1º Relato do trabalho como motorista da Uber

Por um motorista

O processo de indicação faz com que quem o indicou tenha acesso ao número de corridas que você já fez até que alcance o número estipulado de 100. Somente então quem te indicou recebe o prêmio, atualmente de R$500,00. É uma forma de controle e pressão, pois se você não fizer as corridas não há pagamento. Quem me indicou disse que é “costume” passar parte do valor para o iniciante, o que também aumenta a pressão para começar logo. Sem falar que é uma forma de aumentar o número de motoristas e manter um discreto controle sobre eles.

A Uber envia muitos e-mails e mensagens com dicas, ajudas, sugestões, etc. quase todo dia, além de vários vídeos. Creio que esta quantidade de comunicação direta é para combater a solidariedade entre trabalhadores, criando um canal oficial e mecanismos de cooptação. Existem também pontos físicos de apoio (na minha cidade existe um no centro) onde você pode ir para tirar dúvidas, ter informações, aprender sobre o aplicativo, etc.

O sistema de navegação é bem intuitivo, quem já está acostumado a operar um celular enquanto dirige (olhar mapas, responder mensagens, atender chamadas) consegue mexer nele tranquilamente, mas fazê-lo distrai a atenção no trânsito, o que pode ser perigoso e exige uma habilidade para se conseguir fazer tudo ao mesmo tempo.

1º Relato do trabalho como motorista da Uber

O aplicativo nos direciona para pontos onde tem muitas chamadas (as “oportunidades”), imagino que para evitar que o motorista fique parado muito tempo ou encerre o expediente mais rápido. Quando há muitas corridas em uma área ela garante um bônus (o chamado “dinâmico”), que é para onde todos os motoristas convergem. Uma das coisas mais enervantes é ficar olhando toda hora para o aplicativo, esperando entrar no dinâmico para valer mais a pena rodar. Neste sentido, como me disse uma vez outro motorista, ficar vigiando o aplicativo é pior que usar crack.

Quando as corridas começam a ser uma atrás de outra chega a dar uma certa euforia, assim como ver o dinheiro entrando (muitos dos pagamentos são em dinheiro), o que faz com que a gente queira continuar rodando cada vez mais. Ao se acostumar com o ritmo, você não sente muito cansaço ou dores. No entanto, no meu 1º dia, quando fiz um intervalo e depois, quando encerrei o dia, fiquei com dores e muito cansaço (não tenho o costume de dirigir por muito tempo). Uma preocupação é justamente ficar carregando muito dinheiro dentro do carro, principalmente ao rodar à noite. Não conhecer muito dos lugares por onde passei também causa uma sensação ruim, parecendo que estou perdido o tempo todo. De resto, a sensação é muito como um videogame, ir cumprindo determinadas missões, tentando correr contra o tempo para ganhar o máximo possível. Nesse ritmo, não dá tempo para ir ao banheiro nem beber água, e só quando parei pude fazer essas coisas satisfatoriamente, porque entre as corridas o tempo é muito escasso e nem sempre se está próximo de um lugar com banheiro.

Toda hora ter um estranho entrando no seu carro também é um pouco desconcertante. Além da sensação de insegurança, há a questão das avaliações. Uma avaliação ruim pode ser um pé no saco, por isso temos que tentar agradar o tempo inteiro. O problema é quando aparece um passageiro (chamado de usuário) atrasado, que acha que só porque somos motoristas podemos dirigir igual pilotos de Fórmula 1. Quando alguém não sabe o caminho mas tenta dar direções mesmo assim é péssimo, afinal a culpa de qualquer desvio ou erro é sempre do motorista e o GPS nem sempre ajuda.

Muitas das mensagens enviadas pelo aplicativo são sobre segurança, dizendo o quanto a Uber está preocupada conosco e tudo o mais. Supostamente há um seguro para os motoristas, mas que só nos cobre quando estamos com um passageiro. As aventuras que passamos para chegar nos lugares para buscá-los são problemas inteiramente nossos.

1º Relato do trabalho como motorista da Uber

As imagens que ilustram este texto são do filme Taxi Driver, de Martin Scorcese.

2 COMENTÁRIOS

  1. Relato não autorizado de um evento envolvendo um trabalhador de aplicativo:
    Ao chegar para pegar o usuário notei que havia algo estranho. Outras 02 pessoas subiram no carro e logo apresentaram a que vierem. Vieram assaltar a minha casa. Eram profissionais. Não queria o carro, nem o dinheiro. Profissionais, só lidamos com residências, diziam. Tentei contornar pois havia mulher e filho recém nascido em casa. Violência física me fez seguir. Em casa levaram tudo. Assustados ficamos trancados em um quarto. Ao sair entro em contato com a empresa para avisar que determinado “usuário” era um assaltante. Meu cadastro na empresa é cancelado e sou informado para procurar a Polícia. Ao tentar entrar em contato com a empresa novamente para saber se haveria algum apoio em relação aos bens roubados sou informado novamente que meu cadastro havia sido cancelado. Não poderia sequer voltar a rodar para juntar grana de novo. Ou faço um novo cadastro e perco as avaliações que tinha – positivas pois estava me dedicando ao trabalho de motorista – ou não tenho acesso ao aplicativo da empresa. Na Delegacia oferecem-me o serviço terceirizado de um escritório de advocacia para tentar uma indenização. É difícil, me disseram.

  2. rUbe, realmente pode ser difícil; o que faria, além da esfera criminal, seria entrar com ação trabalhista – não sei em que pé que está essa história da justiça do trabalho aceitar vínculo trabalhista, mas acho que hoje já aceitam. Caso a uber fale que é relação consumerista e não trabalhista, entre com uma ação civil, alegando que você é consumidor dela (e use a defesa dela na sua ação trabalhista) e peça indenização pelo uso do app e total falta de suporte da empresa com o “cliente”.
    Claro que juizes são imprevisíveis, mas veja: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/justica-manda-uber-pagar-r-27-mil-para-motorista-assaltado-e-agredido-durante-corrida-em-campinas.ghtml. Creio que se você procurar um defensor, e ele enfatizar a idéia de que a UBER foca justamente em intermediar passageiro e motorista de SEM ANONIMATO, e aufere lucro publicizando a segurança do aplicativo tanto para motoristas quanto passageiros, acho que há sim chance de indenização.

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