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Por Rita Delgado & João Bernardo

Quem, em Portugal, for da Ericeira para Santa Cruz, a meio do percurso atravessa Silveira e logo depois, na freguesia da Boavista, uma estrada, à esquerda, leva à Praia Azul. É aí, a escassas dezenas de metros da bifurcação, que se situa a casa do Sr. Jorge Soares. Modesta, de um só piso, com um pequeno jardim e cercada por um muro, nada a distinguiria de qualquer outra casa habitual nessa região se não fosse o Sr. Jorge Soares.

Pela arte que tinha dentro de si e o fazia ver coisas onde outros não vêem nada, o Sr. Jorge Soares foi modificando, compondo e adornando a casa, o jardim, o muro com materiais que encontrava, restos de obras, pedaços de azulejos, coisas quebradas, bonecos velhos. O primeiro exemplo que nos surge na memória é o de Kurt Schwitters em Hanover, durante a república de Weimar, incansavelmente construindo e acrescentando a sua coluna, a Merzbau, mas ela crescia dentro do apartamento, não no exterior. Depois, com a ascensão dos nacionais-socialistas ao poder, Schwitters fugiu para a Noruega e aí recomeçou a coluna, tendo depois de fugir para Inglaterra, onde incansavelmente a reconstruiu, também dentro de casa, até que a morte pôs fim àquela ânsia de morar no interior da arte. Poderíamos ainda incluir o Sr. Jorge Soares entre os praticantes da junk art, abeirando por vezes a arte povera, se ele fosse um profissional dessas coisas ou, pelo menos, um frequentador de galerias e exposições. Mas não. Ele fazia assim e daquela maneira porque era esse o olhar que possuía e eram esses os materiais de que, sem fortuna, podia dispor. Tecnicamente, a obra do Sr. Jorge Soares incluía-se na arte naïf, a arte ingénua, uma categoria por demais pretensiosa, como se a naïveté não devesse necessariamente mover qualquer artista, mesmo o mais erudito, como se toda a obra de arte — referimo-nos à arte, arte — não inaugurasse de cada vez a candura da visão. Mas, ao contrário da extraordinária construção envolvente do facteur Cheval, o carteiro Ferdinand Cheval, a obra do Sr. Jorge Soares era polícroma, onde a outra era monocromática.

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Uma vez que tinha havido uma guerra civil na Guiné-Bissau — contou-nos o Sr. Jorge Soares — vieram muitos refugiados e alguns instalaram-se aqui na Silveira. Todos os dias eu via passar uma africana muito bonita, e fiz este painel, com ela ao lado de uma sereia.

Nas últimas vezes que por ali passámos as persianas estavam fechadas e sobre a casa e o muro notávamos aquele inconfundível pó do tempo que cobre as coisas desertadas. Em Julho voltámos à Praia Azul. Por uma brecha derrubada do muro vimos um bulldozer que arrasava o jardim e se dispunha a escaqueirar tudo. O Sr. Jorge Soares decerto morreu, e o que irão os herdeiros fazer de uma moradia que não é uma moradia, mas é a imaginação materializada de quem ali viveu? Nesta época de selfies e de Netflix, a arte não interessa a ninguém.

Adeus Sr. Jorge Soares, artista.

As fotografias são de Rita Delgado.

1 COMENTÁRIO

  1. Em tempos de just-in-time, tudo tem seu tempo definido. O inicio e o cabo são duas faces da mesma moeda. Lamentável destruírem algo tão belo, tão vivo, tão cheio de história – não aquela que a gente lê nos livros ou nos artigos acadêmicos, mas aquela que representa o todo e, ao mesmo tempo, as particularidades.

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