o seu próprio tempo de trabalho (…) constituem as classes exploradoras”, tomada isoladamente soa infeliz. Ela pode dar a entender um certo voluntarismo dos capitalistas individuais, e disso escorregar para moralismo está logo ali. Por mais que eu imagine que um estudo sério de outros textos do autor não autorizem essa leitura, parece que cabe sim se perguntar o que exatamente é esse controle (não me parece que falar em controle *dos* capitalistas ao invés de controle *do* capitalista resolva o problema, como tenta “o mesmo assecla”). Tanto cabe que vemos esse moralismo aparecendo no comentário do Fagner Enrique, que atribui ao mau-caratismo de indivíduos os problemas do identitarismo; nada mais distante do materialismo histórico.

    Me parece que “De novo isso” faz uma crítica desse trecho e anexa a ela vários parágrafos de um programa kurziano. Sobre o texto, mesmo, não tem mais nada a dizer, além de inferir dele várias coisas que iriam contra esse programa. Inclusive, se é que eu estou entendendo alguma coisa, me parece que o trecho:

    “O que move o antagonismo ao capital é o mais urgente na vida dos trabalhadores que escapam a essa abstração de suas características e de sua vida. Entender tais dinâmicas é compreender que as pautas podem ultrapassar seu caráter economicista, corporativo, identificatório, para tornar-se uma perspectiva de classe em devir! Nem estou falando de identidade, ou política de identidade que é uma quimera.”

    Pode nesse contexto muito bem ser parafraseado como “os movimentos de trabalhadores ligados à especificidades de suas vidas podem originar lutas que engajem os trabalhadores como classe, e cabe entender esses movimentos”. Fica parecendo que “De novo isso” não entendeu o propósito de estar todo mundo quebrando a cabeça aqui, e desse site existir, etc. Sim, o que estamos tentando entender é em que medida e em que condições essas “pautas” tornam-se perspectiva de classe. É como se o debate voltasse para a casa 1. Esse trecho me tira a vontade de ler seriamente o restante das contribuições desse comentador.

  16. Caro João S.,

    Nunca pretendi explicar o identitarismo por meio de juízos de valor a respeito da moralidade desta ou daquela pessoa. Isso não me impede, no entanto, de apontar a desonestidade intelectual quando me deparo com ela, nem de denunciar a indução ao erro e o escamoteamento de práticas concretas pela instrumentalização de malabarismos discursivos. Mas, enfim, acho que meu comentário anterior criou condições para a sua interpretação. De qualquer forma, as observações abaixo me parecem necessárias:

    1. Se — no passado e, parcialmente, até hoje — muitos burocratas da esquerda tradicional, em nome de uma modalidade degenerada da luta de classes, desqualificaram ou negligenciaram as exigências de igualdade de diversos grupos de trabalhadores — por preconceito de sexo, raça etc., isto é, por estreiteza de visão, mas também porque tais exigências ameaçavam seu projeto de poder e ascensão socioeconômica — cabe agora aos identitários, em nome de uma também degenerada modalidade da luta, desqualificar e negligenciar — também por preconceito, estreiteza de visão, e também porque se veem ameaçados em seu projeto de poder e ascensão socioeconômica — qualquer pretensão de desenvolvimento de uma política de classe que integre, como elementos especificadores e reforçadores de seu caráter libertário, as pautas de que se apropriaram. A história do capitalismo pode passar por reviravoltas, mas burocracia é burocracia em qualquer época e lugar. O fenômeno do identitarismo, portanto, antes de resultar de qualquer falha de caráter, refere-se a um processo específico de burocratização. Isso não deve nos impedir, contudo, de perceber o cinismo, a hipocrisia e outras falhas de caráter como consequências do processo, afinal tudo isso vem de algum lugar, não é mesmo?

    2. Apesar de os identitários sempre objetarem que não temos — seus críticos — nada a propor, em termos de medidas concretas em favor das minorias que dizem representar, de pouco adianta fazer propostas para o desenvolvimento da luta de classes no sentido integrador a que me referi acima. E isso porque trata-se de as pessoas, em primeiro lugar, terem o interesse de participar num movimento de massas destinado a enfrentar os exploradores, seus instrumentos de opressão política e seus mecanismos de globalização da exploração e da opressão política: a atuação prática dos identitários vai na contramão da própria gestação de um tal movimento. Trata-se da velha sabotagem. A política da empatia e da subjetividade promovida pelos identitários faz com que cada um se mobilize apenas por si mesmo, com os olhos no próprio umbigo ou no espelho: só me mobilizo por eu mesmo ou por quem se parece comigo a ponto de se confundir comigo. É o narcisismo elevado ao nível de fundamento da práxis.

    3. Se, por um lado, o processo mencionado na observação 1, acima, difundiu — e, parcialmente, continua a difundir — a percepção de que, nos meios de esquerda “classistas” (degeneradamente classistas, diria eu), não há espaço para reivindicações das minorias por igualdade, por outro, o que os burocratas identitários fazem, perseguindo seu projeto político e socioeconômico, é promover uma política da empatia e da subjetividade que entrava qualquer política de classe integradora de demandas. A única solução — e o verdadeiro desafio — está em desenvolver uma política de enfrentamento de classe, centrada no combate aos mecanismos da exploração, da opressão política e da globalização da exploração e da opressão política, integrando, no mesmo processo, como já foi feito no passado, reivindicações de uma classe que é biológica e culturalmente multifacetada (mas economicamente homogênea). Talvez tenha de ser a própria classe trabalhadora, consciente de tais mecanismos e se desvencilhando das armadilhas da política de identidade, a ensinar aos remanescentes da velha esquerda classista — e aos jovens que pretendem dar novo fôlego às lutas de classe — como fazê-lo.

  17. Vou tentar aqui responder às intervenções posteriores ao meu comentário de 22 de Março. Deixo de lado os comentários feitos em termos insultuosos, porque se colocam a eles mesmos abaixo de qualquer resposta.

    1.
    Quando, logo de entrada, defini o tempo como substância do capitalismo, remeti para um link e seria bom que as pessoas interessadas no assunto — refiro-me àquelas que estejam realmente interessadas — lessem esse texto. Senão, não o teria citado. Ou, se estiverem deveras interessadas em aprofundar o tema, leiam o meu Economia dos Conflitos Sociais ( https://archive.org/details/jb-ecs ). A questão é que eu discorro no plano das relações sociais de trabalho, tal como elas podem ser estudadas na prática das empresas e nos modelos de administração, o que permite ir muito mais longe do que obras escritas há século e meio.

    2.
    Num capítulo bastante citado e usado do Economia dos Conflitos Sociais eu considero que todos os conflitos nos processos de trabalho se inserem num losango definido por quatro pólos: individuais e colectivos, passivos e activos. Enquanto os conflitos permanecerem individuais ou passivos, eles decorrem apenas no plano económico, apresentando-se os trabalhadores de maneira fragmentada ou latente. Só quando os conflitos assumem modalidades simultaneamente colectivas e activas é que, além de ocorrerem no plano económico, se apresentam também no plano sociológico como conflitos de classe. É através da passagem dos conflitos a colectivos e activos que a classe trabalhadora, além de existir no plano económico, começa a existir também no plano sociológico. Nos três exemplos que evoquei no meu comentário de 22 de Março essas lutas colectivas e activas generalizaram-se a áreas muito vastas, demarcando assim épocas históricas.

    Por motivos complexos demais para os expor aqui e que desenvolvi ao longo de praticamente tudo o que escrevi, considero que o aspecto dominante é a forma assumida pelas relações sociais. Não o seu conteúdo reivindicativo, mas a forma das relações. Por isso, na questão da passagem do económico para o sociológico eu evitei recorrer às conhecidas expressões da «classe em si» e da «classe para si». Sou um caso, não muito frequente e de qualquer modo bizarro, de um ideólogo que subestima o valor da ideologia.

    3.
    Um dos aspectos que distingue o capitalismo de outros modos de produção é a necessidade de suscitar permanentemente uma mobilidade social ascendente, de modo que um pequeno número de trabalhadores passe a integrar as classes capitalistas, quer burgueses (quando se convertem em pequenos patrões) quer gestores (quando são promovidos a postos administrativos). Esta mobilidade social ascendente pode efectuar-se por quatro vias:
    1) Pessoas que de uma forma ou outra já ocupem uma posição social de certo relevo, por exemplo porque disponham de diplomas universitários ou graças a relações familiares, têm alguma facilidade em integrar as classes capitalistas. Eventualmente, podem reunir-se com outras pessoas na mesma situação e formar lobbies para pressionar a sua ascensão social.
    2) Através das selecções operadas no funcionamento normal do processo de trabalho alguns dos trabalhadores que foram promovidos a posições de fiscalização e chefia podem dar o passo seguinte e ocupar a camada inferior da classe dos gestores, podendo a partir daí ascender a camadas mais elevadas. Numa outra forma, cuja importância se tornou menor com o desenvolvimento do capitalismo, um trabalhador promovido a uma posição de chefia pode abandonar a empresa em que trabalhava e fundar uma empresa própria, convertendo-se num patrão burguês.
    3) No processo habitual de burocratização das lutas dos trabalhadores os dirigentes sindicais convertem-se em gestores, mediante uma dupla via. Por um lado, eles são gestores no mercado de trabalho. Por outro lado, na medida em que os sindicatos se convertem em investidores capitalistas, os dirigentes sindicais convertem-se directamente em capitalistas, independentemente do papel que desempenhem na gestão do mercado de trabalho. Analisei esta questão no livro Capitalismo Sindical (São Paulo: Xamã, 2008), que escrevi em conjunto com Luciano Pereira.
    4) Os movimentos identitários, especialmente os movimentos feministas e os movimentos negros, mas os outros também, procuram mobilizar o maior número possível de trabalhadores, invocando para isso os problemas de que esses trabalhadores sofrem, nomeadamente discriminações devidas ao sexo ou à cor da pele ou a ambas as coisas. Tomando como base essas mobilizações, os movimentos identitários procuram promover um número reduzido de membros, de maneira a que se integrem nas classes capitalistas. A política de cotas é o mecanismo dessa ascensão.

    É indispensável distinguir os efeitos exercidos sobre a classe trabalhadora por cada uma destas quatro vias de ascensão social.
    A primeira e a segunda vias só afectam os trabalhadores na medida em que qualquer recomposição das classes capitalistas exige, a prazo, uma recomposição da classe trabalhadora. As classes estão em relação recíproca e as mudanças na estrutura de umas exigem mudanças na estrutura das outras.
    Quanto à terceira das vias de ascensão social, ela é um corolário da burocratização dos processos de luta, e também dessa maneira afecta a classe trabalhadora.
    Os problemas resultantes da quarta via de ascensão são muitíssimo mais graves. Trata-se de lançar os trabalhadores, não em nome da classe, mas em nome de identidades, num movimento de massas com o objectivo exclusivo de promover um pequeno número e de o integrar nas classes dominantes. Isto significa que se recorre a um movimento de massas para renovar as elites. Foi precisamente este o processo executado pelos fascismos, nesse caso mediante identidades nacionais. Por isso, no Labirintos do Fascismo ( https://archive.org/stream/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o#page/n1361/mode/2up ) eu incluí os identitarismos no conjunto que classifiquei como fascismo pós-fascista.

    4.
    Parece que existem pessoas suficientemente ingénuas para acreditarem que o facto de um maior número de mulheres ou um maior número de negros integrar as elites ou mesmo constituir elites novas irá melhorar a situação das restantes mulheres e dos restantes negros. Aconselho essas pessoas a verem o que se passa na polícia e na magistratura, depois de terem aberto essas carreiras a mulheres e negros. Ou a verem o que sucede nas empresas onde mulheres e negros ocupam os lugares de gestão superiores. Ou nos países onde chefiam governos.

    A demonstração mais evidente é dada pela África. Todos sabemos que a diferença entre as elites e os trabalhadores mais desfavorecidos é gritante no Brasil, mas aconselho que averiguem o que se passa em África, onde as elites capitalistas negras exibem de maneira ainda mais abjecta o seu desprezo pelos trabalhadores negros desqualificados.

    É este o espelho em que devemos avaliar, desde já, o identitarismo e a política de cotas — os movimentos de massa fascistas destinados à recomposição das elites e a sociedade de classes africana.

  18. Acho que já é possível propor uma “tipologia” provisória, ou inicial, para situar o debate entre marxistas e identitários:

    1) pessoas que consideram todas as formas de luta pertencentes ao campo da anti-opressão e, assim, negam a existência do identitarismo (negacionistas ou hegemonistas);

    2) pessoas que reconhecem a existência do identitarismo e defendem essa concepção (identitários convictos);

    3) pessoas que reconhecem, defendem, e atuam dentro do campo do identitarismo, mas reconhecem também os seus limites, tentando superá-los através da fusão com concepções liberais e/ou marxistas (pluralistas ou “esponjas”);

    4) pessoas que tentam separar as lutas anti-opressão das identitárias, optando pelas primeiras, porém em subordinação às concepções marxistas (marxistas heterodoxos);

    5) pessoas que rechaçam por completo o identitarismo e até mesmo as lutas anti-opressão, muitas vezes fundindo as duas (marxistas ortodoxos).

    É claro que os tipos 1 e 2 podem ser fundidos em um só (“identitários”), assim como os 3 e 4 (“esponjas”, para ficar nos termos apresentados por João Bernardo). Ficaríamos desta forma com apenas 3 tipos. E não me parece confortável estar em nenhum deles.

  19. Podemos dizer também que os tipos 1 e 5, aparentemente extremos opostos, tendem a entender como se fossem uma coisa só as lutas anti-opressão e as lutas identitárias. O tipo 1 abraça, o tipo 5 rejeita. Os tipos 2 e 4 entendem que as lutas anti-opressão e as lutas identitárias são diferentes e contraditórias, mas o tipo 2 acaba por escolher as segundas em oposição às primeiras, e o tipo 4 escolhe as primeiras em detrimento das segundas. Já o tipo 3 entende que as lutas anti-opressão e as lutas identitárias, apesar de diferentes, são complementares.

  20. Daniel Caribé, o que voce entende por “campo identitario”? Me parece que com essa denominacao estamos confundindo o movimento de um setor social com algumas poucas organizacoes, ou ainda, uma tendencia propria do movimento. Lembro de comentários do Manolo onde ele dizia que nenhum movimento social é puro no sentido ideológico, havendo num mesmo movimento diferentes tendencias (e com essa palavra podemos expressar tanto um tendencia organizada como uma nao organizada).
    Gosto do teu esforco de mapear as posicoes. Mas acho que é necessário expressar melhor a relacao entre os militantes e seus campos de atuacao. Neste sentido, nao vejo grande diferenca entre os tipos 3 e 4, em termos ideológicos. Um militante pode construir espacos e debates dentro de um movimento setorial que aponte no sentido da luta de classes. Isso nao é o mesmo que “fusionar” as ideologias. Clara Zetkin já dizia: nao agitacao específicamente feminista, senao agitacao socialista entre as mulheres. É claro que a agitacao socialista entre as mulheres nao resolve uma série de problemas de opressao internas à propria classe trabalhadora, mas o fundo da questao é entender que as organizacoes de massas e as pautas específicas de setores sociais sao solo fértil para a agitacao e luta em termos proletários (enquanto nao forem absorvidos pelo Estado).
    Entao, se o militante do tipo 4 separa lutas anti-opressao e lutas identitárias, assim como um trabalhador militante é capaz de separar uma luta salarial pela base de uma luta burocratizada, atuando de fato no território hegemonizado pelo corporativismo – num modelo “consagrado” de ativismo obrerista/esquerdista -, essa separacao nao se expressa pela participacao ou nao participacao em um “campo identitario” entendido como organizacoes específicas (de negros e negras, de mulheres, de dissidencia de genero, etc), mas sim pelo papel que esse ou essa militante cumprem nestas organizacoes (é mais do que óbvio que aqui nao estou referindo-me a organizacoes com posicoes abertamente liberais, nacionalistas, etc).

  21. Lucas, nenhuma tipologia consegue abraçar a totalidade, ao contrário, serve apenas para simplificar algo que nos parece demasiadamente confuso. Ao expor as pontas desses fios que se apresentam emaranhados, podemos puxá-los até chegarmos a algo mais próximo daquilo que de fato acontece. Mas ainda assim não é um tecido. Fazer um tecido exige outra ferramenta. Uma tipologia é, portanto, um instrumento de análise. E, esta que apresentei, devido ao seu caráter experimental, chega a ser irresponsável. Coloquei aqui para que outros apreciem, critiquem e, se for o caso, façam dela mais precisa.

    Dito isso, concordo com o comentário atribuído a Manolo – e que na verdade pertence não só a ele, mas a muitos outros – no qual se afirma que “nenhum movimento social é puro no sentido ideológico”. Nenhuma pessoa (ou movimento) que se aproxima de um desses tipos ou se afasta dos outros (nem mesmo os dogmáticos dos extremos) está livre das contradições. A pureza só existe na mente deles. Aliás, mesmo os identitários mais radicais utilizam quando convêm a retórica classista para contornar o caráter elitista das suas práticas e projetos e assim evitam se isolar daqueles que formam as suas bases. Do outro lado, de tão evidentes e massacrantes as opressões do nosso cotidiano, quem conseguiria viver completamente acima delas? Nem o mais dogmático dos marxistas!

    Quanto ao “campo identitário”, eu o entendo pelo conjunto de pessoas, movimentos, práticas, instituições e teorias que utilizam das opressões cotidianas sofridas pela maior parte da população para se promoverem enquanto elites, ou seja, grupo dirigente dos sujeitados às opressões, trabalhando assim com o reforço das fraturas sociais ao invés da sua superação. Não me parece diferente de um sindicalismo reformista, por exemplo. Para os dois “campos”, o dos sindicalistas reformistas e o dos identitários, os seus objetos de denuncia (a exploração para um, a opressão para o outro) precisam se perpetuar por todo o infinito.

  22. Interessante esse texto/palestra na Fundação Santo André.
    Sobre a classe dos gestores, a sua ideia me lembra bastante Jessé de Souza. Não sei se concordo em dizer que essa classe pertence a classe capitalista mas, fora a terminologia, concordo com a análise.
    Os gestores são como os oficiais de elite da burguesia, responsáveis por determinar essa dinâmica das relações e trabalho consideradas num aspecto mais ”social” e mesmo subjetivo. O prestígio e o acesso à educação de alto padrão, junto a um nível de renda que possibilite dedicação excluva ao projeto de ser gestor formam basicamente uma casta social hereditária reservada a essa função.
    Talvez a cartada máxima da gestão, tanto no campo material quanto ideológico, seja justamente a individualização do conceito de gestor, com o ”self made man”, o funcionário ”multifacetado” que está ”o tempo inteiro antenado” e que ”toma o controle” da própria carreira e etc.
    Essas análises sociológicas são importantes para entender a dinâmica do capitalismo e as relações sociais criadas por ele e que o afetam.

    Quanto à questão da produtividade que você aponta no mesmo texto, me pergunto o seguinte. A crítica que se faz está centrada no controle do trabalho e da produção – da relação de exploração. Entretanto essa pode se converter (fugindo do verdadeiro problema) em uma crítica ao crescimento da produtividade. E isso se conecta ao que já falamos aqui sobre a esquerda que prega o retorno a técnicas mais arcaicas e etc.
    Entendo que você não acredita nesse retorno como algo positivo a classe trabalhadora. Você acredita, então, que ”dar um passo para trás” na questão técnica e da produtividade não pode ser considerada como ”emancipadora” no sentido de fugir à lógica de ”produzir explorando” e ”produzir para explorar”?

    Sobre os ócios. Diria que os capitalistas sem dúvida alguma enxergaram um mercado dentro do tempo de ócio, mais uma forma de apropriação. Apesar disso, também diria que é natural ao trabalhador que fique mais produtivo durante seus ócios. É da natureza humana aprender e ampliar os limites das implicações e aplicações do que se toma contato.
    Não é como se o trabalhador devesse ficar olhando para o céu quando fora do trabalho. E mesmo que fizesse isso, provavelmente se tornaria mais produtivo de alguma outra forma. A crítica então é, também, para a forma como se da esse ócio, a forma como ele é mercantilizado e desumanizado, gerido, pensado como mercado.

    O texto me lembrou muito da música ”21st century digital boy”, da Bad Religion

    Ainda, se você pudesse sintetizar melhor a ideia, o que você quis dizer, no penúltimo parágrafo, sobre a desagregação da classe trabalhadora, com:
    ” Estas novas modalidades de luta são internas à
    sociedade capitalista, porque operam num espaço e num tempo – os lazeres – de que o
    capitalismo se apoderou. Mas como assegurar continuidade às movimentações desse tipo,
    como consolidar convergências pontuais fora das relações de trabalho estáveis? Isso exigirá
    que os trabalhadores teçam novas redes de solidariedade nos locais de residência, opondo-se à
    desagregação e à dispersão dos velhos bairros proletários que constitui hoje um dos principais
    objectivos do urbanismo. ”

    Que seriam essas redes de solidariedade nos locais de residência?

    Agora sobre a questão do tempo como substância

    Quando se fala no tempo como substância do capitalismo, o próprio texto/palestra na Fundação Santo Adré faz uma análise muito sociológica (e pertinente) das dinâmicas do capitalismo. O texto é passado pela ideia de domínio material e ideológico, o domínio do próprio jeito de viver (dentro e fora do trabalho).
    Apesar de entender o tempo como elemento fundamental, ao mesmo tempo me parece vago usá-lo dessa maneira. A busca por ”controle do tempo” pode ser associada mesmo com a ”gestão do tempo” e com as ideologias do empreendedorismo individual. Controlar o próprio tempo (ou seja, carreira, e vida ‘privada’), é o mote do empreendedorismo de si mesmo. A mesma ideia pode-se ver na defesa de ”agroecologias” e etc, ”o trabalhador controla ritmo do próprio trabalho” etc etc.
    Enfim, o tempo é uma condição da realidade humana. É geral, e por isso é a unidade de medida do trabalho.
    Eu não acho que precisemos explicar o capital para João Bernardo, como alguns comentaristas aqui parece que estavam tentando (?). Aliás, devo comentar que a contribuição do João S. foi bastante boa para a discussão nesse sentido.

    Acho também que a ideia do tempo e a análise sociológica são muito úteis para pensar a dinâmica das relações dentro do capitalismo.
    Em especial, pelo seguinte: o capital é essa criação distorcida, uma estrutura que age por si por meio dos capitalistas, que exploram a classe trabalhadora.
    Os capitalistas também estão submetidos à lógica da acumulação, não são, portanto, ”livres”.
    Mas o texto não implica isso de forma alguma, apenas que os capitalistas detém controle sobre o tempo de vida das pessoas em geral, o que é verdade.
    Não desqualifica a -estrutura- capital, que é abstraída das formas individuais das pessoas nem a coisificação das relações entre pessoas.
    Essa visão focada no controle que se tem do tempo é muito interessante nesse sentido. Ajuda a dar cara. Não é como se a classe trabalhadora tivesse que arrancar as cabeças de cada dono de fábrica. A classe luta contra a ”estrutura” que é o capital.
    Mas ainda assim, a classe capitalista é constituída por pessoas, sim. E com cabeças.

    Finalmente, sobre as identidades.

    Me parece claro que, na história dos movimentos sociais, a luta de classes foi se ampliando para falar mais abertamente de outras, passando a falar da mulher, do negro, do gay, etc. Não pode haver um ideal comunista que comporte nenhuma forma de opressão, afinal. Os panteras negras são um exemplo com ”não queremos um capitalismo negro, e sim o fim do capitalismo”, há então um movimento negro que está inserido na luta de classes.
    Esse tipo de iniciativa deve ser tida como boa. A ampliação do debate, da diversidade de opiniões, origens, etc, dentro do contexto da luta de classes, só tem a tornar claras as contradições internas e fazer com que o movimento de classe seja construído cada vez mais como um que trate de todas as questões que atravessam a classe trabalhadora.
    Com o tempo, surgiu o que classifcamos como ”identitarismo”.
    A sobreposição de identidades subjetivas de forma supraclassista, e aqui se inserem tanto a perspectiva liberal quanto a de ”esquerda”.
    A Sabrina Fernandes, num vídeo em seu canal, propõe diferenciar o que se insere como ”identitarismo” do que é considerado um ”movimento anti opressão” que se insere na luta de classes e não a apaga.
    Penso que pode ser uma divisão válida em termos de terminologia. O esforço feito pelo camarada Daniel Caribé também é muito válido, apesar de achar complicado isso de criar categorizações, elas podem ser úteis inclusive na produção e propagação de conhecimento de maneira geral ou ”didática”.

    Por fim, questiono sobre a posição do autor acerca do que chama de ”confusão” nos ”conflitos do dia-a-dia”, e que depois, nos comentários, fala sobre as políticas de cotas (cotista em universidade identificado aqui).
    Não ficou claro pra mim a sua posição nesse sentido.
    Você é contra as políticas de cotas em geral? Ou apenas as que se referem a identidades como pessoas negras, indígenas, etc, e não contra as que se destinam a pessoas de baixa renda em geral?
    E de qualquer modo, nessa ”confusão do dia-a-dia”, entedo plenamente o interesse do capital em promover a ascensão de parte desses movimentos.
    Então é melhor o não acesso à universidade ou a um emprego, por exemplo? No Brasil, por exemplo, as mulheres continuem com média salarial menor (sem falar em trabalho doméstico) e os negros com subempregos? Enfim, quero dizer que a própria posição dessas pessoas no capitalismo é rebaixada e essas políticas, se promovem maior acesso, não podem atenuar (numa fração mínima) essa situação? Justamente aí é que está a contradição e a confusão do dia a dia

  23. Em resposta ao comentário de Gabriel Silva limito-me a considerar questões directamente relacionadas com o tema deste artigo, já que analisei a classe dos gestores em praticamente todos os meus livros e em numerosos artigos publicados neste site e que tratei os problemas da produtividade e dos movimentos ecológicos em vários livros e nomeadamente numa série de artigos aqui publicada. Quanto à questão das redes de solidariedade tecidas nos locais de residência, remeto para o que escrevi nas págs. 348-349 do Economia dos Conflitos Sociais ( https://archive.org/details/jb-ecs/page/n347 ).

    O aspecto central deste artigo — e repito que é mais um roteiro do que um artigo — consiste na crítica ao processo de mobilização usado pelos movimentos identitários, em tudo similar ao dos movimentos fascistas. Parte-se de um problema real, ou de um conjunto de problemas reais, que afecta um grande número de pessoas e que é usado como tema da mobilização. Mas esta mobilização tem como objectivo promover um pequeno número de pessoas, que já ocupavam posições de destaque nos movimentos identitários, e que graças a ela aspiram a integrar-se na elite existente ou até a substituí-la, convertendo-se em nova elite.

    A política de cotas, como se chama no Brasil, ou a affirmative action, como se chama nos Estados Unidos, e que é aplicada em numerosos países, constitui o mecanismo legal de promoção dessas novas elites. Não se trata aqui de lutar pela igualdade salarial ou pela igualdade nas condições de trabalho, questões que directamente interessam a classe trabalhadora enquanto classe. Trata-se de provocar uma recomposição da elite dominante, da qual só pode resultar um reforço dessa elite, em detrimento dos trabalhadores.

    Este mecanismo de mobilização das bases para a ascensão de elites é o aspecto crucial que os movimentos identitários apresentam em comum com os fascismos, e determina a existência de outros aspectos comuns, especialmente a conversão da «classe» em «massas» e o uso do ressentimento enquanto estímulo à mobilização.

    A integração dos movimentos identitários no que denomino fascismo pós-fascista é visível também nos métodos de mobilização usados. Na época entre as duas guerras mundiais as milícias fascistas recorriam à paulada, ao óleo de rícino e ao assassinato. Nesta época da internet e das redes sociais as coisas modernizaram-se, e o escracho on-line, se não mata as pessoas, liquida as reputações e compromete os empregos, com maior comodidade para quem o usa, porque se oculta na cobardia do anonimato. Além disso, os movimentos identitários puseram cobro a uma das mais importantes garantias do sistema judiciário moderno, a de que as acusações têm de ser acompanhadas por provas, e instauraram uma situação em que basta a acusação, obrigatoriamente tomada como certa, mesmo sem existirem provas. Esta nova modalidade da linchagem passou a fazer parte do fascismo pós-fascista.

    Na dinâmica do capitalismo tudo isto se insere nos ciclos da mais-valia relativa e, como eu mostrei em alguns livros, estes ciclos assumem a forma de espiral, de cada vez reorganizando não só as formas assumidas pela luta entre as classes, mas ainda reestruturando internamente cada uma das classes. É uma tragédia que, hoje, os jovens interessados pela luta anticapitalista não leiam romances e, de filmes, só se interessem pelas séries da televisão, da Netflix ou quejandas. Escapa-lhes assim o único veículo de compreensão de muitos tipos de comportamento e de muitos mecanismos de funcionamento da sociedade. Senão, aperceber-se-iam de como aquilo a que chamamos «trabalhadores» e «classe trabalhadora» tem mudado, e como as aspirações têm mudado também. Nesta época em que vivemos, os problemas da igualdade e da fraternidade entre trabalhadores de diferentes sexos, com diferentes preferências sexuais e com diferentes cores de pele ou formatos de olhos e narizes são problemas sentidos pelos trabalhadores e que eles terão de resolver entre si. Estes problemas não foram descobertos pelo identitarismo, que procura usá-los não para reorganizar internamente a classe trabalhadora, mas para promover novas elites.

    É este o núcleo da questão.

  24. Querido João Bernardo,

    Agradeço sempre suas intervenções/livros, sempre apreendo muito com o senhor!

    Aqui é só uma dúvida…
    Estaria as lutas identitárias caminhando para o seu limite como forma política?
    Faço essa pergunta, pois outro dia fiz uma provocação para duas colegas que são abertamente feministas radicais, lutam por lugar de fala, empoderamento etc., e estavam lamentando o atual governo no Brasil
    A provocação é que afirmei que devemos abandonar essas pautas identitárias…. Se esgotaram, e quando a direita e/ou extrema-direita ascenderam não soubemos combater. Disse para ela mais ou menos isso:
    “Afinal, para vocês (identitários) o Bolsonaro e seus consortes é a personagem tipica: branco, hétero e militar, logo é fácil ser criticado e fazer chacota. O problema veio e não vi nenhuma reação de vocês foi na vitória do Bolsonaro, assistindo a globonews vi negros e mulheres soltando fogos de artifícios ou quando o MBL fez a provocação para as feministas, que não aplaudiram nova deputada conservadora Janaina Paschoal, afinal, foi ela que teve mais votos (inclusive bateu recorde histórico de SP) e não vi vocês cobrando de negros, mulheres etc”.
    Portanto, até agora não li ou não soube se houve alguma reação. Afinal, não vejo esses movimentos de pautas identitárias fazer escracho com os eleitores negros, mulheres, etc

    Voltando a minha pergunta, será que neste novo quadro, existe a possibilidade de esgotar as pautas identitárias? Ou como o senhor escreveu (não lembro), a estamos assistindo a possibilidade do choque aberto entre fascistas e pós-fascistas?

    Obrigado e desculpa o abuso da paciência…

  25. Com a devida licença dos companheiros para fugir momentaneamente do tema diretamente proposto pelo roteiro formulado pelo João Bernardo, gostaria de destacar a seguinte colocação do Gabriel Silva: “Sobre a classe dos gestores, a sua ideia me lembra bastante Jessé de Souza. Não sei se concordo em dizer que essa classe pertence a classe capitalista mas, fora a terminologia, concordo com a análise.”
    Em primeiro lugar, conheço pouco os trabalhos tão em moda do Jessé de Souza, mas feita essa ressalva me parece haver uma diferença central entre a interpretação do João Bernardo e a do Jessé de Souza, que consiste justamente naquilo que é o cerne da questão: afirmar ou não a existência de duas classes capitalistas.
    Como bem sabemos, conceitos servem para nos auxiliar a compreender a realidade e a validade desse ou daquele conceito é testada por meio da sua aplicação, da análise empírica. Entendo que se um conceito cumpre essa papel ele deve ser empregado e que se não cumpre deve ser reformulado. Em outras palavras, não é a realidade que deve ser moldada para se encaixar num conceito, mas o contrário.
    Pois bem, tenho me dedicado há pelo menos 15 anos a estudar temas como formação da classe trabalhadora, industrialização e conflitos cotidianos no chão de fábrica. A partir das pesquisas empíricas, pude constatar como a maior parte das disputas em torno do controle do tempo de trabalho polarizam trabalhadores e gestores e, por isso, tenho utilizado o conceito de gestores tal como formulado pelo João Bernardo, pois me possibilitou interpretar com maior profundidade o significado daquelas disputas.
    Nessa caminhada, fui e sou constantemente criticado por ter ousado ir além da afirmação a respeito da existência de duas principais classes sociais no modo de produção capitalista: burguesia e proletariado. E não raras vezes me deparei com outros pesquisadores que afirmaram praticamente o mesmo que o Gabriel Silva a respeito de concordarem com a análise do João Bernardo, mas de terem receio de utilizarem o conceito que afirma a existência de uma segunda classe capitalista.
    Um exemplo, foi um doutorando, não me lembro mais de qual instituição, que estuda a burocratização dos sindicatos e a administração de fundos de investimentos por sindicalistas. Todas as evidências encontradas pelo sujeito atestavam a transformação daqueles sindicalistas em capitalistas, mas ele dizia “achar um exagero” afirmar isso.
    Ora, como avançar na interpretação dos conflitos sociais se não se está disposto a superar determinadas concepções arraigadas entre intelectuais e entre aqueles que podemos chamar de esquerda tradicional?
    E então, retomo o tema diretamente proposto para debate: os identitarismos não apenas têm sido incapazes de lutar efetivamente contra as formas de opressão que dizem combater, como também tiveram um grande papel na chegada de um sujeito como o Bolsonaro ao poder, ao contribuírem para fragmentar cada vez mais a luta dos trabalhadores que já se encontram extremamente fragmentados em sua composição.
    Nesse sentido, o debate proposto e a maior parte dos comentários abordam questões indispensáveis para nós anticapitalistas desenvolvermos.

  26. Pedro Irio, não creio que os movimentos identitários estejam a esgotar as suas potencialidades, bem pelo contrário. Basta recordar que o recente massacre de Christchurch, na Nova Zelândia, fazendo cinco dezenas de vítimas mortais, muçulmanos de pele mais ou menos escura, foi cometido por alguém que se reivindica de um identitarismo branco de tradição cristã. Em sentido inverso, os muçulmanos fanáticos que nos últimos anos têm feito centenas de vítimas em atentados na Europa reivindicam-se de um identitarismo religioso e cultural que tem estimulado o crescimento, em vários países europeus, de outro identitarismo de sinal inverso, pretensamente europeu e de pele branca. Hoje, na Europa, os movimentos anti-imigrantes, animados pela extrema-direita e pelos fascistas, invocam sistematicamente a identidade europeia (o que quer que isto signifique) e a tradição cristã (mesmo que esses movimentos sejam compostos por ateus), que seria posta em causa por outras identidades, nascidas nos países islâmicos e na África sub-sahariana. A imigração deixou de ser apresentada como um fenómeno no mercado de trabalho, para ser tratada como um choque de identidades. Nas questões de género e de preferência sexual os identitarismos têm feito correr menos sangue, mas não têm gerado menos injustiças, e estimulam em troca outras rivalidades identitárias. Sucede o mesmo que sucedia outrora, e aliás sucede ainda, com os nacionalismos, em que a afirmação de uma nacionalidade toma outras como alvo, o que inevitavelmente ocasiona respostas, gerando em série cadeias de ódio.

    Os identitarismos, porém — todos os identitarismos — incluem-se mais exactamente no âmbito do racismo do que no do nacionalismo, porque transitam do biológico para o cultural e do cultural para o biológico, e esta é a operação típica do racismo moderno, sobretudo do nacional-socialismo. A história é fértil em casos que mostram as consequências deste círculo vicioso.

    Seria óptimo que Pedro Irio tivesse razão e eu me enganasse, mas penso que estamos apenas no começo de uma época nova, marcada pelos identitarismos, que hão-de trazer um cortejo de novas tragédias. Aquelas forças políticas que antes se apresentavam claramente como extrema-direita ou como fascismo apresentam-se hoje como identitarismos, de sinal contrário ao de outros identitarismos resultantes da transformação da antiga esquerda. O conceito de «populismo», que ultimamente tem sido cada vez mais empregue, serve precisamente para cobrir o campo comum gerado nessa disputa entre identitarismos. Perante esta avalanche, aquilo que foi a esquerda anticapitalista ruiu, ou esclerosou (pré-galilaicos) ou demitiu-se e foi recuperada (esponjas). Será a partir do zero, e num terreno para o qual não dispomos de mapa, que teremos de reconstruir a prática anticapitalista.

    E a este respeito eu não queria abordar a questão dos gestores, até porque basta abrir qualquer página de qualquer livro meu para a encontrar, mas ela teima em aparecer aqui, mais vale esclarecer alguma coisa.

    O que denomino «classe dos gestores» é a mesma entidade social que surge nos escritos de Bresser Pereira e de Fernando Prestes Motta como «tecno-burocracia», outros autores noutros países usam denominações diferentes, mas, genericamente, tudo isso cobre o que em inglês se chama «managers». Para simplificar, irei aqui referir sempre «gestores» O primeiro autor, e militante político, a formular a existência dos gestores enquanto classe foi Makhaisky, no exílio siberiano, na transição do século XIX para o século XX. Desde então inúmeros economistas, sociólogos, historiadores e políticos têm concebido a existência dos gestores enquanto classe. Porém, alguns consideram-nos uma classe pós-capitalista, em vias de inaugurar um novo modo de produção, que irá suceder ao capitalismo. Outros, e é o meu caso, consideram que os gestores fazem parte deste modo de produção capitalista, onde ocupam, ao lado da burguesia clássica, o lugar de exploradores da mais-valia.

    Os trotskistas, que compensam a sua falta de influência na sociedade em geral com o peso que detêm em alguns departamentos universitários, recusam a existência dos gestores enquanto classe. Isso deve-se ao facto de Trotsky, na sua terceira encarnação (a primeira encarnação de Trotsky foi desde 1903 até 1917, a segunda desde 1917 até à sua expulsão da União Soviética e a terceira de 1929 até ao seu assassinato em 1940), defender que a União Soviética não era uma sociedade capitalista nem pós-capitalista, mas uma forma degenerada de socialismo. Com este objectivo, Trotsky conduziu uma polémica acerba contra todos aqueles que defendiam que a burocracia soviética se convertera numa verdadeira classe social, e não apenas numa elite privilegiada, como ele afirmava, e que essa classe social era idêntica à classe dos gestores existente nos demais países capitalistas. Praticamente todas as cisões operadas à esquerda do movimento trotskista tiveram como motivo a questão dos gestores.

    Para além de outras razões de carácter histórico, económico e sociológico, considero que sem admitirmos que os gestores são uma classe social não conseguiremos analisar devidamente as consequências dos processos de burocratização das lutas dos trabalhadores. Vinícius de Rezende chamou a atenção para este aspecto.

    É neste amplo quadro, que se projecta no tempo por mais de um século e que tem ocupado um considerável número de autores e militantes de praticamente todo o mundo, que a questão deve ser estudada.

  27. João Bernardo,

    Há dias me intriguei quando li este seu artigo pela primeira vez. Muito me contempla ele no geral, mas tem algo que me deixou com certa inquietação. Apelo pra que, quando possível, possa ou responder por aqui ou pensar em um texto inteiramente sobre o termo que você usa da classe trabalhadora “sociológica”, assim como se segue: “No plano sociológico, porém, a classe trabalhadora nunca conseguiu ter uma existência permanente. (…)Só neste confronto a classe trabalhadora pode existir no plano sociológico.”

    abraços fraternos!

  28. Querido João Bernardo,

    Obrigado pela resposta.
    É realmente curioso (para não dizer trágico), como o senhor escreveu acima que estamos em uma nova época marcada pelo identitarismo, coincidentemente, também pela época da expansão da uberização e formas de irracionalismo, religiosidade e outros pontos que o senhor apontou tão bem acima. Tenho a sensação que estamos em um futuro ausente! (desculpa a melancolia)
    Ao mesmo tempo, o senhor escreveu acima: “Será a partir do zero, e num terreno para o qual não dispomos de mapa, que teremos de reconstruir a prática anticapitalista”. Faço a pergunta: como reconstruir uma nova prática anticapitalista se apenas temos em mãos as experiências das práticas antigas? Ou pior, reiterando práticas antigas?! Não sei como está a situação na Europa, mas aqui o que o pessoal me fala (não tenho facebook), mas exite um pessoal (não é pequena essa turma), de buscar reabilitar Stalin, URSS, maoísmo etc. Ou uma esquerda que busca resgatar um nacionalismo latino-americano que a atual divisão internacional do trabalho destruiu há tempos.
    Quando soube disso, me pergunto se é com essa bandeira esse pessoal ainda acredita que vai mobilizar e organizar a classe trabalhadora?!
    É uma dúvida que carrego…

  29. 1.
    Alfredo Lima,

    Quando eu escrevia livros destinados a um público académico e especializado usava os termos apenas em acepções precisas, ou definindo-os no contexto ou incluindo um vocabulário no final da obra. Porém, isso parece-me impossível quando se escreve para um público geral. Temos então de empregar termos comuns, e o problema é que estes têm um sentido impreciso e as pessoas usam-nos em acepções diferentes. É o caso aqui com o tal «sociológico», embora na redacção eu tivesse procurado precisá-lo um pouco, opondo-o a «económico». Vou agora tentar defini-lo melhor.

    Em meados de 1973 escrevi um livro, publicado no início de 1975 e intitulado Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista ( https://archive.org/details/jb-putdmdpc ). Resumindo muito e cortando a direito, eu defendia que, assim como o capitalismo é regido pela lei do valor, o comunismo, entendido como uma sociedade organizada em conjuntos de produtores, é regido por decisões tomadas em assembleias. Por isso eu denominava a lei do modo de produção comunista: lei do institucional. Essa oposição lei do valor / lei do institucional corresponde, nos termos imprecisos que usei neste artigo, à oposição económico / sociológico. Enquanto os trabalhadores estiverem predominantemente submetidos à lei do valor não conseguirão começar a emancipar-se dos mecanismos económicos capitalistas. Mas quando conseguem tornar as suas lutas colectivas e activas, ou seja, quando conseguem organizar uma luta colectiva em que não ficam passivamente submetidos às burocracias sindicais ou partidárias e tomam eles mesmos as decisões, activamente, em comissões e assembleias, então começam a emancipar-se, ou pelo menos a conceber o que é na realidade uma emancipação. É neste plano sociológico que começa a esboçar-se aquilo a que eu chamei: lei do institucional.

    Depois de analisar e mesmo viver experiências práticas esclarecedoras e estudar estas questões recorrendo a factos e exemplos concretos, escrevi outro livro, noutra linguagem, intitulado Economia dos Conflitos Sociais, que deve ser lido como um remake do Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista. Talvez a questão aí fique mais clara.

    2.
    Pedro Irio,

    A apologia dessas formas de capitalismo de Estado, que você cita, seduzem hoje meios muito reduzidos de militantes, que vivem como peixes dentro de um aquário. Qual o interesse dos trabalhadores em apoiar um socialismo (ponham na palavra as aspas que quiserem) que veio sempre acompanhado pela miséria?

    Já a questão do nacionalismo é diferente. No Brasil a esquerda é nacionalista desde a sua génese, que aliás foi comum à das outras forças políticas modernas. O tenentismo foi nacionalista e dele saiu o Brasil moderno. Na Europa, actualmente, um dos grandes perigos é também o nacionalismo, um campo comum onde é cada vez mais activa a efervescência que liga, por um lado, a extrema-direita e os fascistas e, por outro lado, partidos e movimentos que se apresentam como esquerda ou até extrema-esquerda. Na Europa o populismo é hoje sobreponível ao nacionalismo, procurando ao mesmo tempo fragmentar a União Europeia e erguer barreiras à imigração.

    Ora, eu incluo os nacionalismos e os identitarismos numa mesma esfera. Mais exactamente, considero que numa época de globalização do capital, em que as fronteiras perderam em grande medida a sua função económica, os identitarismos surgem como substitutos do nacionalismo. Isto é confirmado pela observação dos factos, já que hoje a acção e a linguagem dos nacionalismos na Europa são inseparáveis das referências identitárias.

    Quanto ao mais, avançar a partir do zero, e num terreno para o qual não dispomos de mapa, tem a vantagem de deixar o lixo para trás. Como escreveu uma muito grande poetisa portuguesa, Sophia de Mello Breyner:
    «Navegavam sem o mapa que faziam // (Atrás deixando conluios e conversas / Intrigas surdas de bordéis e paços) // Os homens sábios tinham concluído / Que só podia haver o já sabido: / Para a frente era só o inavegável / Sob o clamor de um sol inabitável // Indecifrada escrita de outros astros / No silêncio das zonas nebulosas / Trémula a bússola tacteava espaços // Depois surgiram as costas luminosas / Silêncios e palmares frescor ardente / E o brilho do visível frente a frente».
    Então, trata-se de navegarmos sem o mapa que fazemos, até depararmos com o brilho do visível. É simples, não é?

  30. Caro João

    A dinâmica social é dada pelo capital na medida em se dão os ciclos da mais valia relativa, como você bem disse, mas também as relações de produção são por sua vez afetadas pelas condições subjetivas, sociais, culturais e por isso torna-se vital para a classe trabalhadora tratar dessas questões de forma a poder se organizar melhor na luta contra a exploração. O ponto que tento chegar é o seguinte. A luta identitária, como você a define, faz desaparecer a luta pela igualdade geral, por isso as lutas por cor, gênero, etc, devem ser travadas dentro da luta de classe. Mas como você já definiu muito bem diversas vezes, esse “apelo“ identitário se torna muito forte e captura muitas pessoas por passar essa ideia de “pertencimento“. Tratar essas questões “internamente“ aos movimentos de trabalhadores não seria, de certa forma, se “afastar“ de um debate que tem um peso atual considerável nas massas? Não sei se estou conseguindo ser claro mas penso em como a esquerda anticapitalista pode se “conectar“ com as massas, visto que a classe trabalhadora só pode assumir seu papel se tiver consciência de si como tal e se a esquerda anticapitalista não atuar no sentido de “mostrar o caminho“ com uma linguagem captável pelas massas, não estaremos apenas entregando-as aos movimentos identitários? É que na prática seria provavelmente ilógico para um movimento de trabalhadores colocar-se `contra` esses ganhos reformistas e meramente representativos, mas tais ganhos contribuem para que o movimento seja cooptado tenha seu objetivo convertido para se resumir a essas “políticas afirmativas“, é como uma armadilha sem saída já que as massas estão sendo direcionadas para a questão identitária e representativa e os movimentos de luta pela igualdade real acabam num limbo entre aderir e se perder ou não aderirem e serem esquecidos… E não é que os espaços de representatividade no governo sejam desprezíveis, apesar de não serem revolucionários. Enfim, me questiono sobre a forma de atuar da tal esquerda anticapitalista nesse contexto tomado pelas questões subjetivas das identidades.

    Aproveitando a oportunidade, você poderia me sugerir obras suas onde possa ler sobre essa analise das classes sociais no capitalismo, em especial sobre os gestores?
    Obras de outros autores que partilham visões semelhantes também seriam bem vindas.

  31. gabriel, vou me entrometer.
    minha pergunta é se “as massas” realmente seguem os identitários a ponto de valer a pena fazer “entrismo” nestes setores. Sei que uma parte grande da esquerda e também da extrema-esquerda responderiam convictos de que “sim”, mas eu vejo outra realidade. O que os setores identitários movimentam é uma base social policlassista e restrita, e como principalmente os grupos e grupúsculos da extrema-esquerda são carentes de base, tentam meter-se onda já há uma para tentar disputá-la. Já a esquerda apenas tenta cooptar as lideranças e os quadros formados nos identitarismos hegemônicos para seus aparelhos. Mas qual grupo identitário hoje mobiliza massas concretas, nos termos tradicionais? Eles mobilizam massas de consumidores e de usuários de internet.
    O mesmo argumento poderia ser usado para o sindicalismo. Oras, você não precisa aceitar os termos do sindicalismo para fazer militância entre trabalhadores, apenas porque os sindicatos mobilizam grandes quantidades de trabalhadores (e olhe lá).
    E novamente, as melhorias nas condições de vida, que só são vistas como “reformismo” para aqueles que separam a luta econômica da luta política, não são em si o “problema”. O problema, de maneira análoga à questão sindical, é a forma como as lutas ocorrem em relação aos seus objetivos. Lutar por representatividade é lutar por um objetivo naturalmente desigual. Uma luta parlamentar ou de cúpula por melhores salários pode ter um resultado econômico igualitário, mas reproduz e reforça uma situação de desigualdade.

    Sobre a classe gestorial, para além dos autores já citados por João Bernardo, recomendo 2 leituras: A revolução gerencial [the managerial revolution] de James Burham, escrita de forma bem didática e sustentando a tese dos gestores como classe pos-capitalista; e A nova Classe, de Milovan Djilas, que trás o olhar de alguém bem interno ao “sistema soviético”, isto é, analisa os gestores no capitalismo de Estado da esfera soviética.

  32. Caro Gabriel, com um toque para Lucas,

    Os trabalhadores só se constituem como classe quando lutam contra os capitalistas directamente e num plano que possibilite a extensão da luta — sublinho as duas condições. Foi isto que pretendi dizer no início do artigo, quando mencionei a passagem do económico ao sociológico. Ora, todas as movimentações que prossigam numa esfera comum aos capitalistas e aos trabalhadores têm como consequência dificultar ou impedir a clivagem entre classes. O identitarismo e o nacionalismo são, sem dúvida, poderosos temas de mobilização. Mas a grande armadilha consiste em pretender usá-los para a luta de classes, porque esses temas de mobilização servem exclusivamente para fragmentar e diluir a classe trabalhadora.

    O feminismo actual, bem como o movimento negro e todos os outros identitarismos confundem em movimentos comuns as desigualdades, os preconceitos e as intolerâncias existentes entre trabalhadores e as existentes entre capitalistas. O problema reside aí. Esses movimentos mobilizam trabalhadores, insatisfeitos com a sua situação no interior da classe trabalhadora, para promoverem a ascensão social de novas elites, insatisfeitas com a sua situação no interior das classes capitalistas. Os «espaços de representatividade no governo», para empregar as palavras de Gabriel, consistem precisamente nessa ascensão de novas elites e têm como consequência reforçar a legitimidade do Estado e, portanto, do capitalismo.

    E o problema é mais grave ainda quando o movimento de ascensão de novas elites se proclama, ou é considerado, como sendo de esquerda, um meio político onde os identitarismos conquistaram uma arrasadora hegemonia. Quanto a isto sou mais pessimista do que Lucas, que me parece referir-se apenas à situação brasileira. Ora, nos Estados Unidos e na Europa praticamente deixou de haver organizações de extrema-esquerda e todo o espaço foi ocupado por identitarismos. (Na África e na Ásia a situação é diferente, mas, por outros motivos, não é melhor.)

    Se quisermos combater as desigualdades, os preconceitos e as intolerâncias existentes entre trabalhadores, de modo a que os trabalhadores possam ressurgir como classe, temos de lutar em duas frentes simultaneamente: no interior dos trabalhadores e contra o identitarismo supraclassista.

    Ora, na época de transnacionalização económica em que vivemos, o identitarismo corresponde ao que foi anteriormente o nacionalismo. Os fascismos ascenderam numa época em que o nacionalismo era hegemónico como tema mobilizador. Hoje, quando o maior tema mobilizador é outro, os identitarismos são o fascismo pós-fascista.

    Se a história serve para alguma coisa, é enquanto história comparada. Pretender usar o identitarismo para mobilizar os trabalhadores enquanto classe corresponde ao mesmo ludíbrio que vitimou os comunistas entre as duas guerras mundiais. Foi isso que Gramsci tentou fazer quando procurou, aliás sem êxito, encontrar-se com D’Annunzio. Foi isso ainda que Togliatti, no exílio moscovita, aconselhou aos restantes exilados do Partido Comunista Italiano. E foi isso que os apelos do Partido Comunista Italiano puseram em prática em 1936 e mesmo numa data tão tardia como 1943.

    Mas se quisermos conhecer as consequências mais funestas deste tipo de mobilização, é para a Alemanha de Weimar que devemos olhar. O Tratado de Versailles, exigindo enormes reparações de guerra, sujeitara os trabalhadores alemães a uma grande miséria. E, ao mesmo tempo, com as afrontas nacionais que impunha, esse tratado constituía para os nacionalistas o pretexto ideal. O nacionalismo converteu-se então num poderoso factor de mobilização, e foi no terreno de um extremo nacionalismo que o Partido Comunista Alemão, depois do afastamento de Paul Levi em 1921, pretendeu concorrer com os nacionais-socialistas. Ora, como o Partido Comunista Alemão se tornara o maior do mundo, com a excepção óbvia do Partido Comunista soviético, o que sucedeu na Alemanha teve uma importância decisiva para o movimento comunista mundial. E o que sucedeu?

    Peço-vos, e aos outros leitores que tiverem interesse por uma questão que é hoje a mais importante da luta anticapitalista, que leiam as págs. 666-706 do Labirintos do Fascismo ( https://archive.org/stream/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o#page/n665/mode/2up ). Não foi por acaso que os fascismos triunfaram. E os resultados do recurso ao nacionalismo como tema mobilizador por aqueles que se pretendiam anticapitalistas ilustram o que sucederá hoje se se quiser usar o tema mobilizador dos identitarismos para combater o capitalismo. A tragédia é que as lições da história têm servido sobretudo para ser esquecidas.

  33. “(…) Além disso, estabeleceu-se a seguinte tese do STF: “É constitucional a lei de proteção animal que, a fim de resguardar a liberdade religiosa, permite o sacrifício ritual de animais em cultos de religiões de matriz africana”.”A relevância da proteção da pluralidade e da liberdade religiosa é clara em todos os votos. A questão foi concernente à restrição ocorrida ao se mencionar apenas “cultos de matriz africana”. Embora todos os ministros do STF considerem que a proteção constitucional se estende a todas as religiões, em razão do princípio da liberdade religiosa, a maioria entendeu que é importante, por motivos históricos, destacar o termo “cultos de religiões de matriz africana”, apresentando o reconhecimento do Estado a essas religiões que foram estigmatizadas por séculos no Brasil.”(https://jornalggn.com.br/politica/sacrificio-de-animais-em-rituais-religiosos-stf-corrige-injustica-historica-por-cristina-de-oliveira/).

    É também no cotidiano que se apresentam as verdadeiras consequências dos identitarismos, destituindo a história da história e pondo em seu lugar “estórias”, as mais “fragmentosas” e fragmentárias possíveis. Diante de um mundo pós-fascista, haverá às toupeiras luz ao fim do túnel?

  34. E neste cotidiano identatitário, a grande bandeira que se empenha é a bandeira da miséria! Seja do socialismo da miséria, seja do capitalismo da miséria. Pois da esquerda à direita se crê que comer tofu e andar de bicicleta pelas ruas já tão caóticas das grandes cidades são atos “revolucionários”! Revolucionar combatendo os avanços das condições materiais da vida – sem as quais não é possível o desenvolvimento das condições espirituais – promovendo a miséria… não apenas a miséria material, mas, especialmente, a miséria espiritual… Eis a nossa cotidianidade

  35. Essa coisa toda pode ser chamada de conflitos cotidianos nas horizontalidades… Enquanto os enfrentamentos se dão horizontalmente – pedestres x ciclistas x motociclistas x motoristas ou homem x mulher ou branco x negro, ou hetero x homo ou gltbsxyz…, veganos x carnívoros, etc, etc, etc, o capital se impõe e se desenvove verticalmente, posto que é um modo de produção hierárquico e hirarquizante p . A horizontalidade dos conflitos põe à salvo os capitalistas e gestores, que estão no alto da hierarquia, enquanto na base, se digladiam identidades mil. A energia revolucionária se dissipa na base ao invés de ser direcionada contra o verdadeiro centro de comando no topo. Sendo o tempo substância fundamental do capital, este fica a salvo da luta verdadeiramente de classe graças aos identitarismos…

  36. Lucas, entrometa-se sempre, por favor

    Olha você de fato colocou um ponto bastante relevante e eu realmente não havia pensado dessa maneira antes.
    Me parece que você tem razão ao falar que esses grupos movimentam massas de comsumidores, especialmente pela internet. Mas ao mesmo tempo, isso também parece ter muito a ver com a forma em que as ”lutas sociais” (não) ocorrem atualmente.
    Os grupos identitários são mais uma setorização das massas e isso influi, em maior ou menor grau, na organização interna da classe trabalhadora e sua capacidade de ação conjunta além de, principalmente, talvez, sobre a sua capacidade ou incapacidade de se tornar consciente de si enquanto classe.
    O que tento dizer com isso é que pensando que a luta de classes é uma guerra travada ao longo da história de forma contínua, assim como as classes dominantes vão espalhar as suas ideologias entre as massas, penso em como nós da esquerda ”extrema” devemos nos comportar perante essas mesmas massas.
    Uma batalha se luta com soldados, esses soldados estão em grande número nessas massas que são sugadas para ideologias identitárias, por exemplo
    Entendem?
    Os ideiais e a forma de atuar devem ser constantemente avaliados mas ao mesmo tempo, na ação política prática, como nos posicionamos?
    A emancipação política tem seus limites dentro da ordem vigente mas de forma alguma é algo sem importância, como sabemos. Nos Panteras Negras, por exemplo, as questçes da representatividade e da valorização da cultura eram presentes mas não desconectadas das questões de classe e certamente não com um intuito de atuar que promovesse uma ”supremacia negra”, digamos, mas sim uma ”justa” representação negra, um resgate para que fossem colocados negros e brancos como iguais.
    Trago essas questões a vocês justamente porque me parece estarmos encurralados no sentido de que, criticar qualquer movimento ou ideal que não leve a igualdade é extremamente natural e necessário, mas ao criticarmos parece que nos distanciamos dessas questões que hoje estão tão em voga nas massas.
    Talvez um conjunto de fatores faça parecer que a ”extrema esquerda” se distancia das questões que se referem a opressões por raça, gênero, etc. As ideologias que sustentam as dominações são amplamente divulgadas, e aí ganham espaço dentro da própria esquerda. Nós somos um subgrupo da esquerda, então talvez essa, digamos, correlação de forças, faça parecer que, quando a extrema esquerda faz uma crítica a esse tipo de ideologia, está se posicionando ”a favor” dessas outras formas de dominação. É como se criasse um certo mundo aparente onde a extrema esquerda é, na verdade, opressora racista e etc. O que também ajuda a fragmentar a classe.
    Enfim, a sua questão é realmente importante, preciso pesquisar mais acerca do assunto.
    Peço desculpas por divagar na minha resposta, o seu comentário me fez pensar.
    Agradeço às recomendações de leitura!

    João, meu caro

    A passagem que você nos manda do seu livro é simplesmente interessantíssima, além de contar uma aula de história muito valiosa.
    Ao falar sobre como as ações dos comunistas ficaram presas entre apoiar o nacionalismo da extrema direita ou fazer frente comum com a social democracia me faz pensar novamente nisso que citei acima, do que me parece uma situação onde a extrema esquerda está diante de uma armadilha entre o identitarismo fragmentador e a suposta ou aparente negação as estruturas de opressão vindas da raça, gênero e etc.
    A forma como me parece que o caso tratado nessa passagem do livro é apresentada mostra exatamente uma total confusão no campo ideológico e no campo da ação política, que literalmente abriu o caminho para a ascenção do fascimo.
    É importante que se destaque que a busca por poder ou ”protagonismo” por parte dos movimentos de esquerda podem colocá-lo numa situação em que se veem forçado a agir a favor de um lado ou outro, essa articulações políticas estão no centro da nossa discussão aqui.
    É compreensível que se forme alianças contra ”o maior inimigo”? Acredito que sim, apesar de cada caso ser um caso específico e merecer uma avaliação própria.
    Quando falamos sobre o identitarismo supraclassista, temos aí um inimigo. E você também fala em forma de atuar. Acho que é nesse ponto que segue minha inquietação. Talvez me sinta perdido nesse paradoxo causado pela armadilha que os identitarismos colocaram com sua hegemonia numa questão de ”ou você os apóia ou é, naturalmente, um opressor’. Não é que rejeitamos os ganhos das emancipações dentro da ordem, afinal é a luta que proporcionou tudo que a classe trabalhadora pode ou pôde chamar de direitos. Quero dizer, como focar as energias? Você colocou os 2 pontos centrais – no interior da classe, e contra o supraclassismo. Como eu já disse, talvez ao próprio exemplo de Marx, criticar duramente não é ruim. Mas ao mesmo tempo me parece que a crítica pode nos fazer parecer tendendo numa direção contrária a que as massas estão indo, como que nos distanciando das bases que deveríamos nos aproximar.
    Enquanto escrevo me vem a cabeça a situação da Venezuela, que segundo tratada pela mídia em geral, se trata da oposição entre Maduro e Guaidó, e falta justamente uma representação ”real” dos interesses da classe trabalhadora.
    Me lembro agora também da série escrita aqui, se não me engano por Manolo, sobre o Fórum social mundial, e como foi desvirtuado em sua proposta mas que ainda poderia ser utilizado pela classe trabalhadora como ferramenta para ações de real interesse da classe. Talvez seja nessa linha que sigo confuso, nessa questão de qual seria a ”forma lógica” (que siga uma lógica dialética) de atuar na para que, como você disse, os trabalhadores possam trabalhar suas desigualdades enquanto ressurgem como classe, tendo em vista o contexto dominado pelo identitarismo. E falo isso pensando também numa questão, digamos, discursiva e da produção e circulação de conhecimento. Não que eu queira aqui trazer o debate para um campo meramente discursivo, mas não podemos agir como se esse campo, tanto quanto o político, são importantes tenham, talvez, implicações imediatas

    Por fim digo que, para o bem, agora estou com mais dúvidas do que antes, espero que não tenha me expressado de forma excessivamente confusa.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here