Por João Aguiar

4. Mais dois campos de atuação dos gestores ideológicos: do ecologismo ao identitarismo. Conclusão

4.1

A ampliação da esfera simbólico-ideológica no contexto do atual capitalismo reflete-se também no ecologismo. O ecologismo consiste num conjunto de crenças em que:

  • a natureza é um dado adquirido a que a humanidade se teria dedicado a destruir;
  • qualquer transformação de base industrial e/ou urbana implicaria um afastamento de uma entidade mítica natural;
  • a produção humana moderna contaminaria inapelavelmente o ambiente e a alimentação com químicos;
  • a humanidade estaria à beira do abismo e da extinção.

Estas dimensões do ecologismo contribuem para entravar o desenvolvimento da mais-valia relativa, apesar de estarem a ser parcialmente reapropriadas pelas grandes empresas. De facto, o ecologismo é fundamentalmente uma crença, ou se se preferir, um irracionalismo fanático sobre os humanos e a sociedade. Não lhe bastava assentar em pressupostos sem o mínimo de razoabilidade. Por exemplo, esquece que todas as funções fisiológicas humanas, como respirar, beber ou reproduzir, têm sempre como base reações químicas: trocas de eletrões e modificações moleculares. A isto acrescenta o facto de fomentar uma estratégia de decrescimento. Por exemplo, relativamente ao aquecimento global, os ecologistas rejeitam algumas das vias de superação desse problema, como a aposta em organismos geneticamente modificados ou na energia nuclear, uma forma de energia com quase nulas emissões de gases de estufa. A imagem do “apocalipse que vem”, ou de uma extinção massiva ao virar da esquina, cumpre uma função ideológica e permite desenvolver uma camada de gestores ideológicos em ONG’s e associações ecologistas, que preferem promover o desespero e rejeitar o debate sobre a importância de se investir em tecnologias avançadas como, por exemplo, as possibilidades que a fusão nuclear poderá vir a oferecer. O mesmo se aplica à quimiofobia e à incompreensão relativa a novas tecnologias avançadas aplicadas à agricultura.

Numa esfera diferente, mas recheada de irracionalismo, o fundamentalismo religioso reflete outro dos vetores intrínsecos ao poder da esfera simbólico-ideológica. Também aqui se constitui uma camada de gestores e seguidores, que fazem da intolerância e do fanatismo a sua mola dinamizadora. Independentemente de rivalidades entre si, as elites religiosas e militares em regimes teocráticos como o Irão e em organizações como o Hamas, o Boko Haram ou o Estado Islâmico representam um exemplo possível de como, apesar da sua rivalidade interna, o fundamentalismo religioso atua como uma alavanca do irracionalismo. E de como é um setor de onde se ampliam agrupamentos de gestores ideológicos das mais diversas religiões, com particular ênfase nos radicais islâmicos, mas sem esquecer as organizações pentecostais americanas e sul-americanas.

4.2

Muito mais do que um registo partidário de esquerda ou direita, trata-se aqui de princípios de organização e de atuação. Evidentemente, existem diferenças nunca negligenciáveis internas a este tipo de gestores. Mas este tipo de gestores carreia a sua orientação prática numa base consentânea com modalidades de irracionalismo. Ora, este não é apresentado de modo programático, como se tratasse de um panfleto partidário a que ninguém dá ouvidos. Pelo contrário, o segredo do seu sucesso encontra-se na sua transmutação num acervo de lugares comuns, numa prática alargada e assumida por franjas significativas da população. Especialmente em camadas que se auto-identificam como de classe média, essa comunidade simbólico-ideológica que pretende unificar ideologicamente gestores, pequenos e médios proprietários e trabalhadores de determinados serviços. Quanto mais a realidade social surge como imaterial, desprovida de contradições e onde o conhecimento científico é deslegitimado, mais crescem as condições para a expansão dos gestores ideológicos.

4.3

O identitarismo pós-colonial parte do pressuposto matriz de que o racionalismo e o conhecimento científico objetivo não passariam de discursos de homens brancos ocidentais, colonialistas e heterossexuais. A litania de somar adjetivos considerados ofensivos faz da luta política um sucedâneo da coleção de insultos e de categorias definidas a priori pelos agrupamentos identitários. Temos assim que o identitarismo é partidário do irracionalismo nos princípios e nos métodos. Nos princípios, porque rejeita o racionalismo enquanto conquista humana universal e cataloga-o como “ocidental” e “branco”. Neste passo não é apenas o racionalismo o atingido. São também negados aos “não-ocidentais” o acesso pleno de algo que é de todos: a faculdade para raciocinar de forma objetiva, sistemática e exterior ao mero impulso voluntarista. Mas o identitarismo é irracionalista nos métodos, na medida em que executa uma cisão do racionalismo relativamente à sua aplicabilidade universal. De facto, os identitarismos atribuem origens míticas a um suposto caráter ocidental, levando a cabo uma operação ideológica similar e simétrica à dos conservadores tradicionalistas germânicos (portanto, ocidentais) do século XVIII e XIX: uma genealogia das origens a partir de pressuposições exclusivistas e particulares. O mesmo processo foi executado pelos inventores das nações modernas no século XIX: os ocidentais. Portanto, relativamente ao racionalismo, os cultores do identitarismo executam os mesmos passos de um certo tipo de ocidentais do século XVIII e XIX – os adeptos do Romantismo e dos irracionalismos conservadores.

No caso dos identitarismos pós-coloniais baseados na raça, os procedimentos são muito idênticos aos do irracionalismo. Ou seja, tal como no identitarismo em geral, os identitarismos pós-coloniais não apenas privilegiam uma bandeira irracionalista – a raça. De facto, aplicam métodos irracionalistas. Em pleno conflito mundial, o antropólogo Ashley Montagu escreveria que «ninguém parece saber exatamente o que é uma “raça”, mas todos estão muito ansiosos por dizê-la» (The Genetical Theory of Race and Anthoropological Method. American Anthropologist 44, vol 3 de Julho a Setembro de 1942), por evocá-la. Os critérios para a definição das raças são aleatórios e não existem dados objetivos que possam relacionar de uma forma unívoca e linear um fenótipo (a cor da pele, etc.) e características comportamentais cristalizadas e autónomas de um determinado agrupamento.

Esta génese irracionalista do racismo procurou sempre arrecadar elementos de (suposta) objetividade para o seu seio. O eugenismo corresponde ao exemplo mais flagrante de tentativa de dar objetividade aos preconceitos rácicos. Mais recentemente, em 1994, no livro The Bell Curve, Richard Herrnstein e Charles Murray defenderam que os negros americanos seriam menos inteligentes do que os brancos e os asiáticos. O livro foi largamente criticado pela comunidade científica, apesar da sua popularidade comercial. Se a colagem de dados supostamente recolhidos de forma idónea a particularidades rácicas fosse verdadeira – algo rebatido pela Associação Americana de Psicologia – mesmo assim, a ordem de causalidade estaria invertida. Isto é, os resultados escolares ou os resultados nos testes de QI não derivariam de traços fisionómicos superficiais, mas do discrepante acesso ao conhecimento e à educação escolar. Este exemplo de uma manifestação proto-racista aproveitada pelos supremacistas brancos só pode ser contraposta de duas maneiras. Cientificamente, como a generalidade da comunidade científica fez, ao demonstrar a ausência de conexão entre a inteligência humana e as raças. E, politicamente, ao enfatizar a necessidade de superar os preconceitos rácicos em favor de um universalismo e de um racionalismo. Neste caso, o racionalismo permite sustentar a cadeia de acontecimentos no tecido histórico e o universalismo enfatiza o património comum da humanidade, em favor de uma progressiva integração de todos, esquecendo particularismos superficiais e fonte de estigma e de ódio.

Inversamente, a resposta dos identitarismos baseados na raça às diversas manifestações do supremacismo branco tem procurado acentuar ainda mais a cor da pele ou aspetos étnicos como critérios de identificação pessoal e política. Neste momento, está em discussão na Califórnia uma alteração dos currículos escolares de Matemática para menores de 12 anos. De acordo com um manual (equitablemath.org) apresentado por uma série de comités e da direção estatal para a área da Educação, a Matemática induziria elementos de discriminação racial. Nesta perspetiva, a busca pelas respostas certas seria uma «forma linear» de ensinar matemática, já que se concentra em «chegar a uma resposta certa» e em esperar dos alunos que «apresentem o seu trabalho» e que este seja classificado. Mas o manual vai ainda mais longe e prescreve que «o conceito de matemática ser puramente objetivo é inequivocamente falso» e que o facto de «existirem sempre respostas certas e erradas perpetua a “objetividade”», uma característica atribuída falsamente ao privilégio branco ou ocidental. No mesmo sentido, uma professora de Matemática da Universidade de Illinois defendeu num manual para colegas seus que, «em muitos níveis, a matemática opera como branquitude [whiteness]», chegando a dar o exemplo que a ênfase da Matemática no Pi (π) e na matemática pitagórica seria um exemplo do privilégio ocidental. Uma pessoa fica sem saber o que dizer… Em termos históricos, a Grécia Antiga não se percecionava na altura como europeia e estava em comunicação imbricada com todo o Mundo Oriental. E em termos matemáticos, o Pi corresponde ao rácio de uma circunferência em relação ao seu diâmetro, permitindo calcular o perímetro e a área do círculo. Como cereja no topo do bolo, a mesma professora remata dizendo que «as coisas não podem ser conhecidas objetivamente», mas subjetivamente. A carta de intenções deste tipo de manifestações parte geralmente das dificuldades do ensino da Matemática em determinados contextos sociais e culturais. Contudo, o percurso adotado não é o de demonstrar a universalidade da Matemática e do conhecimento científico, mas o de particularizar e o de relativizar o racionalismo e o pensamento matemático. Em vez da reivindicação de mais apoios pedagógicos e docentes, o identitarismo pós-colonial tende a favorecer uma etnicização dos conteúdos e dos públicos escolares. De facto, a Matemática conforme a conhecemos tem raízes que vão da Índia à Arábia, incluindo os próprios algarismos de 0 a 9. E a objetividade que a Matemática confere não é de lado nenhum em específico, mas de todos. O cálculo da velocidade com que os astros se movem e que os impulsos nervosos demoram do córtex cerebral aos músculos, ou os ângulos certos e os cálculos objetivos para que os edifícios em que estas luminárias escrevem estas coisas não lhes desabem em cima, tudo isto e muitíssimo mais não tem nenhuma raiz cultural fixa e imanente. Mas isto seria cómico não fosse o facto de os gestores ideológicos estarem a efetuar tentativas de saltar das suas instituições de origem (movimentos e agrupamentos políticos e ideológicos) para a prossecução de políticas públicas. Se os anti-vacinas e todos os defensores das “medicinas alternativas” tentam influenciar as políticas de saúde, os críticos da Matemática e da objetividade do conhecimento científico estão a tentar conquistar espaço no sistema educativo. Se de um lado do espectro dos gestores ideológicos temos os lunáticos dos supremacistas brancos, que ganharam força com os governos populistas de Trump e Bolsonaro e que continuam a sonhar com um regresso ao segregacionismo controlado por uma elite branca, do outro lado, o panorama não é particularmente frutuoso. Se existe um mar de diferenças entre as duas extremidades da tenaz dos identitarismos, existe uma raiz comum a uni-los: o irracionalismo. E é esta raiz que permite o irracionalismo difundir-se de um modo capilar por toda a sociedade. Tal como uma grande empresa transnacional de vestuário produz múltiplas e distintas peças de roupa com inúmeros padrões, tecidos ou cortes para satisfazer um público consumidor altamente diversificado, também os gestores ideológicos operam num modo análogo para públicos com expectativas diferentes. O racismo anti-negro de uns convive com propostas irmanadas com o racismo de outros, envolvendo uma plêiade de segmentos populacionais num embrulho identitário e irracionalista. Tal como Codreanu e a Legião contra Antonescu no fascismo romeno do século XX, ou como Kita Ikki e seus seguidores contra os militares nipónicos fascistas, que um dos lados queira aniquilar o outro, nada disso obsta ao aprofundamento e à difusão de múltiplas manifestações irracionalistas.

4.4

Como classe dominante, os gestores constituem-se em torno de dois segmentos, mas a autonomia relativa de um dos pólos inflete uma perspetiva simbólico-ideológica e não estritamente instrumental/funcional. Os gestores clássicos observam a produção simbólica no intuito de a adaptar ao incremento da rentabilidade dos negócios e dos investimentos. Inversamente, na mundivisão dos gestores ideológicos, existe uma constante deriva para produzir novos conteúdos ideológicos, e que se desliguem dos mecanismos da rentabilidade económica capitalista. Por exemplo, uma não aposta na energia nuclear atrasa a eficiência energética, restringe o aumento da produtividade nas condições gerais de produção, não combate os efeitos do aquecimento global que alguns setores ecologistas dizem combater. Um desprezo pelos OGMs mantém condições de mais-valia absoluta nos campos de muitas zonas do planeta, o que implica maiores áreas de cultivo para compensar atrasos na produtividade agrícola. Tal como o anti-semitismo nacional-socialista, o anti-semitismo do radicalismo islâmico limita-se a criar condições para a perpetuação de conflitos bélicos e de elites religiosas contrárias a qualquer modernização económica, social ou cultural (direitos das mulheres, laborais, entre outros).

Por sua vez, o identitarismo pós-colonial assume a cor da pele como arma política. Para qualquer anti-racista é inquestionável que discriminar ou avaliar alguém a partir da cor da pele ou de aspetos exteriores/superficiais é uma barbaridade. Em termos humanos, será o irracionalismo mais hediondo e é seguramente o que mais vítimas causou nos últimos séculos. Em vez de procurar conjugar todos os explorados de todas as cores, o identitarismo pós-colonial opera dentro de procedimentos de fragmentação social, colocando frente a frente as “pessoas de cor” (omitindo as elites e as classes sociais internas a essa “comunidade” ideológica) e os brancos/ocidentais (como se não houvesse brancos exploradores e brancos explorados). Reflita-se também no facto de que a ênfase reiterada nos conceitos de negritude e de branquitude esteja a criar perceções generalizadas em termos rácicos. O convite reiterado para que as pessoas se identifiquem como A, B ou C, a obsessão identitarista não tem uma só direção. O fortalecimento dos identitarismos pós-coloniais e do supremacismo branco contribuem para criar comunidades ideológicas e raciais inimigas, edificando barreiras entre os explorados.

De um modo geral, os gestores ideológicos organizam-se em organizações multidiversificadas, mesmo concorrentes ou opostas entre si. Todavia, têm como fio condutor a propagação de uma qualquer forma de irracionalismo, nomeadamente nos moldes descritos nas secções 3.2 a 4.3 deste artigo. A somar a uma determinada forma de irracionalismo exposta enquanto negação ideológica e liminar do existente (vd. secção 2.3), os gestores ideológicos operam na base de dicotomias internas ao seu campo de atuação. Por exemplo, nos identitarismos é prática comum surgirem dois campos altamente conflituosos e opostos entre si. Tal facto contribui para transformar o debate do racismo ou do sexismo num circuito fechado de particularismos em destaque. No século XX, o movimento comunista afeto à União Soviética defendeu nacionalismos alternativos aos nacionalismos dos fascistas. Atualmente, o identitarismo pós-colonial afirma um particularismo distinto, mas concorrente dos particularismos dos supremacistas brancos. No quadro do ecologismo, pode-se observar a competição entre negacionistas do aquecimento global (na direita do espectro político) e defensores do decrescimento e contrários à energia nuclear e aos OGMs (na esquerda do espectro político).

Por conseguinte, opera-se uma lógica de competição de irracionalismos, independentemente das naturais origens e diferentes consequências práticas. O facto é que o campo dos possíveis, o campo do debate fecha-se num eixo de irracionalismos, conferindo uma hegemonia política ao conjunto dos gestores ideológicos. No século XX, os gestores clássicos capitalistas dividiram-se entre os que conferiam primazia (ou quase exclusividade) à intervenção económica do Estado e os que conferiam primazia à intervenção própria das empresas, enquanto o capitalismo avançava vitorioso. Na atualidade, os gestores ideológicos operam um processo análogo.

Os gestores ideológicos constituem-se como o nó articulador das contradições entre o capitalismo, a sua legitimação ideológica e as manifestações meta-capitalistas inscritas no desenvolvimento das esferas simbólico-ideológicas das últimas décadas. Simultânea vanguarda estética do capitalismo e dos princípios meta-capitalistas?

Este artigo compõe-se de quatro partes. 1ª Parte: Um ponto de partida. Arte, ciência e narrativas. 2ª Parte: Duas classes dos gestores? As contradições entre a administração do capitalismo e a coexistência de princípios metacapitalistas. 3ª Parte: A ideologia como universo integrado e multiforme: os campos de atuação dos gestores ideológicos.

Este texto está ilustrado com imagens extraídas das bandas desenhadas de Enki Bilal (1951-       ).

6 COMENTÁRIOS

  1. Considerar:

    • para compreender melhor, portanto aprofundar e avançar a análise, é preciso abordar exemplos concretos.
    • haveria melhor exemplo concreto das diferenças de gestão (clássica hegemonista e ideológica irracionalista) do que o caso atual da pandemia?
    • outro caso concreto atual é o governo Bolsonaro, síntese do irracionalismo da burguesia brasileira com sua fé atávica na acumulação primitiva.

    Seja como for, o ponto central da questão parece ser: existe gestão racional do Capitalismo?
    Dito de outra forma: toda gestão do Capitalismo é do tipo ideológica irracionalista?

  2. Caro João Aguiar,

    Parabéns por sua série de artigos sobre o caráter irracional da ecologia e do identitarismo, irracionalismo esse que fundamenta as crenças dessa camada social que você conceitualiza por gestores ideológicos.
    No caso da ecologia, somente pela via irracional pode-se pavimentar esse caminho catastrófico de regresso a terra como pregado pela doutrina do Sangue e Solo do 3° Reich e do seu ideólogo,Walther Darré, talvez o criador da expressão agricultura orgânica. Na terra brasilis, Ana Maria Primavesi e sua exotérica agroecologia são os Fios de Ariadne que ligam, em concepção agronômica, os assentamentos nazistas na Polônia, pelo menos nos momentos iniciais, e os assentamentos agroecológicos atuais do MST e seus derivativos. Lá e cá, Primavesi, acumula experiência em seu currículo, durante a segunda guerra Primavesi esteve na Polônia em “serviços de férias” assentando alemães vindo do lado polonês sob ocupação soviética, após a divizão do país. Seria interessante descobrir quais atos repreensíveis em colaboração aos nazistas levaram Franz Sekera a dois anos de prisão, julgado e condenado pelo tribunal popular na Áustria em 1947. Ana Maria Primavesi foi aluna e assistente de Sekera na universidade de Viena, além de Sekera constar como uma de suas referências.
    O MST juntamente com determinados setores das universidades tem difundido essa padagogia de gestores agroecológicos, ressuscitando esse passado trágico da história da humanidade e vendendo-os como se nunca tivesse acontecido antes. “Produzir alimentos saudáveis”, “regressar a terra”, “voltar a natureza” eram os propósitos da agricultura agroecológica da Alemanha nazista.
    O solo enquanto um organismo vivo para os antroposofistas tem a ver com o sangue de Cristo ao qual a Terra está toda embebida. Acredito que o “antiquimismo” de Steiner tem por pretensão evitar essa quebra de conecção entre o sangue de Cristo e o “homem superior”, uma seleta elite que chegará aos céus após o julgamento final, a utilização da química e do magnetismo conduz a profundezas inframateriais malévolas aos quais habita Lúcifer, e por aí vai os ensinamentos do nosso lunático antroposófico. O sentido histórico já determinado é sempre o Apocalipse final, e já que irá acontecer por que não acelera-lo? “Nós aprenderemos que será necessário destruir a Terra, do contrário o espírito na ficará livre.”(A eterização do sangue-Rudolf Steiner). Os nazistas preferiam explicações mais pseudocientíficas, exotericamente mais materialistas, mas não menos destrutivas. Hoje os ecologistas já anunciam o apocalipse ecológico.
    A forma que se falava antigamente parece até piada e o que se fala hoje na perde sua comicidade! Muito embora tudo isso não seja nada engraçado!
    https://pt.scribd.com/document/396750334/Anna-Bramwell-Sangre-y-Suelo-PDF
    https://www.scielo.br/j/ea/a/xkyCBwyd537GM4ssW7jdZXF/?format=pdf&lang=pt

    O que achas do que se chama hoje de ecossocialismo?

    Um abraço!

  3. arkx Brasil,

    “haveria melhor exemplo concreto das diferenças de gestão (clássica hegemonista e ideológica irracionalista) do que o caso atual da pandemia?”

    Depende do exemplo. Numa série de países (Taiwan, Japão, Coreia do Sul, Nova Zelândia, mesmo na Alemanha e na maioria dos países europeus) a pandemia foi gerida de um modo racional. Claro que nenhum desses diferentes Estados está imune a erros e a más decisões, mas no geral cumpriram as decisões dos organismos e dos especialistas em saúde pública e orientaram a sua política na base de decisões científicas. Por exemplo, a política de testes reflete o conhecimento científico sobre a transmissão por assintomáticos ou pré-sintomáticos. A aposta na vacinação é outro exemplo. Foram igualmente racionais, também do ponto de vista económico, quando perceberam que o confinamento causa grande contração económica no curto prazo, mas salva as condições de relançamento da economia no médio e longo prazos. No caso da União Europeia a pandemia serviu para retomar a questão da mutualização da dívida europeia supranacional. A designação dos programas de apoio para combater a pandemia são em boa parte a fundo perdido e são muito consideráveis. Do ponto de vista capitalista, é uma solução muito mais fluida e sem os atritos sociais como o que se passou em 2011 e 2012 com as intervenções na base da austeridade.

    “• outro caso concreto atual é o governo Bolsonaro, síntese do irracionalismo da burguesia brasileira com sua fé atávica na acumulação primitiva.”

    Bolsonaro é o exemplo de alguém que faz a ponte entre o capitalismo e os gestores ideológicos. Em termos individuais da atuação dele e dos seus acólitos na pandemia, trata-se no fundamental de uma abordagem irracionalista. A indiferença para com a pandemia, as tretas em torno de medicamentos como a cloroquina (útil para outros contextos médicos que não a Covid-19), os achaques anti-vacinas, etc. Tudo isso demonstra como ele representa a penetração do irracionalismo na gestão da saúde pública. O mesmo se aplica a Trump, por exemplo.

    “Seja como for, o ponto central da questão parece ser: existe gestão racional do Capitalismo?
    Dito de outra forma: toda gestão do Capitalismo é do tipo ideológica irracionalista?”

    A gestão racional do capitalismo é a que descrevi acima, a propósito da União europeia, etc. Por isso, a gestão do capitalismo enquanto pensamento estratégico e ponderado sobre o presente e o futuro a médio prazo do modo de produção depende sempre de uma gestão racional. Por racional refiro-me à compreensão dos desafios que o modo de produção apresenta aos gestores (clássicos/hegemónicos) e quais os recursos que eles vão mobilizar para manter e ampliar os mecanismos da produtividade do trabalho. Inversamente, os casos de Bolsonaro e de Trump (e de todos os gestores ideológicos que os acompanham) demonstram como se colocaram objetivos ideológicos anti-científicos à frente da própria sustentabilidade dos serviços de saúde, da manutenção de uma força de trabalho saudável e das condições para o relançamento económico. Por isso é que uma eventual vitória plena dos gestores ideológicos levaria ou a elevar a mais-valia absoluta ou, ainda pior, a criar condições para uma sociedade meta-capitalista.

    *** *** ***

    Gogol,

    Obrigado pelo comentário e pelas observações oportunas e muito pertinentes, especialmente sobre o Steiner.

    Sobre o eco-socialismo. Existem sempre problemas ambientais e ecológicos, naturalmente com distintas implicações de acordo com cada modo de produção. Contudo, uma coisa é a necessidade de contrariar tendências nefastas, incluindo o aquecimento global. Outra coisa, é equiparar qualquer tendência a resolver/ultrapassar como um Armageddon. Não por acaso, aqueles grupos assustadores, aparentados de uma milícia obscurantista, como o Extinction Rebellion, entre muitos outros, preocupam-se mais em anunciar o fim do mundo e a defender um plano de decrescimento colossal, que não seria mais do que um programa a roçar o extermínio. Curiosamente, os ecologistas falam em ouvir a ciência no que toca ao problema, mas não em relação às soluções. Por um lado, odeiam a energia nuclear e os OGM’s que permitiriam reduzir enormemente os gases de estufa. Por outro lado, raramente mencionam o reforço do investimento científico e tecnológico para se desenvolver outras possibilidades. Finalmente, toda a ação política que se reveste de ímpetos moralistas (no caso, baseados na atribuição constantes de culpas aos comportamentos individuais das pessoas comuns), de visões purificadoras da paisagem social e de comportamentos grupais de punição aos “pecadores” só pode merecer todo o repúdio. Os mais radicais dos ecologistas são a vanguarda irracionalista dos gestores ideológicos e de potencialidades meta-capitalistas.

    Abraço

  4. Para o Arkx Brasil os capitalistas são todos irracionalistas e retardatários porque eles estão cumprindo o seu dever histórico de adiantar o fim do capitalismo para os trabalhadores por meio de sua ingovernabilidade. Existe outro entendimento, ao meu ver mais ‘pé no chão’, de que o caminho para os trabalhadores é erguerem-se contra a totalidade dos capitalistas pautando um modo de vida mais farto e racional, aproveitando-se para isso das contradições no interior do modo de produção para se mobilizarem. Essa segunda leitura, mais materialista, cai por terra se vence a narrativa de que os capitalistas são todos barrigudos fumando charuto escrevendo contos da Disney.

  5. A pandemia é a situação concreta e atual na qual se explicita de modo notável não só o tema deste artigo (modelos de gestão do Capitalismo) quanto, principalmente, a questão dos gestores enquanto uma outra classe social.

    Como administrar uma pandemia sem uma gestão também globalizada?

    Sendo este caso específico apenas mais uma manifestação da contradição geral do Capitalismo: é viável uma gestão racional de um sistema intrinsecamente irracional?

    Ou sob outra perspectiva da mesma contradição constitutiva: a mais-valia relativa pode prescindir da mais-valia absoluta e da acumulação primitiva?

    O avanço e a complexidade do desenvolvimento das forças produtivas tornou o Capitalismo impessoal e abstrato, fazendo dele um sinistro processamento enlouquecido gerindo a si mesmo.

    Este é o contexto econômico da emergência dos gestores, como um novo tipo de classe social dominante num embrião de um outro modo de produção, com seu mais visível exemplo no Capitalismo de Estado sob comando da burocracia do PC da China.

    A Crise de 1929 não foi superada racionalmente através do New Deal.

    Ao contrário, exigiu a ascensão do nazi-fascismo para promover uma gigantesca e irracional destruição de forças produtivas.

    Se uma empresa isolada não pode ter uma gestão irracional (ideológica), sob pena da falência, o sistema Capitalista como um todo, ao contrário, não pode superar suas crises pela via racional.

    A razão não é o inverso do irracionalismo, sendo deste nada além de um componente.

    O sonho da razão com a energia nuclear não se materializou sob a forma da abundância, e sim explodiu na destruição causada pelas explosão de duas bombas atômicas, lançadas sobre alvos civis.

    Seguiram-se breves anos dourados de um welfare state na Europa, tendo como seu avalista o gulag soviético, este estágio inicial da forma de sociedade de classes agora em progressão na China.

    A Crise de 2008 permanece pendente, e agravada ainda mais pela pandemia, cuja gestão racional mais bem sucedida ocorre justamente na China.

    Entretanto a própria China enfrenta também sua crise, incapaz de seguir turbinando a economia interna pelo investimento estatal, tampouco bem sucedida em atingir o nível necessário de exportação de seus capitais excedentes numa rota imperialista.

    Por outro lado, as zoonoses tem sua origem em graves desequilíbrios ambientais (ecológicos) causados pela expansão da fronteira agropecuária capitalista, e fácil e rapidamente se tornam pandêmicas, por meio da capilaridade dos vasos comunicantes da globalização.

    Dado este presente conjunto de acirramentos das contradições, o que se aproxima fará a solução final de 1939 parecer com o que uma vez eram as visitas aos parques temáticos da Flórida.

  6. Na pisada que vamos, com esse pessimismo diário, que tipo de Imaginação,ou para usar as palavras de Bloch, que Esperança em movimento somos ainda capazes de criar?

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here