Por Raquel Azevedo

No discurso da vitória na primária de Nevada, o senador Bernie Sanders lembrou algumas marcas de sua campanha até aqui: a valorização do salário mínimo, a universalização da cobertura da saúde pública, a reforma do sistema de imigração. Se analisarmos o conjunto desses temas a partir da hipótese de Branko Milanovic a respeito do efeito do crescimento dos países asiáticos, especialmente da China, na redução dos níveis de desigualdade de renda entre os países, poderíamos dizer que aquilo que está em jogo na corrida presidencial americana são, em parte, os resultados do aprofundamento da globalização nos últimos 40 anos. No livro Capitalism, alone (2019), Branko indica como as reformas neoliberais iniciadas na década de 1980 modificaram a posição relativa dos americanos na renda média global. Os americanos ficaram para trás. O crescimento da renda nos EUA é inferior ao crescimento da renda nos países asiáticos. Donald Trump e Sanders encaminham o problema de formas inteiramente distintas, mas vale considerar por um momento o solo de que partem — que nas palavras de Branko, em um artigo publicado em fevereiro, pode ser descrito como “a disparidade entre as expectativas mantidas pelas classes médias ocidentais e seu baixo crescimento de renda, bem como sua queda na posição global de renda”.

Os dados que Branko reúne e rearranja a respeito do crescimento dos países asiáticos e da redução do nível de desigualdade global são extremamente relevantes para se pensar os rumos das políticas públicas e das pesquisas sobre o capitalismo, mesmo que haja discordância com certas conclusões que ele daí tira. É possível acompanhar seu argumento seguindo a evolução do coeficiente de Gini (cujo valor oscila do mínimo de desigualdade, 0, até o máximo de desigualdade, 1) desde a Revolução Industrial até os dias de hoje. Os níveis de desenvolvimento da Europa e da Ásia eram praticamente idênticos até o século XV, mas não havia entre as partes praticamente nenhuma interação. Segundo os dados de Branko, a disparidade entre Europa, de um lado, e Ásia e África, de outro, atinge seu ápice no século XIX. A vantagem europeia, resultante, em grande medida, do processo de colonização, se expressa na elevação contínua da desigualdade de renda entre os países a partir de 1820.

Fonte: Branko Milanovic, 2019, p. 7.

Antes da Revolução Industrial, a desigualdade global se devia a diferenças de renda entre as classes de uma mesma nação e não a diferenças de renda entre indivíduos de diferentes países. É isso que muda no século XIX. O crescimento progressivo da desigualdade global até a véspera da Primeira Guerra é uma forma de mensurar a dominação ocidental no período. O coeficiente de Gini salta de 0,55 em 1820 para 0,7 no início da década de 1910 — um nível de desigualdade semelhante ao registrado na África do Sul hoje. Esse crescimento da desigualdade se deve a uma combinação entre o aumento dos níveis de renda na Europa, nos EUA e no Japão e a estagnação de China e Índia. Com o fim da Segunda Guerra, a desigualdade de renda atinge seu nível mais alto, 0,75, e permanece praticamente estável até a última década do século XX.

A diferença de renda entre os países ocidentais, de um lado, e China e Índia, de outro, começa a mudar a partir da década de 1980. O crescimento dos países asiáticos reduziu a disparidade dos níveis de renda entre ocidente e oriente, como indica a diminuição significativa do coeficiente de Gini no período, ainda que a desigualdade no interior dos países, especialmente na China, tenha aumentado. Branko argumenta que a convergência dos níveis de renda se deu durante outra revolução tecnológica, que, a um só tempo, contribuiu para o crescimento da Ásia e para desindustrialização do ocidente. O balanço das duas revoluções tecnológicas aqui consideradas seria, portanto, o seguinte: a primeira, no início do século XIX, levou a uma elevação da desigualdade global através do enriquecimento do ocidente e a segunda, no fim do século XX, resultou na convergência dos níveis de renda através do enriquecimento asiático.

O que está em jogo não é só a transformação econômica, mas a legitimação dos regimes políticos que a sustentam. “O sucesso econômico da China enfraquece a afirmação do Ocidente de que existe uma relação necessária entre capitalismo e democracia liberal. Na verdade, essa afirmação está sendo enfraquecida no próprio Ocidente pelos desafios populistas e plutocráticos à democracia liberal”, escreve Branko. E acrescenta: assim como houve um Adam Smith a defender o modelo britânico no passado, é possível que o pensamento econômico contemporâneo passe a considerar as particularidades políticas da convergência dos níveis de renda entre os países. Esse novo Smith teria de levar em conta que o mal-estar do ocidente com a globalização seria causado pela disparidade entre as elites, que se beneficiaram da globalização, e o restante da população, para quem a intensificação da globalização significa, em certo sentido, uma ameaça, seja através do comércio mundial ou da imigração.

3 COMENTÁRIOS

  1. Ce “nouvel Adam Smith” n’est t-il pas tout trouvé en la personne de Giovanni Arrighi qui a écrit un livre au titre évocateur: “Adam Smith à Pékin, Les promesses de la voie chinoise” ? Je pose cette question naïvement car j’aimerais avoir l’avis de l’auteur de l’article.

    (Tradução do Passa Palavra: Não será que «esse novo Adam Smith» corresponde à pessoa de Giovanni Arrighi, autor de um livro com um título elucidativo: Adam Smith em Pequim. As promessas da Via Chinesa? É sinceramente que faço a pergunta, porque gostaria de conhecer a opinião da autora do artigo.)

  2. Oi, Elie. Acho que o Smith contemporâneo do Branko é diferente do Smith que o Arrighi evoca no livro dele. Uma das ideias do Adam Smith em Pequim é que haveria duas formas de desenvolvimento capitalista: uma natural, que o Arrighi associa ao caminho que Smith apresenta n’A riqueza das nações, ou seja, a formação de uma sociedade de mercado a partir do aprofundamento da divisão do trabalho desde a agricultura, passando pela manufatura e chegando enfim ao comércio internacional; e outra anti-natural, correspondente ao caminho apresentado por Marx, que, segundo Arrighi, inverte o progresso natural ao apresentar o desenvolvimento do comércio como etapa que antecede o desenvolvimento da agricultura. Enquanto a estrutura marxista e o Estado a ela correspondente (que perde sua autonomia para a burguesia e deve encarnar a agressividade do colonialismo e do comércio de longas distâncias) são a marca do Ocidente, Arrighi se pergunta qual seria a característica do desenvolvimento chinês. Para ele, a China repete o caminho apontado por Smith, inclusive (e especialmente) na manutenção da autonomia do Estado na economia e na política externa.

    O gesto do Arrighi é aplicar o modelo do Smith ao desenvolvimento capitalista chinês. O que o Branko propõe é que o pensamento econômico contemporâneo tem de considerar que os efeitos da última revolução tecnológica são distintos daqueles da revolução tecnológica dos séculos XVIII e XIX. Essa última aprofundou a desigualdade de renda entre os países; a primeira reduziu. Um novo Smith teria que considerar (e explicar) esses efeitos ambíguos.

  3. Raquel Azevedo,
    D’accord je comprend, merci de votre réponse ainsi que des précisions apportées.

    (Tradução do Passa Palavra: Entendi, estou de acordo. Obrigado pela resposta e pelas explicações.)

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