A coragem contra o puritanismo: o manifesto das francesas

Por Jan Cenek

A seção Flagrantes Delitos do Passa Palavra promoveu debates interessantes sobre questões de gênero, ver Cancelamento (5), Mais feminista que eu, Medo maior. Entre os comentários apareceram sacadas como, por exemplo: Fernando Paz: “Continuo carregando a certeza de que sexo sem fantasia é fricção!” e John: “que triste seria se a vida se resumisse à literalidade”. A leitura dos Flagrantes Delitos e dos comentários me fez lembrar do Manifesto das cem francesas contra o puritanismo, que continua atual.

Cinquenta anos depois dos levantes de 1968, no início de 2018, veio a público o manifesto das francesas contra o puritanismo. Foi um texto corajoso que atuou efetivamente como manifesto: arriscando, denunciando, desnudando, incomodando, irritando, ironizando, polemizando, provocando e, sobretudo, obrigando a pensar. O que contrasta com as insossas e irrelevantes notas de repúdio que pipocam por aí. As signatárias foram atacadas por todos os lados, seriam: burguesas, libertinas, defensoras reincidentes de pedófilos, apologistas do estupro e por aí vai. Mas é característico do puritanismo deslegitimar moralmente os interlocutores para inviabilizar o argumento, ou seja, a reação pós-manifesto era previsível.

Denúncias contra assédios cresciam, chegando, inclusive, a atingir figurões de Hollywood. Problematizando o movimento #metoo, as cem intelectuais francesas defenderam, para espanto geral, que “a liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar.” Partindo do filósofo Ruwen Ogien, que “defendia uma liberdade de ofender indispensável à criação artística”, as signatárias do manifesto defenderam, perigosamente, a “liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual”. Em tempos moralistas e puritanos, parece escandaloso, mas é difícil flertar sem se arriscar, em alguma medida, a importunar. O manifesto fala dos homens cujo “único erro foi ter tocado um joelho, tentado roubar um beijo, falar sobre coisas ‘íntimas’ em um jantar profissional ou ter mandado mensagens com conotação sexual a uma mulher cuja atração não era recíproca.” A questão, nos termos do manifesto, é “não confundir paquera desajeitada com agressão sexual.” Mas como? Onde termina uma coisa e começa a outra? Em que ponto a liberdade se transforma em agressão? São os riscos que correm as signatárias; são, também, questões delicadas que precisam ser resolvidas.

Mas, por outro lado, a crítica contida no manifesto é certeira: a “febre para mandar os ‘porcos’ ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a conquistar sua autonomia, serve na verdade aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários e daqueles que acreditam, em nome de uma concepção substancial do bem e da moral vitoriana que os envolve, que as mulheres são seres ‘à parte’, crianças com rostos de adultos, que pedem para ser protegidas.”

O crescimento das denúncias colocou o problema em discussão, o que é importante; mas, ao mesmo tempo, o princípio da presunção de inocência e o direito ao contraditório e à ampla defesa foram praticamente abolidos. Curiosamente, no Brasil, enquanto se discutia se a justiça burguesa, com seus limites evidentes, podia prender condenados julgados em segunda instância, os tribunais da internet igualavam acusar a condenar, acolher a vítima com punir o suposto agressor, sem julgamento e sem direito ao contraditório e à ampla defesa. O que é um tremendo retrocesso civilizatório. A simples utilização do adjetivo “suposto” podia render acusações de cumplicidade com o machismo e os machistas.

Como denunciaram as francesas, se prevalecer, o puritanismo vai posicionar a mulher na condição de eterna vítima e o homem como agressor contumaz, o que ajuda a explicar por que a simples utilização do adjetivo “suposto” incomoda. É que as condenações já estão pré-determinadas. Ganha quem quer a abolição da liberdade sexual e a imposição da moral cristã. À mulher será permitido responder sim ou não, sem nunca tomar a iniciativa ou se colocar de maneira ativa. Ao homem será permitida a “liberdade” dos bordéis, das zonas de tolerância, do sexo pago, da pornografia e nada mais. Ou seja, é a sociedade patriarcal se reposicionando.

Alguns setores do puritanismo lutam para ressignificar o pecado original: em vez de provar o fruto da árvore do conhecimento, ser homem heterossexual. Em alguns grupos de esquerda dominados pelo puritanismo já é assim, e coitado daquele (homem heterossexual) que não se arrepender dos próprios “privilégios”. O risco é o combate ao esquerdomacho produzir o esquerdomocho.

O manifesto das francesas criticou um projeto de lei sueco que tentava impor aos amantes o consentimento expressamente notificado. As signatárias sugerem que falta pouco para exigirem que os casais tenham que informar, previamente, as práticas sexuais que aceitam e que recusam. Não duvido que, em breve, declarações prévias de consentimento sexual sejam exigidas e compartilhadas em grupos dominados pelo puritanismo. Por isso é prudente pontuar que o amor e, sobretudo, o erotismo fogem dos cartórios, da formalidade, do comércio e das declarações prévias de consentimento.

Mario Vargas Llosa [1] afirma que o erotismo representa um momento elevado da civilização e é um dos seus componentes determinantes: “para saber até que ponto é primitiva uma comunidade ou quanto ela avançou em seu processo civilizador nada é tão útil como perscrutar seus segredos de alcova”. Em outro ensaio, Vargas Llosa [2] coloca o erotismo como contrapartida ou desacato à norma, um desafio aos costumes estabelecidos: “trazido a público, vulgarizado, degrada-se e eclipsa-se, não realiza a desanimalização e a humanização espiritual e artística da atividade sexual que outrora possibilitou.”

Por fim, vale lembrar que a palavra libertino tem o sentido de desacato e desafio a Deus e à religião em nome da liberdade. Já o puritanismo é sempre um combate contra a liberdade: uma tentativa de conter, conservar, enquadrar, limitar e, no limite, eliminar. Daí a atualidade e a coragem do manifesto das francesas, que é uma defesa do amor, do erotismo e do corpo, apesar dos riscos.

Notas

[1] As ideias e o trecho citado estão no ensaio O desaparecimento do erotismo, que compõe o livro A civilização do espetáculo.
[2] As ideias e o trecho citado estão no ensaio A civilização do espetáculo, que compõe o livro homônimo.

24 COMENTÁRIOS

  1. Jan Cenek,

    Bravo! Bis! Tris! A publicação de textos como este mostra até que ponto é indispensável a existência do Passa Palavra. Espero que o seu exemplo suscite outros.

    Navegando nas mesmas águas, li recentemente dois romances de Patrice Jean que me entusiasmaram e lhe recomendo, caso não os conheça — La Poursuite de l’idéal e L’Homme surnuméraire. Um amigo enviou-me há poucos dias Tour d’ivoire, e comecei ontem a lê-lo. Isto sem esquecer o filme realizado por Polanski em 2019, J’accuse, que apresenta o affaire Dreyfus como perspectiva para avaliarmos a actual histeria incriminatória.

  2. Boa tentativa de responder ao puritanismo vigente em setores da esquerda. Em certa medida esses setores convergem com a prática da Damares Alves, a Damares da Goiabeira, denunciando a famigerada presença da mulher na esfera social quando, na visão messiânica dela, as mulheres deveriam continuar sua labuta circunscritas às tarefas domésticas. Apesar disso, Damares circula pela esfera pública com o cargo de ministra e líder de sua igreja. Sua prática é pura blasfêmia contra as palavras do apóstolo Paulo ao sentenciar que o homem é a cabeça e que a mulher deveria obedecê-lo. Apesar de Paulo e Damares, a História segue seu curso e o mundo continua mais freudiano do que muita gente de bem gostaria que fosse.
    O denominado identitarismo, de “todes” os tipos, tende a querer sobrepor-se à concepção de classe. Esta, que anda meio fora de moda, em certos círculos ditos progressistas, confirma a contradição social a pipocar aqui e acolá. Por outro lado, esse mesmo identitarismo de espírito neoliberalizante tem sua razão de ser se, e somente se, perder este espírito ao forjar as reivindicações de cada seguimento social discriminado com a exigência da supressão de classes. Mas isso exige a violência revolucionária e a persistência nela implicada. E isso por um simples fato: as brutalidades do macho contra a mulher é produto da propriedade privada, como salientava Wilhelm Reich, e não algo metafísico, intrínseco ao portador do falo. Portanto, não se derruba machismo por decreto. Dizer isso não é passar a mão na cabeça. Homens com consciência devem apoiar as mulheres e lutar junto delas para que elas tenham seus direitos assegurados.

  3. a boa observação de que sexo sem fantasia é fricção me remete aos tristes casos vividos por pessoas conhecidas, e tantas e tantas mais desconhecidas, em que o rapaz resolve penetrar uma moça desacordada. É claro que mulheres também podem abusar sexualmente de homens desacordados, ainda que estatisticamente isso seja irrelevante.
    Carlos diz que esse tipo de estupro é produto da propriedade privada. Olha, eu tenho a impressão de que não. E acho que entre a esquerda puritana sem estupros e uma esquerda classista fatalista, vamos perder muitas companheiras para o puritanismo.

  4. Às vezes, por mais bizarro que possa parecer, é preciso lembrar que não se pode confundir sexo com estupro. Penetrar um ser humano desacordado é estupro. Mas se, por exemplo, a mulher diz que está indo dormir e que quer ser acordada pelo companheiro a penetrando, antes do sol nascer e com beijos de hortelã, isto não é estupro; é só um grão de areia do universo da fantasia sexual entre homem e mulher.

  5. É curioso o fato de que no conflito de gerações dos levantes de 1968 as lutas da juventude eram contra o puritanismo. Cinquenta anos depois, o que o manifesto das intelectuais e artistas francesas nos traz é um protesto contra… o puritanismo. Mas agora o alvo é um puritanismo com menos desculpas. O escritor tcheco Milan Kundera certa vez comparou a Primavera de Praga tcheca com o Maio de 68 francês e concluiu que, se o Maio de 68 dos franceses era a cândida ilusão de uma geração, a revolta tcheca era a cética desilusão de outra. Essa comparação difere ao mesmo tempo que aproxima os dois eventos, próximos no tempo e distantes no espaço. Agora, distantes no tempo cinquenta anos, ocorre algo parecido com o manifesto das francesas, que podemos comparar com um protesto da desilusão.

    Catherine Millet, por outro lado, uma das autoras e porta-voz intelectual do manifesto, enfurece e estimula o ativismo punitivista dos setores conservadores entre as feministas com declarações em que revela lamentar não ter sido estuprada para saber se superaria ou não o trauma, além de relativizar – em que pese a razão que tenha sob sua concepção da liberdade nas relações humanas – situações de assédio sobre as mulheres que têm sido constantes em transportes coletivos. Nesse caso não deixo de pensar numa ex-colega de trabalho e no dia em que ela entrou chorando no escritório depois de suspeitar dos atos de um estranho no metrô e, ao descer, constatar o esperma em sua calça. Claro, não é de situações assim que Millet está falando. Toda a questão, no entanto, é do que se está objetivamente falando, mas não precisamos de muita astúcia para perceber que o puritanismo explorará casos como esse, enquanto o relativismo de Millet explora assédios muito mais leves. Nesse ponto não há emissão e recepção de mensagem que não seja de si para si. Como todo tema controverso, a questão é polêmica porque sobra razão para os dois lados. Polêmica, no entanto, mais sequela do descompasso que do embate real.

    O manifesto francês é peça fundamental para os debates internos dos grupos feministas, sobretudo para enfraquecer as bases das concepções punitivistas que veem em cada homem um violador em potencial, que invertem o ônus da prova e que reforçam aberrações como o jardim de suplícios que é o projeto de lei sueco sobre a “declaração prévia de consentimento”, um verdadeiro atentado contra o erotismo de Vargas Llosa. A primavera das mulheres não deve sucumbir a seu inferno.

  6. Ao ler o comentário de Adriano lembrei-me do Manifesto Futurista da Luxúria, assinado em Janeiro de 1913 por Valentine de Saint-Point. «A luxúria, se for considerada sem preconceitos morais e como uma parte essencial do dinamismo da vida, é uma força», escreveu ela a abrir o Manifesto, e concluiu, sublinhando: «A luxúria é uma força». Mas que luxúria era essa? Valentine de Saint-Point não deixou margem para dúvidas. «A satisfação da sua luxúria é um direito dos conquistadores. Após uma batalha em que homens morreram, é normal que os vencedores, testados pela guerra, se lancem a cometer violações na terra conquistada, para que a vida possa ser criada de novo. [… … …] a luxúria é uma força porque mata o fraco e exalta o forte, contribuindo para a selecção natural». «A luxúria é o acto de criar, é Criação». E ainda: «[…] para os dominadores de todos os campos, a luxúria é a esplêndida exaltação da sua força». «A arte e a guerra são as grandes manifestações da sensualidade. A luxúria é a sua flor». «A luxúria é […] a dolorosa alegria da carne ferida […]». (Este Manifesto pode ser lido em Umbro APOLLONIO (org.) Futurist Manifestos, Londres: Thames and Hudson, 1973, págs. 70-74; os sublinhados são originais).

    É certo que Valentine de Saint-Point era futurista, e os futuristas foram, junto com os sindicalistas-revolucionários e os arditi, uma das três componentes fundadoras do fascismo italiano. Mas isso não impede que o verbete que a Wikipédia francesa lhe consagrou a considere repetidamente feminista, chegando a afirmar que no futurismo «ela defendeu uma atitude feminina agressiva e combatente» («Elle y prône une attitude féminine agressive et combattante») — e isto quando no Manifesto da Mulher Futurista ela declarara: «A humanidade é medíocre. A maioria das mulheres não é superior nem inferior à maioria dos homens. São todos iguais. Merecem todos o mesmo desdém» (em Alex DANCHEV (org.) 100 Artists’ Manifestos. From the Futurists to the Stuckists, Londres: Penguin, 2011, pág. 30).

    Com estas omissões e esquecimentos e deturpações se tece a historiografia ao gosto da época.

  7. Pensando sobre a questão do assédio, percebi uma coisa. Hoje em dia o assédio (em todas as formas, incluindo o sexual) é comum nos locais de trabalho, mesmo onde esses locais não são bem definidos, como para os trabalhadores nas plataformas, constantemente assediados pelos algoritmos. Mas vejo também um deslocamento de parte desse assédio para as ferramentas e espaços virtuais. Por um lado, isso facilita documentar e obter provas, ainda que as próprias ferramentas ofereçam opções para contornar isso, como mensagem que se apagam automaticamente. Por outro lado, e o que me parece mais importante, é que não só o assédio, mas a paquera, conversas picantes e tudo mais são executados através de redes sociais e aplicativos, que mais uma vez acham fontes de coletas de dados pessoais. Estariam os puritanos preocupados com isso? será que pensam em alguma forma de vigiar esses contatos (como os aplicativos de paquera de certas igrejas)? Para além das óbvias implicações disso, estaria nossa sexualidade sendo colonizada pelas redes sociais?

  8. Carioca do brejo, você coloca a pergunta: “(….) estaria nossa sexualidade sendo colonizada pelas reses sociais?” Sim! E muito! Eu arrisco dizer, ainda, que também pela crescente pornografia virtual, cada vez mais vasta em modalidades, gêneros e serviços, assim como o sexo pago e serviços de acompanhantes; o que necessariamente não quer dizer, para este último caso, a realização de sexo. Vou mais longe ainda: pornografia e serviços pagos tendem a crescer mais ao passo que crescem o puritanismo e o politicamente correto debaixo dos lençóis. Soluções e problemas que não acabam mais.

  9. Num debate ocorrido recentemente neste site, ainda sobre a questão do puritanismo, foi levantada também a questão da pornografia. Eu acho que Fernando Paz está certo quando afirma que a disponibilização e o consumo de pornografia tendem a aumentar conforme avança o puritanismo: basta uma breve pesquisa na internet para encontrar diversos sites evangélicos denunciando o alto índice de consumo de pornografia entre evangélicos que condenam a pornografia no público e consomem-na no privado. Mas o problema não é apenas a compensação do moralismo vociferante com a pornografia discreta: a própria indústria da pornografia tem investido na produção de conteúdos politicamente corretos, introduzindo o moralismo num terreno que não é ou não deveria ser o seu. E assim temos hoje o pornô feminista, por exemplo.

  10. A leitura dos comentários e a discussão sobre erotismo me fez lembrar de um trecho do romance A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. O trecho chama-se A força, está numa seção sugestivamente intitulada Pequeno léxico de palavras incompreendidas:

    “Na cama de um dos muitos hotéis em que haviam feito amor, Sabina brincava com o braço de Franz:

    – É incrível como você é musculoso.

    Esses elogios lhe agradavam. Levantou-se da cama e suspendeu pelo pé, lentamente, uma pesada cadeira de carvalho. Ao mesmo tempo dizia a Sabina:

    – Você não tem nada a temer, posso defendê-la em qualquer circunstância. Em outros tempos fui campeão de judô.

    Conseguiu levantar o braço na vertical sem largar a cadeira e Sabina disse:

    – E bom saber que você é tão forte!

    No entanto, em seu íntimo, acrescentou isto: Franz é forte, mas sua força é voltada unicamente para o exterior. Com as pessoas com quem vive, com aqueles que ama, é fraco. A fraqueza de Franz se chama bondade. Franz jamais daria ordens a Sabina. Nunca mandaria – como Tomas fizera em outros tempos – que ela ficasse inteiramente nua em cima de um espelho e se pusesse a andar de um lado para o outro. Não que lhe falte sensualidade, mas ele não tem força para comandar. Existem coisas que só podem ser conseguidas com violência. O amor físico é impensável sem violência.

    Sabina via Franz andar pelo quarto carregando bem alto a cadeira. A cena parecia-lhe ridícula e a enchia de estranha tristeza.

    Franz largou a cadeira e sentou-se, o rosto virado para Sabina.

    – Não é que eu não goste de ser forte – disse – , mas de que me servem estes músculos em Genebra? Carrego-os como um enfeite. São as plumas do pavão. Nunca quebrei a cara de ninguém.

    Sabina continuava com suas reflexões melancólicas. E se ela tivesse um homem que lhe desse ordens? Que a dominasse? Quanto tempo ela o teria suportado? Nem cinco minutos! Donde concluiu que nenhum homem lhe convinha. Nem forte, nem fraco. Disse:

    – Por que de vez em quando você não usa sua força contra mim?

    – Porque amar é renunciar à força – respondeu Franz docemente.

    Sabina compreendeu duas coisas: primeiro, que essa frase era bela e verdadeira. Em segundo lugar, que, com essa frase, Franz acabara de excluir-se de sua vida erótica.”

  11. Muito interessante ver aqui comentários dos homens propondo diversas teses da sexualidade em resposta a um texto que diz respeito à ideias que se contrapõem nas diferentes posições feministas – puritano e libertino. Isso nos fornece um diagnóstico da mentalidade do homem do século XXI. Eu não me contraponho ao que foi levantado, de modo geral. Todavia, quando analiso casos particulares, nos quais a mulher é a “parte vulnerável diante de certos trogloditas”, como quando um homem “carente sexualmente” nos abraça demoradamente enquanto nos aperta entre seu órgão sexual visivelmente teso, penso que, ainda que não seja da linha puritana e que tenda mais para o lado libertino do feminismo, isso não significa que esse ato masculino dá para encarar. Eu só não dou uma bronca na pessoa porque é constrangedor e deveria passar pelo crivo dele que é abusado da parte dele, já que não houve um clima de consentimento prévio, como há quando as partes se entregam ao ato em si. Ser mulher e contracenar com certos riscos é uma saia justa, pois não temos como revidar de maneira elegante, ou a gente se cala e sai logo de cena, evitando certos homens ou a gente parte para um confronto. Muitas vezes eu tive que chamar a atenção do meu interlocutor, porque em vez dele me ouvir dando atenção ao que eu estava dizendo, ele ficava olhando meu decote sem tirar os olhos dele. Ser desejada é ruim? Não, não é. Saber que tenho o tal sex-appeal que chama a atenção dos olhares masculinos faz parte de ser mulher e ter os potenciais da sexualidade. Mas ter que conviver com certos exageros masculinos, não é só importunador, é exaustivo. Como responder? Depende do meu humor momentâneo: ora serei silenciosa e sumo, ora serei mal educada e olharei nos olhos dizendo “não gosto disso”. Diante disso, me pergunto se, para certos homens, a liberdade sexual pressupõe que a mulher (continue) seja seu objeto?

  12. João Bernardo, obrigado pelas referências. Não as conhecia. Vou procurá-las.

    Carioca do brejo, pensar que, cada vez mais, as pessoas flertam por meio de aplicativos controlados por empresas privadas… É terrível… O que os capitalistas farão com as informações coletadas? As possibilidades são assustadoras. Ocorreu-me que um sujeito pode não saber que é corno, mas os aplicativos provavelmente sabem. O que farão com a informação? Talvez ofereçam propagandas de antidepressivos e de duplas sertanejas.

    Fernando Paz, também acho que o puritanismo impulsiona a pornografia e a prostituição. São fenômenos relacionados.

    Adriano, o ensaio que você cita é excelente, Sobre as duas grandes primaveras e os Skovorecky. Milan Kundera vê o Maio de Paris “impregnado de lirismo revolucionário”, enquanto a Primavera de Praga teria sido “inspirada pelo ceticismo pós-revolucionário”. Mas ocorreu-me um detalhe. A pintora Sabina, se fosse uma mulher real e não uma personagem de romance, provavelmente assinaria o manifesto das francesas contra o puritanismo, basta ver o trecho que reproduzi no comentário anterior. A reflexão é da Sabina, mas poderia ser da Catherine Millet. A posição das francesas, em geral herdeiras do Maio de 1968, é muito próxima da pintora Sabina, que viveu a Primavera de Praga. Se é assim, as duas Grandes Primaveras são menos “assincrônicas” do que imagina Milan Kundera.

  13. Esse texto tras com uma estonteada clareza o pano de fundo dos desejos políticos e sexuais da política “anti identitária” tão cara ao pp e serve pra demonstrar o nível da míseria sexual em que ela é gestada. Chama assim o feminismo de puritanismo, sem medições, assim como, também sem mediações, parece fazer tabula rasa entre estupro, agressões misoginas ou sexuais, falsas acusações de assédio e erotismo. Seria Marques de Sade um mestre do erótico para os camaradas aqui? Me soa exagerada a pergunta, mas encaixa no que foi colocado.

    O movimento me too trouxe uma série de casos de estupros e agressões que mulheres trabalhadores sofriam e seguem sofrendo em seus locais de trabalho. Essas situções deveriam ser toleradas pela esquerda classista como expressão do êrotismo?

    Sei que a maioria dos homens que tao fazendo esse debate aqui demonstram um medo sincero em se relacionarem com mulheres com fortes posições feministas, mas realmente é um atestado de ignorancia profunda ver ai sobretudo puritanas, mais bizarro ainda é colocar que o homem que quer desenvolver sua sexualidade sem oprimir sua companheira como “esquerdomocho”, o que me parece dizer mais sobre a miséria sexual a que voces estao presos do que qualquer outra coisa – ate pq ha muito sexo com fetiches de violencia praticado por muitas das mulheres feministas de que vcs tem medo e que pode ser práticado de forma totalmente livre, sem ser essa brisa torta de confundir estupro com erotismo, mas pra isso é necessario um mínimo de bom senso com as camaradas que parece faltar aqui.

    O texto diz haver uma identidade entre aqueles que denunciam casos de estupro e a extrema direita, apesar de não haver vinculos reais nesse sentido, pelo contrário, sendo notoriamente setores mortalmente antogonistas. Agora o ataque ao movimento me too filia esse texto há uma ampla série de artigos da imprensa burguesa, a autores da extrema direita, inclusive ecoando muitos dos elementos mais estereotipados do ataque que a extrema direita sempre faz as feministas, de que “seriam mal comidas”, nao desfrutariam de uma sexualidade de verdade ou coisa assim. Agora as coincidencia entre o ‘anti identitarismo’ professado aqui e a extrema direita nao sao poucas e nem pouco conhecidas, da justificação da segregação racial á apologia do estupro.

    Também é constragedor esse medo de uma suposta perseguição feminista implicável que estaria ascendendo no mundo segundo o texto, afinal estamos num país em que o presidente é conhecido por realizar agressões sexuais e se orgulhar de estuprar, e com um grande número de dirigentes de esquerda que contam com diversas acusações nesse sentido sem que isso seja sequer motivo de mácula em suas imagens públicas.

    Também o que foi colocado sobre pornografia me parece só bizarro, mas fico com preguiça de continuar o comentário, recomendo fortemente que a galera pesquise no google o debate que existe sobre isso nos feminismos, há muita coisa ruim também mas com sorte poderia fazer com que esse debate que acho realmente muito necessário dos homens fazerem publicamente na esquerda melhorar. Talvez fosse legal se vcs comprassem uma treta com as tais feministais radicais, mas pra fazer essa critica direcionada acho que vocês nao teriam coragem. Mas de fato esse debate precisa ser feito e é fundamental, no Brasil a pornografia e a prostituição sao de fato hj setores importantissimos pra entender o buraco em que estamos.

  14. Que bom ver aqui desdobramentos interessantes, entre outros, do artigo. João Bernardo, acho que o que o lembrou da Valentine de Saint-Point – autora que eu não conhecia – e sua concepção da luxúria em meu comentário foi a citação das declarações de Catherine Millet, em entrevistas, sobre lamentar não ter sido estuprada. Notei que Valentine tem influências do pensamento de Nietzsche – numa apropriação singular -, e, pesquisando, vi que as relações dela com o futurismo fascista era bem mais próxima: há relatos da amizade dela com Tommaso Marinetti, fundador do futurismo, de quem também teria sido amante. A concepção dela de luxúria como impulso vital sob bloqueio de forças inferiores está muito próxima da exaltação da guerra como assepsia do mundo no manifesto fascista, assim como o desprezo dela pela mulher e pelo feminismo, declarados nos dois manifestos – o da luxúria e o da mulher futurista -, são igualmente explícitos lá.

    A outra ponta disso, o negativo da força, está na purificação puritana que o personagem Franz faz do amor na citação de Milan Kundera que o Jan Cenek fez acima. E, se amar é renunciar à força, mas a força – a luxúria é uma força – é um componente do erotismo, acho que essa é a questão de fundo entre o manifesto das francesas e o puritanismo reacionário. A concepção das francesas que incorpora a força ao impulso erótico se choca com a idealização do amor purgado do vigor e da potencia por trás da concepção puritana, para quem a força existe e age contra a mulher.

    Jan Cenek, observação interessante essa que reaproxima as duas primaveras, a francesa e a tcheca. Sabina certamente assinaria o manifesto de 2018. Mas é uma reaproximação justificada pela permanência de um ponto de rutura: as francesas são herdeiras do Maio de 68, mas o puritanismo que elas denunciam é, antes de tudo, uma forma do próprio feminismo, vem de dentro. O que está por trás do puritanismo feminista é uma pretensão libertária igualmente herdeira do Maio de 68. E a denúncia do manifesto é justamente a fachada libertária para um interior puritano, a denúncia de uma aparência negada na essência.

    Achei interessante também pensar em coisas como um broxante “pornô evangélico”. Seria… espantoso.

  15. Fagner Enrique, qual foi o debate que recentemente aconteceu aqui? Obrigado!
    A última parte do último comentário do Adriano me fez lembrar que o mundo evangélico também está em permanente transformação; mais lenta em alguns ramos, mais acelerada em outros. De modo que não me parece impossível um pornô gospel numa época de puritanismo crescente. Lembro, também, que em 2007, na época da visita do papa Bento 16 ao Brasil, a TV Record lançou uma propaganda, por sinal até que boa, de defesa do direito ao aborto.

  16. Em resposta ao comentário de “esquerdomocho” que pratica BDSM

    Não ficou claro para mim onde foi encontrado no texto inicial ou nos comentários as questões apontadas sobre o “movimento feminista” ser puritano, assim como nada encontrei do que está na fala “parece fazer tabula rasa entre estupro, agressões misóginas ou sexuais, falsas acusações de assédio e erotismo.” Porque, se assim fosse, eu, como feminista que sou, jamais me sentaria e tampouco comentaria algo com as pessoas defensoras de tais baixezas covardes e criminosas. Sobretudo não compreendi a ironia que cita Marquês de Sade, um autor corajoso que confrontrou diretamente a moral vigente de sua época (e, pelo jeito, da nossa também).

    O movimento #MeToo foi essencial, fundamental e determinante para denunciar a exploração e assédios sexuais impostos às atrizes e outras profissionais, e o manifesto feminista francês não deixou de reconhecer o valor dessa luta, pelo contrário. Ora, esse foi o ponto de partida das feministas francesas, que foram além e questionaram certos desdobramentos práticos do movimento #MeToo, para os quais não houve separação entre agressores ou criminosos sexuais e um paquerador desajeitado que rouba um beijo, coloca a mão no joelho ou diz algo indevido. Colocar essas coisas distintas no mesmo roldão das críticas dos casos graves resulta na infantilização da mulher, ou seja, decai no puritanismo. Nisso estou de pleno acordo, pois, sendo feminista e praticante da liberação sexual, faço valer meus direitos de viver plenamente os meus desejos sexuais nas minhas relações – desde que pertençam à minha bolha aceita por mim mesma e correndo o risco de encontrar no caminho alguns desajeitados que normalmente são descartados.

    Por isso uma vez mais não fica claro onde há apologia ao estupro no texto ou nos comentários, e menos ainda que haja falas contrárias à luta do #MeToo e seus desdobramentos positivos, como ter posto em pauta o debate. Menos ainda que haja críticas rasas feitas às feministas nos moldes direitistas do tipo “mal comidas”.

    E concordarei sempre com a necessidade de debates, ainda mais sobre gênero, ainda mais na conjuntura dessa nossa época que está tão dividida, pois sei que mesmo havendo desacordo, sempre poderemos saber quem são os homens que estão conosco, quem são os que não estão e quem são os que estão contra nós.

  17. Gostaria de saber a opinião dos homens a respeito do caso abaixo. Às alunas que sofreram anuso pir padte do professor, a reação ao ocorrido foi uma reação puritana?
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    Professor da USP é demitido após denúncias de assédio sexual contra alunas

    Professor da Esalq foi demitido por “reiteradas práticas de assédio sexual e moral” contra alunas
    Imagem: ALOISIO MAURICIO/ESTADÃO CONTEÚDO

    José Maria Tomazela

    30/12/2021 17h23

    O reitor da Universidade de São Paulo (USP), Vahan Agopyan, demitiu o professor Claudio Lima de Aguiar, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), por “reiteradas práticas de assédio sexual e moral” contra alunas. Ele acatou recomendação da comissão processante que, desde 2019, vinha apurando as denúncias. Oito pós-graduandas da Esalq, todas orientandas ou ex-orientandas dele, acusam Aguiar de condutas abusivas em depoimentos ricos em detalhes, segundo a Associação de Docentes da USP (Adusp).

    A exoneração foi publicada no Diário Oficial do Estado no último dia 22. O professor foi procurado pelo Estadão e não havia dado retorno até a publicação da reportagem. A USP confirmou a demissão do docente de seus quadros, acatando parecer da Congregação da Esalq.

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    Engenheiro químico, Aguiar era professor do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição (LAN) da Esalq, campus de Piracicaba, interior de São Paulo, e exercia a função de coordenador do programa de pós-graduação em Microbiologia Agrícola. Conforme a Adusp, os abusos remontam a 2016 e estão relatados de forma minuciosa em depoimentos que descrevem “condutas sistemáticas de assédio sexual, constrangimentos, xingamentos machistas, homofóbicos, humilhações públicas e abusos de poder”.

    Segundo divulgação da Adusp, os relatos enviados às comissões dão conta de que o professor procurava se mostrar amigável e solícito com as alunas, mas, com o passar do tempo, adotava condutas abusivas que envolviam “proximidade física e contatos indesejados, inclusive beijos no rosto e, frequentemente, toques em parte do corpo”. Durante as reuniões, o docente pedia para as alunas se sentarem mais perto e desviava o assunto, fazendo comentários invasivos sobre a vida pessoal, “perguntando e insinuando aspectos da intimidade das vítimas”. Em alguns casos, ele tocava os corpos das alunas, muitas vezes nas coxas e nas barrigas e, quando estas reagiam, dizia coisas como “calma, eu sou casado”.

    Em depoimento ao jornal O Globo, uma das vítimas contou que Aguiar era seu orientador de mestrado e, em março de 2016, a convidou para uma reunião a sós em sua sala. Ela sabia que o professor tinha costume de se fechar no recinto com suas orientandas e assediá-las, mas não teve como evitar o encontro. Assim que entrou na sala, Aguiar pediu que trancasse a porta e se sentasse à mesa. A orientanda pretendia mostrar como andava seu projeto de dissertação, mas o professor insistiu em fazer massagem nela.

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    “Quando ele colocou a mão por dentro da minha blusa e abriu meu sutiã no meio da sala, eu travei os braços e mandei ele parar. Fechei meu notebook e fui embora. Quando cheguei em casa e fui tomar banho, me esfregava de tanto nojo que sentia de mim mesma”, disse, segundo O Globo. O episódio a traumatizou, fez com que não confiasse mais em homens e trouxe dificuldades para seu relacionamento com o marido, segundo o jornal.

    Outra aluna de mestrado contou ter sido apalpada na coxa pelo orientador, que também fez comentários acerca de seu corpo. Foi ela quem abriu a queixa contra Aguiar em 2019, após ter manifestado a intenção de abandonar o mestrado. “Ele me chamava de gostosa várias vezes na frente de outras pessoas. Uma vez ele me perguntou no meio de uma reunião se já fui paquerada no ponto de ônibus, e eu respondi que não. Aí ele disse: ‘se eu te paquerasse, você me daria bola?’ Aquilo me deixava muito desconfortável. Parecia que eu era uma fantasia para ele”, disse, de acordo com a publicação feita por O Globo.

    Outra estudante foi assediada pelo coordenador antes mesmo de ser oficialmente aceita no programa de pós-graduação. Ao saber da inscrição da jovem para o mestrado na Esalq, ele a adicionou no Facebook e pediu uma entrevista informal com ela por um aplicativo. “Essa entrevista não estava no edital. O resultado nem tinha saído ainda. Achei estranho porque ele ficou perguntando se eu tinha namorado, se eu era casada, indagações que não faziam sentido algum.” Após aceitar ser orientada de forma informal, tornaram-se comuns os convites para cafés e passeios de carro, com apalpadas pelo corpo.

    Em outro depoimento, uma denunciante contou ter sido chantageada sexualmente após ter recebido ajuda do orientador para conseguir uma bolsa de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ela contou que, após ter conseguido o auxílio federal, Aguiar se aproximou e cochichou em seu ouvido: “não foi de graça”. Segundo a investigação, o professor costumava se dirigir a estudantes usando termos como “gayzinho”, “preta”, “gorda” e “burra”.

    Ao tomar conhecimento do caso envolvendo uma das vítimas, o então presidente da pós-graduação, Fernando Luis Cônsoli, a convenceu a abrir uma denúncia contra o docente. Outras alunas se juntaram à denúncia. Os depoimentos iniciais resultaram na abertura de um processo administrativo disciplinar em que as denunciantes e o acusado foram ouvidos formalmente. O caso passou por uma comissão sindicante e, depois, pela comissão processante.

    Em novembro, após examinar o parecer da comissão processante, a Congregação da Esalq recomendou a demissão do professor por 62 votos a favor e três abstenções. Em março de 2020, Aguiar já havia sido afastado da função de coordenador de pós-graduação.

    Para o professor Mauro Moruzzi Marques, diretor regional da Adusp em Piracicaba, a decisão da congregação é histórica. “Trata-se de uma mudança de mentalidade, significando um sinal de superação de posturas machistas e permissivas em razão da hierarquia universitária. Por outro lado, a representação estudantil alcança uma vitória importante neste embate”, avaliou. Ele acrescentou que a decisão foi uma conquista obtida pela coragem das mulheres que levaram a denúncia adiante.

  18. De forma alguma esse caso representa uma resposta puritana. Puritano seria que essas mulheres se silenciassem, aguentando as situações ou abandonando suas carreiras acadêmicas por não poder falar abertamente a respeito da importunação sexual que sofriam. E aqui a palavra sofrer é importante, pois existem várias formas de “importunar”, de demonstrar interesde ou de tentar criá-lo na outra pessoa. O aspecto mais asqueroso desse tipp de caso é o uso de posições de poder para poder sustentar situações de “importunação” que seriam inviáveis do contrário. A falta de um critério erótico, de perceber e registrar a outra pessoa, mostra a miséria do indivíduo e o dano potencial desde tipo de “importunação”.

  19. Feminista profissional, parece-me, sinceramente, que a sua pergunta não se aplica. Não faz sentido questionar um eventual puritanismo das vítimas do professor da Esalq-USP, ir por esse caminho seria vitimizar novamente quem já sofreu uma violência. Além de ser desleal, seria irresponsável uma vez que não conhecemos o processo, e mesmo se o conhecêssemos, não é isso que está em questão. O que está em questão é um conjunto de assédios cometidos pelo professor.

    Por outro lado, o caso do professor da Esalq-USP e a matéria trazem elementos interessantes para a discussão que está rolando por aqui: “Os depoimentos iniciais resultaram na abertura de um processo administrativo disciplinar em que as denunciantes e o acusado foram ouvidos formalmente. O caso passou por uma comissão sindicante e, depois, pela comissão processante.” Ou seja, o professor foi julgado e condenado com direito ao contraditório e à ampla defesa em duas instâncias. Ele passou por uma sindicância e, posteriormente, um processo administrativo. Presume-se que ambos garantiram o direito ao contraditório e à ampla defesa, se não garantiram, há possibilidade de serem revertidos na justiça comum.

    Processos com direito ao contraditório e à ampla defesa é o que o punitivismo – muitas vezes de esquerda – exclui do campo das possibilidades. Isso é chocante por uma razão simples: a burocracia – no exemplo em questão uma universidade pública – é mais civilizada e democrática do que a esquerda punitivista. Mesmo quando a burocracia quer perseguir alguém – atenção: estou falando de uma possibilidade hipotética e não do caso do professor da Esalq-USP – é necessário pelo menos fingir que foram garantidos o direito ao contraditório e à ampla defesa. Já a esquerda punitivista nem sabe o que são tais princípios, ou sabe e não concorda com eles, colocando-se, dessa forma, como uma nova inquisição.

    Há um outro ponto importante que o caso do professor da Esalq-USP traz para o debate. O manifesto das francesas fala em “não confundir paquera desajeitada com agressão sexual.” No caso do professor, pelos elementos que traz a matéria, não dá para se pensar em paquera desajeitada. Está colocado o tripé que caracteriza o assédio sexual: relação de poder, insistência e inconveniência.

    Por fim, como denunciaram as francesas, confundir paquera desajeitada com assédio sexual só interessa ao puritanismo. O caso do professor da Esalq-USP traz elementos para se diferenciar paquera desajeitada de assédio sexual. Assédio sexual envolve relação de poder, insistência e inconveniência. Paquera desajeitada é outra coisa.

  20. Confundir paquera desajeitada com assédio, antes de interessar ao puritanismo feminista pela negativa, interessa aos homens machistas pela positiva. De fato, essa relativisação pela positiva está impregnada na sociedade, e achar que o puritanismo é seu maior promotor é fechar os olhos para o óbvio. Se por um lado é importante para as mulheres poder discutir a sexualidade livremente e não aceitá-la como uma história limitada a violências e vítimas, para os homens é necessário o contrário, entender que o que muitas vezes para si é liberdade sexual individual pode ser uma experiencia violenta e desagradável para a outra pessoa. Uma educação que não tem manuais nem fórmulas certas, por isso não se trata nunca de coisas simples, branco e negro. Requer um mínimo de sensibilidade, algo que o machismo combate.

  21. «[…] encetávamos uma época que se orgulhava de celebrar a impertinência, a diversidade, a marginalidade, mas na verdade nada a aterrava mais, a essa época, do que uma verdadeira independência […] e — o mais importante de tudo — a genuflexão perante a virtude. […] a nossa época, pela primeira vez na história da humanidade, fingia consagrar a insolência, a audácia e “a diferença”, enquanto odiava — nada mais normal — qualquer verdadeira insolência» («[…] nous entrions dans une époque qui se piquait de glorifier l’impertinence, la diversité, la marginalité, quoiqu’en en réalité rien ne la terrifiât plus, cette époque, qu’une réelle indépendance […] et — le plus important — génufléxion devant la vertu. […] notre temps, pour la première fois dans l’histoire de l’humanité, feignait de consacrer l’insolence, l’audace et “la différence”, alors qu’il haïssait — rien de plus normal — toute insolence véritable»). Patrice JEAN, Tour d’ivoire, Paris: Éditions rue fromentin, 2019, págs. 209-210.

  22. Chris, tomo seu comentário para registrar duas observações. A primeira é que se no imperativo negativo “não confundir paquera desajeitada com agressão sexual” do manifesto francês o termo regente é “paquera desajeitada” e não “agressão sexual”, não é por outra razão: compreende os dois problemas – o machismo e o puritanismo -, mas estão tratando especificamente de um, justamente do que podemos entender como secundário na ordem das relevâncias históricas, mas que vem ganhando projeção entre as trincheiras de luta na medida de seus avanços.

    A segunda observação é justamente sobre seu comentário acerca do imperativo das francesas, a saber, que “confundir paquera desajeitada com assédio, antes de interessar ao puritanismo feminista pela negativa, interessa aos homens machistas pela positiva”. É uma afirmação com a qual eu concordo. E certamente esta é uma certeza que embasa também o puritanismo – o que demonstra que temos, os que concordam com o teor geral do manifesto das francesas e o puritanismo, pontos em comum. Nesse caso, esta constatação. A questão é o que se faz a partir dela. O manifesto das francesas parte desse ponto para denunciar na reação a isso o paradigma “ethopatológico” produzido a partir do exagero, do extremo e da desmedida generalizante que transforma os riscos característicos e inescapáveis da liberdade em critérios de degredo. A partir daí não existe mais paquera desajeitada ou importunação, apenas assédio; o conservadorismo feminista se afunda nisso acriticamente em nome do necessário combate ao assédio machista e transforma o fértil campo de sentidos da sexualidade humana num cinto de castidade e tumba de puritanismo.

    “Entender que o que muitas vezes para si é liberdade sexual individual pode ser uma experiencia violenta e desagradável para a outra pessoa”, tal como você afirma, é entender grande parte da “confusão” entre paquera desajeitada x assédio sexual. A impossibilidade prévia dessa desambiguação nas relações – esforço do manifesto das francesas, diga-se – serve igualmente ao oportunismo machista e ao oportunismo puritano porquê ambos agem nessa zona cinzenta. É o que você demonstra compreender ao dizer que “por isso não se trata nunca de coisas simples, branco e negro. Requer um mínimo de sensibilidade, algo que o machismo combate”. Mas caberia aqui a contraparte disso, que é dizer que, uma vez salva a sensibilidade do machismo, ela tem ainda outro inimigo aliado do primeiro, o puritanismo punitivista.

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