Por Raquel Azevedo

No texto An American Utopia, publicado em 2016, Fredric Jameson se faz mais uma vez a pergunta sobre o destino do pensamento utópico em um tempo em que a máxima de Margaret Thatcher sobre a economia de mercado – não há alternativa – ganha a consistência não de algo universal, mas de alguma coisa grande demais, que exige energia demais (como num sistema físico) para ser transformada. Diante de estruturas que nos ultrapassam e que não são redutíveis à nossa experiência particular, Jameson sugere que se recupere a ideia de poder dual. Trata-se, claro, de uma referência à descrição de Lênin da coexistência, em 1917, de um governo provisório e da rede de sovietes ou de conselhos de trabalhadores e militares. Ou seja, outra camada de organização se interpõe entre aquela que parece imutável e a da experiência individual. Essas redes intermediárias, às quais a população recorre para obter ajuda em questões mais práticas, podem se tornar, nas palavras de Jameson, um governo alternativo sem desafiar oficialmente a estrutura legal existente. Igrejas, sindicatos e exército seriam exemplos dessa coexistência do poder – além da máfia e, no nosso caso, das milícias. Não contam como poder dual, na avaliação de Jameson, os enclaves e outras formas de organização que estão espacialmente separadas do poder dominante ou que tenham uma autonomia geográfica.

Igrejas e sindicatos não são exatamente o objeto de preocupação do autor nesse texto, embora seja impossível não levar em conta que a organização de trabalhadores precarizados que sequer dividem o mesmo espaço de trabalho é um nó fundamental. A instituição capaz de produzir o poder dual que interessa a Jameson é o exército.

É um pensamento que deve ter me ocorrido há muitos anos, inspirado por uma imagem de um dos nossos maiores cartunistas políticos. Eu acho que deve ter sido durante o primeiro ano da presidência de Eisenhower, talvez ainda durante a campanha, quando os últimos vestígios do New Deal ainda sobreviviam na campanha malsucedida de Truman pela medicina socializada segundo os modelos inglês e canadense. Ike, provavelmente com o uniforme militar completo, coloca-se informalmente na borda da mesa do Salão Oval e manda, “Bem, se eles querem medicina socializada, eles só precisam se juntar ao Exército como eu fiz”[1].

Para Jameson, o exército é uma instituição singular no quadro político americano porque é a única capaz de transcender a jurisdição dos estados – autonomia que é um dos princípios fundamentais da constituição americana. A formação de um poder dual nos EUA não poderia deixar de considerar o problema do federalismo, daí o interesse pela organização militar. Mais do que seguir a pista de Jameson, interessa-nos aqui notar que recuperar o problema do poder dual no atual estado de coisas significa pensar sobre o problema da orientação entre escalas distintas, ou, dito de outra forma, significa pensar sobre como se relacionar com uma escala aparentemente inacessível. A formação de um poder dual parece se impor à medida que o poder dominante se torna mais difuso. Há algo, a um só tempo, opressor e nebuloso na máxima “não há alternativa”.

Minha própria escrita não está muito clara, mas gostaria de usar uma coincidência curiosa da literatura brasileira para tentar explicar o que quero dizer. No livro que João Guimarães Rosa lançou em 1962, chamado Primeiras estórias, há um conto chamado O espelho. É o mesmo título de um conto publicado por Machado de Assis em 1882, na Gazeta de notícias. O que eles têm em comum? Tratam da experiência de um sujeito que vai anulando, diante de um espelho, todas as pequenas percepções que o caracterizam. O drama é que, em ambos os contos, o espelho começa a refletir essa falta de forma, essa visão embaçada, essa desorientação completa. Somente quando os personagens conseguem recuperar, mesmo que de forma precária, a sua forma, a sua figura no espelho, alguma orientação no mundo é restabelecida. O personagem do conto de Guimarães Rosa chega a dizer que os espelhos têm algo de transcendente. Perder a forma diante do espelho é como se perder diante de algo que nos escapa, de algo tão grande que não é redutível à nossa experiência particular. Voltar a encontrar alguma forma, por mais débil que seja, significa ser capaz de incorporar essa coisa tão grande que nos escapa a partir de algum ponto. Sem essa forma, os personagens são apenas o invisto, a desfigura. Coincidentemente, a forma precária que permite que o personagem do conto do Machado volte a si é um uniforme militar.

A formação de um poder dual poderia ser lida como essa capacidade de recuperar a forma depois de perder qualquer capacidade de orientação. Ou ainda: o poder dominante é capaz de refletir tanto a ausência de alternativa quanto formas precárias e ainda por elaborar.

[1] JAMESON, F. An American Utopia: dual power and universal army. Londres e Nova Iorque: Verso, 2016.

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