Por R. Azevedo

Em uma passagem de Teorias da mais-valia, Marx escreve que David Ricardo nada sabia sobre as crises do mercado mundial, tendo se limitado a estudar os efeitos do bloqueio continental sobre a variação de preços na Inglaterra. Somente com o fim das guerras napoleônicas, as crises se tornariam fenômenos de periodicidade regular, ou seja, produtos de uma produção especificamente capitalista. Mais do que isso, as crises seriam a forma violenta com que o capital revela suas contradições internas. Isso significa que há na destruição de capital um ensinamento sobre a estrutura lógica em que a relação capitalista se desdobra.

A economia política clássica tinha dificuldades em explicar a possibilidade das crises por conceber que os atos de compra e venda coincidiam no mercado. Se produto se troca por produto, como acreditava Ricardo, o comprador também é sempre vendedor; desaparece a fase crítica da troca que é o dinheiro. Para entender como compra e venda se dissociam em dois atos independentes, separados no tempo e no espaço, e, portanto, passíveis de interrupção em seu movimento sucessivo, é preciso tomar a troca de mercadorias como a manifestação externa da unidade interna da mercadoria entre valor e valor-de-uso. Na crise, a independência recíproca dos atos complementares de compra e venda se destrói à força, manifesta-se a unidade dos elementos opostos. Não haveria crise se não houvesse essa unidade interna de elementos que parecem se comportar de forma indiferente.

Marx vê na crise uma forma de resolução violenta da alienação. Há pelo menos duas consequências resultantes do entendimento de que a relação hostil do homem com o produto do seu trabalho se resolve na atualização da hostilidade. Em primeiro lugar, a convergência entre crise econômica e crise ambiental fará com que se diga dos economistas atuais algo semelhante àquilo que Marx escreveu sobre Ricardo. Os ciclos do capital consistem em deslocamentos, degradação, expansão e contração de populações segundo as necessidades elásticas da acumulação, mas nada parece se perder nessa operação. Há um conjunto populacional dado, sempre disponível, que permite ao capital sempre reiniciar seus ciclos de expansão. A crise climática revela a inelasticidade, para falar ainda na pobre linguagem da economia, de um conjunto de populações (humanas e não humanas) diante dos ciclos. Na convergência das crises está, portanto, a irreversibilidade dos processos de expansão do capital.

Em segundo lugar, é preciso considerar as múltiplas formas em que se apresenta a destruição violenta associada às crises. No texto The holocaust and the trajectory of the twentieth century, Moishe Postone argumenta que a oposição fetichista entre concreto e abstrato permite interpretar o Nacional-Socialismo como uma revolta anticapitalista que não deixa de afirmar os avanços da indústria e da tecnologia. O capital é identificado unicamente à sua dimensão abstrata de valor que valoriza a si mesmo e é especificamente contra esse polo do duplo caráter do capital, especialmente na figura do capital financeiro, que o nazismo se ergue. Mais do que isso: o moderno antissemitismo concebe o poder atribuído aos judeus como uma personificação da dimensão abstrata do capital.

Os judeus foram responsabilizados pelas crises econômicas e identificados com a série de reestruturações e deslocamentos sociais resultantes da rápida industrialização capitalista, como a urbanização explosiva, o declínio das classes e dos estratos sociais tradicionais, e o surgimento de novas camadas de banqueiros, capitalistas e profissionais, juntamente com um grande proletariado industrial cada vez mais organizado. Assim o antissemitismo moderno alegava explicar os processos de mudança rápidos e fundamentais que se tornaram ameaçadores para tantas pessoas. Dentro desse imaginário racializado, os judeus não são uma raça inferior, mas uma antirraça, responsáveis por processos históricos que são profundamente perigosos e destrutivos para a ‘saúde’ social de outros povos – uma ameaça à própria vida. […] os judeus não eram vistos simplesmente como capitalistas, nem eram identificados apenas com o dinheiro e com a esfera da circulação. Em vez disso, eram identificados com o próprio capitalismo. O capitalismo, no entanto, não parecia incluir a tecnologia e a indústria. Na verdade, o capitalismo parecia ser apenas sua dimensão abstrata manifesta, que, por sua vez, era responsabilizada pelas mudanças econômicas, sociais e culturais associadas ao rápido desenvolvimento do capitalismo industrial moderno. Os judeus se tornaram, assim, as personificações da dominação intangível, destrutiva, imensamente poderosa e internacional do capital. Certas formas de descontentamento anticapitalista foram dirigidas contra a dimensão abstrata manifesta do capital personificada na forma dos judeus, não porque os judeus foram conscientemente identificados com a dimensão do valor, mas porque, dada a antinomia das dimensões abstrata e concreta, o capitalismo apareceu apenas em seu aspecto abstrato, que foi identificado com os judeus. A revolta ‘anticapitalista’ foi, consequentemente, também a revolta contra os judeus. A superação do capitalismo e de seus efeitos sociais negativos se associaram com a ‘superação’ dos judeus. (POSTONE, p. 89-93)

Os regimes totalitários da década de 1930 e 1940 dirigiam sua revolta anticapitalista a um dos polos do duplo caráter do capital. Esse fetichismo tardio pode ser concebido, a exemplo daquilo que escreve Max Horkheimer no texto The authoritarian state, de 1940, a respeito dos Estados autoritários do entreguerras, como uma forma peculiar de organização da crise.

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