Por Ralf Ruckus

Este artigo foi PUBLICADO ORIGINALMENTE EM INGLÊS no dia 10 de setembro e atualizado no dia 15 de outubro, foi traduzido especialmente para o Passa Palavra.

O artigo é resultado de discussões recentes com manifestantes e militantes de esquerda em Hong Kong. Ele dá um breve panorama da escalada do conflito e argumenta que a grande ignorância da esquerda mundial é um erro. Apesar das suas limitações, o movimento constitui um grande desafio para o regime direitista do Partido Comunista Chinês (PCC) e pode ser o prelúdio para mais lutas contra as relações capitalistas em Hong Kong, na República Popular da China e em outros lugares.

Protestos massivos, marchas, confrontos violentos, gás lacrimogênio e canhões de água, barricadas em chamas, ataques a delegacias de polícias, bloqueios de ruas e estações de metrô, greves e mais — estas são as formas dramáticas do atual movimento de massas em Hong Kong. Este se expandiu em junho de 2019 em reação a um projeto de lei de extradição que iria permitir entregar supostos criminosos às forças repressivas da China continental. Até setembro, o movimento cresceu até se tornar o confronto social mais grave em Hong Kong desde as revoltas contra o controle colonial britânico em 1967. E como Hong Kong tem sido uma parte semiautônoma da China com certas “liberdades democráticas” desde que a cidade foi entregue pela Inglaterra para a China em 1997, o crescimento do conflito também constituí um sério desafio para o regime do Partido Comunista da China (PCC).

Políticos ocidentais (e a mídia hegemônica crítica ao PCC) descrevem o movimento como sendo simplesmente pela “democracia e liberdade” — e chegam mesmo a ignorar as suas táticas violentas ou as dizerem que são apenas uma reação a violência policial. Eles enxergam as políticas expansionistas da China como uma ameaça aos seus interesses econômicos e políticos e querem usar esta chance para enfraquecer a posição da China e sua influência. A esquerda ocidental liberal e institucional repete o hino de “democracia e liberdade” do mesmo jeito pelo qual normalmente defende os interesses dos seus regimes capitalistas nacionais usando o argumento dos direitos humanos. Que parte da esquerda ortodoxa tenha expresso seu apoio para a posição do regime do PCC também não é surpreendente, pelo contrário, não é nenhuma surpresa considerando seus posicionamentos “anti-imperialistas” antiquados e a sua falta de entendimento sobre a natureza capitalista do PCC.

A questão mais importante é por que a esquerda anticapitalista tem se mantido majoritariamente silenciosa e passiva em relação ao crescimento do conflito em Hong Kong. Ela está sendo cegada pela mídia hegemônica e não quer apoiar um movimento meramente “democrático”? Ela acredita nos argumentos da esquerda ortodoxa de que a China ainda é “socialista”? Ela foi desencorajada pelos discursos nacionalistas e racistas ou pelos pedidos de ajuda ao governo dos EUA feitos por parte do movimento de Hong Kong? [1] Ou Hong Kong — que não possuí uma longa história de movimentos políticos grandes e explicitamente de esquerda — simplesmente está fora do radar da esquerda anticapitalista e “longe demais” para sequer importar?

O ponto importante é que o atual confronto entre o movimento de protesto e os governos de Hong Kong e China constituí uma importante ruptura histórica. Uma olhada nas diferentes fases do desenvolvimento do movimento revela que ele a) criou formas radicais de confronto e organização do movimento, b) quebrou o consenso social existente entre a população, a polícia e o governo de Hong Kong e c) ameaça destruir o papel de Hong Kong para o capitalismo chinês (e global).

O resultado dos confrontos ainda está em aberto, mas a esquerda anticapitalista deve analisar pormenorizadamente o desenvolvimento e apoiar aquelas correntes dentro do movimento que possuem um potencial progressivo.

Fases

O movimento em Hong Kong faz uso das experiências de mobilizações anteriores, desde a entrega à China em 1997, notadamente o Movimento do Guarda-Chuva em 2014, quando dezenas de milhares reivindicavam do regime chinês “eleições livres” em Hong Kong e ocuparam uma grande área do lado de fora do Parlamento de Hong Kong por várias semanas — antes de serem postos de lado sem terem atingido seu objetivo.

A primeira fase da atual mobilização começou em fevereiro de 2019 com o anúncio pelo governo de Hong Kong do projeto de lei de extradição. Se seguiram protestos públicos e manifestações pacificas.

A medida em que o governo não parou os procedimentos para introduzir a lei, uma segunda fase começou em 9 de junho.[2] [3] Várias manifestações enormes com até dois milhões de participantes no centro de Hong Kong[4] — o que surpreende se consideramos que a população da cidade é de apenas 7,5 milhões — foram seguidas por grandes confrontos com a polícia, que usou gás lacrimogênio, balas de borracha e “bean-bag rounds” (cápsulas de tecido que contém várias bolinhas de metal) contra manifestantes que construíam barricadas e jogavam objetos contra as forças de polícia em avanço.[5] O governo de Hong Kong suspendeu a lei em 15 de junho, mas sem eliminá-la[6] [7] Neste momento o governo já tinha perdido toda a confiança de grande parte da população de Hong Kong.

O movimento formulou cinco demandas: 1) a completa eliminação do projeto de lei de extradição, 2) a retirada das queixas de “vandalismo” contra os manifestantes, 3) a libertação dos manifestantes presos e a retirada das acusações contra eles, 4) uma investigação independente sobre a violência policial e 5) a implementação do sufrágio universal (algumas vezes também a destituição da líder do governo Carrie Lam). A segunda fase terminou em 1º de julho, quando durante uma manifestação centenas de manifestantes ocuparam e saquearam o Parlamento.

Na terceira fase o movimento decidiu se espalhar para outras áreas da cidade. Estas ações tinham como objetivo levar os protestos a outras partes da população de Hong Kong, mas também alcançar os visitantes e imigrantes do continente para explicar as demandas do movimento.[8] Elas atraíram pequenos números até que a situação mudou de novo em 21 de julho, quando centenas de homens usando “camisas brancas” (pró-PCC) das tríades locais atacaram e feriram manifestantes que estavam indo para casa em uma estação de metrô. A óbvia colaboração entre a polícia e as tríades levou a uma forte reação pública.[9] A própria polícia se tornou o foco da raiva e ódio de grande parte da população de Hong Kong e uma espiral de violência crescente nas ações e contra ações começou. Surpreendentemente, os ataques violentos feitos por manifestantes contra a polícia têm, até o momento, sido apoiados (ou, ao menos, tolerados) pela maior parte do movimento, uma vez que ficou óbvio que o governo dificilmente reagiria a manifestações “pacíficas”.[10] [11] [12]

Os manifestantes então mudaram suas táticas usando ações parecidas com “flash-mobs”, bloqueando estradas, levantando barricadas, etc. em uma parte da cidade e então usando o metrô para se mover para outras partes para fazer o mesmo lá, sempre tentando estar à frente da polícia — uma tática auto descrita como “ser como água” (se referindo a uma frase de Bruce Lee).[13] Ao mesmo tempo, a polícia aprimorou seus equipamentos e táticas, com dispositivos de proteção,[14] novos armamentos, policias disfarçados se fazendo passar por manifestantes[15] e ataques mais flexíveis e agressivos. O ponto alto desta fase foi em 5 de agosto, quando um chamado de greve foi seguido por centenas de milhares, o metrô foi paralisado e ocorreram protestos massivos, incluindo ataques coordenados a várias delegacias de polícia.[16] [17] [18] [19] Os manifestantes então mudaram sua atenção para o aeroporto, um centro econômico importante não apenas para a cidade, mas para toda a região. Ele foi parcialmente fechado nos dias 12 e 13 de agosto.[20]

A quarta (e atual) fase começou com a decisão do movimento de interromper os confrontos violentos e reagrupar as suas forças. Manifestações pacíficas nos dias 17 e 18 de agosto (esta última com 1,7 milhão de participantes)[21] mostraram o apoio massivo que o movimento ainda tem, assim como as ações com correntes humanas (inspiradas em ações similares nos estados bálticos em 1989) de muitas centenas de pessoas em 23 de agosto.

Como o governo continuava sem fazer concessões, os confrontos violentos retornaram a parti de 24 de agosto. A polícia ordenou a direção do metrô que fechasse as estações em áreas de protesto, continuou a usar gás lacrimogênio, balas de borracha, brutais golpes de cassetete e, recentemente, começou a usar canhões de agua.[22] [23] Os manifestantes usaram coquetéis molotov, atearam fogo em barricadas,[24] saquearam estações de metrô[25] [26] e bloqueando o serviço de trens e as estradas para o aeroporto.[27] [28] No dia 2 de setembro os estudantes do ensino médio e das universidades voltaram as aulas depois das férias de verão e começaram ações de greve.[29] [30] Em 4 de setembro Carrie Lam finalmente cumpriu a primeira demanda e retirou o projeto de lei de extradição,[31] mas até agora isto não tem impedido novos confrontos.[32] [33]

Por que o movimento cresceu de marchas pacificas para derrubar um projeto de lei para um movimento massivo e parcialmente violento contra a polícia, a posição do governo de Hong Kong e a influência do regime do PCC? Quando Inglaterra e China concordaram com a entrega de Hong Kong e formularam a “Lei Básica” como o documento constitucional que definia a regra chinesa de “um país, dois sistemas” depois de 1997, as pessoas em Hong Kong e outros lugares acreditavam que a era a China que iria mudar e se tornar mais democrática durante sua industrialização, urbanização e integração à economia-mundo. Ao contrário, a China não se moveu nesta direção e não apenas intensificou seu domínio autoritário mas também ampliou suas intervenções políticas e econômicas em Hong Kong.

 

Hoje, muitas pessoas em Hong Kong acreditam que a China não vai nem esperar ate 2047, o término oficial do acordo “um país, dois sistemas”. O projeto de lei de extradição foi visto como apenas mais uma ameaça as relativas liberdades de expressão e associação e o “domínio da lei” ocidental. Manifestantes enxergam sua luta como uma batalha final, a última chance de impedir uma tomada total e a introdução de um regime ainda mais repressor por parte da China.

Além disso, muitas pessoas em Hong Kong, especialmente os jovens, sofrem com uma imensa desigualdade social na cidade, com os aluguéis caros e salários relativamente baixos, com a competição por empregos, moradia e serviços públicos com os imigrantes do continente.[34] [35] [36] Eles sentem que a crescente influência da China vai piorar ainda mais sua situação econômica a não ser que eles a impeçam.

Luta organizada

Pelo um terço da população de Hong Kong (2,5 milhões de pessoas) participaram ativamente do movimento — provavelmente um recorde mundial. O movimento é heterogêneo, com pessoas envolvidas de diferentes idades, gêneros, posição social e profissão: estudantes de ensino médio e universitários, trabalhadores de escritório, funcionários públicos, trabalhadores de aeroporto, enfermeiras e muito mais. De acordo com pesquisas, a maioria dos participantes possuem alta formação e são “classe média”, mas muitos trabalhadores fabris e de serviços de cuidados também estão participando ou simplesmente apoiando, pois não podem participar muito devido a pressões econômicas e longas horas de trabalho. Na verdade, muitos manifestantes vivem em dois mundos, trabalhando durante sua jornada durante a semana e participando do movimento nas noites e nos finais de semana.[37] Notável é a falta geral das centenas de empregadas domésticas da cidade, que são imigrantes das Filipinas ou Indonésia.[38]

As massas de estudantes de ensino médio ou universitários cresceram em uma Hong Kong pós-1997 e nunca desenvolveram uma “identidade chinesa”. Eles temem o sistema repressivo do PCC e querem manter seu “estilo de vida” de Hong Kong.[39] Muitos dos manifestantes mais velhos são imigrantes do continente ou seus descendentes, que sofreram os expurgos do PCC ou outras repressões antes de virem para Hong Kong nas últimas décadas. Eles não confiam no PCC.[40]

Os manifestantes são confrontados por uma pequena parte da população que, de fato, apoia o governo de Hong Kong e a polícia, assim como o PCC, e que organizou suas próprias manifestações com até dezenas de milhares de participantes.[41]

O movimento de protesto mostra uma incrível habilidade de se auto-organizar, desenvolver e mudar estratégias e tomar decisões — apesar de seu tamanho massivo.[42] [43] [44] [45] Debates e ações são frequentemente organizados através de fóruns como LIHKG (similar ao Reddit),[46] [47] Telegram e grupos de Facebook, assim como outras ferramentas digitais.[48] [49] Algumas vezes milhares ou dezenas de milhares de membros usam estes grupos, e mesmo decisões sobre o próximo passo durante uma manifestação são tomadas usando aplicativos. Durante manifestações pacificas e violentas, as pessoas assumem diferentes funções: lutar na linha de frente, construir barricadas, providenciar itens como máscaras ou capacetes, oferecer ajuda médica, etc. Outros administram as ferramentas de comunicação digital, postam informações sobre a localização das forças policiais ou códigos PIN das portas na vizinhança para pessoas escaparem e tomam contas das “Paredes Lennon”[50] — pôsteres, adesivos, fotografias, etc. colados em certas paredes. Muitas pessoas também usam seu próprio dinheiro para comprar água, comida, tíquetes de metrô, equipamentos como máscaras de gás para distribuir aos manifestantes ou doam o dinheiro se não tiverem nenhum outro meio de ajudar o movimento.

Chocante é a falta de líderes e a posição fraca dos partidos políticos.[51] [52] Para os líderes do PCC e do governo de Hong Kong isto é difícil de acreditar.[53] Eles, assim como a mídia ocidental, apresentam pessoas de certos partidos “democráticos” ou “locais” (que tiveram um papel no Movimento Guarda-chuva) como os líderes ou representantes de hoje, mas eles dificilmente são importantes no atual movimento. Esta falta de líderes é parcialmente resultante da repressão após o Movimento Guarda-Chuva, quando muitas pessoas foram acusadas e presas. Outra razão são as táticas divisionistas dos líderes do Movimento Guarda-Chuva, como aqueles dos grupos “locais” (nacionalistas). Há um amplo consenso de que os conflitos entre lideranças e as divisões enfraqueceram o Movimento Guarda-Chuva e não devem se repetir.

Portanto, o atual movimento está reivindicando mais as cinco demandas e usa slogans gerais como “Liberem Hong Kong, revolução do nosso tempo” ou “Hong Kong, vá em frente”. Muitos outros assuntos frequentemente foram expressados e discutidos, por exemplo, demandas de esquerda a propósito da desigualdade social ou demandas de direita a respeito de um limite para os imigrantes do continente ou a independência de Hong Kong. Entretanto, o movimento permanece com as cinco demandas para garantir sua unidade e conquistar estas demandas comuns primeiro.

Interesses da China

O governo de Hong Kong sob o comando de Carrie Lam está visivelmente abalado pelo movimento mas tem permanecido na retaguarda. É claro que as decisões sobre como se lidar com o movimento estã

o sendo tomadas em Pequim. Primeiramente o PCC não permitiu nenhum noticiário na mídia continental, mas depois mudou de curso e começou a fazer uma campanha nacionalista na mídia[54] [55] [56] que retrata os manifestantes me Hong Kong como “criminosos” ou “terroristas”[57] que são dirigidos por “mãos estrangeiras ocultas” e que perseguem uma “revolução colorida” contra o PCC e os interesses nacionais da China.[58] [59] [60] [61] [62] A mídia estatal chinesa e os representantes do governo vem ameaçando uma intervenção direta das forças de segurança chinesas[63] [64] [65] [66] [67] e unidades antiprotestos da Polícia Armada do Povo organizaram treinamentos públicos em Shenzhen, próximo da fronteira com Hong Kong.[68] [69] O regime do PCC também usa seu poder econômico para pressionar empresas como as linhas aéreas Cathay Pacific depois que os trabalhadores abertamente participaram nos protestos.[70] [71] [72]

O regime do PCC quer minar a legitimidade dos protestos e enfraquecer o movimento enquanto busca proteger seus interesses políticos e econômicos. Hong Kong tem um papel central para a China[73] [74] assim como para empresas chinesas e transnacionais como um eixo de transição para fluxos de capital, investimentos e serviços financeiros e legais. A cidade é capaz de exercer este papel devido ao seu status político especial, sua própria moeda e seu sistema legal ocidental.[75] [76] Os protestos, assim como a guerra comercial entre a China e os EUA, já impactaram a economia de Hong Kong.[77] [78] [79]

Qualquer intervenção direta da Polícia Armada do Povo ou mesmo do exército poderia destruir a função econômica de Hong Kong e trazer perdas econômicas enormes. Entretanto, um movimento prolongado que abertamente desafia o domínio da Chia sobre a cidade ou mesmo a independência de Hong Kong mina a autoridade do PCC e pode até mesmo se mostrar contagioso e provocar outros levantes populares na China.[80] Apesar da propaganda e da mobilização nacionalista da China contra os protestos em Hong Kong, os habitantes do continente, de fato, possuem diferentes perspectivas sobre o movimento.[81]

Portanto, a liderança do PCC quer acabar rapidamente com o movimento (e com a divulgação de imagens de barricadas em chamas), pelo menos até o 70º aniversário de fundação da República Popular da China, comemorado no dia 1º de outubro de 2019.[82] [83] Isto pode não ser possível sem um aumento da repressão e da intervenção direta das forças de segurança chinesas. O regime do PCC está nervoso e a intensificação do conflito e a falta de habilidade dos governos de Hong Kong e Pequim para conter e parar os protestos já levam a especulações sobre um enfraquecimento da posição do líder do PCC, Xi Jinping.[84]

Limites e Potenciais

Militantes de esquerda tem mostrado dificuldades aparentes em lidar com movimentos sociais recentes que não se encaixam nas suas expectativas, que se recusam a ser liderados por representantes de esquerda e que incluem elementos que expressam posições e demandas políticas problemáticas, como por exemplo, os Coletes Amarelos na França e, agora, o movimento em Hong Kong.[85] [86] No entanto, as posições racistas latentes de partes do movimento de Hong Kong e sua embaçada e problemática demanda por “democracia” (ou pela defesa do status quo) deve ser uma razão para ativistas de esquerda se envolverem, resistir contra essas posições e apoias as correntes progressistas do movimento — como alguns em Hong Kong já tentam fazer.

O atual movimento em Hong Kong é certamente uma das mais incríveis mobilizações de massas vista nas últimas décadas. Além disso, para o PCC é o maior desafio por protestos populares desde o movimento da Praça da Paz Celestial de 1989 — mesmo que a comparação tenha seus limites devido as mudanças na China e no mundo desde então.[87] Ele também se aproxima de alguns daqueles da “Primavera Árabe” em 2010 e 2011.

De fato, o movimento não é nenhuma mobilização anticapitalista, ainda, mas ele tem questionado a posição da classe capitalista que governa (e praticamente é dona de) Hong Kong, assim como a dos governantes do PCC em Pequim. Os ataques contra a polícia mostram que muitos no movimento não confiam em instituições centrais do Estado. Greves e outras mobilizações nos locais de trabalho (hospitais, o aeroporto, escolas e universidades, setor público, etc.) minam o aceitamento das relações capitalistas, ou, como um manifestante disse: “Os trabalhadores não trabalham tão duro quanto antes e falam e questionam os chefes agora”.

O que vai acontecer a seguir? Em um cenário pessimista, pode acabar como acabam a maioria dos movimentos, com repressão e derrota, uma vez que o governo de Hong Kong já está falando sobre declarar estado de emergência[88] e o PCC parece incapaz de achar uma solução sutil[92] e pode mobilizar suas forças de segurança para esmagar o movimento.[90] [91] [92]

Em um cenário menos dramático, o movimento pode ficar sem forças. Neste caso, medidas repressivas mais duras e muitas prisões são prováveis, uma vez que já começaram.[93] [94] [95] Pelo menos algumas das “liberdades democráticas” de Hong Kong seriam mantidas, o que poderia ser visto como uma vitória do movimento. Muitos na esquerda ocidental subestimam a importância destas “liberdades” para organizar a resistência e os movimentos sociais. Até agora, Hong Kong tem sido um local próspero para grupos sindicais, feministas e outros militantes de esquerdas que usam a cidade para organizar atividades do outro lado da fronteira, e qualquer aumento da repressão por parte do PCC pode significar que eles tenham que parar.[96]

Em um cenário otimista, o movimento pode ser o começo de uma geração rebelde e mais lutas sociais.[97] As questões sociais de fundo que grande parte da população enfrenta (aluguéis caros, salários baixos, longas jornadas de trabalho, desigualdade social, qualidade ruim dos serviços de saúde, etc.) podem desencadear correntes anticapitalistas, e a experiência de resistir e lutar coletivamente contra poderosas entidades estatais pode ser justamente o começo de mais lutas que coloquem em questão as relações capitalistas propriamente ditas. Isso poderia despertar movimentos similares na China continental que enfrentam o mesmo inimigo — o regime de direita do PCC que tem sido o centro da restauração capitalista na China por décadas e que iniciou uma ação altamente repressiva contra militantes de esquerda nos últimos anos.[98]

Muito depende da limitação da influência do PCC em Hong Kong e da contenção das posições dos partidos “locais” de direita e suas políticas nacionalistas e racistas na cidade. O envolvimento de militantes de esquerda, a promoção de pautas e debates anticapitalistas e mesmo o apoio de movimentos de esquerda estrangeiros[99] pode ter um papel decisivo em fazer este último cenário ser mais provável.

Atualização em 15 de outubro de 2019:

Uma quinta fase do movimento de protesto em Hong Kong começou no início de outubro. Enquanto o regime do PCC comemorava o 70º aniversário de fundação da República Popular da China com uma enorme parada militar em Pequim no dia 1º de outubro, manifestações massivas em Hong Kong se transformaram em violentos confrontos com a polícia local. Pela primeira vez desde que os protestos começaram a ficar grandes em julho deste ano, um manifestante foi baleado por um policial e ficou gravemente ferido. Isto levou a protestos raivosos nos dias seguintes.

Em 4 de outubro, o governo de Hong Kong usou uma lei de emergência (que não era usada desde os levantes de 1967) e baniu o uso de máscaras durante as manifestações. Em resposta, dezenas de milhares saíram as ruas em protesto contra a proibição — muitos usando máscaras, destruindo estabelecimentos como bancos chineses e atacando a polícia.

Até este momento, nenhuma solução política está à vista, nem na forma de uma conquista das demandas do movimento nem na forma de um recuo dos manifestantes. Ainda, o uso da lei de emergência pode ser o início de uma repressão contra o movimento ainda mais massiva pela polícia ou mais diretamente pela intervenção do PCC.

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