Por João Aguiar

3. A ideologia como universo integrado e multiforme: os campos de atuação dos gestores ideológicos

3.1

Se os gestores ideológicos no capitalismo constituem um desdobramento interno e complementar aos gestores clássicos/hegemónicos – na medida em que contribuem para fragmentar a força de trabalho mundial numa infinitude de categorias de base simbólica e ideológica – numa outra sociedade, os gestores ideológicos poderiam alavancar-se como uma classe dominante, mesmo que com a integração subordinada dos capitalistas. Na Alemanha nazi e na União Soviética – expoentes de diferentes sociedades em que os gestores ideológicos se tornaram dominantes (Alemanha nazi) ou organizavam o sistema concentracionário do Gulag – o poder estava nas mãos dos gestores ideológicos (os SS, o PCUS), e em que os gestores de tipo capitalista se encontravam integrados nas direções das empresas (estatais ou privadas).

Se o leitmotiv organizativo dos gestores ideológicos estiver nesse campo simbólico e ideológico, e que potencialmente pode criar novas dinâmicas sociais, opostas a qualquer tipo de modernidade, isso significa que o universo ideológico existente não pode mais ser visto como uma excrescência/uma superestrutura da economia capitalista. Pelo contrário, será necessária uma abordagem dual, privilegiando a articulação sempre tensa e contraditória entre as necessidades de reprodução ampliada do capitalismo e a sobrevivência de numerosos e heterogéneos misticismos anti-científicos e de teor metacapitalista.

O leitor já terá reparado no pormenor não despiciendo de que, excetuando os casos dos polícias e do sistema judicial à caça de criminosos, ou dos cirurgiões a lutar tenazmente contra a morte dos seus doentes, as diversas formas de trabalho assalariado nunca são alvo de séries televisivas de grande impacto mediático. Simplesmente porque a organização interna do trabalho e os espaços de trabalho são um enfado descomunal, em termos de entretenimento. Os espaços e os atos de produção de valor económico são quase desprovidos de caráter narrativo. É neste quadro que os elementos ideológicos e simbólicos preenchem o que numa terminologia marxista se designa por valor de uso na vida quotidiana.

Se é inquestionável que no toyotismo cresceram enormemente a quantidade de empregos com tarefas mais qualificadas e criativamente mais interessantes, o facto é que a principal estrutura social de produção de bens e serviços para o conjunto da sociedade não é a única fonte de produção de subjetividades. E para a maioria das pessoas não será sequer a principal. A economia capitalista produz novas e mais minuciosas mercadorias. Todavia, o mecanismo económico de aplicação de energias e capacidades humanas para produzir a espiral crescente de mercadorias diversificadas convive com a sofisticação simbólica. Só numa sociedade de vasta abundância material podem segmentos significativos da população dedicar-se a sessões de reiki, a visitar sites anti-vacinas, a hostilizar dezenas de concidadãos nas redes sociais, ou a incorporar crenças místicas contra os químicos…

3.2

Exatamente como duas espirais com as suas raízes voltadas de costas uma para a outra, o crescimento da economia gera a necessidade de novas modalidades simbólicas. No caso extremo de maior afastamento entre as duas espirais, o irracionalismo pode tomar conta das perceções. É por isso que meninos e meninas de determinados segmentos sociais podem escarnecer contra a ciência, os químicos, a medicina baseada na evidência científica e as vacinas, enquanto conduzem automóveis elétricos, bebem água alcalina e tiram fotos num resort turístico num telemóvel topo de gama. Como se tudo o que fazem estivesse desligado de bens materiais e de conhecimento científico. Ou como se uma opinião infundada sobre um tema tivesse o mesmo valor que conhecimentos testados, discutidos e certificados por milhares de cientistas.

Continuando com a metáfora das duas espirais de costas uma para a outra, quanto maior o desenvolvimento da economia capitalista, maior o desenvolvimento de novas necessidades. Por conseguinte, maior a necessidade de novos aspetos de índole simbólica que criem diferenciação nas mercadorias. Num movimento simétrico, quanto maior a autonomia que a produção simbólica atinge, maior o número de profissionais nas áreas criativas, das indústrias culturais e da produção de conteúdos. E, consequentemente, maior a participação do cidadão individual na produção de novos conteúdos, não já apenas por via do feedback fornecido pelo consumo, mas cada vez mais por intermédio das redes sociais. Em suma, os heterogéneos universos ligados à produção simbólica complexificam-se e expandem-se.

3.3

Na articulação de tudo isto, uma camada de gestores, evidentemente não independentes da produção capitalista, mas que lidam fundamentalmente com matéria-prima “imaterial”. Também por aqui a mais-valia relativa se pode expandir. Todavia, a aparente imaterialidade pode criar a ilusão de uma cisão entre a produção de mercadorias e a produção simbólico-ideológica. Não por acaso, soube-se há pouco tempo que apenas 12 indivíduos terão sido responsáveis pela criação de quase 66% dos conteúdos anti-vacinas nas redes sociais. No mesmo sentido, duas organizações foram responsáveis por 54% dos anúncios anti-vacinas, de acordo com um artigo de 2019 .

Em consonância, um artigo do jornal The Guardian menciona que «430 sites – seguidas por 45 milhões de pessoas – utilizam ferramentas do Facebook, como lojas virtuais e subscrições de fãs, enquanto espalham informações falsas sobre a Covid-19 ou a vacinação» . A transformação de produtos e serviços contra-científicos num ramo de negócios é de tal ordem que, a ser verdadeira uma previsão publicada no site de notícias financeiras Business Insider, pode atingir os 404 biliões (na escala longa 1012) de dólares em 2028 . Para se ter um termo de comparação, o VAB da Apple, a mais valiosa empresa do mundo, andará neste momento entre os 250 e os 300 biliões de dólares.

Mesmo antes da pandemia de Covid-19, já era real a criação de Bots e de exércitos de hackers na difusão digital em larga escala de informações falsas sobre as vacinas. A internacionalização das organizações promotoras de conspirações é visível no caso famoso dos chamados “Médicos pela verdade”, um grupo anti-científico com forte presença na Europa e na América Latina.

Recentemente, algumas das redes sociais têm fechado ou limitado o acesso a páginas de promotores anti-vacinas. Porém, esta ação decorreu de alguma pressão social e política. Até muito recentemente, as empresas proprietárias de redes sociais não pretendiam «alienar uma base de utilizadores anti-vacinas com um valor estimado de 1 bilião de dólares anuais», rendimentos provenientes de conteúdos publicitários pagos.

Verifica-se a existência de um conjunto de organizações de gestores ideológicos coordenados internacionalmente, com particular proeminência na frente contra-científica. O próprio poder económico destas organizações não reflete uma mera ou regular expansão de novas mercadorias capitalistas para novos bens ou serviços. De facto, a sua influência leva a mudanças de atitudes e de práticas relativamente à saúde e à ciência, não se tratando de uma mera alteração de bens de consumo. Ou seja, o irracionalismo torna-se uma força política e sociológica junto de largas camadas da população, permitindo que uma nova, multiforme e pouco estudada camada de gestores ideológicos possa lucrar com mudanças de comportamentos relativos à saúde e à ciência.

Se à direita é visível uma maior resistência à vacinação contra a Covid-19, também é visível que os identitarismos se traduzem num crescimento da falta de confiança nos trabalhadores do sistema de saúde e na vacinação. Nos condados e nos Estados que mais votaram em Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas de 2020, a resistência à vacinação é bastante superior . Todavia, nas chamadas comunidades de Latinos , LGBTQ, ou na comunidade negra a desconfiança relativa aos serviços de saúde e às vacinas é superior à média da população geral. Não que existam alguns motivos históricos de marginalização, mas não deixa de ser sintomática a sobreposição entre as políticas de saúde pública do passado, a veiculação e construção de comunidades identitárias e a correspondente suspeita relativamente às ciências biomédicas. Portanto, no caso atual norte-americano, à direita sobretudo, mas também nos identitarismos, existe uma considerável população que se afasta das instituições médicas e de saúde e prefere dar ouvidos a gestores ideológicos. Se o afastamento de populações politicamente conservadoras já era relativamente esperado, é importante lembrar que nas últimas duas ou três décadas, os movimentos anti-vacinas, a oposição aos OGMs ou a adesão à homeopatia cresceram nos bairros liberais e mais orientados à esquerda das grandes cidades norte-americanas (aqui) e (aqui). O que até há poucas décadas era quase exclusivo de uma direita ultra-conservadora ou de agrupamentos religiosos fanáticos, hoje, por distintas motivações e de diferentes proveniências sociais e políticas, ocorre uma relativa coexistência de irracionalismos contra-científicos nas duas extremidades do espectro político. O recente exemplo da fusão entre a alt-right norte-americana com a ideologia New Age tão acarinhada por celebridades e estratos liberais de esquerda, evidencia a intercomunicação de aspetos irracionalistas numa imensa e heteróclita constelação de lugares comuns: a grande força ideológica propulsora e difusora de irracionalismos junto de uma população à mercê dos gestores ideológicos.

Este artigo compõe-se de quatro partes, que são publicadas semanalmente. 1ª Parte: Um ponto de partida. Arte, ciência e narrativas. 2ª Parte: Duas classes dos gestores? As contradições entre a administração do capitalismo e a coexistência de princípios metacapitalistas. 4ª Parte: Mais dois campos de atuação dos gestores ideológicos: do ecologismo ao identitarismo. Conclusão.

O texto está ilustrado, em destaque, com uma obra de Giulio Paolini (Retrato do artista como modelo) e depois com duas obras de Michelangelo Pistoletto (As orelhas de Jasper Johns e Pernas cruzadas). Paolini nasceu em 1940 e Pistoletto em 1933.

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