Shireen Akram-Boshar entrevista Sharif Abdel Kouddous

Enquanto gestores dos mais variados matizes se reuniam na COP27 no Egito, o revolucionário Alaa Abd el-Fattah, intensificava sua greve de fome, que teve fim no dia 17 de novembro quando ele precisou ser reanimado. O Passa Palavra traduziu esta entrevista, publicada em 18 de outubro, feita com um apoiador e publicada em outubro pelo jornal Spectre.

Desde 2013 o Egito contra-revolucionário ficou conhecido por suas prisões em massa, que tornaram os ativistas da revolução de 2011 a “geração da cadeia”. Grupos de direitos humanos estimam que o Egito tem 60.000 prisioneiros políticos, muitos deles encarcerados sem julgamento. Esse número pode ser, na realidade, muito maior. Entre eles está Alaa Abd el-Fattah, um dos organizadores dos protestos e escritor esquerdista preso repetidas vezes por seu ativismo e seus escritos políticos. Alaa está atualmente em uma greve de fome na prisão que já dura seis meses, sua condição é crítica. De muitas maneiras seu caso reflete a realidade do Egito desde a contra-revolução de Sisi em 2013. A jornalista do Spectre Shireen Akram-Boshar entrevistou Sharif Abdel Kouddous, um jornalista que trabalhou no caso de Alaa, sobre a campanha pela liberdade de Alaa, a repressão da contra-revolução, e a esperança para este caso, assim como sobre o fim do regime de Sisi.

Sharif Abdel Kouddous é um jornalista independente no Cairo. Ele trabalha como editor e repórter no Mada Masr, e cobriu de perto o caso de Alaa e a campanha pela sua libertação.

Shireen Akram-Boshar: Alaa Abd el-Fattah é possivelmente o mais conhecido prisioneiro político do Egito, ao mesmo tempo, por ser escritor e dissidente político. Ele esteve preso a maior parte dos últimos dez anos, desde a revolução egípcia de 2011, e sua atual greve de fome dura seis meses. Por que ele foi preso tantas vezes pelo regime? Como o sofrimento dele coincide com a trajetória da contra-revolução egípcia?

Sharif Abdel Kouddous: Hoje, 29 de setembro de 2022, é o terceiro aniversário da última prisão de Alaa, quando ele foi pego da delegacia de polícia onde ele era forçado a passar 12 horas por dia depois da sentença anterior a qual ele foi condenado. Então, se passaram três anos desde o dia de sua última prisão.

Alaa é um escritor, um tecnólogo e um ativista político. Ele começou inicialmente no começo dos anos 2000 como um programador e blogueiro, e trabalhava com tecnologia de localização, com arabização da terminologia e traduzindo a interface do usuário para o árabe. Ele e sua esposa fizeram um dos primeiros agregadores de blogs árabes, com a criação de uma plataforma que foi o eixo inicial do ativismo online no Egito.

Alaa foi preso ou processado, a vida toda, por todos os regimes políticos que já existiram no Egito. Sua primeira detenção e prisão ocorreu em 2006 durante o regime de Mubarak. Ele participou dos protestos que reivindicavam a independência do Judiciário. Porém, foi durante a revolução que irrompeu em janeiro de 2011, quando Alaa voltou da África do Sul — onde vivia com sua esposa — para o Egito com o intuito de participar do levante, que ele apareceu como um ativista incrivelmente engajado e eficiente. Ele esteve entre os mais eloquentes revolucionários e pensadores políticos, e ele estava sempre olhando para as margens e para os marginalizados em busca de inspiração. Por conta disso, ele pagou um preço muito alto.

O governo de Mohamad Morsi emitiu um mandado de prisão contra ele, porém não o prendeu. Foi mesmo quando Abdel Fattah el-Sisi deu um golpe substituindo Morsi, marcando o início do regime Sisi, que nós vimos esse massivo movimento contra-revolucionário aparecer e bloquear toda forma de dissenso, quebrar toda oposição política, e fechar todas as vias para a organização política. Parte disso incluiu mirar nos ícones de 2011, e, provavelmente, não existe um ícone do período maior que Alaa. Depois do golpe em 2013, ele foi preso pelo Conselho Supremo das Forças Armadas por conta da agitação em torno do assassinato de 27 manifestantes, de maioria cristã copta, em outubro de 2011, conhecido como massacre de Maspero, e ele passou cinquenta e poucos dias na prisão.

Alaa entrou e saiu da prisão, porém em 2013 ele foi preso por um protesto contra uma lei draconiana sobre manifestações, que ele, de fato, não foi um dos organizadores, mas ainda assim foi condenado e sentenciado a 5 anos de prisão. Ele cumpriu estes cinco anos, foi libertado no início de 2019, mas ainda precisava cumprir mais cinco anos de liberdade condicional. As estritas medidas da condicional obrigavam ele a se apresentar a uma delegacia de polícia por 12 horas diárias, das 6 da noite às 6 da manhã. Ele estava vivendo uma espécie de meia liberdade. Ele falava sobre como era difícil se entregar. Não era como quando ele era levado de sua casa, ou pego na rua como tinha acontecido antes, ele devia espontaneamente entregar-se às autoridades diariamente.

Em setembro de 2019, pequenos, mas relevantes, protestos contra o regime de Sisi foram provocados em parte por um ex-empregado militar. Esse agentes publicou vídeos dando nomes de generais e os acusando de corrupção. Os protestos se depararam com o maior número de prisões em massa desde que Sisi chegou ao poder. Mais de 4.000 pessoas foram presas: pessoas comuns na rua, ativistas proeminentes, assim como pessoas que nunca antes foram alvos de detenções, como professores universitários, advogados, jornalistas — todos foram arrastados em prisões em massa. Alaa foi um deles.

As forças de segurança do Estado, também chamadas de Segurança Nacional, vieram e prenderam ele na delegacia de polícia perto das seis da manhã, no exato momento em que ele foi liberado. Ele foi levado para a prisão de Tora, onde, pela primeira vez, foi submetido ao que se chama, em árabe, de “al Tashreefa,” pobremente traduzido como “festa de boas-vindas” [corredor polonês], na qual você apanha e é torturado na entrada da prisão por duas fileiras de guardas e você é obrigado a andar no meio desse corredor de violência. Por causa de sua altura, sua classe, e seu destaque político, ele, no passado, foi poupado desse tipo de coisa que é regularmente aplicado em outros prisioneiros. Porém, desta vez, um oficial da Segurança Nacional, de acordo com ele, falou: “Nós odiamos a revolução. Você nunca irá sair dessa vez.” E ele foi, então, submetido às piores condições prisionais que encarou até o momento. Ele foi colocado na ala de segurança máxima da prisão de Tora, ali, foi privado da luz do Sol e do ar fresco, assim como qualquer tempo fora da cela. Ele foi proibido de ler qualquer tipo de material, escutar o rádio, usar papel e caneta, até mesmo de ter um colchão para dormir. E ele ficou nessa prisão, nesse estado, até abril deste ano.

Alaa foi mantido, assim como milhares de prisioneiros políticos no Egito, em prisão preventiva. A prisão preventiva tem sido usada por este regime, em vez de como uma ferramenta legal para investigar crimes, como uma ferramenta para a repressão em massas. A vasta, vasta maioria de presos políticos no Egito está sendo mantida em prisões preventivas sem nunca ter sido condenada por um crime. De acordo com Código Penal egípcio, você pode ser mantido em prisão preventiva por dois anos. E o que usualmente acontece é, se eles querem manter você dentro, quando os dois anos estão se aproximando do fim, eles fazem algo chamado “tadweer”, que significa rotação ou reciclagem, e eles acrescentam novas acusações contra você, então sua contagem da prisão preventiva é reiniciada e você é mantido na prisão. Há muitos casos de pessoas que são mantidas por anos nesta situação. No caso de Alaa, eles finalmente o encaminharam para o julgamento, ele e Mohamed Baker — seu advogado que foi preso junto com ele — e o blogueiro Mohamed Oxygen. Eles foram julgados em uma corte emergencial de segurança do Estado, que é uma corte de exceção, na qual não se pode apelar das sentenças.

Foi um procedimento absurdo, eu acompanhei isso. Os advogados de defesa não eram autorizados a ver o arquivo do caso. Eles não sabiam realmente quais acusações enfrentariam e quais eram as evidências para elas. Dentro das três sessões da corte ele foi condenado a cinco anos de prisão, essencialmente por um retweet sobre a tortura de um preso pelo mesmo tipo de oficial da Segurança Nacional que supervisiona ele na prisão agora. Esse é o absurdo disso. Os mais de dois anos que ele passou preso até aquele momento, não contaram como pena para a sentença, então a primeira vez que ele poderá sair de lá será em 2027. Eles claramente querem manter ele na prisão.

Shireen Akram-Boshar: Quando e por que Alaa decidiu começar uma greve de fome?

Sharif Abdel Kouddous: Alaa decidiu no dia 2 de abril deste ano começar uma greve de fome. Foi um ato não de desespero, mas de resiliência. Naquele momento ele estava na ala de segurança máxima da prisão de Tora, e ele meio que tinha chegado ao seu limite, pela primeira vez expressava pensamentos suicidas. Sua greve de fome foi uma maneira dele usar seu o próprio corpo como forma de resistência, tomando a agência sobre si próprio da única maneira que um prisioneiro pode fazê-lo. E então ele começou uma greve de fome ainda em aberto, clamando por acesso consular e por alguns outros direitos, e por fim, por sua libertação. Ele iniciou essa greve de fome primeiramente com uma técnica que os prisioneiros egípcios aprenderam com os prisioneiros palestinos, que é usar apenas sal e água — o sal mantém sua pressão sanguínea e ajuda a sustentar a greve de fome.

Depois de alguns ganhos em seu caso, melhorias nas suas condições, e alguma pressão do Reino Unido, Alaa decidiu trocar a greve de fome pela ingestão de 100 calorias por dia, o que é mais como uma greve de fome do estilo Gandhi. Alaa estuda essas coisas muito de perto. Então ele toma algo como uma colher cheia de mel em seu chá, e faz isso há muitos meses agora. Hoje é o 181º dia. Porém, um homem adulto de tamanho médio precisa de em torno de 2,000-2,500 calorias por dia, então 100 calorias por dia é realmente nada, apesar de ajudar a sustentar a greve de fome. A última vez que sua irmã, Mona, o viu em uma visita, ela ficou surpresa e chocada com sua aparência física. Seus olhos estão afundados para dentro da cabeça, ela disse que os braços dele estão extremamente finos, ele está muito frágil, e mal consegue parar em pé. Mas ela disse que sua mente continua rápida e ativa. Então, isso está cobrando um preço alto para ele. Porém, ele jurou que não irá terminar a greve de fome. Eu acho que ele está determinado a não cumprir cinco anos de pena. Ou ele será libertado, ou ele irá morrer.

Alaa está preso e pagando um preço muito alto porque o regime quer fazê-lo de exemplo; ele é um símbolo que eles estão tentando quebrar. Ele é um símbolo de 2011, e isto é um elemento para o modo vingativo que o regime o está tratando. Ironicamente, por meio da repressão do regime a Alaa e sua família, eles também reforçaram o status dele e de sua família. O regime transformou-os em símbolos de resistência também.

Shireen Akram-Boshar: Como está sendo a campanha pela libertação de Alaa? Eu entendi que a irmã dele, Sanaa, foi detida e presa também durante a campanha, e que a família deles lutou muito para garantir sua libertação.

Sharif Abdel Kouddous: A família de Alaa tem sido defendida por ele durante todo o processo. A irmã dele, Sanaa, foi presa três vezes ao longo de três anos e três meses. Ela foi presa por tentar entregar uma carta para Alaa. O regime cortou toda a comunicação, então ela e sua mãe fizeram um sit-in em frente à prisão para exigir a entrega de uma carta. Por causa disso elas foram agredidas pelos capangas do regime, e Sanaa foi detida e presa por um ano e meio.

Tudo isso está acontecendo, a família trabalhou para garantir a cidadania britânica para Alaa. Alaa e seus irmãos têm o direito à cidadania britânica porque a mãe deles nasceu em Londres e tem cidadania. Por isso, quando eles perceberam que o regime não ia deixar Alaa sair, e provavelmente nunca iria libertá-lo, a família solicitou a cidadania como forma de outro governo colocar pressão no regime em defesa desse caso. Alaa conseguiu a cidadania britânica em algum momento do final de 2021. No entanto, até o momento, Alaa não teve garantido o acesso consular pela embaixada britânica, que é seu direito legal. As autoridades egípcias se recusaram a conceder isso.

Porém, uma coisa que mudou com a maior cobertura internacional da campanha por Alaa, e alguma pressão do governo britânico, foi que ele foi transferido da ala de segurança máxima da prisão de Tora para um estabelecimento prisional em Wadi Natrun, que fica cerca de cem quilômetros ao norte do Cairo. Esse estabelecimento prisional não é oficialmente chamado de prisão, mas de “centro de reabilitação”. Em setembro de 2021, Sisi disse que o Egito iria construir oito ou nove “prisões de estilo americano”, e essa prisão foi lançada com um vídeo chique no YouTube, mostrando prisioneiros recebendo formação e aulas, trabalhando em uma fazenda, mostrando aparentemente boas condições.

Portanto, as condições de Alaa mudaram agora; ele está com dois outros presos, e é autorizado a ler e utilizar papel e caneta. Ele pode sair da cela vinte minutos por dia, não pode ir para o pátio tomar Sol, mas não não está totalmente enclausurado. A visitação continua restrita a uma por mês, por vinte minutos de trás de uma barreira de vidro. É assim que nós podemos saber de Alaa, de acordo com os relatos de sua família, o que ele fala nessas visitas, ou por meio das cartas que ele escreve, que podem ser enviadas uma vez por semana. Em algumas das cartas mais recentes, ele falou que não pode continuar dessa maneira, que ele não tem certeza se tem forças para afastar o sentimento de desespero. E ele começa a crer firmemente que eles nunca o deixarão sair com vida da prisão.

Shireen Akram-Boshar: Você pode falar sobre outros elementos da campanha de libertação de Alaa? Como esse caso repercute globalmente? O que você acha que será necessário para libertar Alaa e as dezenas de milhares de presos políticos nas prisões do regime?

Sharif Abdel Kouddous: Houve diferentes ondas da campanha por Alaa ao longo de suas várias prisões.

No último estágio da campanha por ele, seus amigos e familiares, junto com outros ativistas, compilaram uma seleção dos escritos dele, discursos, suas publicações nas redes sociais, e publicaram o livro You Have Not Yet Been Defeated [Você ainda não foi derrotado]. Isso levou a voz de Alaa para um público que não fala árabe. Sanaa disse que, se Alaa foi encarcerado por conta de sua voz, então publicar este livro foi uma forma romper com a prisão dele, fazendo sua voz ser ouvida. A maior parte dos escritos já foi impressa em árabe, mas também está compilada em um livro chamado The Ghost of Spring [O Fantasma da Primavera]. Isto marca o começo de um novo impulso para a libertação de Alaa, e também coincide com sua sentença, onde ficou claro que o regime não o deixará sair.

Sanaa e eu fizemos uma turnê do livro, e falamos em diferentes universidades enquanto construímos a campanha de solidariedade no exterior, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Há muito da campanha sendo feito pela família em relação ao Parlamento Britânico, por conta da cidadania britânica de Alaa. Dezenas de deputados assinaram cartas pedindo que Alaa seja liberado ou que tenha a visita consular garantida. Tem havido uma campanha no Egito, na medida do possível. Existe algo chamado Conselho Nacional de Direitos Humanos, que tem seus membros indicados pelo Estado, que é bastante ineficaz como órgão de direitos humanos, mas o chefe do Conselho levou em conta o caso de Alaa, e eu acho que isso ajudou a conseguir a transferência da prisão.

Penso ser importante perceber que o Egito, pelo menos nos últimos quarenta anos, depende de seus aliados ocidentais para existir, e isso não é diferente no regime de Sisi. O Egito é o segundo maior destinatário de verbas militares dos EUA no mundo, tem no Reino Unido seu maior parceiro comercial, o país depende de apoio econômico, militar e diplomático do Ocidente para sobreviver. Por isso, pressionar os EUA e o Reino Unido para agir e solicitar a libertação de Alaa é uma campanha tática. É um esforço multi-facetado.

E há dezenas de prisioneiros políticos no Egito, não é apenas sobre Alaa. Mas se Alaa for libertado, isso significa uma vitória e uma mudança significativa. Se o regime sucumbir e tiver de libertá-lo, quando eles absolutamente não querem fazê-lo, isto pode potencialmente marcar uma espécie de virada sobre como o regime lida com presos políticos, e o que ele acha que pode fazer.

Na verdade, esse regime é muito suscetível à pressão. Ele parece muito forte e repressivo, mas embora seja repressivo, não é forte. É governado por um minúsculo círculo interno, pelos serviços de inteligência e pela polícia. A insatisfação e inquietação popular surgem em diferentes momentos, e eles não podem conter isso por completo, apesar da repressão massiva. Um sistema instável pode durar bastante tempo, mas é instável e necessariamente surgirão oportunidades de mudar isso. Agora mesmo a situação econômica é absolutamente terrível. Existe uma combinação da tomada de empréstimos em massa ao longo dos últimos anos, e uma crise de moeda estrangeira precipitada e agravada pela pandemia e pela guerra na Ucrânia, além de uma série de outros fatores. Mas o governo se colocou em uma situação tão precária que o Egito pode ser obrigado a pagar esses empréstimos. A libra egípcia já atingiu um recorde de desvalorização perante o dólar. Por isso, eles estão muito desesperados de diferentes maneiras. O Egito também irá sediar a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, COP27, em novembro em Sharm el-Sheikh.

Os últimos esforços na campanha por Alaa estão focados em encorajar os movimentos de justiça climática a integrar as preocupações com os direitos humanos em seus discursos e demandas ao longo da COP27. Ativistas estão determinados a não deixar a conferência do clima ser uma oportunidade de fazer um greenwash em todas as formas de repressão utilizadas pelo Egito. O Egito está tentando posicionar-se como um país relevante na campanha do Sul Global por reparações climáticas e financiamento para a transição para a energia verde. Eles contrataram duas firmas de relações públicas nos EUA para ajudá-los a mandar essa mensagem. Eles têm trabalhado muito duro nisso, e têm sido eficazes em alguns aspectos. Então, esse também é um espaço que temos uma oportunidade para pressionar, pois o Egito está recebendo esse evento, abriu portas para muitos grupos diferentes virem, e se as pessoas conseguirem amarrar essas demandas umas com as outras, pode ser uma fonte de pressão ao governo também.

Todas essas coisas levaram as autoridades a se comportarem um pouco melhor, pois elas precisam do apoio do Ocidente para conseguir sobreviver econômica e politicamente. Então, nós vimos no último ano elas anunciarem o lançamento do que chamaram de Estratégia Nacional de Direitos Humanos, que foi divulgada com muita pompa e circunstância, abordando a situação dos direitos humanos no Egito, e elas também criaram um comitê presidencial de anistia, para avaliar o caso de prisioneiros.

A respeito da Estratégia Nacional de Direitos Humanos, tanto a Human Rights Watch quanto a Anistia Internacional, e quase todas as organizações locais de direitos humanos no Egito denunciaram isto como nada mais que um documento cosmético, que realmente não aborda nenhuma das violações de direitos humanos no Egito. O Egito acabou no ano passado com a Lei de Emergência, que durou quase toda a existência moderna do país. Porém, muito rapidamente depois disso, Sisi consagrou em lei muitos dos poderes extra-judiciais que a Lei de Emergência lhe outorgava. Nós temos visto muitos presos políticos de alto perfil e outros presos de perfil mais baixo serem libertados nos últimos meses por causa desse comitê presidencial de anistia. A maioria desses ativistas foram detidos na onda de prisões de 2019, e a maioria estava em prisão preventiva. Então, o Departamento de Estado dos EUA e pessoas no Congresso aplaudiram isso, mas ao mesmo tempo eles continuam prendendo dezenas de pessoas por atos menores que eles percebam como dissidência, alguns deles sequer isso.

Shireen Akram-Boshar: [O site de notícias] Mada Masr, onde você trabalha, também foi participante ativo de toda a campanha de Alaa. Como a repressão de Sisi afetou o Mada, e qual a conexão com Alaa?

Sharif Abdel Kouddous: Em relação ao Mada Masr, a repressão não aconteceu somente por conta da campanha por Alaa. O Mada cobre uma variedade de assuntos, e sofreu diferentes formas de repressão. O Mada foi um dos primeiros sites a serem bloqueados no Egito, está bloqueado desde maço de 2017. Desde então, mais de 600 sites de organização de direitos humanos e meios de comunicação foram bloqueados no país. Então, em novembro de 2019, depois de nós publicarmos um artigo sobre o filho de Sisi e seu envolvimento com serviços de inteligência, e algumas tensões com o regime, eles prenderam um de nossos editores na sua própria casa, essencialmente sequestraram ele, e no dia seguinte invadiram o nosso escritório, nos seguraram lá por muitas horas, e então detiveram o nosso chefe de redação, nossa chefe de redação e outro jornalista. Eles foram rapidamente libertados, após uma pressão massiva, tanto nacional quanto internacionalmente.

Desde então, Lina Atallah, chefe de redação, foi presa novamente quando ela tentou entrevistar a mãe de Alaa do lado de fora da cadeia de Tora. Ela passou a noite na prisão, mas conseguiu sair. E recentemente, depois de um artigo falando das tensões entre o principal partido no parlamento, que é um partido fantoche dos serviços de inteligência, eles apresentaram acusações contra três dos jornalistas, e conta Lina Atallah também. Eles não foram detidos, mas foram interrogados e liberados sob fiança.

O Mada é um dos últimos veículos de mídia independentes funcionando no Egito, e funciona em um espaço muito, muito restrito. Provavelmente, o mais fechado desde o Egito de Gamal Abdel Nasser. Os serviços de inteligência, por meio da censura e da aquisição, tomaram o completo controle do restante da mídia. Os serviços de inteligência são, agora, o maior dono de veículos de comunicação do Egito. Eles compraram jornais e emissora de TV através de uma empresa de capital privado, e isso foi algo que o Mada expôs. Nós sempre atuamos em um espaço muito restrito. E nós não sabemos quando estas ondas repressivas irão acontecer.

Shireen Akram-Boshar: Anteriormente você descreveu brevemente a instabilidade do regime. Você pode falar mais especificamente sobre a fraqueza política, econômica, ou militar, ou sobre lutas sociais causando tensões no regime neste momento? Há caminhos abertos por aí, ou razões para ter esperança de que o regime de Sisi caminha para o fim?

Sharif Abdel Kouddous: O regime parece muito vulnerável agora e assustado por conta da situação econômica. A desigualdade econômica foi muito aprofundada através de uma série de medidas de austeridade e políticas econômicas neoliberais, muitas das quais foram contrapartidas do empréstimo do FMI em 2016. Esses 12 bilhões de dólares de empréstimo vieram com um pacote de reforma que envolveram as exigências usuais do FMI de aumento de impostos, cortes de subsídios e privatizações. Subsídios aos combustíveis e à eletricidade foram suspensos, as taxas aumentaram, a moeda perdeu mais da metade do seu valor. E ao mesmo tempo o governo gastou bilhões de libras nestes luxuosos megaprojetos como construir uma nova capital administrativa, construir cidades, construir milhares de quilômetros de pontes e estradas por todo o país. Muitas dessas novas cidades estão majoritariamente desabitadas, por que elas estão no meio do deserto e longe das redes de comércio local e de onde as pessoas cresceram. As pessoas não querem se mudar. Eles demoliram casas de bairros, e destruíram áreas inteiras para começar este novo projeto. Então, as pessoas estão muito irritadas.

Atualmente o Egito é o segundo maior devedor do FMI, atrás apenas da Argentina, e está negociando seriamente mais um empréstimo por conta da crise cambial. Ele tem tentado retirar o último subsídio, que é sobre o pão. A última vez que alguém tentou fazer isso foi Sadat em 1977, e isso causou três dias de revolta e quase derrubou seu governo, forçando-o a voltar com o subsídio. Temos de ver se essa vulnerabilidade se traduz em mais abertura política, porque eles precisam ganhar aliados e afastar as críticas muito silenciosas que vêm dos governos ocidentais.

Mas o Egito solidificou todas essas relações ao se tornar, também, o terceiro maior importador de armas do mundo. À frente do Egito na compra de armas estão apenas a Índia e a Arábia Saudita. Nós nos tornamos o maior comprador de armas da Alemanha, o maior comprador de armas da França e um dos maiores parceiros comerciais da Grã-Bretanha. Compramos algumas dezenas de caças Rafale da França, que ninguém quer. Compramos submarinos e satélites de comunicação e tudo mais. Então, isso realmente solidifica os relacionamentos porque, por falta de um termo melhor, estamos comprando a merda deles. E é lucrativo para governos estrangeiros, então eles olham para o outro lado. Angela Merkel, pouco antes de deixar o cargo, assinou um acordo de 5 bilhões de euros com o Egito para contratos de armas. Então esse é o outro lado da moeda, uma fonte da força do regime.

Shireen Akram-Boshar: E muitos desses governos estão marchando para a direita de qualquer maneira.

Sharif Abdel Kouddous: Sim. Eles falam sobre certas coisas e podem ser úteis, mas acho que todos nós temos de perceber onde está o relacionamento real. O Egito também recebe centenas de milhões de euros para vigiar suas fronteiras e impedir que os egípcios atravessem o Mediterrâneo e cheguem às costas da Europa, que é o grande medo dos políticos europeus. A migração do Egito, do mar e da costa do Egito parou em grande parte. Eles têm sido muito eficazes em pará-la. O que vimos são centenas, senão milhares de jovens atravessando a Líbia, que tem uma fronteira muito mais porosa, e tentando chegar à Europa de lá. A agência de migração da ONU, a Organização Internacional para Migração (OIM), disse recentemente que o segundo maior número de migrantes sem documentos que chegam à costa da Europa, depois dos afegãos, são egípcios. Isso aconteceu nos últimos dois anos. Portanto, estamos vendo esse êxodo massivo de homens, principalmente jovens, que não têm oportunidade econômica, enfrentam uma repressão política muito severa e não têm esperança. Eles estão apenas fugindo do país.

Então, você sabe onde o país está. Não é uma situação muito boa, mas acho que sempre há espaço para esperança. A primeira coisa em que todos trabalham é em tirar as pessoas da prisão. Isso em primeiro lugar. Mas não temos sequer o número exato de presos políticos. O número de 60.000 presos políticos foi estimado ao longo dos anos. O New York Times fez uma investigação muito louvável sobre a prisão preventiva, tentando também chegar a números.

Shireen Akram-Boshar: Você poderia dizer mais sobre o livro de Alaa, You Have Not Yet Been Defeated, e o significado do título do livro? O que Alaa pode nos ensinar sobre a revolução e o processo revolucionário?

Sharif Abdel Kouddous: Acho que o livro é um texto importante para um público que lê inglês, por vários motivos. Em primeiro lugar, Alaa é um pensador muito versátil e aborda muitas ideias e questões políticas diferentes. Seu livro entra no cânone da literatura prisional de uma forma muito real. Ele lida com a vida na prisão, seus efeitos no corpo e na psique, bem como ideias sobre cura e regeneração.

Mas ele é um tecnólogo em primeiro lugar e, de alguma forma, de sua cela na prisão, ele meio que previu o mundo em que vivemos agora ou o que aconteceu durante a pandemia, onde tudo está a um clique de distância e um trabalhador traz algo à sua porta e desaparece e estamos todos presos na frente de nossas telas e o que significa esse tipo de capitalismo. Depois de sair de sua primeira passagem de cinco anos na prisão, ele ficou chocado com a forma como nos comunicamos, como escrevemos uns aos outros em emojis e abreviações em vez de um discurso completo. Embora ele seja um tecnólogo e muito experiente em tecnologia, é claro, tudo isso foi um choque para ele. Acho que é uma mudança com a qual todos estamos acostumados porque aconteceu devagar. Mas, para ele que não teve acesso a um telefone celular por cinco anos, saiu dizendo que isso é problemático, que não estamos nos falando, e que não há mais espaço para um discurso adequado.

A mensagem central do livro, no entanto, diz respeito ao título. Em “você ainda não foi derrotado”, o “você” é o leitor, o leitor de língua inglesa no exterior. Alaa foi uma das poucas pessoas a enfrentar a derrota da Revolução Egípcia de uma forma muito honesta e real. A maioria dos ativistas envolvidos ou está traumatizada e não quer enfrentar, não quer discutir, ou afirma que a revolução não foi derrotada e que estamos apenas em alguma fase difícil e assim por diante. Mas Alaa o confronta com muita coragem e diz: “fomos derrotados, vamos examinar por que fomos derrotados, quais foram nossos erros, o que podemos aprender com essa derrota e como podemos seguir em frente”. E acho que a mensagem para um público ocidental maior, de língua inglesa, é: “você ainda não foi derrotado e, portanto, essas são algumas das lições que você pode aprender conosco, antes que sua derrota chegue”. Na verdade, uma de suas mensagens é que a maneira de ajudar o Egito é consertar sua própria democracia. Como o Egito depende de suas relações com as potências ocidentais, se as pessoas nesses países tornassem seus governos genuinamente democráticos, essas relações seriam, forçosamente, totalmente diferentes.

[*] Shireen Akram-Boshar é uma ativista e escritora socialista que mora em Boston e faz parte do conselho editorial do Spectre.

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